domingo, 12 de março de 2017

PARTICULA DE DEUS


Bozão,
Partícula divina.
Com ciência e com método,
alma de matéria fazer.
Máquina infernal,
espiral,
que jamais chegará,
ao que, por sonhar-se, alcançado foi.

Pobre poeta ignorado,
deslocado,
porque “louco”.
Com impalpável alma
sempre com energia matéria fez,
em energia logo refeita.
Não se moveu,
mas move o que se não move.
Não se moveu,
mas detém,
o que movendo se move.

Partícula divina,
que do nada matéria cria.
Em palavras e versos,
em versos e estrofes.
Tudo que na alma lhe vai,
em não-alma transforma,
do não ser ao Ser
do Ser ao palpável.
Partícula-por-partícula,
imaterial sonho,
substanciado.
Imortal!
Já Fausto sabia
e por isso escrevia.

Se ao fruto do saber,
do bem e do mal,
o faltante do Ser comermos,
do tempo e do eterno,
ao saber o sempre se junta.
Eis a queda de um Deus,
que já o sabia,
e por isso o impedia.

Somos fruto dum sonho,
somos sonho,
mas que sonha.
E do sonho-nada, tudo fazemos.

A ciência?
Está no poema.
Esse que tudo alcança:
O que sim, porque não,
o que não, porque sim.

Se Deus se não prova,

a Deus prova. 


Luís Novais


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

OFFSHORES, TRANSFERÊNCIAS E POLÍTICA ESPETÁCULO



A política atual é feita de casos, ora exacerbados e manipulados pela direita, ora pela esquerda. Enquanto a direita faz todos os esforços para criar uma cortina de fumo em torno da Caixa Geral de Depósitos, evitando que uma comissão de inquérito cumpra com o seu real objetivo, foi agora a vez do governo aproveitar uma notícia do Público, sobre a não publicação de estatísticas das transferências para off shores, levando-a ao parlamento pela mão do próprio primeiro-ministro, que sabe bem não haver qualquer relação entre a verdade e aquilo que insinuou.

A "Civilização do Espetáculo" ocupa a parte sombria da caverna platónica e tem pouca paciência para olhar a luz. Ainda assim, vale a pena fazer o esforço desmistificador.

E para desmistificar, primeiro há que averiguar se estes movimentos são ou não anormais. As estatísticas são conhecidas desde 2010. Nesse ano transferiram-se 2.2 mil milhões de euros, número que subiu a 4.6 em 2011, 4.3 em 2012, 4.2 em 2013, 3.8 em 2014 e é em 2015 que se atinge um pico de 8.9. 

Primeiro devemos perceber o que aconteceu em 2011 para que as transferências tenham quase duplicado, mantendo mais ou menos os mesmos valores até 2014, mas com uma tendência de descida justificada pela progressiva acalmia económica. 

Parece claro que existe aqui uma relação direta entre a entrada da Troika, o receio de bancarrota e as desconfianças relativamente à solidez da banca nacional e à sua capacidade para cobrir os depósitos. São receios que, infelizmente, a realidade confirmou e é natural que, na passagem de 2010 para 2011, quem tivesse dinheiro em Portugal o retirasse. 

Podemos tecer uma série de considerações, inclusive de falta de patriotismos e de solidariedade, mas não de ilegalidade. Que cada um avalie o que faria em 2012 se, por exemplo, ouvisse as notícias sobre o possível colapso dos bancos nacionais e tivesse 400.000 euros resultantes das poupanças duma vida de emigração, ou da venda duma empresa, duma herança ou do que seja… Um grande e anormal fluxo acontece, porem, em 2015, não sei em que mês, mas no seu blog Helena Garrido diz que terá sido depois das eleições de Outubro. Uma vez mais, isto confirmaria a tese comummente aceite de que os mercados não gostam da incerteza e sabemos a incerteza que reinou depois das eleições, não sendo difícil adivinhar que investidores e aforradores tivessem receio dum governo do PS apoiado pelos partidos à sua esquerda. Receios que, diga-se de passagem, o futuro demonstraria serem infundados.

Note-se que todo este dinheiro foi transferido de bancos para bancos, não andou a circular nos fundos falsos de malas. Se alguém crê que aquilo que tem no banco é ignoto ao fisco, desengane-se, hoje todos os movimentos estão registados e são controlados. Não temos por isso nenhuma razão para crer que tudo não tivesse sido já tributado como rendimento.

