E eu também não recuo.
Mas é-me impossível saber,
o que encerrado estava,
nessa casa que se fechava.
E não é de não querer
que não posso o que quero.
É que esse sonho sonhado
é sonhado num sonho não meu.
O que era, Jacinta?
Que encerrava a casa?
O que era, Jacinta?
Mas agora noto.
E notando percebo:
há título nesse sonho.
Um sonho que é afinal
O sonho duma alma:
de até onde’alma levar;
levar aquela que sonha.
E eu sei. E eu sei.
Sei que por vezes é:
é até à própria alma
que a alma tem de levar.
E se assim é. Já coragem não tenho:
para perguntar.
Não traia o segredo de sua alma
aquela que alma sua viu.
Inspirado em: "Até onde a alma me levar I"
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Esse eu do não eu
Do outro me revolto.
Do outro porque o outro
é o eu do não eu.
Mas se me revolto
dessa revolta do outro:
é por não aceitar
que o eu do não eu
é o não eu do eu.
E é assim q’a revolta
do eu contra o outro:
mais revolta não é
do que a d’eu contra eu.
Deste que não aceita
q’o abdicar do outro,
mais abdicar não seja
do q’o abdicar do eu.
Do outro porque o outro
é o eu do não eu.
Mas se me revolto
dessa revolta do outro:
é por não aceitar
que o eu do não eu
é o não eu do eu.
E é assim q’a revolta
do eu contra o outro:
mais revolta não é
do que a d’eu contra eu.
Deste que não aceita
q’o abdicar do outro,
mais abdicar não seja
do q’o abdicar do eu.
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Tudo-por-tudo
Há sete dias que não escrevo aqui.
Estou na fase tudo-por-tudo para terminar o próximo livro... e ainda não lhe arranjei título!
Prometo regressar :-)
Estou na fase tudo-por-tudo para terminar o próximo livro... e ainda não lhe arranjei título!
Prometo regressar :-)
domingo, 24 de maio de 2009
O Fenómeno.
Aquele fenómeno foi um fenómeno nunca visto. Já tinham ocorrido fenómenos um bocado semelhantes. Mas apenas um bocado. E há que considerar que semelhante já é uma palavra sem sentido absoluto. É por isso que “semelhante” existe. Se assim não fora teríamos apenas o “igual” e o “cem por cento”. Igual para ser usado pelos poetas. Cem por cento para ser usado pelos matemáticos, pelos cientistas.
Mas o fenómeno que é este fenómeno nunca tinha acontecido. A única coisa que já ocorrera fora algo de um bocado parecido. E note-se que parecido é igual a semelhante. E se é a palavra que agora se usa é tão só para obedecer às regras da estética da língua que é esta língua: não ser repetitivo. Não ser repetitivo no que se diz. Não ser repetitivo no que se pensa. Não ser repetitivo nas palavras. Sobretudo isso: não ser repetitivo. Jamais ser repetitivo.
E era isso mesmo que este fenómeno não era: repetitivo. Nunca acontecera. E como nunca acontecera não podia sê-lo: repetitivo.
É certo que já haviam ocorrido movimentações. Movimentações de povos e culturas e civilizações. Isso já. Mas isto não: isto desta forma nunca acontecera. As movimentações levaram a instalações e a destruições. Os romanos fizeram isso: movimentaram-se e instalaram-se e destruíram o que estava. E os bárbaros: movimentaram-se e instalaram-se e destruíram o que estava. E os Zulus: movimentaram-se e instalaram-se e destruíram o que estava. E os Incas e os Maias e os caucasianos em geral: sobretudo os caucasianos em geral. Todos. Todos sem excepção. Todos se movimentaram e instalaram e destruíram o que estava.
Mas isto? Isto não. Isto nunca acontecera. E ninguém sabe explicar uma explicação para o porquê disto. Até porque isto aconteceu duma forma que ninguém esperava. Não foram os Estados que combinaram. Não foram os partidos que combinaram. Não foram Organizações Não Governamentais que combinaram. Nada! Nada mesmo. Absolutamente nada foi combinado.
