sábado, 17 de dezembro de 2016

IN MEMORIAM. Laura Ferreira dos Santos.




Conhecia-a em 1984, foi minha professora de História e Filosofia da Educação. Para alguém como eu, acabado de entrar no ensino superior, ainda com algumas ilusões sobre o sistema e já atacado pelas primeiras desilusões, a Laura foi uma luz que me fez manter alguma fé na Universidade, essa mesma que acabou por lhe ser ingrata. Nas suas aulas ensinava-se e discutia-se Filosofia com uma abertura de espírito e um arrebatamento contagiante. Julgo que até cheguei a sentir aquela clássica paixão platónica do estudante pela professora carismática.

Muitos anos depois, graças ao correio eletrónico e às redes sociais, iniciamos uma correspondência frequente. Estava atacada por múltiplas complicações oncológicas. Sabia que talvez não tivesse muito mais tempo de vida, mas aferrava-se-lhe.

A Laura era uma idealista, quem não perceba isto não entende o significado pessoal da sua luta pelo direito de cada um a decidir. Os jornais, a opinião pública, falam duma defensora da eutanásia, sem entenderem que não era algo que necessariamente equacionasse para si; a sua luta era por um direito, universal e em abstrato.

Numa das “cartas” que este ano me escreveu, dizia o seguinte: “Parece-me que estás fundamentalmente bem, apesar das dúvidas metafísicas que possas ter. A saúde é de facto um bem muito precioso”. Leio este comentário sobre mim, como um resumo do seu próprio momento: A fria constatação do poder da matéria, o brutal impacto que um corpo doente pode ter na formulação da Ideia, essa Ideia que a Laura sempre procurou.

É neste contexto que vejo sua última luta (e que está longe de lhe resumir a vida). Foi como se destilasse o sofrimento que sentia numa ideia sem a qual alguém como ela não teria instrumento de sobrevivência. Num aparente paradoxo, lutou pelo direito à morte para se manter viva. E a Laura queria viver, disso não tenho dúvida.

Um dia disse-lhe isso: “A vida é um direito e não uma obrigação. Mas os que cá estamos e te admiramos gostamos muito que te mantenhas entre nós. De qualquer forma, a jovem e idealista professora ficará sempre na minha memória”. Respondeu-me inequivocamente: "Apesar de tudo há esta pulsão quase cega para viver e resistir à morte".

Menos de 24 horas antes de morrer colocou o seu último texto no Facebook: Sofria, não de sofrimento próprio mas do sofrimento de Aleppo; são assim os seres humanos quando grandes!

O dor ficou para os que a perdemos. Felizmente que a memória também.



Luís Novais

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

QUANDO EU MORRER

Deitem-me ao mar,
pela linha d’Equador.
Atlântida que nos banha,
que nos fez,
que de novo nos fará.
Na rota de Cabral
antes d’a Vera Cruz chegar,
prá Índia partido,
nesse mar que nos sonhou
e em sonho nos fez.
Deitem-me aí. Mandem-me à água,
onde siga em pensamento navegado.
Estar em tudo sendo nada,
total nos faz.
E deixem uma gota de mim,
prá terra que me lançou.
E então nas ondas meu grito:
Sou atlântido.
No Norte Vento meu alcance:
Atlântido, caralho!
Sou!
Sou atlântido de Portugal.

Luís Novais


sábado, 3 de dezembro de 2016

GRANDILOQUÊNCIA EM DOR MENOR


Basta sim,
ser do que não sou.
Viver onde não vivo:
Fora de mim.
Como se esse que rasteja
outro fosse.

Basta sim,
De lutar para ter
o que não gosto de ser.
Ser, o que não gosto de ter.

Escondo-me no tempo,
que é grande o tempo esse.
Refúgio, velho refúgio:
“O que o que tem de ser, será”.
Como se fosse Ser,
o que ser tem de.

É pequeno agir, este.
Nada!
Pequeno de mais
para o grande que nos cremos.
Por demais grande talvez,
para o de menos que somos.

sábado, 26 de novembro de 2016

BARRO

O que é matéria,
se não Deus, Aquele que é,
O que sempre foi?
O que é o Homem,
se não espírito,
um pensamento sentido?
Toda a matéria,
que  emprestou
um dia devolvo,
sem mais do que recebido.
Este mundo de visível nunca teve mais,
tampouco menos.
Só nos está permitido fazer
aquilo que,
com em sem sentido,
sentido fazemos.