Acresce que todas estas transferências são legais. Há uma lista de países onde não seriam, mas parece-me desnecessário enumera-los.

Posto isto, a análise destes números tem interesse para quem queira estudar a psicologia dos mercados, mas nada leva a supor que possa ter relevo na análise da fuga ao fisco.



Luís Novais


Foto

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

"MENTE MAS FAZ OBRA"?


Defender Centeno nestas circunstâncias já não é possível. Aceitar que mentiu mas teve resultados, é uma versão quase direta do célebre “rouba mas faz obra”. A polis não pode aceitar estes “mas” relativamente aos que a governam.

Em vários debates defendi Mário Centeno durante a  prolongada polémica que ocorreu em torno da isenção aos administradores da Caixa. Cheguei a escrever a um amigo, deputado do PSD, reclamando do que me parecia um exagero quase farisaico.

Depois veio o depois. Primeiro, a diferença entre a data de aprovação e a publicação do famoso decreto. Aí comecei a duvidar, mas aquelas explicações de António Costa deixaram-me aquém da dúvida razoável. A plena deceção aconteceu neste último episódio, o das mensagens entre o Ministro e o indigitado presidente do banco público.

Nestas circunstâncias já não é possível defender Centeno. Aceitar que "mentiu mas teve resultados", é uma versão quase direta do célebre “rouba mas faz obra”. A polis não pode consentir estes “mas” relativamente àqueles que a governam.

Alguns amigos argumentam-me que os SMS são mensagens privadas. Curiosamente, nesse mesmo dia rejubilei com a demissão de Michael Flynn, o inenarrável conselheiro de segurança do inenarrável presidente Trump. Nem o mais clownesco sucessor de George Washington conseguiu segurar um colaborador que oficialmente mentiu, tampouco tentou esticar a corda ao ponto de dizer que as conversas telefónicas são privadas. Todos, até os mais altos responsáveis políticos, têm direito a uma vida pessoal, desde e quando esta não interfira com as funções públicas e, sobretudo, desde e quando não procurem transformar em privado aquilo que é político.

Mário Centeno caiu na ratoeira que a si mesmo armou: Mentiu e, pior, mentiu ao parlamento. Desconfio até que o presidente Marcelo já tinha conhecimento da existência destas mensagens; tenho dúvidas se as certeiras declarações sobre a inexistência de prova escrita não foram parte dum drama cujo climax acaba de se tornar público.  

Qualquer país é constituído por um corpo de cidadãos com várias funções. A maioria não se dedica à política orgânica, uns porque não sentem vocação, outros porque têm consciência das suas fragilidades. Todos temos o direito de exigir mínimos a um político: Que não se aproprie de bens públicos, que não minta… numa palavra: Honestidade, a honestidade tem de ser a essência da gestão pública. Quem falha aí, falha em tudo. E é perante esta falha que se torna incompreensível a posição da maioria parlamentar, que recorreu a meros argumentos regimentais para inviabilizar uma análise destas mensagens.

Mário Centeno é, hoje, um político sem credibilidade, um ministro no qual já não se pode confiar. Os resultados da política financeira deste governo podem ou poderiam até ser bons (eu creio que apenas não são maus, pois seguem uma tendência que já vinha do passado), os resultados sociais podem ser bons (aqui estou de acordo). Mas, se a base do sucesso financeiro dum país é a sua credibilidade, quanta resta ao ainda ministro das finanças?

“Mente mas faz obra”, a segunda afirmação está negada pela primeira.



Luís Novais
                

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

BRASIL, VITÓRIA DO ESPIRITO SANTO, DITADURAS E BALÕES DE ENSAIO



De entre esta classe política, uns passariam facilmente para o lado dos militares e, em ditadura, com censura e magistrados manietados, ser-lhes-ia fácil que, à lavagem de dinheiro, se siga a lavagem de imagem. Outros seriam as "vítimas", obtendo facilmente asilo político num país ocidental, com as contas recheadas e livres de qualquer fiscalização.

Cerca de 260.000 habitantes, localizada na região mais rica do Brasil, boas praias, um aprazível balneário para a classe média e apenas a uma hora de avião das megapolis Rio de Janeiro e São Paulo. Senhores passageiros, bem-vindos a Vitória do Espírito Santo… uma cidade que, pelo outro lado, tem a violência contida de qualquer cidade média com grandes diferenças sociais. Numa palavra, eis o balão de ensaio perfeito para quem queira fazer uma experiência sobre o resultado político duma explosão da violência.

