quarta-feira, 11 de outubro de 2017

A lei sempre foi feita pela História. Não conheço nenhum caso em que tenha sido ao contrário.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

FORÇA E DIÁLOGO NA QUESTÃO CATALÃ


Não é pela imposição que isto se resolve, já temos História suficiente para saber que a brutalidade gera brutalidade, que o ódio gera ódio, que o silenciamento conduz à revolta.

“Morte na Arena” foi o título da reflexão que escrevi no dia 3 de outubro, sobre a questão catalã. Manifestava a minha incompreensão diante da atitude radicalmente imperialista de Rajoy, assim como pelo secessionismo sem regras de Puidgemont. Num certo sentido, punha-me ao lado daqueles que, uns dias depois, se vestiriam de branco, apelando ao diálogo e ao compromisso.

As democracias maduras vivem dessa capacidade de estabelecer pontes, de assumir diferenças, procurar locais de encontro e, quando não é de todo possível, concordar que não concordam e encontrarem formas cordatas de saída. Os edifícios institucionais e legislativos blindados, que não permitem qualquer desvio a uma linha traçada e que criminalizam a discordância, são próprios, ou de ditaduras, ou de democracias débeis.

Compreende-se que a Constituição espanhola de 1978 fosse fechada. Afinal, o país via a seu lado um outro, Portugal, onde o processo de transição acabava de resultar dum período revolucionário gerador de uma grande instabilidade e de potenciais ajustes de contas, que afinal não se verificaram. A sociedade espanhola tinha bem vivo o trauma duma guerra civil sem limites e duma ditadura sanguinária. Nestas circunstâncias, é natural que tivesse temor de si mesma; qualquer brecha poderia ser como aquele pequeno furo numa grande represa.

Entretanto passaram 40 anos. Se, em quatro décadas, esta democracia não atingiu maturidade para permitir uma sociedade que negoceia, então têm razão os catalães mais independentistas por quererem construir a sua própria.

No discurso de hoje, Puidgemont começou por descrever o caminho que levou à situação atual: Uma constituição fechada, que foi aprovada como sendo o início duma mudança positiva, mas que, ao contrário, se transformou num monumento ao imobilismo. O estatuto catalão, amplamente negociado com Madrid, aprovado nos parlamentos nacional e autonómico em 2004, subscrito em referendo por 74% dos catalães, mas que um Rajoy, digno discípulo do caudillo, conduziu ao tribunal constitucional e conseguiu anular. Um referendo, o de 2014, sem caracter vinculativo, organizado por Artur Mas, então líder da Generalitat, que assumidamente não tinha outra consequência que não fosse auscultar o povo catalão, que teve 81% de votos a favor da opção por um Estado independente, mas que, apesar de não ser vinculativo, foi criminalizado e Mas condenado à inabilitação para exercer cargos elegíveis e a uma multa de 5 milhões de euros a favor do Estado espanhol…

Esta atitude de Madrid, não é duma Democracia digna desse nome,  muito menos a reação brutal com que se procurou evitar o referendo do dia 1 de outubro.

Por outro lado, neste processo, também Puigemont saltou todas as barreiras legais, também ele enfrentou e tampouco facilitou o diálogo, como deveria, por muito que a outra parte não desse mostras de qualquer abertura negocial.  Hoje porém, deu aquele passo que me parece ser o dos que estendem a mão e estão dispostos a conversar.

No discurso de hoje, o lider da Generalitat tinha três hipóteses:

                Primeira: Fazer tudo como ele mesmo e uma parte, talvez maioritária, da sociedade catalã querem, declarando a independência unilateral, sem importar-se com Espanha e com aquela outra parte da mesma sociedade catalã que não quer ir por essa via, dando-se o caso de que possa ser maioritária.
Segunda: Fazer tudo como Rajoy, a maioria dos espanhóis e um setor relevante ou maioritário da sociedade catalã querem, recuando em toda a linha, negando-se a si mesmo e humilhando os milhões de catalães que querem formar um estado independente, e que ainda agora foram já amplamente humilhados pelo comportamento abusivo de Madrid durante este processo
Terceira: Avançar um passo na direção que pretende, sem fechar a porta a uma negociação e, até, pedindo-a

Optou por esta terceira via, e defendo que ainda bem. Hoje está bem claro que Espanha tem um problema político que não se resume na Catalunha e que precisa de encontrar formas inteligentes para resolvê-lo, a bem da sua própria unidade ou, no mínimo, da convivência futura. E não é pela imposição que isto se resolve, já temos História suficiente para saber que a brutalidade gera brutalidade, que o ódio gera ódio, que o silenciamento conduz à revolta.

Não sei se esta Madrid de Rajoy estará à altura do momento histórico, tenho muitas dúvidas, mas espero estar enganado, assim como enganado acaba de provar Puigemont que eu estava em relação a ele mesmo. Estender a mão nestas circunstâncias não é sinal de debilidade mas de força. Oxalá que o outro lado não tenha a debilidade da força.



Luís Novais

terça-feira, 3 de outubro de 2017

MORTE NA ARENA. Castela e Catalunha: Crónica da imbecilidade humana


Custa acreditar. Um primeiro-ministro radicalmente intransigente, autoridades autonómicas que não recuam um milímetro, uma polícia estupidamente brutal, a rua que não se rende. E no fim, o rei, esse rei que podia ser rei real, e afinal é rei momo, incapaz de assumir a sua responsabilidade histórica, que pega na espada de matador e quer também dar uma estocada, nessa mesma arena onde já ficaram tantos, assim dos que foram para morrer e viveram, como dos que foram para matar e morreram.

Ninguém entendeu tão bem Espanha na metáfora duma corrida de touros como Hemingway. O toureiro e o orgulho do toureiro, o touro fero, o confronto brutal, onde se joga a vida e o sangue, literalmente. E por fim a glória de viver ou morrer, enfrentando o risco, morrer para viver ou viver para, orgulhosamente, morrer.

Noutros azimutes, Georges Bataille entendeu o significado antropológico dum conflito, onde a parte sacrificada se santifica, por deixar de ser parte, una, individual, para se emular no todo, no eterno plotoch primitivo, nesse holocausto em que, aos deuses, os Ulisses ofereceram latejantes carnes taurinas.