Luis Novais

terça-feira, 22 de novembro de 2016

O JORNALISMO EM TEMPO DE OPORTUNIDADES. Zuckerberg na caverna de Platão


O dono do Facebook sabe que somos descendentes de Platão e que, pela primeira vez, enfrenta uma ameaça séria ao crescimento da sua empresa. Este ponto fraco é também a primeira grande oportunidade que surge aos jornalistas depois de 20 anos de crise profissional.

A campanha eleitoral nos estados Unidos desencadeou um debate sobre a verdade. Um estudo da BuzzFeed concluiu que os posts com informações falsas no Facebook foram muito mais compartidos que os verdadeiros, e as reações não se fizeram esperar.

Se nunca foi tão fácil aceder à informação, também a mentira nunca se disseminou tão massivamente. Não é por acaso que o Oxford Diccionary considerou “post-truth” a palavra do ano, significando uma situação na que os “factos objetivos são menos influentes (…) do que o apelo à emoção e à crença pessoal”.

Qualquer sociólogo sabe que o tema não é recente e que, depois da multiperspetiva modernista, que Picasso tão bem representa, se seguiu a intranquilidade pós-moderna que já se adivinhava desde o final de primeira guerra, mas que se acentuou com o boom da imprensa sensacionalista e com a progressiva desconfiança na ciência.

As redes sociais adicionaram tragédia a este problema. A cultura ocidental descende do pensamento platónico e assenta no reconhecimento duma transcendência que conduz à verdade. Se Platão disse que vivemos numa caverna que só nos permite ver o aparente mundo das sombras, a realidade existiria no da luz e a nossa angústia é atingi-lo.

A metodologia jornalística tem a verdade como primeira premissa. Reconhecendo a sua subjetividade, o jornalista tem em primeiro lugar de ser honesto, não permitindo que esta o leve a ultrapassar uma linha divisória. É por isso que um estudante do primeiro ano de Comunicação Social já sabe fazer crítica de fontes e aprende que deve sempre ouvir várias versões da mesma questão.

Lembro-me que na década de 90 nos surpreendíamos com um dos feitos da internet: Pela primeira vez em 50 anos surgia um meio que estava a retirar audiência à televisão. A rede era cada vez mais a fonte de informação preferencial; uma fonte de fácil acesso, tanto para o recetor como para emissores ávidos por saltar a barreira do jornalista. Lembro-me de Cavaco Silva, então presidente, me dizer que via na internet uma ansiada forma de evitar os jornalistas e de se comunicar diretamente com os cidadãos.

O outro lado da moeda tinha de chegar e está a chegar. Milhares de mensagens falsas lançadas sem o crivo do método jornalístico (não digo sério porque se não o é também não é jornalístico) inundam diariamente as redes sociais e já se está a gerar uma onda de reações negativas.

Depois de anos defendendo que o Facebook é apenas um meio difusor e não um criador de informação, Mark Zuckerberg teve de vir a público defender a veracidade do que é publicado na sua rede: 99% do que aí está seria verdadeiro… não se sabendo com que dados o afirma, ou sequer se esta frase pertence ao 1%.

O dono do Facebook sabe que somos descendentes de Platão e que, pela primeira vez, enfrenta uma ameaça séria ao crescimento da sua empresa. Este ponto fraco é também a primeira grande oportunidade que surge aos jornalistas depois de 20 anos de crise profissional. O público sempre procura e prefere a honestidade e essa é a base do nosso trabalho: Entregar-lhe uma informação que passou por um profissional da crítica e da análise de fontes.

Na qualidade de presidente da Associação de Imprensa Estrangeira no Peru, o ano passado fui convidado para dar uma conferência numa universidade deste país. Nessa altura centrei-me neste mesmo tema do jornalista ser o grande separador entre o trigo e o joio e concluí que, quanto mais informação houver na rede, mais necessário será o seu papel de certificador.

Este é o desafio que enfrentamos e, se conseguirmos aproveitar o momento, num futuro próximo não seremos obrigados a ouvir conferencistas dizerem que a maior empresa de media do mundo não emprega um só jornalista.


Luis Novais
luis@novais.eu

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A VERDADE MORREU?


Na cultura ocidental, a primeira e indiscutível das verdades resume-se na ideia de que a verdade É. (...) Só conseguimos entender em profundidade a vitória de Trump se a inserirmos num quadro antropológico de descrença na verdade. 

