Vejo pelas ruas
um poeta que chora.
Chora para não chorar.
Pena da humanidade,
para destino seu não penar.
Chora não chorando.
Damos tanto pela pouca matéria,
nada pelo muito espírito.
A matéria que a vista alcança
pelo espírito que tudo pensa.
Nem do aprendido já, aprendido fazemos:
Que do menos que nas coisas há, nada mais se retira.
E investimos, como loucos investimos,
para chegar ao muito que há,
partido do não havido.
Impossível entender o que É, e que é,
com o que não sendo, apenas é.
Um, É.
Outro, está.
O que está não alcança o que É,
o que É, o que está é também.
Destruam a helvética e franca máquina; essa mesma!
Processem-na por inútil.
Quebrem-na com a raiva
do constatado erro; vosso.
O que está em pensamento,
só com pensamento se alcança.
Da ciência façam poesia,
da poesia, ciência.
E já lá vai o poeta,
vai de pijama pela rua,
aquele com bolinhas azuis,
esse que veste para sonhar.
E sonhando, à particula chegou.
Mas porque de pijama, ninguém o escuta.
Tampouco a ninguém se dirige.
Não tem tempo: encontrou.
Tivesse ele uma bata branca...
mas não sonharia, caramba!
E não sonhando não acharia.
É por isso que apenas segue,
sabendo sem ser ouvido.
Segue para não parar,
vestido com o que veste,
chorando para não chorar.
Luís Novais
domingo, 23 de abril de 2017
quarta-feira, 22 de março de 2017
A CRISE DE POESIA
Falar de crise com números, é esconder a luz com a sombra, a causa com o
efeito: Temos uma crise, sim, mas de poesia.
Calhou-me ler a “História do Futuro”
do Padre António Vieira (1608-1697), sendo dia mundial da poesia e lendo esta passagem: “O ofício
e obrigação dos poetas não é dizerem as cousas como foram, mas pintarem-nas
como haviam de ser, ou como era bom que fossem”. Uma declaração que encontra
mais sentido no contexto em que o “Imperador da língua portuguesa”, como lhe chamou
Pessoa, escreveu esta obra: Espécie de anúncio dum futuro glorioso, que se
seguiria às provações que o Portugal de então experimentava.
Isto conduz-nos diretamente para o
papel da poesia e da literatura, numa sociedade que vive um positivismo em
crise, que navega uma ciência que não pode dar todas as respostas humanas, que
ora numa universidade que herdou os erros dos templos sagrados, sem conseguir
dar o absoluto que estes ofereciam.
Vieira fala-nos da importância da
profecia, o nome escatológico para mito, ou, numa linguagem mais laboratorial,
para utopia. Entre vários exemplos, contempla o de Alexandre Magno, que
construiu um império graças à força que lhe deu uma promessa, que o fez partir “vitorioso
para a conquista que lhe restava do mundo oriental, o qual sujeitou e uniu todo
ao seu império”. Porém, diz, “o que mais admira nas conquistas e vitórias de
Alexandre, é a desigualdade de meios com que entrou em tão imensa empresa (…),
saiu da Macedónia com menos de quarenta mil homens, bastimentos para trinta
dias, e com setenta talentos para estipêndios”. Onde estava então a força? Na profecia,
a mesma que dava alento aos seus para avançar e aos conquistados para recuar. “Tanta
parte teve a profecia nas ações deste grande capitão e no império deste grande
monarca, o qual, se deve a Filipe ser Alexandre, deve (ao profeta) Daniel o ser
Magno!”
O assumir do papel psicológico do
mito, é depois canalizado para a própria história de Portugal: O prenúncio que
o ermitão de Ourique terá feito a Afonso Henriques nas vésperas da batalha. Estaríamos
perante uma espécie de mito fundador da nacionalidade, assegurado que já estava
ao príncipe ser vontade divina que este fosse rei e Portugal reino. É graças a
tal graça, que Afonso “rompe os esquadrões, desbarata o exército, mata, cativa,
rende, despoja, triunfa; e alcançada na mesma hora a vitória, e libertada a
pátria, pisa glorioso as cinco coroas mauritanas e põe na cabeça, já rei, a
portuguesa”.
