terça-feira, 10 de janeiro de 2017

GRANDEZA E PODER NA CIVILIZAÇÃO LAMBAYEQUE

Num território com estas características, tinha de haver uma organização social forte para que se fizesse a gestão da água, se construíssem canais de irrigação e se regulasse a sua utilização, transformando a árida terra num solo fértil, e originando aqueles excedentes que possibilitam uma acumulação sem a qual as civilizações não despontam.

Na pequena cidade de Túcume, a meia hora de carro de Lambayeque, capital da região peruana com o mesmo nome, cada família tem o seu santo, cujo culto celebra e ao qual recorre nas horas mais difíceis, pormenor que refiro pelo que adiante explicarei. A menos de 10 minutos, visita-se o sítio arqueológico, ou huaca como dizem os peruanos, de Túcume, um importante centro urbano Lambayeque, cultura que floresceu no noroeste do atual Peru entre os séculos VIII e XV, quando foi absorvida pelo império Inca, depois dum período de relativa submissão aos Chimús, outra cultura que se surgiu mais a sul, na atual região de La Libertad.

Passei o Natal de 2016 em Chiclayo, atualmente uma importante cidade comercial da região e, com a Yvonne, aproveitamos para conhecer melhor esta cultura, visitando-lhe os vestígios materiais, indo a museus e ouvindo-lhe as lendas e tradições. O que se segue são os sentimentos que esta busca me gerou.

Existindo entre os séculos VIII e XV, a civilização lambayeque foi uma das muitas que prosperaram no Peru pré-hispânico (foto: representação no museu do sítio de Túcume)


Zona arqueológica de Túcume
Quando aqui entramos, deparamo-nos com 26 pirâmides construídas ao redor duma montanha, que claramente teria um carater sagrado e serviria de denominador comum entre as diferentes construções. Estes edifícios, que eram simultaneamente locais de culto e residência das famílias mais poderosas, estão formados por adobes de terra amassada com fibras vegetais, cuja forma se assemelhava a um pão-de-forma com a base plana e o topo redondo, característica que, suponho, dava flexibilidade ao edifício e lhe permitia resistir aos sismos que são frequentes nesta zona do planeta.

As 26 pirâmides de Túcume foram construídas em torno duma montanha sagrada (maquete no museu do sítio)

Atendendo aos recursos e à tecnologia da época, a construção destes templos residenciais representou um grande investimento, o que nos permite supor uma estrutura social baseada no poder de várias famílias que formariam uma espécie de aristocracia sacerdotal. Os Lambayeques tinham também aquilo a que, por analogia ocidental, poderíamos chamar um rei.

Adobes com a base plana e o topo arredondado deveriam dar às pirâmides a flexibilidade necessária para resistirem aos frequentes sismos.


Ascenção e queda duma quase monarquia
A primeira referênca escrita a este “rei” ou senhor provem do cronista espanhol Miguel Cabello Valboa (“Miscelánia Antártica”, 1586), que passando pela região no século XVI recolheu a lenda de Naymlap (Homem Pássaro), um herói navegador que aqui teria desembarcado no século IX com um séquito de funcionários e concubinas. Segundo a lenda, internou-se um par de quilómetros costa adentro e aí mandou construir um templo piramidal, onde instalou um ícone de jade verde que representava o deus Yampallec, que não só se transformou na maior divindade desta cultura, como lhe originou o nome. O templo em questão chamar-se-ia Chot e deverá corresponder ao conjunto cerimonial hoje conhecido como Chotuna, formado por pirâmides e outras edificações, que está no distrito chiclayano de San José, perto da costa e a uns 50 Km desta cidadela de Túcume.

Do alto da montanha sagrada de Túcume temos uma visão panorâmica das 26 pirâmides que formavam a cidadela.