As obras de António Damásio revelaram-nos uma espécie, a humana, que é a única com consciência de si e na qual cada individuo é capaz de construir um “eu” baseado na acumulação duma “memória autobiográfica”. Os argumentos apresentados pelo neurocientista português são fortes e as experiências que revela muito convincentes, mesmo para quem não seja especialista na matéria.

A consequência imediata desta consciência do “eu”, é uma automática consciência do “outro”, quer nos refiramos ao outro-pessoa, ou ao outro-cosmos. Se mais nenhuma espécie desenvolveu, pelo menos de forma tão radical, uma separação entre “mim” e “ti”, então estamos perante uma das bases fundamentais da condição humana.

Temos assim que somos excêntricos, uma excentricidade tão mais grave quanto vivemos numa natureza que tem a eficiência como prioridade e que, por isso, procura desenvolver soluções apenas para aqueles problemas que sejam comuns a uma parte substancial da sua criação. Ou seja, uma má notícia para a humanidade: Somos dotados da característica única de saber que somos, mas não estamos dotados de capacidade natural para lidar com ela.

Todos os problemas que partilhamos com outras espécies têm uma solução natural e, até, inconsciente: A sensação de asfixia para que nos obriguemos a respirar, a fome para que nos alimentemos, o desejo sexual para que nos reproduzamos…. e uma infinidade de outras questões, em que se inserem coisas tão distintas com o mecanismo de cicatrização e a homeostasia em geral.

Agora, para a desagregação dos cosmos ninguém nos preparou e é por isso que, incapazes de contar com a solução natural, temos de inventar a artificial: Fazemos cultura.

Nesta perspetiva, acredito que a cultura é a artificialidade que a espécie humana desenvolve para resolver este problema único na natureza que é a nossa visão fragmentada. Em boa verdade, temos uma fronteira, somos os únicos que a têm e precisamos de encontrar uma solução para a realidade de que a temos.

Não será por acaso que há modelos mitológicos que são interculturais. Adão e Eva cobriram-se de vergonha quando comeram o fruto do conhecimento e, supõe-se, ganharam consciência de si; Prometeu foi agrilhoado quando ofereceu à humanidade essa eterna metáfora do conhecimento e da consciência que é a luz; em tristes trópicos Levi Strauss mostrou como são interculturais as maldições sobre espécies animais que têm algumas características comuns.

Na Grécia antiga, esta questão foi resolvida por Platão com a teoria da dualidade: Ao mundo da matéria sobrepõe-se o das ideias. Naquele somos individuais e imperfeitos, neste somos unos na perfeição. É com base nesta cosmovisão que se desenvolve um cabaz de respostas para o problema, e não há civilização que possa crescer sem encontrar o seu. Para nós, ocidentais, há tradicionalmente dois mundos, um aparente, outro verdadeiro. Toda a nossa filosofia é uma constante perspetivação deste modelo, um modelo que nos leva a acreditar na universalidade ou, numa palavra, na verdade.

Se acreditar na verdade é uma consequência da nossa filogénese, é simultaneamente uma das nossas forças e uma das nossas grandes debilidades. Acreditar na Verdade cria sociedades imperialistas e fundamentalistas, porque, sendo a verdade Verdade, não admite alternativa, simplesmente É. Temos então um gerador de desequilíbrios na nossa genética cultural: Quem tenha a verdade consigo tem direito a tudo, quem a não tenha, nada tem. Não será por acaso que, tradicionalmente, os jogos de poder no mundo ocidental se desenvolveram em torno da definição dos grupos que detêm a liturgia que lhe dá acesso.

Nas minhas viagens por África ou pela Amazónia, contactei muitas vezes com culturas não ocidentalizadas, ou superficialmente ocidentalizadas, para as quais a questão da verdade não existe. São comunidades que se regem pelo princípio do equilíbrio: quando lidam com a conflitualidade, não procuram saber de que lado está a razão, mas antes encontrar a via mais equilibrada para que nenhuma das partes fique despojada.

Um exemplo foi o caso de Malan, que conheci numa comunidade tribal da Guiné Bissau. Tinha um conflito com o vizinho, porque este usufruía dum terreno que foi dos seus avós. Enquanto Malan dizia que tinha sido um empréstimo, o vizinho afirmava que fora uma dádiva e, inclusive, argumentava ter sido o seu avô quem plantou os cajueiros e não era justo que Malan ficasse com eles.