A história é conhecida. No fim-de-semana passado alguns familiares de polícias colocaram-se frente às comissarias, impedindo os agentes de sair para as ruas. Exigem um aumento salarial de 100% e, com esta estratégia, contornaram a ordem constitucional que nega às forças da ordem o direito à greve.

Com os agentes fora de combate, instalou-se o caos e a violência: Tiroteios constantes, saqueio de lojas, de residências e perto de cem mortos em apenas quatro dias.

Falei com alguns moradores locais que desde domingo já reclamavam a presença imediata do exército nas ruas, um pedido que foi secundado pelo governador em exercício. Segunda-feira chegaram os primeiros mil soldados, mas as autoridades locais já estão a reclamar por mais.

Os adeptos da teoria do caos dirão que tudo foi uma sequência de acontecimentos não previstos e não previsíveiss. Por seu lado, os cultores da conspiração tendem a procurar a mão por detrás do boneco.

Casualidade ou planeamento maquiavélico, as consequências poderão ser as mesmas, e o que se está a passar em Vitória pode facilmente provocar-se em São Paulo ou no Rio. Se, destas duas metrópoles, tudo se estendesse a duas ou três cidades de dimensão média-grande, como são Belo Horizonte, salvador ou Porto Alegre, criar-se-ia um caos nacional, ou seja, o ambiente para que os cidadãos peçam ao exército que tome conta da situação. Nestas condições, facilmente um general-salvador-da-pátria quebra a espinha dorsal duma democracia minada pela corrupção.

Todos os crimes precisam dum motivo, e motivos não faltam. Em primeiro lugar, uma ditadura militar poderia interessar aos donos do país, uma aristocracia empresarial assente na finança, na indústria e na construção, que sempre viveu dum protecionismo que, em aliança com políticos corruptos, lhe garante ganhos fáceis. Para eles, a Democracia é descartável e, inclusive, incomoda-os ter de discutir na rua os seus projetos de “desenvolvimento”, as suas contaminações ambientais, os seus crimes contra os direitos das populações nativas. Como se começa a ver, um regime com liberdade de expressão e independência do poder judicial, já não lhes oferece mais do que a prisão.

E o que dizer duma classe de políticos que se enquistaram no sistema? Os escândalos de corrupção corroem o edifício institucional de que vivem, e tudo lhe está a correr mal desde que não funcionou essa manobra de diversão que foi destituir Dilma Roussef, uma das poucas que tem as mãos limpas. De entre esta classe política, uns passariam facilmente para o lado dos militares e, em ditadura, com censura e magistrados manietados, ser-lhes-ia fácil que, à lavagem de dinheiro, se siga a lavagem de imagem. Outros seriam as "vítimas", obtendo facilmente asilo político num país ocidental, com as contas recheadas e livres de qualquer fiscalização.

Falo com alguns amigos brasileiros e sinto esse ambiente, essa ideia de que a Democracia que têm não se consegue reformar a si mesma. Muitos vivem a ilusão de que uma ditadura seria menos corrupta, esquecendo-se que é graças à liberdade de expressão e à independência do poder judicial que a corrupção está a ser atacada. Entre perder o coração com anestesia, ou o dedo a sangue frio, alguns parecem inclinados para a primeira opção.

É por isso que estou muito atento e preocupado com o que se passa na cidade de Vitória. A situação em que está o  Brasil não é muito diferente da de outros países, não só da América latina. E aí, em vez dum balão de ensaio, teríamos um efeito dominó…



Luís Novais



quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

OS GATOS E O SACO DE ANTÓNIO COSTA



Estas décadas de História já nos deveriam ter ensinado que sacrificar o amanhã em nome de falsas unanimidades hoje, traz maus resultados.

António Costa é perito nas quadraturas de círculo, mas agora faltou-lhe um dos ângulos. Fez um acordo com a esquerda para derrotar a direita e para isso assumiu compromissos. Para cumprir esses compromissos fez um acordo que em parte contraria os parceiros da esquerda. Para derrotar estes e ao mesmo tempo cumprir com o que lhes prometeu, queria um acordo com a direita, essa contra a qual já antes se coligara com os mesmos que precisa agora de derrotar.