A mesma lenda seria igualmente recolhida em finais do século XVIII pelo pároco Modesto Ruviños y Andrade, que foi cura duma paróquia local. A sua descrição advém de registos orais da região e é muito semelhante à que, dois séculos antes, tinha sido escutada por Cabello Valboa.

A lenda da chegada no navegador Naymlap (Homem Pássaro), o mítico fundador da dinastia Lambayeque, parece estar representada neste alto relevo num templo de Túcume.

Segundo reza esta tradição oral, Naymlap teria instaurado uma dinastia da qual saíram 11 sucessivos “reis”, que governaram entre os séculos IX e XIV. O último deles foi Fempallec, responsável por transferir o ídolo de Yampallec do local sagrado de Chot (Chotuna), onde quinhentos anos antes tinha sido colocado pelo seu antepassado Naymlap. Conta a lenda que a mudança domiciliar enfureceu o deus, tendo manifestado a sua ira com o envio de chuvas diluvianas seguidas de grandes secas.

Maqueta do complexo cerimonial de Chotuna (em Chiclayo), que tará sido construído por Naymlap e onde terá colocado o ídolo de jade verde com a representação do deus Yampallec.


A pirâmide principal do complexo cerimonial de Chotuna (em Chiclayo) nos dias de hoje. Aqui residia a imagem de Yampallec, o mais importante deus do Olimpo Lambayecano. 

De acordo com a mesma lenda, este rei teve uma vida bastante atribulada e terminou os seus dias da pior forma. Não satisfeito com ter desalojado a divindade, atreveu-se a copular com um demónio que lhe apareceu disfarçado de uma bela mulher.a.

Copular com uma mulher-demónio, foi atrevimento que se somou fatalmente à mudança da residência do deus Yampallec, às consequentes chuvas, às seguintes secas e às suas fomes que isto terá originado numa sociedade agrária. Tudo junto terá sido suficiente para que os lambayecanos deixassem de suportar o atrevido rei, razão para que os aristocráticos sacerdotes se tenham reunido em concílio e proferido sentença: Considerado culpado de todas as tragédias e condenado a se lançado em mar alto, amarrado de pés e mãos. A lenda termina aqui e consta que, pelo menos até aos dias de hoje, Fempallec não voltou a ser visto por estas paragens. Fossem outras e talvez estivesse para eternos regresso numa manhã de nevoeiro.

Os Lambayeque tinham gostos sexuais diversificados. Não sabemos qual terá sido a posição escolhida pelo último rei para copular com o demónio que lhe apareceu na forma duma bela mulher.

Em seguida, os Lambayeques submeteram-se ao governo Chimú, outra civilização que floresceu um pouco mais a sul, na região hoje conhecida como La Libertad, e de que também falarei noutra ocasião.

A origem
A cultura Lambayeque seguiu-se à Moche, que se desenvolveu na costa norte do Peru a partir do século II. Os Moches tinham grandes contradições internas de que poderemos falar noutra ocasião, entraram em decadência pelo século V e a sua cultura extingue-se no VII. São sucedidos precisamente pelos lambayeques, na zona norte do seu território, e pelos chimús, mais a sul.

O despontar da civilização Lambayeque no século VIII, faz-nos adivinhar um período conturbado durante os duzentos anos que mediaram entre a queda da cultura moche e o aparecimento desta última. Refira-se que a região é uma costa desértica, entre-cortada por vales-oásis formados à custa dos rios que, nascidos nos Andes, correm para o Pacífico.