Voltando ao touro e ao toureiro: Não é viável o recuo, recuar é profano num ritual que se repete, olhos raiados em olhos raiados, em sangues que se vertem e se misturam, em tragédia que constrói o ser. Alguém tem de morrer, seja touro, glorificado pela bravura, seja toureiro, herói eternamente recordado porque à vista de todos deu vida para que todos sejam todos. Entre o touro e o toureiro estabelece-se uma aliança que não pode ser quebrada, que se quebra se uma das partes recua e desiste de destruir a outra, de aniquilar, dessangrar.

O que parece incompreensível na questão catalã, é isto. Como é que duas partes se enfrentam sem deixar margem de recuo, resquício de negociação, possibilidade de ambos darem um passo atrás para que ambos possam seguir vivos? Não, não lhes é possível: A vida é uma arena, um deles tem de morrer!

Não conseguimos entender o ponto a que se chegou  sem olhar para esta luta literal em que tantas vezes se transformam os metafóricos touro e toureiro.

Quanto aos fundamentos históricos, há-os para todos os gostos. Podíamos viajar à antiga Ampurias, num gesto semelhante ao recuo mitológico que nós portugueses fazemos a Viriato. Podíamos também considerar os séculos que vão do XI a 1734, data que a generalidade dos catalães considera a da perda da independência, o fim da guerra da sucessão entre Austrias e Bourbons.

Datas há-as para todos os gostos, havendo quem afirme que a Catalunha foi independente, frente a quem contradiga, com mesma tamanha certeza.

Não nos enredemos nesta discussão, que de tão secular e difusa, só muito levemente ajuda a explicar aquilo que se está a passar ali e agora. E ali e agora, é uma arena.

Centremo-nos no 30 de setembro de 2005 quando, depois dum intrincado processo entre o governo central e as tendências internas, o parlamento da Catalunha aprova o Estatuto Catalão, com os votos contra do Partido Popular (PP), esse partido a que, nesta história, assenta bem esse intransigente e orgulhoso personagem: El matador.

O novo estatuto entrou em vigor depois dum referendo onde obteve 74% dos votos. O texto final dava uma ampla autonomia à região, mitigada por uma prévia intensa negociação com o socialista Rodriguez Zapatero, primeiro-ministro de então, que teve de enfrentar o próprio partido para conseguir um acordo, criticado até por Filipe Gonzalez, o líder histórico.

Mas dos Zapateros não reza o sangue da arena e a arena ali estava, apelativa. O matador nunca desiste, o seu objetivo é fatal: matar ou morrer. Vencidos nas cortes, os populares juntam 50.000 apoiantes na Plaza del Sol, e um esfuziante Mariano Rajoy profere incendiário discurso:

"No hay más que una nación, la española, que formamos todos los españoles. Y no reconocemos más que un único poder soberano, cuyo propietario es el pueblo español entero". E conclui: "No hablamos el lenguaje antiguo de los derechos históricos, las soberanías medievales o los pueblos irredentos" (El País)

Depois destas palavras profusamente badaladas, Rajoy concretiza a estocada e recorre para o tribunal constitucional, apoiado em assinaturas, apoiado noutros organismos nacionais e também nalguns poderes regionais. A sentença sai a 28 de junho de 2010 e anula diversos artigos, alguns de carga afetiva, como os relacionados com a língua ou com o estatuto de nação (texto integral da sentença). Rajoy, o matador, rejubilou e recebeu uma ovação na arena.

Humilhados, mais de um milhão de catalães manifestam-se em Barcelona, sob um lema lancinante:  “Som una nació. Nosaltres decidim” (“Somos uma nação, nós decidimos”) (ver aqui). A espada não cruzou o coração, o confronto tinha de prosseguir.

A 9 de Novembro de 2014, depois dum acordo entre os partidos nacionalistas catalães, decorre um referendo, também este anulado pelo tribunal constitucional. Mas o matador Rajoy estava fragilizado pela crise económica e pelo escândalo de corrupção que rebentou em Janeiro de 2013 (ver). Até a própria coroa, afetada por diversos escândalos, enfrentava a abdicação de Juan Carlos I (19 de junho de 2014), pretexto para manifestações de rua onde se exigiu que o regime monárquico fosse referendado.

Nestas condições, o matador estava ferido. Era a hora dos líderes catalães assumirem o orgulhoso papel na arena, enfrentando o touro de Madrid com um referendo que, na prática, foi inconsequente por ser também declarado inconstitucional, mas que Rajoy não conseguiu impedir. Num resultado considerado transparente, o “sim” à independência obteve 81% dos votos.

Desta vez, a estocada, ainda que simbólica, acertou no matador. Os dois lados ainda se mantinham vivos e um tinha de morrer, cada um devia morte ao outro.

E assim chegamos ao primeiro de Outubro. O que parece incrível a olhos pouco acostumados ao sangue na arena, é que todos tenham dado o tudo por tudo, que todos se enfrentem, sem se oferecerem qualquer possibilidade de recuo. Animados pela meia vitória de 2014, os nacionalistas decidiram que era a hora de investir. Rajoy estava fortalecido pela retoma, tinha conseguido ultrapassar os escândalos de corrupção mais ou menos incólume, e contava com a certeza de um novo rei, aparentemente reforçado e comprovadamente fácil de manietar. Mas este primeiro-ministro já não era matador diante de touro, agora eram dois matadores frente a frente, e um tinha de morrer, era a Hora, era o tudo ou nada.

E o resultado foi o que estamos a ver: A intransigência nacionalista dum lado e, do outro, o obtuso cumprimento duma decisão judicial, feito com uma brutalidade que, em vez de matar o atacado, feriu talvez de morte o atacante.

Restava uma esperança: o rei. Um rei relativamente jovem, possivelmente sensível, capaz talvez de congregar. Filipe VI mantinha-se calado, sussurrava-se que prudentemente, que estava reservado para poder congregar, pacificar, juntar o que estava dividido. Era o discurso da sua vida, como o da vida de seu pai foi aquele que proferiu no dia 24 de fevereiro de 1981, salvando a democracia e legitimando a coroa.

Às 21:00 do 3 de outubro, os olhos estavam postos nas televisões, o próprio presidente da Generalitat catalã ainda não tinha aberto o jogo. O rei poderia ser de copas, reconhecendo aspirações, erros de parte a parte, chamando ao diálogo e pondo-se como penhor de um acordo a alcançar. Mas Filipe VI decidiu apenas ser mais um personagem nessa trágica arena onde alguém tem de sair morto, absolutamente morto: Acusa as autoridades catalãs de “uma falta de lealdade inadmissível em relação aos poderes do Estado”, acusa-os de “uma conduta irresponsável”, de terem vindo “a falhar, de forma reiterada, consciente e deliberada, no cumprimento da Constituição”. Quando entrou era de copas, quando saiu era de espadas, as espadas do matador, as daquele que não reconhece outro direito à outra parte, que não seja a derrota, total, fatal.