Esta é a parte da questão que pertence ao jogo partidário, e só não nos surpreende porque já estamos habituamos. O pior é quando os jogos de poder nos tocam a nós e, para se sustentarem no presente imediato, os políticos põe em causa o futuro de todos.

Não é preciso explorar aqui a instabilidade do edifício da nossa segurança social, corroído por problemas demográficos e por modelos de compensação que foram pensados no tempo em que o presente era apenas o futuro, um erro que António Costa se preparava para repetir e que foi já antes cometido por muitos pretensos senadores da república, que agora rasgam as vestes contra a posição de Passos Coelho.

Estas décadas de História já nos deveriam ter ensinado que sacrificar o amanhã em nome de falsas unanimidades hoje, traz maus resultados. É por isso que sou contra este acordo, no qual duma geringonça se quer fazer um saco onde caibam cada vez mais gatos.

Tenho basicamente três motivos para isso:

1. Sacrifica-se o futuro ao presente. Esta questão é precisamente aquele que acabo de referir. Os defensores do acordo dizem que ele é neutro porque o aumento de salários vai significar um crescimento de receitas nas contribuições sociais, que compensa a quebra. Esquecem-se que qualquer aumento não é neutro no futuro, esse mesmo que não se importam de sacrificar para ficarem um pouco mais confortáveis no presente

2. Desconfio dos políticos. Claro que pode sempre surgir o argumento de que a perda de receita é diminuta, ou tendente a zero. O problema é a porta que se abre: Se aceitamos este princípio agora, não faltarão soluções idênticas para os mais díspares problemas no futuro. Agora é o salário mínimo, depois vem a economia global e a concorrência dos países sem modelo social adequado, depois é a competitividade das empresas e mais e mais e mais… A tudo isto, digo Não, mas um Não rotundo: As verbas sociais são sagradas, são justas e não devemos deixar cair esse princípio em nome de nada.

3. Agrava o problema do trabalho. Já aqui defendi noutra ocasião que o Estado não se deve meter com as empresas quando estas decidem substituir o trabalho pela tecnologia. É uma opção económica legítima e que, a prazo, liberta o ser humano para funções por ventura mais valiosas e compensadoras. Mas se o Estado não deve intervir para impedir, tampouco o deve fazer para incentivar e isso é o que está a fazer, quando taxa socialmente o trabalho em vez da produção (ver aqui: Para Acabar com a Taxa Social sobre o Trabalho). Quando um Governo faz aquilo que Costa pretende, atinge-se o grau máximo do incentivo à degradação: Impulsiona-se a opção pelo trabalho com a remuneração mínima, quando o estímulo, a existir, deveria ser o contrário.

Uma referência final para regressar à questão partidária. Muitos têm atacado Pedro Passos Coelho por uma hipotética incoerência já que, dizem, ele mesmo já defendeu a diminuição da Taxa Social Única. Entre estes, a primeira linha é formada por uma brigada do reumático do PSD, encabeçada por nomes como Silva Peneda ou Manuela Ferreira Leite que, aliás, tem uma argumentação de que nem Ricardo Araújo Pereira se lembraria para os seus Gatos Fedorentos: Acha que está mal, mas Passos Coelho não deveria fazer nada!

Este é um peditório de luta partidária para o qual não dou. Se Coelho pensou assim e agora pensa diferente, melhor para nós. Pior para nós quando, na antítese, Costa não pensava assim e agora pensa.