A sumptuosidade da arte fúnebre mostra que esta civilização tinha uma aristocracia forte, frente à qual o rei teria dificuldade para afirmar o seu poder. Na foto: máscara fúnebre da sacerdotisa de Chornancap, cuja sepultura foi descoberta em 2011


Num território com estas características, teria obrigatoriamente de haver uma organização social forte, para que se fizesse a gestão da água, se construíssem canais de irrigação, se regulasse a sua utilização e, assim, conseguir transformar esta árida terra num solo fértil, originando aqueles excedentes que possibilitam as acumulações sem as quais não despontam as civilizações. A esta mesma necessidade assistimos, por exemplo, no Egito, com a diferença de que aí se viveu à sombra dum grande rio que deu azo a um grande império centralizado. Na costa peruana não há nada de parecido a um Nilo, mas sim diversos cursos de pequena e média dimensão, que nunca permitiram uma concentração de riqueza suficiente para que pudesse surgir uma igualmente grande concentração de poder e, portanto, uma civilização que atingisse grande dimensão demográfica e territorial.

A monumentalidade dos palácios-templo onde vivia a aristocracia sacerdotal, comprova a existência dum importante grupo social, que deveria fazer contrapeso ao poder do "rei". Na foto: maqueta do complexo residencial da sacerdotisa de Chornancap (museu do sítio)

A tudo isto, acresce que o litoral peruano foi desde sempre afetado por fenómenos naturais, como é o caso de El Niño, que, periodicamente, destruíram tudo o que estava e obrigaram a sucessivas necessidades de reconstrução e a uma recomposição por vezes secular dos processos civilizacionais.

Necessidades e contradições
Temos então que estas culturas viviam uma contradição: Por um lado, as características naturais dum deserto com vales irrigados obrigavam a uma centralização capaz de planificar o uso da água; por outro lado, a relativa pequena dimensão das zonas férteis não permitia que o poder central se afirmasse com aquela grandeza necessária à cabal subjugação da sociedade. A isto acrescem os desastres naturais que, periodicamente, destruíam a riqueza e, a-fortiori, o poder acumulados.

Os Lambayeque decoravam os seus edifícios com altos relevos que depois pintavam. Na foto, zona cerimonial do templo de Chotuna, o local mais sagrado desta cultura.

A proliferação de grandes centros residenciais como Tucume com as suas pirâmides senhoriais, que eram também locais de culto, faz-nos supôr uma sociedade senhorial, com uma organização complexa, unida em torno dum mesmo deus e dum governante que teria dificuldades em afirmar-se junto dos seus muitos e poderosos pares. Nos períodos com vazios de organização, como terão sido os duzentos anos que decorreram entre a queda da cultura moche e o aparecimento da lambayeque, a necessidade de uma total reorganização criava as condições imprescindíveis ao aparecimento e aceitação duma espécie de rei, a quem se reconhecia uma unificadora legitimidade, sustentada talvez por um ato heróico, por um mito e, provavelmente, pela sua relação privilegiada com um deus comum.

A pirâmide de Chornancap, onde viveu uma representante da aristocracia sacerdotal cujo túmulo foi descoberto em 2011, é visível desde Chotuna, o local mais sagrado desta civilização, 

Esse terá sido o caso de Naymlap, o mesmo que, segundo a lenda, terá desembarcado nesta costa pelo século IX, trazendo consigo um ídolo de jade verde, tipo de pedra que não existe na região andina exceto numa zona muito específica da atual Colômbia. Não sabemos se Naymlap terá sido um estrangeiro aportado ao território, se um aventureiro autóctone que saiu à descoberta de novos mundos, usando os típicos barcos de fibra de totora cuja utilização já se conhecia na costa peruana pelo menos desde a civilização de Caral, surgida há 5.000 anos na região de Lima. Chegado ou regressado vivo, com um séquito, tendo contactado com outras culturas centro-americanas e trazendo consigo um novo deus, Naymlap tinha tudo para ser possuído duma força mítica, o que lhe dava aquela mesma legitimidade que, nesses anos conturbados, a reorganização social e territorial demandava.

Uma civilização e as suas saudações (cerâmica da cultura lambayeque no museu Bruning).


Diz também a lenda que, quando morreu, Naymlap se transformou num pássaro e voou para a sua terra, ficando imortal. Nesta parte da lenda é impossível não vislumbrar uma dupla necessidade: Social, para que o sobrenatural mantenha a unidade, e política, por parte dos seus descendentes, para afirmarem a origem divina do seu poder dinástico.

