sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Mim e si

Mim e si

Olho pela janela e vejo-a.
Ver-me-á? Ver-se-á?
A ponte não é.

Olho pelo espelho e vejo-me.
Ver-me-ei? Serei?
Devolvam-me a ponte!
Liberte-se o mim de mim.

Atendem-me: a ponte é.
Inda não a cruzei.
Mim e si em cada lado.

Grito coragem: "À ponte!"
Atravesso-a e já não sou.
Nem mim nem si,
nem ponte nem chão.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Eu laico, me confesso

Eu laico, me confesso

O não outro do outro sou.
O não eu do eu o outro é.
deus que Deus seja mo tiraram.

Sendo o não outro do outro, sei:
o não eu do eu, como eu é.
Posso fiar-lhe o que de mim não fio?
Não posso, mas Outro é ninguém.

Vêem aquém do alcançável horizonte.
O eu pró outro e o outro pró eu.
Quanto haverá que se não alcança?

Mas se eu do outro me não fio.
Se eu do eu me não fio também.
Eu laico, me confesso:
falta-me O que mostra mais pr’além

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Olá.

Olá.
Essa palavra que me deste: distância terá?
Essa palavra que me deste: cerca estaria?
Distante seja ou cerca até, mas avessada.

Se cerca: é o q’ao longe vejo.
Se distante: é o q’ao perto tenho.
Ao perto é o ver do não ver: escuridão.
Ao longe é o mal ver do ver: janela.

E nessa janela já tamanha foi a luz.
Luz foi de te ver te sentir: te ter.
De me veres me sentires: me teres.

Foste tu sem ti.
Fui eu sem mim.
Fui mim em ti.
Foste ti em mim.

Neutra palavra que é tudo e é nada.
Que é e o contrário do que é.
Sim no não ou não no sim.

Olá!

quarta-feira, 29 de julho de 2009

ATLÂNTIDA

E agastados com tamanha contradição entre tamanha pequenez e tamanha grandeza: agarramo-nos à fatalidade europeia. Estamos na Europa sem amarmos a Europa. Estamos na Europa por fatais razões quantitativas. E estamos na Europa sem que a Europa esteja em nós. Porque esta Europa foi criada para resolver problemas que nunca foram problemas nossos.


Dei comigo a reler “Os Lusíadas”. Há muitos anos que não os lia: desde que a escola me obrigou. Mas agora leio-os porque quero, porque os procurei. E espanto-me. O “eu canto o ilustre peito Lusitano” não me parece a exaltação dum nacionalismo bolorento.

Hoje tive mais um sintoma. Comprei a biografia de Nuno Alvares. E estou ansioso por acabar Camões. E por saber mais do Condestável. Talvez o fundador do Portugal moderno. E assim: talvez o fundador do mundo moderno.

Que quererá isto dizer? Poderei ser português e estar tão interessado em Portugal? Será compatível? Afinal os portugueses andam tão zangados com Portugal. Afinal os portugueses parecem tão incapazes de fazer as pazes com Portugal.

É verdade que Portugal se põe a jeito. Primeiro faz-nos sonhar com uma grandeza; a de ontem. Depois só nos oferece pequenez; a de hoje. E nós destilamos tudo: destilamos em remorsos e destilamos em cada português achar que é melhor do que Portugal.

E agastados com tamanha contradição entre tamanha pequenez e tamanha grandeza: agarramo-nos à fatalidade europeia. Estamos na Europa sem amarmos a Europa. Estamos na Europa por fatais razões quantitativas. E estamos na Europa sem que a Europa esteja em nós. Porque esta Europa foi criada para resolver problemas que nunca foram problemas nossos: problemas com raízes que são históricas e com raízes que são geográficas. Problemas que começam no século VI. Problemas que vão de Espanha à Hungria. Enfim: problemas dos europeus Impérios continentais. Problemas dessa mesma Europa que tão metaforizada está na opção napoleónica: vender a Louisiana para combater no continente… sem falar nos cento e cinquenta anos que se seguiram.

Foi para resolver esta Europa-continente que a Europa-União surgiu.