Luís Novais

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

PORTUGAL E A CADA VEZ MAIOR DESUNIÃO EUROPEIA


Já não tinha dúvidas mas, se as tivesse, tê-las-ia perdido sobre a periclitante situação europeia e, desculpem se agora penso mais em nós do que nos outros, o que me preocupa é a impreparação dos nossos políticos e esta apatia cidadã. Claramente, estamos a seguir um caminho de forma monolítica, sem pensar que, de repente, tudo se nos pode escapar debaixo dos pés.
Enquanto um quase presidente e uma ainda chanceler se desentendem em público, convém lembrar que a União Europeia e a Nato são os dois esteios em que assentam as nossas políticas económicas e de defesa. Se a Alemanha é a maior potência da Europa, os Estados Unidos são o suporte da aliança militar. Sem os alemães acaba a União Europeia, sem os americanos acaba a Nato e sem cooperação entre os dois lados do Atlântico acabam ambas, iniciando-se uma nova era, que ainda ninguém entendeu muito bem como será.
É certo que nunca sabemos quando é que Trump planifica ou não o seu discurso, mas não pode ser por acaso que tenha escolhido uma entrevista a dois jornais europeus, The Times e Bild, para lançar algumas frases que, proferidas por uma mente com critério, seriam bombas: “Acho que o Brexit foi uma grande coisa”, “Outros países vão deixar a União Europeia”, “(A União Europeia) é basicamente um instrumento para a Alemanha”.
Surpreende a reação, ou antes, a não reação deste lado do Atlântico. Além duma dureza moderada da chanceler, não ouvi qualquer outro líder rechaçar tamanhas declarações, exceto a insignificante alta representante da UE para as relações externas, Frederica Mogherini, mesmo assim de uma forma tíbia e quase duvidando daquilo afirmava. Não, não criticou Trump por se meter na vida europeia, disse apenas que “respeito a opinião do quase presidente dos Estados Unidos”. Não, não fez uma declaração forte e segura sobre a solidez do edifício europeu, limitou-se a completar aquela frase com um “…mas penso que a União Europeia ficará OK no futuro”. Isto depois de ter dito “Eu penso que a União Europeia continuará junta”… ouvi bem?  Disse “Eu penso que…”? E isto para já não referir a forma como falou, cheia de interjeições e apresentando-se com a postura de quem não está mesmo nada convicta daquilo que afirma.
A única conclusão é que a Europa já não tem líderes capazes de por ela lutarem e de por ela darem a cara. A eurocracia deixou esse caderno de encargos a uma burocrata quase insignificante e, enquanto Trump crava punhaladas na União, Marcelo Rebelo de Sousa estava contente porque teve direito a 12 minutos de conversa telefónica. Depois da eleição norte-americana, suponho que o cabo transatlântico foi sobrecarregado pelas chamadas dos chefes de estado e de governo europeus, certamente alguns com direito a um bocado mais dos que os tais 12 minutos.
Já não tinha dúvidas mas, se as tivesse, tê-las-ia perdido sobre a periclitante situação europeia e, desculpem se agora penso mais em nós do que nos outros, o que me preocupa é a impreparação dos nossos políticos e esta apatia cidadã. Claramente, estamos a seguir um caminho de forma monolítica, sem pensar que, de repente, tudo se nos pode escapar debaixo dos pés.
Que pelo menos a cidadania comece a discutir as vias alternativas, que se comecem a traçar novos caminhos, a vislumbrar outros espaços naturais em que nos possamos integrar.
Eu, que sempre me senti atlântido, acredito que temos opções. Independentemente da via, é urgente sair desta fase de negação. Há uma grande probabilidade de que o espaço geoestratégico em que nos movemos durante estes 30 anos deixe de existir. Nessa situação, se não queremos que também o nosso país caia nas mãos de demagogos ou, até, de ditadores de pacotilha, temos de definir, e claramente, para onde e como vamos?


Luís Novais

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

SENTIMENTO EM TORNO DA MORTE DE SOARES



Todo este foi o meu sentimento quando assisti na televisão a esse fim dos tempos representado por aquele réquiem, por aqueles discursos, aquelas caras, aquele caixão justamente coberto pela bandeira nacional, aquela voz declamante de Maria Barroso. Talvez estejamos exaustos, não sei, talvez nos sobrem os falsos banqueiros, os políticos corruptos, os governantes que insistem trilhar chão que já não vive. Talvez. Mas credito, quero acreditar, que temos alternativas, que ainda contamos com os Soares e com os Sás Carneiro, que ainda temos cepa para concretizar. Afinal, a energia, toda a energia, é o sonho.

Gosto de sentir antes de escrever e não escrevo enquanto não sinto. Mais a mais quando quero falar de algo e alguém sobre cuja vida e morte já tudo e de tudo se disse; do mais laudatório ao mais infamante, do bem fundamentado ao que se baseia em boatos que não resistem a uma rápida verificação. Refiro-me a Mário Soares, claro.

Tive o sentimento que me levou à escrita quando na televisão vi partes da cerimónia fúnebre, com os discursos dos filhos do ex-presidente entrecortados pelo som do réquiem, com a sua imagem entrecortada pela dos que estavam presentes e pela dum caixão de Bandeira Nacional coberto.

Nesse preciso momento, tive um sentimento de grande perda, mas não, não me refiro ao homem cuja morte naturalmente lamento e me pesa, refiro-me à História. Naquele preciso momento senti que era a nossa História, um dos seus períodos, que estava a ser enterrada, que toda a celebração era um adeus, não a alguém, mas a uma época.