Se “isto obraram as profecias
daquela noite na guerra”, mais ainda “mostraram os seus poderes na conquista”,
e aqui António Vieira entra diretamente nos descobrimentos e no peso que o mito
teve na coragem com que os navegantes enfrentaram esse mar que Pessoa viria a
dizer português: “Que trabalhos, que vigias, que fomes, que sedes, que frios,
que calores, que doenças, que mortes não sofreram e suportaram, sem ceder, sem
parar, sem tornar atrás, insistindo sempre e indo avante”. E porquê? Porque “sabiam
que tinha Cristo prometido a seu primeiro rei que os escolhera para argonautas
apostólicos de seu evangelho”.
Estas palavras escritas por volta
de 1650 fazem refletir, não só sobre o nosso tempo, mas sobre o papel da
utopia, transfiguração moderna do conceito de que Vieira fala. Escreveu numa
época de crise nacional, estava a restauração recém-iniciada e em curso uma
série de batalhas com Espanha, que só culminariam com o Tratado de Lisboa em
1668. Ante a ameaça que pendia sobre o reino, fala-nos da importância da
profecia, como ponto partida para uma outra e nova que ele mesmo adiantaria algumas
páginas mais adiante: A do grande futuro que estava fadado a Portugal, como
cabeça dum quinto império que converteria o mundo ao cristianismo.
O objetivo de António Vieira não só
é claro, como ele próprio faz questão de que seja claro aos hermeneutas: Há que
sonhar, para vencer as agruras do presente, sublimando-as na promessa dum futuro
grandioso, numa palavra, uma utopia.
Em seguintes períodos de crise
nacional, outros lhe seguiram as pisadas. Nem é preciso fazer referência à
situação em que se encontrava a Europa, o mundo e Portugal em 1934, para estabelecer
uma ligação direta à “Mensagem” de Fernando Pessoa. “A Europa jaz posta nos
cotovelos”, diz, mas “Fita com olhar esfíngico e fatal,/O Ocidente, futuro do
passado”, e “O rosto com que fita é Portugal”. Uma Europa que 16 anos antes se digladiara
no confronto mais mortal de que havia memória, que enfrentava ainda os efeitos
da grande recessão, e um Portugal exausto que, nove anos antes do nascimento de
Pessoa, já Oliveira Martins anunciara morto de exaustão desde 1580 e uma espécie
de morto vivo depois da restauração. O Pessoa de “Mensagem” vive numa Europa
sob dois ecos, os da Primeira Guerra, e os que já anunciavam a Segunda. Viveu a
primeira infância num país abalado pela bancarrota de 1892-1902, espécie de
bater no fundo dum século em que as finanças públicas rebentaram por seis
vezes. Seguiu-se-lhe uma república que não foi capaz de sobreviver às suas
próprias contradições e promessas. A obra foi escrita um ano depois da
constituição de 1933, que marca uma viragem política e consolidaria essa
ditadura que só encontrará fim em 1974.
E o que é “Mensagem” se não uma “História
do Futuro” do século XX? Um assumir dos heróis, transfigurados em castelos, dos
mártires da pátria, nas quinas. As agruras do presente são promessa de grandes
futuros, “Os Deuses vendem quanto dão/ Compra-se a glória com desgraça”. Que
resta aos mortais, que não aceitar e enfrentar tamanha dureza, se esta é forja
de glórias? Já o mesmo pensamento na antiguidade, em Homero, quando, perto de
arremeter contra as muralhas de Troia, Sárpedão diz a Glauco:
“Meu amigo, se tendo fugido desta guerra pudéssemos
viver para sempre isentos de velhice e imortais,
nem eu próprio combateria entre os dianteiros
nem te mandaria a ti para a refrega glorificadora
de homens.
Mas agora, dado que presidem os incontáveis
destinos
da morte de que nenhum homem pode fugir ou
escapar,
avancemos, quer outorguemos glória a outro, ou ele
a nós.”
Ideia muito clara: O sublime é motor
da humanidade, quer seja uma fé, uma ideologia, uma lenda, uma profecia. Por
ser grande, a utopia é coletiva, e porque coletiva sempre cumpriu a função de
unificar cada homem ao Homem, à espécie, à humanidade. E essa unificação é a que
permite fundir o olhar individual no global, é daqui que nascem os grupos, as
nações, e com elas a caminhada e um destino que, apesar de a posteriori, tem origem numa certeza apriorística.
O dia mundial da poesia é, talvez,
o momento para dizer que o mal de que padecem Ocidente, Europa e Portugal, é o desperdício
da função do poeta. Tem caminho mas não destino, quem troca o cifrão pela
palavra, a estrofe pelo algoritmo, a técnica pela paixão, o sonho pela prática,
a ambição pelo deficite, Ulisses pelo eurocrata. Falar de crise com números, é
esconder a luz com a sombra, a causa com o efeito: Temos uma crise, sim, mas de
poesia.