Mas este é um palco que nunca foi palco nosso. Momentos da História houve em que nos forçaram a ser actores dessa tragédia. E sempre que tal nos aconteceu: afundamo-nos em armadas que se diziam invencíveis.

A verdade é que se fôssemos continentais: nós já não seriamos nós. Se fossemos continentais: teríamos sido um desses extintos reinos ibéricos: reinos que hoje mais não são do que uma entre muitas marcas heráldicas no escudo dos Bourbon.

Talvez seja essa a razão do nosso desconforto. Estamos desconfortáveis porque intuímos esta desadequação. Para um lado: aquilo que sentimos que somos. Para o outro lado: aquilo para onde estamos obrigados a caminhar.

Esforçamo-nos para tentar vestir esta pele que nos espartilha. E assim espartilhados: ficamos entre a realisticamente impossível dimensão dum passado que foi nosso e a realidade duma Europa criada para resolver problemas de outro passado: dum passado que não é nosso. Enfim: uma Europa criada para unir o que não fomos nós a desunir.

E espartilhados que estamos: o discurso fica desolador. Perdemos toda a nossa energia a tentar dimensão épica no comezinho: mais um ponto ou menos um ponto num deficit e Aquiles matou Heitor. A localização dum aeroporto e Ulisses fugiu à terrível Calipso. Um computador dito nacional e o herói chegou a Ítaca. Uma linha de comboio… E enfim: quando ficamos com uma terrível sensação de vazio: temos o recorrente debate: tão estéril quanto serôdio: a bendita regionalização. Ou então valemo-nos de algumas manobras de diversão: legalizamos ou não legalizamos o aborto? Legalizamos ou não legalizamos as drogas leves? Legalizamos ou não legalizamos o casamento homossexual? E assim andamos.

Acrescente-se uma mão cheia de estrangeirados de pendor anglo-saxónico. São estrangeirados como convém aos estrangeirados : uma minoria: uma elite que adora a sua pequena expressão quantitativa compensada por uma desproporcionada vénia institucional. Estes são os que gostam do exemplo irlandês. Os que acham que devíamos ter a Irlanda por modelo. Dizem benchmark em vez de exemplo e goals em vez de objectivos.

Eu tenho uma razão para não me apegar a estrangeirados. Num país em crise é muito fácil sair e depois chegar e depois debitar receitas. Claro que o problema é sempre o mesmo: as receitas dum doente aplicadas a outro: não funcionam. O pombalismo terminou na viradeira e a viradeira terminou em guerra civil. E depois da guerra civil tivemos o Portugal que já sabemos que temos. Devíamos aprender alguma coisa com o exemplo do nosso passado. Pelo menos mais do que com o celebrado modelo irlandês, ou benchmark.

Será que funciona começar hoje o que os outros fizeram ontem? Ou será que nos devemos desviar do caminho que outros já percorreram e lançarmo-nos à criação da nossa própria criatura?

Que criatura será essa?

Lanço um desafio: desafio o maior adepto desse Frankenstein chamado União a fazer duas viagens.

A primeira dessas viagens pode começar em Madrid e acabar na mais recôndita vila do Curdistão turco. E se digo o Curdistão turco é porque temos de ser realistas quanto ao que inevitavelmente irá acontecer na Europa-União. Claro que bastaria ficar pela Polónia, Hungria ou Roménia. Mas indo às ultimas consequências: vá-se até esse lugarejo do Curdistão turco.

E depois faça-se outra viagem. Comece-se em Cabo Verde e depois passe-se por Luanda e termine-se no mais recôndito lugarejo da Rondónia ou de Mato Grosso. Enfim: conheça-se a Atlântida. E eu chamo-lhe assim tão só para fazer uma distinção entre este Atlântico de língua portuguesa e o Atlântico ele mesmo.

E depois regresse-se. E esqueça-se os fantasmas do passado porque os fantasmas do passado deixam de ser fantasmas em democracia. E agora sim. Agora que já se regressou das duas viagens e agora que os fantasmas do passado são tão só do passado: reflicta-se.