Soares era um homem mais do que feito quando se deu o 25 de Abril, tinha 50 anos. O seu percurso foi o duma geração que começou por sonhar democracia e por ela lutou, essa mesma a que pertenceu também outro dos pais fundadores do nosso regime, Sá Carneiro.

Depois de dar tudo por tudo pelo modelo de regime, essa geração teve de encontrar uma alternativa ao sistema económico fechado e colonial que era anteriormente vigente. A descolonização foi e teve de ser apressada, não por culpa de Soares ou de alguém depois de 1974, mas por criminosa negação daqueles que antes nos governaram e que, por se recusaram a entender o seu tempo, agiram exclusivamente a seu modo.

Economicamente, o modelo de “capitães de indústria” em que assentava o tecido empresarial salazarista também já estava esgotado e não resistiria a uma competição fora dos mercados protegidos com que antes contavam. Que eu saiba, ainda ninguém se dedicou a fazer um sério estudo sobre a situação económica dos grandes conglomerados industriais e financeiros que se desmoronaram em 1974. Quando isso for feito, desconfio que vamos ter surpresas ainda maiores do que aquelas que tivemos recentemente, quando nos inteiramos do estado em que estavam as nossas maiores empresas, os nossos maiores bancos… com a diferença que estes últimos não tiveram a sorte duma revolução que pudessem culpar, que lhes lavasse a imagem, que os transformá-se em vítimas de suposta espoliação.

Para aqueles que em 1974 sonhavam com uma democracia de cariz ocidental, não restava outra via política e económica que não fosse a europeia, e foi essa hipótese que agarraram com unhas e dentes. Soares formalizou o pedido de adesão em 1977, Sá Carneiro continuou-o e, finalmente, seria um Soares novamente primeiro-ministro e já candidato a presidente quem assinou o tratado de adesão em 1986. Lembro-me bem desse momento; talvez o facto de ter decorrido naquele mesmo espaço dos Jerónimos, esse onde agora nos despedíamos, tenha sido a ironia que faltava para me provocar este sentimento de estar a assistir a um fim de ciclo.

Coube depois a Cavaco Silva operacionalizar a adesão, coisa que fez de forma medíocre, usando os recursos disponíveis para pequena política, esbanjando, aliando-se a uma elite cleptómana e devolvendo os grupos empresariais às mesmas famílias que os detinham antes de 1974. O custo da desastrosa situação que hoje vivemos, não é dos que nos sonharam europeus, mas dos que, depois disso, nos conduziram até aqui. Entre eles, o primeiro posto é ocupado por Cavaco Silva, mas está igualmente acompanhado por Guterres e por essa inenarrável cereja no topo do bolo que ainda se pensa político e se chama Sócrates. Passos Coelho, com a sua frontalidade, António Costa, com a sua malabarista bonomia, são tão vítimas destas duas décadas e meia como todos nós, e a única culpa que carregam é a de não serem suficientemente visionários e estadistas para conseguirem apresentar aos portugueses o sonho duma alternativa, coisa que os pais da nossa democracia, bem ou mal, conseguiram a seu tempo fazer.

Hoje, vemos os portugueses mais capacitados abandonarem o país, recusando-se com isso a meter nos cofres públicos o que foi desviado para bolsos privados, temos um tecido empresarial que, apesar das exceções, não consegue competir globalmente, existimos numa União Europeia em desmembramento acelerado, olhamos atónitos para os Estados Unidos transformados numa Roma de imperador incendiário…  Esta é a hora, tem de ser a hora, para repensar a geoestratégia nacional, para voltar a sonhar alternativas, para apontar e trilhar novos caminhos.

Todo este foi o meu sentimento quando assisti na televisão a esse fim dos tempos representado por aquele réquiem, por aqueles discursos, aquelas caras, aquele caixão justamente coberto pela bandeira nacional, aquela voz declamante de Maria Barroso. Talvez estejamos exaustos, não sei, talvez nos sobrem os falsos banqueiros, os políticos corruptos, os governantes que insistem trilhar chão que já não vive. Talvez. Mas credito, quero acreditar, que temos alternativas, que ainda contamos com os Soares e com os Sás Carneiro, que ainda temos cepa para concretizar. Afinal, a energia, toda a energia, é o sonho.




Luís Novais