Luís Novais
segunda-feira, 20 de março de 2017
VENCEDORA DERROTA
Perder:
Não ser sonho
que outro sonhou
em sonho que é seu.
Ganha-se então;
triunfo aparente,
alma derrota.
Perdidos,
encontramos, ganhando.
Vencedores,
ganhamos, perdendo.
Ganhar:
O vencer não sido,
pelo ser perdido.
domingo, 19 de março de 2017
RAZÃO, AMOR e NOÉ
Sou do não tempo,
antes do que é.
Voltará:
quando hoje tenha sido.
Luzes para crer,
não crendo sem luz.
Passado foi, tempo meu.
Não amo bom criador
que não vejo nem sinto,
mas criação, nem boa nem má.
Alguém levará hoje,
ao tempo que será,
esse tempo que foi.
Amanhã serei, quando não seja.domingo, 12 de março de 2017
PARTICULA DE DEUS
Bozão,
Partícula divina.
Com ciência e com método,
alma de matéria fazer.
Máquina infernal,
espiral,
que jamais chegará,
ao que, por sonhar-se, alcançado foi.
Pobre poeta ignorado,
deslocado,
porque “louco”.
Com impalpável alma
sempre com energia matéria fez,
em energia logo refeita.
Não se moveu,
mas move o que se não move.
Não se moveu,
mas detém,
o que movendo se move.
Partícula divina,
que do nada matéria cria.
Em palavras e versos,
em versos e estrofes.
Tudo que na alma lhe vai,
em não-alma transforma,
do não ser ao Ser
do Ser ao palpável.
Partícula-por-partícula,
imaterial sonho,
substanciado.
Imortal!
Já Fausto sabia
e por isso escrevia.
Se ao fruto do saber,
do bem e do mal,
o faltante do Ser comermos,
do tempo e do eterno,
ao saber o sempre se junta.
Eis a queda de um Deus,
que já o sabia,
e por isso o impedia.
Somos fruto dum sonho,
somos sonho,
mas que sonha.
E do sonho-nada, tudo fazemos.
A ciência?
Está no poema.
Esse que tudo alcança:
O que sim, porque não,
o que não, porque sim.
Se Deus se não prova,
a Deus prova.
Luís Novais
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017
OFFSHORES, TRANSFERÊNCIAS E POLÍTICA ESPETÁCULO
A política atual é feita de casos, ora exacerbados e manipulados pela direita, ora pela esquerda. Enquanto a direita faz todos os esforços para criar uma cortina de fumo em torno da Caixa Geral de Depósitos, evitando que uma comissão de inquérito cumpra com o seu real objetivo, foi agora a vez do governo aproveitar uma notícia do Público, sobre a não publicação de estatísticas das transferências para off shores, levando-a ao parlamento pela mão do próprio primeiro-ministro, que sabe bem não haver qualquer relação entre a verdade e aquilo que insinuou.
A "Civilização do Espetáculo" ocupa a parte sombria da caverna platónica e tem pouca paciência para olhar a luz. Ainda assim, vale a pena fazer o esforço desmistificador.
E para desmistificar, primeiro há que averiguar se estes movimentos são ou não
anormais. As estatísticas são conhecidas desde 2010. Nesse ano
transferiram-se 2.2 mil milhões de euros, número que subiu a 4.6 em 2011, 4.3 em
2012, 4.2 em 2013, 3.8 em 2014 e é em 2015 que se atinge um pico de 8.9.
Primeiro devemos perceber o que aconteceu em 2011 para que as
transferências tenham quase duplicado, mantendo mais ou menos os mesmos valores
até 2014, mas com uma tendência de descida justificada pela progressiva acalmia
económica.
Parece claro que existe aqui uma relação direta entre a entrada da
Troika, o receio de bancarrota e as desconfianças relativamente à solidez da
banca nacional e à sua capacidade para cobrir os depósitos. São receios que,
infelizmente, a realidade confirmou e é natural que, na passagem de 2010 para
2011, quem tivesse dinheiro em Portugal o retirasse.