Diz a lenda que Naymlap se transformou num pássaro e partiu para uma terra distante (pássaro no templo de Chotuna)


A queda dum "rei"
Atendendo à clara fragmentação duma sociedade com senhores que eram tão poderosos como para construírem as 26 grandes residências piramidais de Túcume, é de supor que, passada a fase inicial de necessária submissão reorganizadora, tenhamos assistido a uma lenta guerra fria entre esta aristocracia e os descendentes de Naymlap, muito humanamente interessados na centralização do poder e na concentração da sua fonte, que era a terra arável e irrigada.

O episódio da retirada do ídolo do deus Yampallec do seu santuário ancestral corresponderia talvez a essa tentativa do monarca, que assim transferia o símbolo sagrado dum espaço possivelmente dominado pela velha aristocracia sacerdotal, instalando-o num outro que representava apenas a grandeza do governante.

O poder desta aristocracia foi recentemente reafirmado pela descoberta em 2011 do sumptuoso túmulo duma sacerdotisa em Chornancap, uma pirâmide que fica cerca de três quilómetros a ocidente do santuário de Chotuna, o mesmo onde originalmente foi colocado o ídolo de Yampallec. A múmia desta sacerdotisa ainda está em tratamento laboratorial, mas parte do seu rico espólio, com diversas joias e peças de ouro, já pode ser apreciado no museu Bruning, na cidade de Lambayeque.

Neste contexto, a lenda da heresia do último rei será talvez a mítica legitimação duma clara conspiração. O modelo económico e social já estava estabilizado, o poder bem repartido entre as casas senhoriais e a ideia dum monarca era, possivelmente, um estorvo a esse status-quo, mais a mais quando este procurava concentrar a autoridade em si mesmo.

Uma aristocracia poderosa deveria contrariar o poder da dinastia de Naymlap.
Na foto: reconstituição da sacerdotisa de Chornancap no museu do sítio

Provavelmente a ocorrência dum fenómeno El Niño foi o pretexto esperado para acusar Faymllap de blasfémia. Podemos até imaginar que, na sua luta, o governante se tenha aliado a uma das casas senhoriais, unindo-se à sua representante, o que estaria na origem do mito da sua profana cópula com um demónio disfarçado de bela mulher.

Fábrica de fazer deuses (museu Bruning em lambayeque).


Ao mesmo tempo, mais a sul, outra cultura, a chimú, atingia o apogeu e mostrava uma clara apetência expansionista. Não é difícil supor que os membros da aristocracia lambayeque se relacionassem com os senhores de Chimú e que estes estivessem ao corrente do conflito de poder lambayecano. Sendo assim, estavam abertas todas as condições para uma negociação, mediante a qual os primeiros se submeteriam aos segundos, sob condição duma grande descentralização de poder que, na prática, consolidaria a aristocracia de Lambayeque, a mesma que terá concluído mais lhe valer um “rei” distante que lhe entregava as rédeas, do que um próximo que as queria para si. O único obstáculo a esse desiderato chamava-se Faymllap e o problema foi, como vimos, fácil de resolver: O mar lhes trouxe a dinastia quando foi necessária, o mar a levou quando já estorvava.

A mensagem da montanha sagrada de Túcume: "Façam as vossas pirâmides, mortais, façam. Vivam e orem nelas, mas nenhum de entre vós é tão poderoso que tão alta residência possa construir". 