Onde devíamos querer estar? Qual é a União por que devíamos estar trabalhar? O que é que faz mais sentido? E o que faz sentido em Lisboa não fará também sentido em Luanda e em Brasília?
E não é uma questão de não gostar dos outros: os europeus. Claro que gosto. No que me toca sou fascinado pela diferença. Mas só está preparado para admirar a diferença quem sabe quem é. E portanto é uma questão de sabermos quem somos. E sabendo quem somos: sabermos com quem somos aquilo que somos. E sabendo com quem somos aquilo que somos: de nos cumprirmos.

E eu confesso que há outra razão por que gosto de chamar Atlântida a este espaço. É porque talvez a Atlântida mais não tenha sido do que um sonho. E a mim agrada-me: dar o nome dum sonho a um sonho. Mas isto sou eu que sou diletante. Que não consigo viver sem a minha utopia.


Luís Novais

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Mais um caso. Desta vez na Bélgica.

Quando os pais e as mães se esquecem dos filhos nas traseiras dos automóveis. Quando os filhos ficam nesses automóveis até morrerem de desidratação. Quando isso acontece ao mesmo tempo que esses pais e essas mães estão a trabalhar. Quando isso acontece: não será altura de pararmos e de repensarmos a pressão a que estão a ser sujeitos os pais e as mães, nós?

sexta-feira, 19 de junho de 2009

A Puta.

Ela acaba de abrir a porta de alumínio que dá entrada para o prédio. O prédio dorme. Está quase a acordar. Mas ainda não. Por agora ainda dorme. E ela já entrou no prédio e já ao prédio fechou a porta. Fechou-lha ela para que por si a porta se não fechasse: em estrondo que acordaria o prédio pouco antes de ser tempo do prédio acordar. E é por isso que o prédio continua a gozar os últimos instantes: em minutos de sono.

Agora que ao prédio fechou a porta: ela respira fundo: sente-se aliviada. É sempre assim que se sente todos os dias quando ao prédio fecha a porta: aliviada. E se o é: é tão só porque a partir daquela hora todas as horas são suas. Todas até à hora em que o prédio janta e vê as notícias e palita os dentes e depois das notícias vê a novela e antes ou depois da novela veste o pijama e depois de vestir o pijama vai dormir. E é esse o momento em que ela todos os dias sai do prédio. E quando todos os dias sai do prédio e fecha a porta para que a porta não se feche por si: ela respira fundo. É um respirar fundo igual ao respirar fundo de quando chega: mas apenas na aparência: a partir do momento em que fecha aquela porta e está na rua: a partir desse momento todas as horas deixam de ser suas. Passam a ser “horas da casa”. Horas contadas em meias horas e por vezes até em quartos de horas. Horas e meias e quartos de horas dos clientes.
Mas agora não. Agora ela está a chegar ao prédio e o prédio ainda dorme e as horas voltam a ser suas. É que ela acaba de fechar a porta do prédio. E a esta hora fecha-a consigo do lado de dentro. Fecha-a para que a porta não se feche por si mesma: em estrondo que acorde o prédio pouco antes de ser tempo do prédio acordar. Não é por preocupação com o prédio que ela não quer que o prédio acorde. Não! É tão só porque o tempo começa agora a contar para si: é seu: muito seu: inteiramente seu. E ela não quer que o prédio dê por ela: no tempo que é seu ela não quer que ninguém a tome por sua.

Sobe a escada. É em mármore branco com veios. Alguns dos veios já eram do mármore quando o mármore se fez mármore. Outros não: outros são veios do uso: do desgaste. E enquanto ela sobe: ela pensa nos seus próprios veios. Quais do seus veios já seriam seus quando ela foi feita ela? E quais já seriam seus quando ela se fez ela? E quais já seriam seus quando os outros a fizeram ela? É por esta ordem que ela põe as suas coisas quando olha para os veios dela, da escada.

E continua a subir a escada. Vai com os sapatos de salto numa mão. Vai com a carteira de dourados esbatidos na outra mão. E continua a subir a escada. Até nem são muitos, os degraus que ela tem de subir. Mas a partir do momento em que fecha a porta do prédio: os pensamentos de si para si são tantos: são tão velozes: tantos e tão velozes que criam a ilusão de serem muitos, os degraus que ela tem de subir. Mas não: não são. São bem poucos, até.