Foi tudo repentino e sem planeamento. Mas aconteceu como se fosse tudo previsto e planeado. De repente. De repente as pessoas começaram a deslocar-se. E não foram as pessoas, pessoas. Foram as pessoas: países. Foram as pessoas: culturas. Foram as pessoas: civilizações. Todas. Todas começaram a deslocar-se. E sninguém consegue explicar uma explicação. E se ninguém consegue explicar uma explicação: é porque tudo foi espontâneo.
Espontâneo e repentino. Repentinamente. Repentinamente deixou de haver espanhóis em Espanha. Repentinamente deixou de haver portugueses em Portugal. E americanos na América e russos na Rússia e franceses na França e ingleses na Inglaterra, nem mesmo Sua Magestade. Todos os povos: de repente todos os povos deixaram de existir no território que até aí fora o território desses povos.
Desapareceram? Foram destruídos por outros que se movimentaram e instalaram? Não. E isso é o mais estranho. Os espanhóis, por exemplo: os espanhóis espalharam-se por todos os territórios excepto pelo território chamado Espanha. E os portugueses por todos os territórios excepto pelo território chamado Portugal. E os americanos e os chineses e os franceses e os indianos e os ingleses, até Sua Magestade que agora ocupa um apartamento de três assoalhadas no território conhecido como Tibete.
O que terá provocado isto? Ninguém sabe. Foi algo de tão espontâneo como espontâneo é o fetiche sexual dos salmões e das enguias e das andorinhas e das cegonhas. E porque foi assim espontâneo: os sociólogos não conseguem explicar o fenómeno. Talvez haja uma necessidade de mudança na espécie. Talvez. Talvez uma necessidade que ocorra em cada quarenta mil anos. Talvez. E talvez um dia os sociólogos sejam capazes de ter tudo muito bem estudado. Tudo sob uma matriz: uma explicação cabal: racional: científica. Talvez demorem anos. Talvez outros quarenta mil anos para descobrirem essa descoberta. E quando descobrirem: talvez outro fenómeno ocorra. Não este. Outro qualquer. Outro que venha a ser um fenómeno até aí nunca visto. Um fenómeno que venha a ser um bocado semelhante a outros fenómenos até aí entretanto ocorridos. E há que considerar que "semelhante" já é uma palavra sem sentido absoluto. E nesse dia os sociólogos ficarão novamente sem resposta.
Talvez seja isso. Talvez a espécie queira ser o que é: uma espécie. Nada para além duma espécie.
Mas o fenómeno que é este fenómeno nunca tinha acontecido. A única coisa que já ocorrera fora algo de um bocado parecido. E note-se que parecido é igual a semelhante. E se é a palavra que agora se usa é tão só para obedecer às regras da estética da língua que é esta língua: não ser repetitivo. Não ser repetitivo no que se diz. Não ser repetitivo no que se pensa. Não ser repetitivo nas palavras. Sobretudo isso: não ser repetitivo. Jamais ser repetitivo.
E era isso mesmo que este fenómeno não era: repetitivo. Nunca acontecera. E como nunca acontecera não podia sê-lo: repetitivo.
É certo que já haviam ocorrido movimentações. Movimentações de povos e culturas e civilizações. Isso já. Mas isto não: isto desta forma nunca acontecera. As movimentações levaram a instalações e a destruições. Os romanos fizeram isso: movimentaram-se e instalaram-se e destruíram o que estava. E os bárbaros: movimentaram-se e instalaram-se e destruíram o que estava. E os Zulus: movimentaram-se e instalaram-se e destruíram o que estava. E os Incas e os Maias e os caucasianos em geral: sobretudo os caucasianos em geral. Todos. Todos sem excepção. Todos se movimentaram e instalaram e destruíram o que estava.
Mas isto? Isto não. Isto nunca acontecera. E ninguém sabe explicar uma explicação para o porquê disto. Até porque isto aconteceu duma forma que ninguém esperava. Não foram os Estados que combinaram. Não foram os partidos que combinaram. Não foram Organizações Não Governamentais que combinaram. Nada! Nada mesmo. Absolutamente nada foi combinado.