Ontem e hoje
Voltando ao início deste texto, hoje em dia na pequena cidade de Túcume cada uma das famílias que aí vive presta um culto especial ao santo que lhe corresponde pelo apelido; uma separação unificada pela fé na Virgen de la Purisima Concepción, com o seu manto triangular que nos recorda uma montanha. Vendo-os, estamos talvez a testemunhar uma sobrevivência dessas 26 pirâmides que repousam perto dali, onde outras tantas famílias senhoriais viveram e praticaram culto, cada uma guardiã da sua divindade familiar, todas unificadas pelo celebração ao deus Yampallec e dispondo-se ao redor duma montanha sagrada, que estava imbuída duma mensagem clara: "Façam as vossas pirâmides, mortais, façam. Vivam, orem e sepultem-se nelas, mas nenhum de entre vós é tão poderoso que tão alta residência possa construir".

Desatento e qual ícaro lambayecano, a tragédia de Faymllap, o último da sua dinastia, terá sido esquecer-se desta autêntica mensagem à humildade dos homens. Vieram depois outros de outras culturas, mas esses já são diferentes capítulos de um mesmo conto.



Luís Novais


quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

COMERÁS COM O TEU SUOR, ou, DE COMO SALVAR O CAPITALISMO DE SI MESMO

Fome e sexo, coação ou incentivo, eis a moeda. Foi coação a escravatura, com o incentivo dum melhor ou pior tratamento, foi coação o feudalismo, com o incentivo de mais ou menos favores do senhor ao servo, é incentivo o dinheiro, com a coação de viver sem ele.



Aquilo de que se trata quando abordamos a questão do dinheiro é de responder a uma antiga questão: “Como obrigar os seres humanos a trabalhar?”

Esta pergunta aparentemente simples foi permanente ao longo da história. Foi a resposta encontrada em cada momento e em cada local que determinou os diferentes modelos económicos, sociais, políticos e até religiosos.

Quem primeiro se preocupou com o assunto foi esse ente abstrato vulgarmente conhecida como “a Natureza”. Para Ela foi tudo muito simples: Deu-nos a fome para que nos esforçássemos a procurar alimento, deu-nos o sexo para que nos déssemos ao trabalho da reprodução, que, se esta fosse 100% mecânica e nada erótica, não haveria quem se desse ao trabalho com o afinco e assiduidade necessários à reprodutividade do ato.

O mais curioso é que, uma vez mais, se justifica a adjetivação de “sábia” com que  nos referimos à Natureza, tão sábia que o ser humano não foi capaz de mais do que copiar as suas estratégias para se dar ao trabalho do trabalho: Ou bem que nos coagiu pela fome para nos fazer comer, ou bem que nos incentivou pelo prazer para que nos multiplicássemos. E é precisamente este duplo mecanismo de coação e incentivo que a história usou para nos obrigar ao esforço.

Foi sempre assim? Aparentemente não. Segundo reza a crónica, Adão vivia muito pacatamente no paraíso que Deus lhe construiu, até que, vendo o irremediável tédio da coisa criada, o Criador resolveu sacar-lhe costela e ofereceu-lhe companheira, não interessa se feia ou bonita porque estes conceitos vivem duma comparação que o noivo estava impossibilitado de fazer.

Fraco remédio: Agora eram dois a levar uma vida de aborrecimento contínuo, o que não é difícil de supor: Que cada um imagine a vida que cada um levaria, se aquelas conversas entre encontros sexuais não fossem entre-cortadas e se limitassem a ser em si mesmas, por muito interessantes que pudessem e possam ser…

Eu sei que, muitas vezes, a raiva do dia-a-dia nos leva a invectivar contra o original casal. Fazemo-lo cada vez que acordamos ressacados ou simplesmente mal dispostos, quando nos apanhamos de volante na mão no meio de garrafal engarrafamento, se temos de aturar um chefe incompetente, um cliente irritante ou um fornecedor que insiste ter prestado um excelente mau serviço. Tudo isto é insuportável e é nessas ocasiões que pensamos como seria bom continuar no bem-bom do paraíso, sem termos de nos preocupar com arreliações tamanhas. Mas caramba! Paremos um bocado para pensar no que foi o início de vida daquele Adão e daquela Eva. Não resulta difícil concluir que bem maior presente foi a condenação do que o tal Éden, o castigo do que a dádiva.