Na verdade ela só conhece aquelas escadas de as subir. Descer desce sempre pelo elevador. O prédio está quase a ir dormir quando ela desce. Mas ainda não dorme. E por isso ela desce pelo elevador: não se importa com o barulho que o elevador faz. E há sempre quem saia do prédio à mesma hora que ela. O que nunca há é quem chegue quando ela chega. E é por isso que subir sobe-se pelas escadas puídas e descer desce-se pelo elevador, pelo menos para ela é assim.

Já subiu. Está frente à porta do apartamento a que chama seu. É desenvernizada, a porta. E tem lustro: mas apenas em volta da fechadura e do puxador. O puxador goza da mesma duplicidade: tem verdete no mais recôndito de si e lustro no mais palpável. Talvez uma duplicidade universal. E o prédio dorme: continua a dormir.

Ela. Ela mete a chave na porta: enfia-a com suavidade: como ela acha que a porta gostaria de ser enfiada. E o prédio dorme. E ela roda a chave: a mesma suavidade com que a enfiou. E o prédio dorme. E a porta abre-se a ela: lentamente: está bem oleada. E o prédio dorme e ela entra na casa a que chama sua.

Já está dentro da casa a que chama sua, ela. E caminha nas pontas dos pés: o prédio ainda dorme. E ela suspira. Despe-se. É frente ao espelho que se despe. Gosta de se ver. Não se despe para ninguém como se despe para si. É que aquelas horas são suas.

Já se despiu. Não se lava: nem de corpo e nem de dentes. Fá-lo sempre na “Casa”: antes de sair. É que a partir do momento em que deixa a “Casa” o tempo passa a contar para si. E ela acha que deve deixar a porcaria do tempo que é o tempo dos outros na “Casa” que é a casa dos outros. Não quer transportar essa porcaria para o tempo que é o seu tempo. Muito menos para a casa que é a sua casa, ou a que chama a sua casa.

Já está nua. Está de costas deitada na cama e está nua. Vê a lâmpada no tecto: a lâmpada no tecto está nua como ela. Olha para o lado: o espelho do armário: o espelho mostra ela a ela: nua. E enquanto se vê nua: enumera: enumera quantos prazeres iludiu nessa noite. E enquanto os enumera: continua deitada e nua e livre neste tempo que é o seu. E como está livre: sente-se, livre. As mãos que estavam estendidas no extremos dos braços estendidos para lá da cabeça: começam a vir até si. Uma dessas mãos queda-se na boca, um dedo: apenas um dedo. A outra não: a outra percorre-a descendo e descendo. E pára: o bico grosso duma mama: afaga-o. Engrossa mais. E conforme engrossa o bico: levanta-se-lhe a anca: destaca-se-lhe a púbis no espelho: no espelho do armário. E é até lá que no espelho ela se vê ir: com a mão a cobrir essa púbis que agora se não vê e os dedos que são seus afogados no que é seu. Está toda ela concentrada em si: pleno gozo do tempo que é seu. E estremece. Estremece de corpo todo. Apetece-lhe gritar. Não grita. O prédio ainda dorme e aquele grito seria um grito verdadeiro e como seria um grito verdadeiro é um grito só seu: só seu, só para si. E é por isso que gritado é: mas gritado dela para ela.

Apaga a luz. E fecha os olhos. E dorme. Dorme consigo. Goza. Goza daquele tempo que é seu. E o prédio acorda. E usa o elevador. E deixa a porta bater.
Agora que acordou: o prédio não se importa que ela durma. E ela também não.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Húmus

Quando tudo o que queremos
do morrer que será nosso:
é que esse nosso morrer seja
morte morrida sem doer:

Esquecemos, talvez. Esquecemos,
que morrer morre-se,
que viver vive-se.
E que de tanto à dor do morrer fugir,
a dor do viver não iludimos.

Quando tudo o que queremos
do morrer que será nosso:
é fugir desse medo,
desse medo d’em húmus finar:

Esquecemos, talvez. Esquecemos,
que de tanto a morte matarmos
a vida, essa não a vivemos.