O diferendo estava a ser resolvido pelo régulo, que para isso dialogava à vez com um representante de cada um, pois não podiam ser os próprios a participar. O conflito durava há alguns anos mas, pelo que me apercebi, aproximava-se duma decisão final: Malan ficaria com a posse do terreno, o vizinho com os cajueiros.  

Longe de tentar alcançar uma “verdade”, o régulo procurava um equilíbrio e fazia-o junto com os representantes de cada um, sendo interdita a intervenção direta destes, já que negociar sem paixão é uma condição essencial para chegar a um ponto comum.

Imaginemos este mesmo caso num tribunal europeu. A preocupação do juiz seria descobrir de que lado estava a verdade, ou seja, ambas as partes teriam de mostrar provas, documentais ou testemunhais, de que o terreno ou teria sido oferecido, ou teria sido emprestado, chegando-se depois a uma sentença que ainda se complicaria mais se, pelo meio, se colocassem questões de usocapião. Certo é que a verdade teria de estar de um ou do outro lado e a decisão final não teria em conta o equilíbrio, mas que tudo fosse entregue àquele que estivesse do lado certo, ficando uma das partes absolutamente despojada. Os crimes de sangue que no nosso mundo rural se sucedem a este tipo de decisões judiciais são uma consequência desta visão, originadora de que uma das partes sinta ter perdido tudo. Isto mesmo explica também muitos dos crimes cometidos durante a História do desenvolvimento e expansão do ocidente.

Na cultura ocidental, a primeira e indiscutível das verdades resume-se então na ideia de que a verdade É, e essa ideia advém da crença nos dois mundos, espírito e matéria, desenvolvida para lidar com o problema da dupla consciência, eu e o outro, com que a espécie humana fragmentou a sua visão do cosmos. Na nossa História fomos encontrando diferentes vias de chegar até ela, fosse com a recordação socrática, a metafísica aristotélica, o cristianismo ou a ciência.

Quando a evolução da ideia nos conduz a desenvolver um mecanismo que nos leva a concluir pela não existência da dualidade, apreendemos que a verdade não é, ou seja, foi a crença na verdade que nos conduziu a dela descrer. Esta mesma descrença tinha de nos levar a uma crise civilizacional que, essa sim, está na base da atual crise de valores que, por seu lado, é fonte da económica. Subitamente, tudo aquilo em que acreditávamos é abalado nas suas bases, e a humanidade ocidental caminha desorientada ao sabor de modelos que já não estão sustentados numa profunda convicção.

Esse vaguear desesperado tem levado a caminhos que os racionalistas consideramos muito perigosos: Um é o culto da mentira, outro o anti-secularismo.

Sobre o primeiro, a recente vitória de Daniel Trump é simbólica. Para incredulidade dos que continuamos a seguir um modelo clássico de racionalismo ocidental, resultou desconcertante que, quanto mais o candidato mentia, quanto mais as suas mentiras eram desmascaradas, mais popularidade conseguia, ao ponto de alcançar um resultado que pouquíssimos teríamos imaginado possível.

Só conseguimos entender em profundidade a vitória de Trump se a inserirmos num quadro antropológico de descrença na verdade. Um quadro para o qual também contribuíram aqueles que, hipoteticamente, deveriam defendê-la, os sacerdotes da modernidade: os académicos, os cientistas. Esta comunidade contribuiu muito para a descrença atual, quando também ela passou a ser parte dum mundo em crise de valores e se deixou corromper pelos cantos de sereia. Em consequência disso, sempre que sabemos das conclusões dum estudo, por muito académico e científico que seja, a atitude pós-moderna típica é perguntar a quem interessam essas conclusões e quem financiou esse trabalho. Ou seja, a palavra, a narrativa, substituíram a ideia.

Uma sociedade que já não acredita que seja verdade que a verdade seja, não tem qualquer dificuldade em considerar que o mais verdadeiro de entre todos é aquele que mente descaradamente, porque  o outro a-fortiori também, duma mentira tanto maior quanto mais difícil de detetar. Trump contra Hillary também passa por aqui.

A outra atitude é o anti-secularismo, uma nova religiosidade vivida de forma cada vez mais intensa e fundamental. Estes querem continuar a acreditar, mas já descreem da razão que a negou. Incapazes de dialogar com a racionalidade, refugiam-se em movimentos que os transferem para conceptualismos com as quais, suprema vingança, somos os racionalistas que não conseguimos argumentar.