Um bocado de empatia com os nossos avós e perguntemo-nos se, vendo-se em tais circunstâncias, qual de nós não se babaria pelo apetecível fruto proibido. Eu não pensaria duas vezes, nem precisaria da insistência da cobra que, coitada, pelas tontas hesitações de Eva teve de se condenar a uma existência de eterno rastejar, e muito menos precisaria do incentivo de Eva que, para convencer o parceiro e sem contar ainda com a salvadora epidural, gritou de morrer quando pariu Caim, Abel, Sete e outros que pela história não foram rezados.

Consta portanto que Deus é de mau feitio e quando viu a árvore com toda a sua rama e sem qualquer fruto, se enfureceu de soberba, expulsando o casal original daquele para este mundo.

E pronto, fomos postos à porta e à prova, com a roupa do corpo e uma sentença taxativa: “Tu, Eva, vais sofrer para parir e tu, Adão, vais comer com o suor do teu rosto”. Esse terá sido o momento em que Deus inventou também a fome, sem a qual Adão não suaria, e o orgasmo, sem o qual Eva rejeitaria o parceiro sobrepondo a dor do parto a um coito desprazível, não desdenhando que nem sequer o marido pensaria em chegar-se à mulher, lembrando-se das noites mal acordadas que teria de suportar e que, por cada nascimento, passaria a suar não só por si mas por mais um.

E mitos à parte, nós, enquanto espécie, tivemos de encontrar estratégias para nos obrigarmos a trabalhar, sendo que alguns foram mais estrategicamente criativos do que outros e resolveram o seu problema descobrindo a arte de fazer com que outros tivessem de suar mais e alguns ficassem até isentos, o que, já se vê, é blasfemo incumprimento da divina condenação e é talvez por isso que, ao contrário desses, os camelos conseguem passar alegremente pelos buracos das agulhas.

Fome e sexo, coação ou incentivo, eis a moeda. Foi coação a escravatura, com o incentivo dum melhor ou pior tratamento, foi coação o feudalismo, com o incentivo de mais ou menos favores do senhor ao servo, é incentivo o dinheiro, com a coação de viver sem ele.

O capitalismo será então um sistema que estabeleceu o equilíbrio entre uma dose de incentivo, chamado salário ou lucro, e uma dose de coação, chamada poder militar, prisão e, voltamos ao mais básico, fome ou, mitigando, qualidade de vida. O desequilíbrio dum modelo aparentemente tão bem montado dá-se quando já não consegue distribuir o incentivo que o fundamenta e fica apenas com a coação, concretizando essa quimera de que o Dr. Frankenstein foi apenas personagem ficcional duma realidade cada vez mais próxima: A substituição do criador pela criatura, do homem pela máquina, da máquina pelo robot, do robot pela inteligência artificial.

Neste contexto, abre-se um dos mais importantes debates dos nossos dias e, suponho, rios de tinta se gastarão para responder a uma pergunta muito simples: “Como salvar o capitalismo de si mesmo?”



Luís Novais

sábado, 17 de dezembro de 2016

IN MEMORIAM. Laura Ferreira dos Santos.




Conhecia-a em 1984, foi minha professora de História e Filosofia da Educação. Para alguém como eu, acabado de entrar no ensino superior, ainda com algumas ilusões sobre o sistema e já atacado pelas primeiras desilusões, a Laura foi uma luz que me fez manter alguma fé na Universidade, essa mesma que acabou por lhe ser ingrata. Nas suas aulas ensinava-se e discutia-se Filosofia com uma abertura de espírito e um arrebatamento contagiante. Julgo que até cheguei a sentir aquela clássica paixão platónica do estudante pela professora carismática.

Muitos anos depois, graças ao correio eletrónico e às redes sociais, iniciamos uma correspondência frequente. Estava atacada por múltiplas complicações oncológicas. Sabia que talvez não tivesse muito mais tempo de vida, mas aferrava-se-lhe.