Do lado oposto, as respostas não se fizeram esperar: O rei já é visto como líder de fação. Quem esteve atento às reações, conclui que o único resultado deste discurso foi aumentar a radicalização das duas partes, todos se afastaram mais ainda, ninguém se aproximou. Pouco depois, Puigdemont afirmava à imprensa que iria declarar a independência, já estava mais ou menos claro que esta era a única via que lhe deixavam.

Provavelmente, Espanha perdeu Catalunha, por intransigência, por erros... meu Deus, que tamanhos erros! Mas atenção: ainda há vivos, a tragédia corre numa arena que continua à espera de mais sangue, tudo pode não ficar por aqui.

Custa acreditar. Um primeiro-ministro radicalmente intransigente, autoridades autonómicas que não recuam um milímetro, uma polícia estupidamente brutal, a rua que não se rende. E no fim, o rei, esse rei que podia ser rei real, e afinal é rei momo, incapaz de assumir a sua responsabilidade histórica, que pega na espada de matador e quer também dar uma estocada, nessa mesma arena onde já ficaram tantos, assim dos que foram para morrer e viveram, como dos que foram para matar e morreram.

É triste, é incompreensível, mas é Espanha e é Fiesta! Agradeço ao Mestre de Aviz.


Luís Novais


Foto: "Corrida", Picasso


segunda-feira, 11 de setembro de 2017

SÓ POR ESTA EXPOSIÇÃO, JÁ VALERIA A PENA VIR A LIMA. Em torno da exposição CHAVEZ 80 – Retrospectiva

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A exposição começa com uma escultura, 
representação tridimensional de uma
tela, feita com terra prensada.

De 1 de setembro a 18 de Novembro decorre em Lima a exposição comemorativa dos 80 anos do pintor peruano Gerardo Chavez. É uma oportunidade única de assistir ao vivo a um percurso artístico singular, e também um testemunho dos momentos mais marcantes da contemporaneidade.




Não há melhor forma de entender um artista, do que vendo-lhe a obra numa sucessão cronológica, e não há melhor forma de ver uma obra, do que ao vivo, dispensando livros e catálogos. Os momentos em que o podemos fazer são raros e, se o artista é grande, quando acontece tomamos total consciência do caminho que percorreu e de como, nesse caminho, temos uma marca indelével dos passados, dos presentes que viveu e dos futuros que anuncia. É então que os grandes dramas humanos, as perguntas universais, “quem sou”, “que faço”, qual o “sentido?”, se nos desfilam obra a obra, sendo cada uma um passo mais adiante ou, por vezes, um retrocesso momentâneo, provocado talvez pelo grande vazio que nos dão as novéis respostas, destruidoras dum universo pessoal anterior, mas incapazes ainda de construir um sistema alternativo.

Até novembro deste ano temos o privilégio de ver a obra do pintor peruano Gerardo Chavez (Trujillo, Peru 1937), desde os seus primeiros esboços, em 1955, até à atualidade.

A primeira surpresa: Pintando na terra
A primeira surpresa acontece no átrio, antes de entrarmos no primeiro dos quatro pisos onde as mais de 200 obras estão expostas. É aí que começamos a ser confrontados por uma escultura e por um painel. Aquela, é uma espécie de tridimensionalidade deste, feita com peças que se encaixam e que são construídas com recortes de terra prensada. E é no próprio material escolhido que começa a arte: Tal como “somos pó”, tal como moldados no barro, as duas obras que abrem esta exposição nascem da terra; não é apenas a escultura, também o próprio painel é pintado sobre panos de juta cobertos com lama.

"Origenes" (2000) é o painel que abre a exposição. É pintado sobre terra, numa técnica única criada pelo próprio artista














Conhecer a origem para reconhecer o artista
Teríamos que conhecer Trujillo, a cidade onde Chavez nasceu, e conhecer-lhe a arqueologia, para perceber o significado profundo desta opção. Por toda essa costa norte peruana, nasceram e pereceram as culturas moche (século II a IX), chimu (X a XV) e lambayeque (X a XIV). Tiveram diferenças entre si, mas foram semelhantes na mesma necessidade de aproveitar os recursos hídricos que as chuvas e os glaciares andinos faziam correr pelo grande deserto onde se desenvolveram. Semelhantes foram também nas manifestações artísticas, onde um traço comum foi a mestria com que gravaram murais de terra, deixando testemunhos gráficos pormenorizados dos seus rituais, dos seus costumes e dos seus mitos.


Lambayeque foi uma cultura que se desenvolveu no litoral norte 
peruano entre os seculos X e XV. Foi uma das que nos 
legou diversos representações gravadas  em paineis  de 
terra (na foto: Túcume)

Uma opção que vem da ancestralidade
A escolha que, hoje, Gerardo Chavez faz da terra como material de base para a sua obra, bebe portanto da ancestralidade em que acabou por encontrar-se consigo mesmo. Foi sempre assim? Não, mas para isso temos de subir quatro pisos, tantos como aqueles que esta exposição ocupa.

Nasce o mistério
Fixemo-nos na primeira obra e no distante que parece estar do grande painel pintado sobre terra que acabamos de ver. Trata-se duma paisagem, quase impressionista, peruana talvez apenas no título: “Los condores, Chaclacayo”. É de 1955 e tinha o artista 17 ou 18 anos. Na legenda, cita-se o próprio mestre: “Todo el mundo empezó a amar esa pintura, que hoy me emociona demasiado, y yo me decía: donde está el misterio?Olhando para a obra, talvez o mistério esteja na relação entre o título e o traço. Los Condores é uma pequena área no distrito de Chaclacayo, na região de Lima.

"Los Condores, Chaclacayo"


E aqui é o momento para dizer que o título aparece sempre como algo a que Chavez recorre para nos ajudar a decifrar as suas obras. Ao contrário de muitos outros artistas, que procuram denominações enigmáticas, Gerardo usa a letra para clarificar o enigma pintado.

