Do tanto muito que penso,
tod’a sua origem ignoro.
Origem de pensamento “eu”,
ou pensar q’a mim cria?
Vej’o Mundo vendo-me
e vendo-me par’o ter:
por cosmos troco mim:
cego me vejo par’o ver.
Acontece quando cego sou:
idei’acontece: idei’apenas.
cegueira? Sombra sem limite.
E é então que sorrio; descanso.
Podend’a pedra ser filosofal (ela),
pod’a filosofia ser pedra (eu)
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
domingo, 1 de novembro de 2009
A Voz
Quand’em fundo silêncio,
vinda do longe ouço
voz forte que fala
e ordenante m’ordena.
Não sei que voz seja:
Se voz minha feita mim,
s’alheia voz, feita de quê?
Sei q’a ouço, isso sei.
Sei q’ordena, isso sei
Sei o quê, sei também.
Em sua força me diz: “Vive!”
E eu não sei o que seja:
Se voz da q’é natural,
se precedente imaterial
vinda do longe ouço
voz forte que fala
e ordenante m’ordena.
Não sei que voz seja:
Se voz minha feita mim,
s’alheia voz, feita de quê?
Sei q’a ouço, isso sei.
Sei q’ordena, isso sei
Sei o quê, sei também.
Em sua força me diz: “Vive!”
E eu não sei o que seja:
Se voz da q’é natural,
se precedente imaterial
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
O defeito das qualidades.
Hoje ocorreu-me que na política as pessoas são mais vezes afastadas pelas suas qualidades do que pelos seus defeitos.
Um preço para uma vida humana!
O jornal "Público" de hoje entrevista Joaquim Martinez. Equatoriano. Residente na Florida. Condenado à pena capital. Três anos no corredor da morte. Teve sorte: com dificuldades várias conseguiu que lhe repetissem o julgamento. Segundo veredicto: inocente. Hoje é activista da abolição da pena de morte.
“Público: Quando é que os Estados Unidos se juntarão aos países abolicionistas?
J. Martinez: Há estados como o Texas, a California ou a Florida, que estão a tomar o pulso ao que gastam com isso. Matar uma pessoa pode custar um milhão de dólares, dez vezes mais do que mandá-la para prisão perpétua.”
Li uma vez e tive de ler outra e outra. Não acreditava no que lia. É uma tabela de preços e não a inviolabilidade da vida humana que pode levar à abolição. Que mundo é este?
“Público: Quando é que os Estados Unidos se juntarão aos países abolicionistas?
J. Martinez: Há estados como o Texas, a California ou a Florida, que estão a tomar o pulso ao que gastam com isso. Matar uma pessoa pode custar um milhão de dólares, dez vezes mais do que mandá-la para prisão perpétua.”
Li uma vez e tive de ler outra e outra. Não acreditava no que lia. É uma tabela de preços e não a inviolabilidade da vida humana que pode levar à abolição. Que mundo é este?
domingo, 9 de agosto de 2009
Em cama tua.
EM CAMA TUA
Deitas-te. Deito-te.
Lentamente te deitas.
Lentamente te deito.
Lábios de mim, lábios de ti.
Pescoço teu, lábios meus.
Lábios de mim, lábios de ti.
Sensuais são: esses teus lábios meus.
Lábios de mim, lábios de ti.
Abandonas-te de ti: desse ti q’é teu.
Sinto-te! Co’as mãos te sinto,
nesse ti q’a mim se entrega.
Mãos: dedos de minhas mãos.
Dedos: pontas de meus dedos.
Navegadores navegantes navegando.
Por ti fêmea onde mais fêmea és.
Navegadores navegantes navegando.
Por ti em mar q’alevantando se vai.
Passagens, suaves passagens: leves.
De suaves que tocam sem tocar.
De leves que agitam sem agitar.
Lábios de mim, lábios de ti.
Vestes tuas, vestes minhas.
Fêmea és em flor de pele.
Pele tens em flor de fêmea: arrepiada
Mãos de mim em ti.
Intensidade projectada:
em mamas que tuas são,
que de tuas minhas se fazem.
Libertas-te. Envolves-te
Arfas. Desejas.
Beijos. Beijos que prosseguem,
q’em corrente seguem.
Corrente de rio que foz tem.
Deslumbro-me: vejo’sol,
esse teu tatuado sol.
Sol que é nascente.
Nascente de sol em foz de rio.
Principio de sol e fim de rio.
Nascente e foz em princípio de tudo;
em fusão de fim com princípio,
na púbis tua que tens lisa.
E intensa respiras.
Expiras corpo. Inspiras mente:
Corpo que se faz mente,
mente que se faz corpo.
Voz minha em língua tua:
“Open your eyes!”
Olhos meus em olhos teus
E eu estou em ti!
E tu estás em mim!
Amor de quem faz poesia.
AMOR DE QUEM FAZ POESIA.
Amor de quem faz poesia,
(Ah!) perene cousa é:
para não menos c’hua vida.
De voltas e revoltas é’vida,
sempre sabemos quantas houve.
Mas em sabendo dessas havidas:
nunca agouramos as que hão-de.
Amor de quem faz poesia,
(Ah!) sofrida cousa é:
dura quase meia vida.
Às voltas sabemos começo.
Jamais o seu finar prevemos.
Algua razão povo terá:
“Nem dous desta vida som dias”
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
Mim e si
Mim e si
Olho pela janela e vejo-a.
Ver-me-á? Ver-se-á?
A ponte não é.
Olho pelo espelho e vejo-me.
Ver-me-ei? Serei?
Devolvam-me a ponte!
Liberte-se o mim de mim.
Atendem-me: a ponte é.
Inda não a cruzei.
Mim e si em cada lado.
Grito coragem: "À ponte!"
Atravesso-a e já não sou.
Nem mim nem si,
nem ponte nem chão.
Olho pela janela e vejo-a.
Ver-me-á? Ver-se-á?
A ponte não é.
Olho pelo espelho e vejo-me.
Ver-me-ei? Serei?
Devolvam-me a ponte!
Liberte-se o mim de mim.
Atendem-me: a ponte é.
Inda não a cruzei.
Mim e si em cada lado.
Grito coragem: "À ponte!"
Atravesso-a e já não sou.
Nem mim nem si,
nem ponte nem chão.
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