A Laura era uma idealista, quem não perceba isto não entende o significado pessoal da sua luta pelo direito de cada um a decidir. Os jornais, a opinião pública, falam duma defensora da eutanásia, sem entenderem que não era algo que necessariamente equacionasse para si; a sua luta era por um direito, universal e em abstrato.

Numa das “cartas” que este ano me escreveu, dizia o seguinte: “Parece-me que estás fundamentalmente bem, apesar das dúvidas metafísicas que possas ter. A saúde é de facto um bem muito precioso”. Leio este comentário sobre mim, como um resumo do seu próprio momento: A fria constatação do poder da matéria, o brutal impacto que um corpo doente pode ter na formulação da Ideia, essa Ideia que a Laura sempre procurou.

É neste contexto que vejo sua última luta (e que está longe de lhe resumir a vida). Foi como se destilasse o sofrimento que sentia numa ideia sem a qual alguém como ela não teria instrumento de sobrevivência. Num aparente paradoxo, lutou pelo direito à morte para se manter viva. E a Laura queria viver, disso não tenho dúvida.

Um dia disse-lhe isso: “A vida é um direito e não uma obrigação. Mas os que cá estamos e te admiramos gostamos muito que te mantenhas entre nós. De qualquer forma, a jovem e idealista professora ficará sempre na minha memória”. Respondeu-me inequivocamente: "Apesar de tudo há esta pulsão quase cega para viver e resistir à morte".

Menos de 24 horas antes de morrer colocou o seu último texto no Facebook: Sofria, não de sofrimento próprio mas do sofrimento de Aleppo; são assim os seres humanos quando grandes!

O dor ficou para os que a perdemos. Felizmente que a memória também.



Luís Novais

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

QUANDO EU MORRER

Deitem-me ao mar,
pela linha d’Equador.
Atlântida que nos banha,
que nos fez,
que de novo nos fará.
Na rota de Cabral
antes d’a Vera Cruz chegar,
prá Índia partido,
nesse mar que nos sonhou
e em sonho nos fez.
Deitem-me aí. Mandem-me à água,
onde siga em pensamento navegado.
Estar em tudo sendo nada,
total nos faz.
E deixem uma gota de mim,
prá terra que me lançou.
E então nas ondas meu grito:
Sou atlântido.
No Norte Vento meu alcance:
Atlântido, caralho!
Sou!
Sou atlântido de Portugal.

Luís Novais


sábado, 3 de dezembro de 2016

GRANDILOQUÊNCIA EM DOR MENOR


Basta sim,
ser do que não sou.
Viver onde não vivo:
Fora de mim.
Como se esse que rasteja
outro fosse.

Basta sim,
De lutar para ter
o que não gosto de ser.
Ser, o que não gosto de ter.

Escondo-me no tempo,
que é grande o tempo esse.
Refúgio, velho refúgio:
“O que o que tem de ser, será”.
Como se fosse Ser,
o que ser tem de.

É pequeno agir, este.
Nada!
Pequeno de mais
para o grande que nos cremos.
Por demais grande talvez,
para o de menos que somos.

sábado, 26 de novembro de 2016

BARRO

O que é matéria,
se não Deus, Aquele que é,
O que sempre foi?
O que é o Homem,
se não espírito,
um pensamento sentido?
Toda a matéria,
que  emprestou
um dia devolvo,
sem mais do que recebido.
Este mundo de visível nunca teve mais,
tampouco menos.
Só nos está permitido fazer
aquilo que,
com em sem sentido,
sentido fazemos.

Luis Novais

terça-feira, 22 de novembro de 2016

O JORNALISMO EM TEMPO DE OPORTUNIDADES. Zuckerberg na caverna de Platão


O dono do Facebook sabe que somos descendentes de Platão e que, pela primeira vez, enfrenta uma ameaça séria ao crescimento da sua empresa. Este ponto fraco é também a primeira grande oportunidade que surge aos jornalistas depois de 20 anos de crise profissional.