Então, talvez o mistério esteja aí mesmo: Uma obra que esbate a realidade, sem um traço que possa dar algum sentido regional à paisagem, mas com um título que a identifica fora de qualquer dúvida: “Los Condores” e, para que seja ainda mais claro, “Chaclacayo”.

Que sentido pode ter este mistério, esta contradição? Encontramo-lo nas obras que aquele rapazinho pintou nos 62 anos que se seguiram. Mas primeiro precisamos de conhecer um pouco o Peru, a sua História e o seu drama. É algo que farei numa breve abordagem, já que esse não é o objetivo deste texto.

Um país diverso em busca de unidades
O Peru é um país de diversidade. Tem uma costa desértica e quente banhada por um Pacífico enfriado pela corrente de Humboldt, uma cordilheira andina que chega aos 6.678 metros de altitude e uma vasta zona de floresta amazónica que ocupa mais de metade do país. Nestes territórios floresceram diversas civilizações e culturas, a primeira das quais, Caral, disputa antiguidade com a mesopotâmia, que a historiografia ainda considera a mais antiga do mundo. Chavin de Huntar, Chancay, Chachapoyas, Lima, Chanca, wari, Tihuanaco... foram inúmeras as civilizações que antecederam o globalmente conhecido império inca, que durou pouco mais de 100 anos até ser abruptamente interrompido pela invasão espanhola de 1532. 

Com esta profusão de histórias e geografias, o primeiro drama de qualquer peruano é responder à pergunta mais simples, “quem somos?” E a dificuldade do país em construir consensos é talvez um fruto desta impossibilidade, um fruto que tem sido colhido, ciclicamente, ora com difíceis tentativas de consensualização nacional, ora com ditaduras e disputas brutais, como aconteceu no seculo XX, primeiro com o sanguinário movimento terrorista Sendero Luminoso, depois com a não menos sanguinária resposta do, ora populista ora ditador, Alberto Fujimori.

Feita uma breve viagem pela conturbada História peruana, voltemos a essa idílica paisagem: “Los Condores, Chaclacayo”. O verde, as árvores, uma profusão que nos baralha entre o impressionismo e o realismo. Tudo o que ali está, poderia estar em milhares de outros lugares em todo o mundo, mas não, o artista vinca pela letra o que não deixou claro pelo pincel: “Los Condores, Chaclacayo”. E temos, aos 17 ou 18 anos, um grito que marcará toda a história duma vida artística. A paisagem indefinida, universal, tão peruana como de outro lado qualquer, ligada ao título que a nacionaliza, que a regionaliza. É como se, sem saber qual o seu lugar no mundo, o adolescente assentasse os pés na terra onde nasceu, e os olhos no mundo. É como se, em busca duma identidade individual, a encontrasse apenas no universal.

Entra o primeiro monstro
E é nesta paisagem que, no meio das árvores, escondido, dissimulado, talvez inconsciente, nos surge aquilo que já então parece ser a figura dum monstro, o primeiro de muitos que veremos daqui em diante, e que Chavez usará como recurso para levantar os pés da matéria-terra e entrar numa viagem mental, cheia de seres imaginários, de faunos, monstros, diabos e diabilhos, que lhe darão as respostas para que mais tarde possa voltar a assentar sobre a terra, literalmente, como veremos.

Em "Los Condores, Chaclacayo" (1955), parece surgir o primeiro dos muitos monstros que povoarão a obra de Gerardo Chavez


O segundo e dissimulado monstro
Natureza morta (1956)
É a partir deste quadro que o “quem sou?”, a mais elementar pergunta, nos surge na cronologia tão bem montada desta exposição. Segue-se uma “Natureza Morta”, de 1956, igual a qualquer outra, sem grande traço identitário, pelo menos para os pouco atentos, porque o monstro, o tal que dentro de poucos anos o lançará numa busca incessante, parece, uma vez mais, ali presente, bem disfarçado, porventura do próprio artista, mas já pronto para se levantar, voar e perguntar: “Quem é que ousou entrar nas minhas cavernas que não desvendo, meus tetos negros do fim do mundo?” (Pessoa, “O Mostrengo”).
Em Natureza morta (1956) parece surgir, disfarçado, o segundo monstro


Do concreto ao imaginário
Em "La vendedora de piña"
 (1959) uma lua azul aparece 
pela primeira vez
Os quadros que se seguem são uma espécie de alegorias realistas, cenas do quotidiano, assumidamente regionais. Uma vez feita a primeira pergunta, o jovem não se aventurou pelo caminho de uma dúvida que talvez ainda não estivesse preparado para suportar. ”La Bohemia” (1959) é uma espécie de monografia nativista, um assentar nas origens reais e concretas, e o mesmo para “Vendedora de piña” (“Vendedora de abacaxis”), do mesmo ano. Esta última tem, contudo, dois pormenores marcantes: Uma lua azul, a primeira de muitas que veremos a partir daqui, esse satélite prateado que foi alvo do culto de grande parte das civilizações que passaram pelo atual Peru. Presente também, pela primeira vez, a roda, aqui no carro da mulher que vende piñas, as mesmas rodas que começarão a multiplicar-se, multiformes, pela maioria das suas obras. A roda, essa que é talvez a perfeita metáfora dum artista que começa na terra, inicia uma viagem artística, navegando de dúvida em dúvida, para finalmente regressar à origem, enriquecido pela caminhada que o tinha afastado, à terra, a pintar sobre terra.

A cabeça do diabo
O corte nesta primeira viagem artística e o início de outra, mais complexa, difícil e puramente mental, parece ser dado numa pintura de 1961 (23-24 anos) cujo título é toda uma antologia: “Cabeza de Diablo”. O que é o diabo se não a incerteza, a negação da ordem? Diabo é Zaratrusta baixando à planície e proclamando que o bem de uns povos é o mal de outros, negando que tudo o que está, seja. Mas não deixa de ser curioso que, neste início de voo, do lado esquerdo da tela, surja aquilo que parece ser uma figura recuperada pelo artista muitos anos depois e que, mais uma vez, no leva à sua origem: um Ekeko, ídolo andino da abundancia, popularmente representado por um homem bonacheirão e carregado de oferendas. É como se, preparado para iniciar jornada rumo à montanha zaratrustiana, Chavez não conseguisse deixar de levar na bagagem um colete salva vidas, que lhe garantisse regresso no caso de não suportar o caminho. Regressará, sim, muito mais tarde, e com respostas.