Podemos tecer uma série de
considerações, inclusive de falta de patriotismos e de solidariedade, mas não
de ilegalidade. Que cada um avalie o que faria em 2012 se, por exemplo, ouvisse
as notícias sobre o possível colapso dos bancos nacionais e tivesse 400.000
euros resultantes das poupanças duma vida de emigração, ou da venda duma
empresa, duma herança ou do que seja… Um grande e anormal fluxo acontece,
porem, em 2015, não sei em que mês, mas no seu blog Helena Garrido diz que terá
sido depois das eleições de Outubro. Uma vez mais, isto confirmaria a tese comummente
aceite de que os mercados não gostam da incerteza e sabemos a incerteza que
reinou depois das eleições, não sendo difícil adivinhar que investidores e
aforradores tivessem receio dum governo do PS
apoiado pelos partidos à sua esquerda. Receios que, diga-se de passagem, o futuro demonstraria serem infundados.
Note-se que todo este dinheiro foi transferido de bancos
para bancos, não andou a circular nos fundos falsos de malas. Se alguém crê que
aquilo que tem no banco é ignoto ao fisco, desengane-se, hoje todos os
movimentos estão registados e são controlados. Não temos por isso nenhuma razão
para crer que tudo não tivesse sido já tributado como rendimento.
Acresce que todas estas transferências são legais. Há uma
lista de países onde não seriam, mas parece-me desnecessário enumera-los.
Posto isto, a análise destes números tem interesse para quem
queira estudar a psicologia dos mercados, mas nada leva a supor que possa ter
relevo na análise da fuga ao fisco.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017
"MENTE MAS FAZ OBRA"?
Em vários debates defendi Mário
Centeno durante a prolongada polémica que ocorreu em
torno da isenção aos administradores da Caixa. Cheguei a escrever a um amigo, deputado do PSD, reclamando do que me parecia um exagero quase farisaico.
Depois veio o depois. Primeiro, a diferença entre a data de aprovação e a publicação do famoso decreto. Aí comecei
a duvidar, mas aquelas explicações de António Costa deixaram-me aquém da dúvida
razoável. A plena deceção aconteceu neste último episódio, o das
mensagens entre o Ministro e o indigitado presidente do banco público.
Nestas circunstâncias
já não é possível defender Centeno. Aceitar que "mentiu mas teve resultados", é uma versão quase
direta do célebre “rouba mas faz obra”. A polis não pode consentir estes “mas” relativamente àqueles que a governam.
Alguns amigos argumentam-me que
os SMS são mensagens privadas. Curiosamente, nesse mesmo dia rejubilei com a
demissão de Michael Flynn, o inenarrável conselheiro de segurança do inenarrável
presidente Trump. Nem o mais clownesco sucessor de George Washington conseguiu
segurar um colaborador que oficialmente mentiu, tampouco tentou esticar a corda ao ponto de
dizer que as conversas telefónicas são privadas. Todos, até os mais altos responsáveis
políticos, têm direito a uma vida pessoal, desde e quando esta não interfira
com as funções públicas e, sobretudo, desde e quando não procurem transformar em
privado aquilo que é político.
Mário Centeno caiu na ratoeira
que a si mesmo armou: Mentiu e, pior, mentiu ao parlamento. Desconfio até que o
presidente Marcelo já tinha conhecimento da existência destas mensagens; tenho dúvidas se as certeiras declarações sobre a inexistência de prova escrita não foram
parte dum drama cujo climax acaba de se tornar público.
Qualquer país é constituído por
um corpo de cidadãos com várias funções. A maioria não se dedica à política orgânica,
uns porque não sentem vocação, outros porque têm consciência das suas
fragilidades. Todos temos o direito de exigir mínimos a um político: Que não se
aproprie de bens públicos, que não minta… numa palavra: Honestidade, a honestidade
tem de ser a essência da gestão pública. Quem falha aí, falha em tudo. E é
perante esta falha que se torna incompreensível a posição da maioria
parlamentar, que recorreu a meros argumentos regimentais para inviabilizar uma análise destas mensagens.
Mário Centeno é, hoje, um
político sem credibilidade, um ministro no qual já não se pode confiar. Os
resultados da política financeira deste governo podem ou poderiam até ser bons
(eu creio que apenas não são maus, pois seguem uma tendência que já vinha do
passado), os resultados sociais podem ser bons (aqui estou de acordo). Mas, se
a base do sucesso financeiro dum país é a sua credibilidade, quanta resta ao
ainda ministro das finanças?
“Mente mas faz obra”, a segunda
afirmação está negada pela primeira.
Luís Novais
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