Luís Novais

Foto: Geralt


quarta-feira, 9 de novembro de 2016

TRUMP: LIÇÕES DUM RESULTADO



Globalização, concentração de riqueza, exclusão, incapacidade política da direita moderada e da esquerda rotativa, geraram uma panela de pressão social que abriu caminho fácil à demagogia, a um discurso que é vazio de conteúdo mas contestatário e anti sistémico; um antídoto autodestrutivo mas cheio de apelo para os invisíveis, para os que nada têm a perder.

A vitória de Donald Trump, mais do que a derrota de Hillary Clinton, doeu-nos na alma aos que acreditamos numa sociedade aberta e inclusiva. Por detrás deste resultado está uma série de ironias. A primeira foi ter-lhe sido oferecido pelos excluídos do sistema, a segunda foi terem escolhido um dos que beneficiou com aquilo que não querem.

Mais do que chorar o resultado, temos de olhar para ele, tirar lições e aprender. Não é possível manter uma sociedade onde a opulência vive ao lado da exclusão. O paradigma do empreendedor, do competitivo, do vencedor, não nos pode desviar a atenção para o facto de que, neste modelo, por cada um que vence há vários exclusos.

O edifício económico em que este modelo de globalização assenta criou um insustentável desequilíbrio social. Os números são mais do que badalados, mas nunca é extemporâneo dizer que o mundo é hoje muito mais desigual do que foi há umas décadas. Segundo o Mackinsey Global Institute, hoje em dia mais de 80% dos lucros mundiais são gerados por apenas 10% das empresas (ver), o que vem destruir outro mito urbano da globalização, essa espécie de pateta útil do sistema, o sucedâneo criado nos nossos dias para o cow boy solitário e romântico que é a figura do “empreendedor”. Outra consequência desta concentração é o maior custo que os consumidores têm de pagar e a menor repartição dos benefícios com o trabalho: Segundo o mesmo estudo, em 1980 os lucros empresariais equivaliam a 7,6% do PIB mundial, em 2013 foram 9,8% e a tendência continua crescente. Não admiram por isso as conclusões que saíram dum relatório do Credit Suisse: 62 pessoas têm tanta riqueza como metade da população mundial e o 1% mais rico possui o mesmo que os restantes 99% (ver).

Alguns argumentam que isto se deve a uma maior distribuição da riqueza a nível mundial e que são os cidadãos do chamado hemisfério norte que não suportam esta partilha. Nada mais errado, o modelo levado a cabo pelos países em desenvolvimento é socialmente agressivo e, portanto, a divisão hoje em dia já não pode ser entre hemisférios, mas entre acumuladores dum lado, e excluídos, do outro.

Em 1991 o governo indiano introduziu a NEP (New Economic Politic), que significou liberalização, privatização e globalização. A economia cresceu, mas o resultado foi que os ricos ficaram ainda mais ricos e os pobres ainda mais pobres (ver). Outro exemplo é o da China, com empresas públicas e privadas que investem em todo o mundo, mas cujo número redondo de já ser a maior economia, esconde uma grande desproporção na distribuição da riqueza: o PIB per capita é de apenas 14.239 dólares, pouco mais do que um México (12.277) ou que um Peru (12.402) (Banco Mundial).

A esquerda de regime, que poderia ser um contraponto rotativo à ganância liberal, não conseguiu alterar esta situação. Na Europa aderiu facilmente à moda liberal disfarçada de “terceira via”, ao vazio ideológico socrático, ou então caiu numa corrupção que a tornou alvo fácil da direita mais misantropa, como aconteceu no Brasil. Por outro lado, a direita moderada foi facilmente dominada pelo canto de sereia do capital, com prebendas, lugares em conselhos de administração, consultorias e facilidades que a afastaram dos excluídos.

Globalização, concentração de riqueza, exclusão, incapacidade política da direita moderada e da esquerda rotativa, geraram uma panela de pressão social que abriu caminho fácil à demagogia, a um discurso que é vazio de conteúdo mas contestatário e anti sistémico; um antídoto autodestrutivo mas cheio de apelo para os invisíveis, para os que nada têm a perder.

Não sei, mas espero que ainda vamos a tempo de estancar a mancha. Hoje é um dia para chorar, amanhã para começar a trabalhar.


PS: Enquanto terminava este artigo, ouvia o único discurso bem feito que alguma vez ouvi a Donald Trump, o da vitória. A esperança é a última a morrer...



Luís Novais

Foto: Johnhain