Cabeza de Diablo” (1961)


Rumo à Europa
Esta obra é também a primeira duma viagem que não é apenas espiritual, mas física. Na sua busca, o jovem Chavez parte para a Europa, em 1960, tinha 23 anos. Parece ter de afastar-se da terra de onde brotou para se livrar da interferência do império dos sentidos, para encontrar respostas na diferença, no caminho que outros caminharam. Vive dois anos em Itália e depois muda-se para Paris, a mesma onde vivia uma das suas influências claras, Picasso, e onde três décadas antes viveu Salvador Dali, outras das fontes de inspiração no período que se segue.

O novo homem
Em 1964 outra obra, mais uma vez com um título transparente: “La Creación del Nuevo Hombre”. Com 27 anos é também ele um homem em busca de ser novo, de encontrar uma identidade própria. Hoje, diz que se sentia bastante bem “en ese mundo medio confuso y enredado que obedecía a su edad y a su lucha por encontrar una creación propia, pese a la influencia de otros artistas”.

La Creación del Nuevo Hombre” (1964)

“Por esse tempo eramos todos revolucionários”
Influenciado pelas correntes de então e também em busca de identidade própria, “Cubasí”, de 1965, é um tríptico onde a marca de Guernica (1937) parece clara. Na sua procura de um novo mundo, Chavez olha com esperança para o movimento revolucionário cubano e pinta uma obra onde o negro e o fantasmagórico é iluminado pelo sol.

Pelos esboços e por fotos sabemos que, em Guernica, estava esboçado que uma figura jazente na base tivesse uma espada na mão esquerda, levantando a direita até ao topo e terminando num punho fechado (o braço no chão segurando um sabre, foi o que restou desta ideia original). Resistindo à tentação ideológica, Picasso optou antes por plasmar uma obra universal, substituindo esse punho pelo sol com uma lâmpada sobreposta, uma duplicidade de fontes de luz com que talvez esteja a dizer que a mudança não pode depender só do devir natural mas precisa da intervenção humana.

"Cubasí" (1965)



O punho fechado que Picasso
 não chegou a deixar em 
Guernica, parece presente em
"Cubasí"

Curiosamente, na parte superior do primeiro painel de “Cubasí”, Chavez deixou uma reminiscência desse punho que Picasso apagou, e não deixou de colocar também um sol, numa obra cuja leitura parece ser da direita para a esquerda, um percurso que é também o da escuridão para a progressiva claridade, o dos monstros para os humanos que lutam. Entre esses monstros, destaque para um que ocupa a parte central do terceiro painel: Numa presença da origem inolvidável, aquela figura lembra as famosas máscaras do diabo, um estilo popular originário de Puno, na serra sul peruana. 
Uma metáfora de máscara de Puno em
"Cubasí"


Por esse tempo, diz Gerardo Chavez numa entrevista à revista “Arte y Artistas” (Abril 2017), todos “éramos revolucionários, y estabamos pendientes del cambio y de la Revolución Cubana”. Longe do Peru, na efervescência revolucionária e parisiense, procura novos porquês, encontrando a integração no seio dos movimentos mundiais de então, mas mantendo sempre um pé no barro original.

Viagem ao interior de si
Em 1966 pinta “Fuegos Fatuos” (28 anos). Já estamos perante uma obra de assumida espiritualidade. Uma vez mais, o título deixa claro o sentido da tinta: esse fogo aparente, um espírito azulado, que se levanta dos pântanos, símbolo da matéria e de morta estabilidade. Nesta obra vislumbra-se claramente esse ser, representação do próprio que o pinta, levantando-se das águas paradas, erguendo-se, metamorfoseando-se em vários, unindo-se num só, quando o voo já se transformou num início sem retorno. Mas este movimento não é uma linha reta, nem sequer uma espiral, antes uma profecia do que estará para vir, é um levantar que forma o início dum círculo, a certeza de que voltará, talvez com novas dúvidas, certamente que também com novas respostas, numa metáfora dessa roda, a mesma que nasceu em “La Vendedora de Piñas” e não mais o largará, ela mesma representação da caminhada do artista.

"Fuegos Fatuos" (1966)


O angustiante ato de solidão
Também de 1966, parece nascer-lhe a consciência de que a procura de identidade é um angustiante ato de solidão. Essa mesma angustia está em “Seres que vivían uno por uno”: O quadro é uma parede, que separa, dum lado o nada, do outro o ser ou seres que vivem vidas separadas. No meio da barreira, uma rompida abertura, algo ou alguém que procura duma saída.

"Seres que viven uno por uno" (1966)


Continuando em 1966, quem é esse “ Un des obliés”? A lua redonda e azul que já estava em “La Vendora de Piñas”?, essa lua que foi adorada por várias culturas da costa e serra peruanas. O ente que voa e poderia ser reminiscência do andino sagrado condor? Naquilo que descobre e naquilo que o viu nascer, parece balancear um pendulo entre a origem e a descoberta. Pode um dos lados estar momentaneamente esquecido, mas se está, é porque é.

"Un des Obliés" (1966)


Momentâneos regressos
O desconhecido gera medo? Claro que sim. “Katia d’La Nuit” (1966), um retrato realista de sua mulher, parece responder a esses terrores, num regresso ao concreto, uma imagem que é de dois afetos, porque Katya esperava então seu filho Ivan. Se este quadro é um pequeno regresso, a consciência de não poder retroceder transforma-se num grito de auto-revolta, numa negação da cobardia. En un momento determinado – diz Chavez na legenda – vi que era muy realista, así que casi lo borré con la mano para darle un gesto de movimiento”. Estamos perante a consciência de quem precisa prosseguir, talvez pacificado por uma nova certeza, a do amor. E a legenda deste retrato dá-nos mais uma pista, Katya já morreu, mas o artista afirma hoje continuar amando-a, porque ”es así, en la ausência, (que) uno ama muchas cosas”. Katya teve então, neste quadro, um papel fortificador, o amor transforma-se no novo salva vidas, dentro dessa mesma mala de viajante mental onde, cinco anos antes, tinha posto um Ekeko ao lada da “Cabeza de Diablo”.