A campanha eleitoral nos estados Unidos desencadeou um debate sobre a verdade. Um estudo da BuzzFeed concluiu que os posts com informações falsas no Facebook foram muito mais compartidos que os verdadeiros, e as reações não se fizeram esperar.

Se nunca foi tão fácil aceder à informação, também a mentira nunca se disseminou tão massivamente. Não é por acaso que o Oxford Diccionary considerou “post-truth” a palavra do ano, significando uma situação na que os “factos objetivos são menos influentes (…) do que o apelo à emoção e à crença pessoal”.

Qualquer sociólogo sabe que o tema não é recente e que, depois da multiperspetiva modernista, que Picasso tão bem representa, se seguiu a intranquilidade pós-moderna que já se adivinhava desde o final de primeira guerra, mas que se acentuou com o boom da imprensa sensacionalista e com a progressiva desconfiança na ciência.

As redes sociais adicionaram tragédia a este problema. A cultura ocidental descende do pensamento platónico e assenta no reconhecimento duma transcendência que conduz à verdade. Se Platão disse que vivemos numa caverna que só nos permite ver o aparente mundo das sombras, a realidade existiria no da luz e a nossa angústia é atingi-lo.

A metodologia jornalística tem a verdade como primeira premissa. Reconhecendo a sua subjetividade, o jornalista tem em primeiro lugar de ser honesto, não permitindo que esta o leve a ultrapassar uma linha divisória. É por isso que um estudante do primeiro ano de Comunicação Social já sabe fazer crítica de fontes e aprende que deve sempre ouvir várias versões da mesma questão.

Lembro-me que na década de 90 nos surpreendíamos com um dos feitos da internet: Pela primeira vez em 50 anos surgia um meio que estava a retirar audiência à televisão. A rede era cada vez mais a fonte de informação preferencial; uma fonte de fácil acesso, tanto para o recetor como para emissores ávidos por saltar a barreira do jornalista. Lembro-me de Cavaco Silva, então presidente, me dizer que via na internet uma ansiada forma de evitar os jornalistas e de se comunicar diretamente com os cidadãos.

O outro lado da moeda tinha de chegar e está a chegar. Milhares de mensagens falsas lançadas sem o crivo do método jornalístico (não digo sério porque se não o é também não é jornalístico) inundam diariamente as redes sociais e já se está a gerar uma onda de reações negativas.

Depois de anos defendendo que o Facebook é apenas um meio difusor e não um criador de informação, Mark Zuckerberg teve de vir a público defender a veracidade do que é publicado na sua rede: 99% do que aí está seria verdadeiro… não se sabendo com que dados o afirma, ou sequer se esta frase pertence ao 1%.

O dono do Facebook sabe que somos descendentes de Platão e que, pela primeira vez, enfrenta uma ameaça séria ao crescimento da sua empresa. Este ponto fraco é também a primeira grande oportunidade que surge aos jornalistas depois de 20 anos de crise profissional. O público sempre procura e prefere a honestidade e essa é a base do nosso trabalho: Entregar-lhe uma informação que passou por um profissional da crítica e da análise de fontes.

Na qualidade de presidente da Associação de Imprensa Estrangeira no Peru, o ano passado fui convidado para dar uma conferência numa universidade deste país. Nessa altura centrei-me neste mesmo tema do jornalista ser o grande separador entre o trigo e o joio e concluí que, quanto mais informação houver na rede, mais necessário será o seu papel de certificador.

Este é o desafio que enfrentamos e, se conseguirmos aproveitar o momento, num futuro próximo não seremos obrigados a ouvir conferencistas dizerem que a maior empresa de media do mundo não emprega um só jornalista.


Luis Novais
luis@novais.eu