Foi tudo repentino e sem planeamento. Mas aconteceu como se fosse tudo previsto e planeado. De repente. De repente as pessoas começaram a deslocar-se. E não foram as pessoas, pessoas. Foram as pessoas: países. Foram as pessoas: culturas. Foram as pessoas: civilizações. Todas. Todas começaram a deslocar-se. E sninguém consegue explicar uma explicação. E se ninguém consegue explicar uma explicação: é porque tudo foi espontâneo.
Espontâneo e repentino. Repentinamente. Repentinamente deixou de haver espanhóis em Espanha. Repentinamente deixou de haver portugueses em Portugal. E americanos na América e russos na Rússia e franceses na França e ingleses na Inglaterra, nem mesmo Sua Magestade. Todos os povos: de repente todos os povos deixaram de existir no território que até aí fora o território desses povos.
Desapareceram? Foram destruídos por outros que se movimentaram e instalaram? Não. E isso é o mais estranho. Os espanhóis, por exemplo: os espanhóis espalharam-se por todos os territórios excepto pelo território chamado Espanha. E os portugueses por todos os territórios excepto pelo território chamado Portugal. E os americanos e os chineses e os franceses e os indianos e os ingleses, até Sua Magestade que agora ocupa um apartamento de três assoalhadas no território conhecido como Tibete.
O que terá provocado isto? Ninguém sabe. Foi algo de tão espontâneo como espontâneo é o fetiche sexual dos salmões e das enguias e das andorinhas e das cegonhas. E porque foi assim espontâneo: os sociólogos não conseguem explicar o fenómeno. Talvez haja uma necessidade de mudança na espécie. Talvez. Talvez uma necessidade que ocorra em cada quarenta mil anos. Talvez. E talvez um dia os sociólogos sejam capazes de ter tudo muito bem estudado. Tudo sob uma matriz: uma explicação cabal: racional: científica. Talvez demorem anos. Talvez outros quarenta mil anos para descobrirem essa descoberta. E quando descobrirem: talvez outro fenómeno ocorra. Não este. Outro qualquer. Outro que venha a ser um fenómeno até aí nunca visto. Um fenómeno que venha a ser um bocado semelhante a outros fenómenos até aí entretanto ocorridos. E há que considerar que "semelhante" já é uma palavra sem sentido absoluto. E nesse dia os sociólogos ficarão novamente sem resposta.
Talvez seja isso. Talvez a espécie queira ser o que é: uma espécie. Nada para além duma espécie.
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Sunflower and butterfly
Who knows.
One day you'll be in a search-moment.
who knows.
One day I'll be in a search-moment.
And your search-moment will be.
And my search-moment will be.
Both search-moments will .
Will be simultaneous search-moments.
And when search-moments are simultaneous.
They are not just search-moments.
They are magic moments.
Sunflower and butterfly moments
When will I.
When will you.
When will we have such a magic moment?
One day you'll be in a search-moment.
who knows.
One day I'll be in a search-moment.
And your search-moment will be.
And my search-moment will be.
Both search-moments will .
Will be simultaneous search-moments.
And when search-moments are simultaneous.
They are not just search-moments.
They are magic moments.
Sunflower and butterfly moments
When will I.
When will you.
When will we have such a magic moment?
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Na Feira do Livro de Lisboa
Ontem estive na Feira do Livro de Lisboa. “Os Parricidas” foi o livro do dia no pavilhão da editora Civilização e portanto ontem foi dia de autógrafos.
Também aproveitei para regressar com mais uma dezena de livros. E gostei da feira.
O que mais me chamou a atenção não foram os livros e o público e os autores. O que mais me chamou a atenção foi o que pode parecer um pormenor. Não sei porquê: tenho esta tendência: reparar em pormenores. Mas como tenho a mania das grandezas faço-o vendo no que é aparentemente pequeno aquilo que o que é aparentemente pequeno tem de grande.