"Katya d'La Nuit" (1966)



Em busca da caverna de Platão
Pode haver saída para os personagens da caverna de Platão? “Ceremonial de la nuit” (1968)  lembra-nos o drama desses homens, amarrados por vida, de costas para a luz, confundindo a sombra com a realidade, a aparência com a mentira. Depois de se banhar nas águas europeias, Chavez parece embrenhado no modelo ocidental: Vivemos nas sombras, mas a verdade existe, noutro mundo, mas existe. Essa mesma crença numa verdade universal e transcendental, que é fonte de fundamentalismos, de intolerâncias, e que explica grande parte da História do Ocidente, desde que Platão o fundou em “Fédon”. Uma crença que não deixa de ser também um absoluto confortável para aqueles que estão em viagem, nessa mesma procura que seria a do artista.

"Ceremonial de la nuit" (1968)

Das ilusões aos cenários
De repente, numa aparente resposta, tudo são apenas cenários. A parede que antes isolava os “Seres que vivían uno por uno”, não são barreiras, mas palcos onde cada um represente de acordo ao cenário que se lhe apresenta. De igual maneira, a verdade paltónica pode talvez ser substituída por um relativismo. Nesse mesmo ano de 1968, Chavez pintou duas obras que parecem dar esta resposta provisória: “El primer acto” e “El segundo acto”.

"El primer acto" (1968)


Ecran d’espoir” (1969)

Uma mental organização do real
Ecran d’espoir” (1969) é uma obra marcante nesta nova via alternativa. Se tudo são cenários, podemos catalogá-los, organizá-los, dividi-los por mundos e representação. Depois duma viagem à mente, esta começa a poder fundir-se com os sentidos. “Ecran d’espoir” parece uma obra de sistematização, tudo catalogado ecrã por ecrã, sucedâneos dos anteriores cenários teatrais, tudo metido dentro das suas caixas e devidamente catalogado. O artista parece encontrar alguma paz, numa ponte que o une enquanto ser mental ao ser material. Continuam a ser à parte, sem fusão, mas cada um é e tem o seu lugar. Estes mesmos dois mundos, o material encaixado por catálogos, e o mental que se liberta, aparecem em “Romeo y Julieta” (1970) e no “Pájaro rebelde” (1970), rebelde porque voa, saindo duma catalogação que, apesar de tudo, existe no mundo que observa de alto.



Romeo y Julieta” (1970)



"Pajaro rebelde" (1970)


No princípio era água
E para refazer essa fusão, veio a água, a origem da vida. Foi na água que Gerardo terá lançando uma âncora para, imergido que estava, submergir na luz, na resposta, na identidade. A água é o mote de toda uma série que começa em 1973, com “Zeus”, uma relação direta e ocidentalizada ao pai dos deuses, à fonte das fontes. Foi na água que, “entre larvas, gusanos, moscas, hasta sapos y ranas, rebusque esa forma forma com la que soñaba y que ni yo mismo sabía que buscaba”, diz na legenda do quadro.

"Zeus" (1973)

"Metamorfosis del agua" (1973)
Deste ciclo podemos ver mais duas obras, ambas também de 1973: “Metamorfosis del agua” e “Ils montent desde l’eau pour prélever le tribu”. Este é também um ciclo de marcada influência daliniana: O surrealismo, o mundo onírico, transforma-se numa ponte entre o real e o imaginário, sem que nunca fique claro qual é um e qual é o outro. Mas o mote já tinha sido dado em 1970, numa outra obra, fora deste ciclo: “Les proies de l’eau”, mas aqui, ainda, com o mundo aquático como algo obscuro, misterioso, difícil de transpor.

Regresso à infância
Temos até agora um percurso que começa em 1955, uma busca de identidade que passa por uma profunda introspeção, aqui e ali vinda à superfície, pela constatação de que talvez o mundo seja compreensível, ainda que sem conseguir ainda separar a coisa pensada da coisa vista. Tudo se funde na água, espécie de útero universal que anuncia o nascimento de algo novo. E esse algo nasce na década de 80, plasmado numa recordação de infância, “Animal de medianoche” (1981), a evocação de quando, em criança, foi mordido por um cão: “Con los tonos oscuros que envolven este cuadro quise expressar esse mágico mistério al que recurren los niños para contarse historias”.

Animal de medianoche” (1981)


Tal como em 1964, no inicio da caminhada, pintou “La creación del nuevo hombre”, que ilustra a dor de parto dessa nova vida, agora começa um novo momento, regressando à infância e fazendo-se de novo criança para, agregando tudo o mais à experiência original, finalmente, construir a sua síntese.

Depois veio a união
El último ídolo” (1980) é talvez o quadro que melhor ilustra este homem que regressa à origem, renovado e para renovar. No centro, em grande escala, um cuchimilco, ídolo da cultura chancay, que floresceu na costa central do atual Peru entre os seculos XIII e XV. A partir desta obra assistimos a uma progressiva fusão de propostas, com os modelos, os temas e os estilos bebidos na Europa combinando-se com outros profundamente peruanos. A propósito deste quadro, é o próprio artista quem diz que “es un homenaje a una cultura (a Chancay) que adoro y que me acerca a mis ancestros”. Mas a fusão ainda não é completa, o preto e branco que marca as suas construções a partir daqui, parece indicar que são dois mundos que ainda estão separados, que ainda não se uniram.

El último ídolo” (1980)


Do mesmo ano e com a mesma característica cromática e simbólica, em “Mama” o cuchimilco é uma fonte de úberes que alimentam vários seres, invocando essa infância a que Gerardo regressou; uma clara alusão a que, alimentado que foi por outras fontes, vai agora regressar e inspirar-se na teta original.

Mama” (1980)


Chegado a de onde veio
Estamos no início de uma nova viagem. O artista regressa a 1955, mas agora vem com a bagagem cheia de experiências e de mundos. Terá talvez encontrado a sua identidade universal e está agora à procura do particular, esse que não parecia capaz de gerir quando, 25 anos antes, pintou “Los Condores, Chaclacayo”.

O diabo nos separa, o diabo nos une
Que se trata duma nova busca, ele mesmo se encarregou de nos dizer pictograficamente em “Les chercheurs de la lune” (1982): O mesmo preto no branco, e a mesma lua que nunca mais o abandona desde que na “Vendedora de piña” a representou em 1959. Essa lua que foi objeto de culto para muitas das culturas que surgiram na História peruana, incluindo os Incas, que a adoravam como esposa do sol, a maior de entre as divindades com expressão física. E na base do quadro, pintado com rostro azul, lá está ele, o diabo, lembrando as máscaras de Puno e talvez uma constatação: Aquilo que mais parecidas torna as civilizações, não é Deus mas o seu contrário.

Les chercheurs de la lune” (1982)
Essa fusão parece estar já bastante avançada em 1990, em “El guerreiro”, onde podemos ver, sobrepostos, dois guerreiros, um ocidental, de armadura, outro da cultura moche ou mochica, da qual já falamos. A cor, que ainda não tem harmonia com o todo, dá entrada no vermelho vivo da máscara de diabo que sustenta o primeiro guerreiro, como que a dizer que entre um e o outro, é esse diabo o que os une. Antes, em 1983, já pintara outro, mas esse era apenas “El guerreiro mochica”, montado sobre rodas, essa roda sempre presente e que é, em si mesma, um símbolo da permanente mudança e do permanente retorno.

El guerreiro mochica” (1983)



El guerreiro” (1990)


O pássaro de dois bicos
Entramos em 1991, e é neste ano que a síntese parece definitivamente composta. “El pajaro de dos bicos” é profundamente, escandalosamente, cromado. Prenhe de símbolos múltiplos, andinos e ocidentais: As luas, os sóis, os condores, o requinte europeu. Tudo para dar prazer, alegria e descendência a esse pássaro que, qual Janus, é dotado de dois rostos: com um, vê de perto a mulher com que se funde, com o outro, o céu, o horizonte.

El pajaro de dos bicos” (1991)


Um literal regresso à terra
Mas o melhor estava para vir, o novo homem estava realmente para nascer. Fecundado de mundo, ajusta o microscópio, chega-se cada vez mais à origem das suas origens, ele que nasceu em Trujillo, no norte do Peru: Os moches,  os chimus, os lambayeque, todas as antigas culturas dessa mesma costa norte peruana. Chavez começa a usar os próprios materiais como parte da arte, cria uma nova técnica e pinta sobre terra, a mesma na que os seus ancestrais gravaram e gravaram e gravaram, deixando-nos múltiplos testemunhos. Consegue-o, estendendo panos de juta e cobrindo-os com lama. Depois de seca é nesta base que agora pinta.

E se estas culturas usaram expressões artísticas repetitivas, Gerardo assume-lhes a herança, mas também a de todos os mundos por onde passou. Não usa a arte para fundir o todo numa expressão que se multiplique até à exaustão, mas para dar voz à subjetividade, porque só quem já conheceu o todo, é capaz de se assumir como parte e, até aqui, já tinham passado três décadas na sua intensa busca universal.

A procissão da batata
A mais espetacular e significativa desta nova arte é, talvez, “La procesion de la papa” (“A procissão da batata”) de 1995. Foi a batata que mudou o mundo, que permitiu a expansão demográfica mundial, que alimentou e alimenta milhões todos os dias, que permitiu algumas das maiores mudanças da História. E foi ali, nos Andes onde hoje é Peru, que gerações e gerações de agricultores a desenvolveram e plantaram, conseguindo criar uma espécie para cada patamar climático, para cada nicho ecológico, para cada necessidade: são mais de 5,000, os tipos de batata com que estas culturas andinas continuam hoje a alimentar o mundo. Y por qué no una procesion de la papa si es el milagro del mundo!” responde Chavez quando lhe perguntam “porquê?”. E o material? Essa mesma terra que gravaram os seus antepassados, essa mesma que cultivaram e onde essa batata, objeto de culto, se planta e cresce.

La procesion de la papa” (“A procissão da batata”) (1995)


O ícone protetor
Mas foi em 1991 que esta técnica nasceu, e uma vez mais com um símbolo andino, já antes representado, o Ekeko. E não deixa de ser curioso que foi colocando uma alegoria de Ekeko junto à sua “Cabeza del Diablo”, que em 1961, com 24 anos, cortou amarras da origem e partiu em busca de universos. E é também com um Ekeko que, 30 anos mais tarde, regressa a essas mesmas origens, tonificado por experiencias exteriores e, sobretudo, interiores. É como se este ídolo ancestral da boa fortuna, fosse um ícone protetor a que recorre antes de iniciar cada viagem, e agora está para iniciar outra.

"El otro Ekeko" (1991)


Confrontando Platão
O grande painel “La justicia en su laberinto”, de 2009, parece o início da maturidade desta nova fase e é também ele pintado sobre terra. Aqui parece já capaz de confrontar a tradição ocidental por onde bebeu. O que é a justiça se não uma vã tentativa de encontrar a verdade?, essa verdade que não existe sem transcendência. E quem a criou, se não o pai do mundo das ideias e, consequentemente, do ocidente?

Este quadro é uma versão antagónica da caverna de Platão. Em 1968, já vimos, pintou “Cerimonial de la nuit”, que parece uma alegoria de Alegoria e, com ela, a convicção de que vivemos nas sombras, mas a verdade existe, num mundo que nos supera, mas existe. Fortalecido pela descoberta de si, Gerardo Chavez está agora capaz de enfrentar Platão e tudo o que ele representa: Em “a justiça no seu labirinto”, não há um mundo de luz que se projete através de sombras, mas apenas elas mesmas, as sombras. É um território de subjetividades, de multiplas visões de "crime e castigo", com base em algumas das quais essa veneranda senhora, cega como Édipo, decide “verdades”, punindo com o sabre que tem na mão direita. Um sabre que só tem legitimidade enquanto se mantiver a crença na transcendência. É esse o labirinto que se nos apresenta nesta grande tela e, com ele, o da pós-modernidade: A constatação de que a verdade morreu e a convicção de que mais não é do que a mentira muitas vezes proferida. E este não é um abalo pequeno, corrói as bases dum edifício com 25 séculos... Sessenta e dois anos depois da sua primeira tela, Gerardo Chavez continua a ser um autor do seu tempo e um anunciador de porvires.


La justicia en su laberinto” (2009)

Motivo suficiente para vir a Lima
Pelo seu percurso, pelas dúvidas e pelas respostas que foi encontrando. Pelos inúmeros portos onde chegou e de onde voltou a partir, Gerardo Chavez é uma referência histórica e oferece-nos testemunhos artísticos de angústias e constatações que nascem depois do choque da primeira guerra, se agitam com segunda e chegam perdidas à contemporaneidade. Vale a pena vir a Lima até novembro, só para ver esta exposição.