Uma rapariga. Estava a distribuir um papel. Um papelito. Um papelito escrito a preto sobre o branco. Estendeu-me um. Ainda tentei evitá-la: parecia-me o anúncio de mais um astrólogo ou quiromante ou adivinho. É possível que já ninguém repare nos papéis que os astrólogos e quiromantes e adivinhos nos deixam nos vidros e nas frinchas das portas dos carros. E sendo assim: os astrólogos e quiromantes e adivinhos poderiam estar a mudar de estratégia: poderiam estar a distribuir os seus papéis na feira do Livro de Lisboa. E foi com esta ideia que aceitei receber o papel que a rapariga me estendeu. E ainda eu o não tinha na minha mão e já com os olhos buscava o cesto de papéis mais próximo.
Ainda assim tive tempo de olhar para aquela folha branca com caracteres pretos.
E não: não era o papel dum astrólogo ou quiromante ou adivinho. Era um anúncio é verdade que era um anúncio. Um anúncio artesanal, é certo. Mas um anúncio. Começava com um “EVITE” à laia de título. E quando vi o “EVITE” do título: já eu estava novamente à procura do dito cesto de papéis. Depreendera que se seguiria qualquer coisa como “…a queda do cabelo” ou “…a fadiga sexual”.
Sorte que o cesto de papéis não estava próximo. E enquanto caminhava li instintivamente a linha que se seguia à do “EVITE”: “Evite que a arte de encadernação se extinga.” Parei. Aquela linha convenceu-me a ler a seguinte: “Que uma encadernadora seja fechada por falta de trabalho.” E desta para a seguinte: “Que três famílias acabem no desemprego.”
Agora eu já queria ler tudo o que faltava: “A encadernadora foi fundada em Agosto de 1.970 (assim mesmo: em Agosto de 1.970) por João F. Augusto. Hoje com 82 anos continua se esforçando pra levar em frente a arte de encadernação.” E depois: “Trabalhando com perfeição e honestidade fazemos encadernações simples a luxo e restauros.” Mudança de linha: uma só palavra: “AJUDE”. E prossegue: “Precisamos no mínimo mais 50 encadernações por mês pra manter a loja e funcionários. Colabore trazendo um livro para encadernar.”
Naquele momento eu já não estava na feira do Livro de Lisboa. À minha frente imaginava o Sr. João F. Augusto. Imaginava-os com oitenta e dois anos. E agarrado a livros que contam histórias ou que falam de filosofia ou que falam de ciência. Milhares de livros até aos 82 anos. Fiz contas de cabeça: o Sr. João F. Augusto teria perto de quarenta anos em 1970 quando abriu A Encadernadora. Quarenta anos. O que o terá feito mudar de vida? O que o terá feito largar o que estava a fazer e abrir a encadernadora? Que sonhos teria? Que realização prosseguia? E fê-lo: largou o que estava a fazer e abriu A Encadernadora.
Quantas pessoas terão levado os seus livros à A Encadernadora? Relíquias de família que queriam restaurar. Ou livros aos quais queriam dar nova dignidade. O que significariam esses livros para essas pessoas? Que memórias lhes trariam? E tudo isso ali: na oficina que o Sr. João F. Augusto fundou em Agosto de 1.970. assim mesmo como está: 1.970.
Para mim e agora o Sr. João F. Augusto já não era o Sr. João F. Augusto. Era uma metáfora: uma personagem. Um símbolo da voragem da história. Da autofagia com que nos consumimos: até ao tutano a consumirmos o outro: convencidos de que o nosso próprio tutano esteja a salvo. Não está!
É literatura pura o Sr. João F. Augusto. E a história que dele me veio lembrou-me um outro personagem: esse oleiro de A Caverna. Eu não sabia se o oleiro de Saramago existira ou não na realidade. Mas sim, ele existe. Se outro nome não tinha tem o de João F. Augusto.
E já agora, se tiverem livros para restaurar ou para dignificar: o Sr. João F. Augusto precisa de mais cinquenta encadernações por mês para manter a loja e os funcionários. E o Sr. João F. Augusto está em Lisboa na Rua Infantaria 16, nº 22. E tem telefone: 213855068. E tem até email. alpendrepintor@hotmail.com.
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