Onde: Lima, Museo de la Nación
Quando: De 1 de setembro a 18 de novembro, segunda a domingo das 10:00 às 20:00
Entrada: Gratuita
Website da exposição

Luís Novais




quarta-feira, 9 de agosto de 2017

A ANTROPOLOGIA PRECEDE A IDEOLOGIA


Há muitos mais modelos políticos, económicos e sociais do que aqueles que consegue imaginar o nosso pensamento ideológico.

Platão, sempre ele, resolveu-nos o problema ontogénico da dicotomia do eu e do outro, criando a ideia de ideia. A imperfeição deste mundo e dos que o pisamos conscientemente, justifica-se porque a matéria seria metonímia de imperfeição. Salvar-nos-ia a transcendência, esse além sublime e lugar onde tudo o que é, É. A integração do ser estaria nesse Ser distante.

A História do ocidente resume-se talvez nesta busca, mudando apenas os métodos com que procuramos. Se os áticos acreditaram na filosofia, outros partiriam rumo à revelação, seja na vertente judaica, na cristã, ou na muçulmana, porque sim, por muito que isso possa custar a Samuel Huntigton, os árabes, e até os persas, são ocidentais.

O imperialismo ocidental radica na Ideia. Se a Ideia é perfeita, não admite o contrário, torna-se fundamentalista. Buscamos algo a que chamamos "verdade" e acreditamos que ela existe. Esta solução para a angústia é o átomo que explica a História ocidental.

Nas minhas deambulações pelo mundo tenho encontrado outros modelos culturais que não vivem esta opressão. Não têm a noção de transcendência, o espírito e a matéria não são entidades à parte, não são diferentes mundos. Para um balobeiro (sacerdote tradicional) da etnia papel da Guiné, os espíritos vivem no mesmo tabuleiro em que jogamos aqueles que estamos materialmente vivos. Para um andino que fale quéchua, não há uma separação entre divino e humano, tudo se une na mesma natureza; a montanha, a terra ou a água que adora, não são ídolos, são parte dum todo onde ele mesmos se insere.

Já vivi um tempo de muitas certezas, de muita crença na precedência da ideia sobre a ação. Felizmente temos Camões: “Nem me falta na vida muito estudo, com experiência misturado”. É talvez isso que falta aos que primam pela ideia, e que pela ideia acreditam chegar ao sublime. O drama é que, numa frase muitas vezes ouvida ao meu saudoso amigo Artur Castro Neves, “o sublime leva ao crime”. Não é preciso concretizar exemplos da História que atestam, a ferro e sangue, esta realidade, assim sejam genocídios, escravaturas, ou mães de todas as batalhas.

Sem perder a Razão, e eu estou entre aqueles que querem morrer racionalistas, temos de a usar para criticá-la a si mesma. Os existencialistas, com Sartre à cabeça, fizeram-no na perspetiva psicológica: “A existência precede a essência”. Será talvez o momento de trazer o conceito para a política e concluir que a Antropologia precede a ideologia.

“Há mais no céu e na terra do que sonha a tua vã filosofia, Homero”, desabafou Otelo. E há muitos mais modelos políticos, económicos e sociais do que aqueles que consegue imaginar o nosso pensamento ideológico. São modelos que se desenvolveram naturalmente, sem que ninguém os teorizasse, sem que alguém os tivesse imposto, sem que nenhum pensador deles se tivesse assenhoreado, porque basicamente é isso que fazemos quando queremos ser filósofos: Possuir a ideia à que chegamos. E, se a ideia é ideia, então tem tudo para ser totalitária porque, lá está, é do outro mundo, ergo, tem de ser perfeita.

Em alternativa, basta estar atento. A realidade aí está!... e tenho-a visto, no céu e na terra.



Luís Novais


Nota: A foto é minha. trata-se duma criança da etnia Yagua numa comunidade nativa onde passei uns dias, na fronteira entre as Amazónias peruana, brasileira e colombiana.

terça-feira, 25 de julho de 2017

ANTÓNIO COSTA, AS VÍTIMAS E OS EXEMPLOS DA HISTÓRIA

Se concordamos que as afirmações de Gentil Martins ou André Ventura são perigosas porque já vivemos intolerâncias e holocaustos, não é menos certo que também o comportamento de António Costa, porque já vivemos censura e fascismo.

Referindo-se a um grupo populacional, o candidato do PSD à câmara de Loures fez um discurso xenófobo e populista. Não faltaram, e ainda bem, as reações de denúncia. Redes sociais e artigos de opinião na imprensa, uniram-se no elenco das semelhanças entre esta visão simplista e o crescimento da extrema-direita, tanto da trumpista como da europeia. Não faltaram exemplos da História e lembranças de até onde já nos levou a estigmatização de grupos culturais.

O médico Gentil Martins deu uma infeliz entrevista na qual revelou uma mistura de homofobia com falsidades clínicas. Referiu-se à homossexualidade como uma anomalia, como um desvio de personalidade semelhante ao sadomasoquismo ou à automutilação. Uma vez mais, entrou a História para nos mostrar que este tipo de posição é, sim, um desvio e que já nos levou a muito maus caminhos. Fernanda Câncio assinou um artigo onde lembrou as perseguições nazis e a quantidade de pessoas que Hitler assassinou com base na orientação sexual.

A História como exemplo é uma das mais valias que esta disciplina tem para nos dar, e sou grande adepto de que seja usada também com esse fim. Apontar os crimes do passado quando ouvimos os petardos de André Ventura ou as frases infelizes de Gentil Martins, faz todo o sentido apesar de, no caso deste último, me parecer que se foi longe de mais e, em alguns casos, se roçou menos humanidade que aquela que se lhe apontou, quando não a mais vulgar das boçalidades.

Surpreende-me, sim, que muitos dos que participaram e participam ativamente nestas ondas de denúncia, criem uma carapaça protetora em torno de um outro escândalo que também nos traz reminiscências dum passado a que não queremos regressar. Refiro-me aos malabarismos de António Costa com a questão de Pedrogão Grande, nomeadamente à forma como está a lidar com a questão do número de vítimas.

Há uns anos li um artigo de Pacheco Pereira, onde contava a forma como as trágicas consequências das cheias de 1967 foram ocultadas pelo governo da ditadura. Citando de memória, dizia-nos que tanto ele como muitos da sua geração trabalharam voluntariamente no apoio às vítimas, e contava-nos a consciência política que se lhes despertou quando testemunharam a extrema pobreza na que viviam as populações ribeirinhas, bem como a revolta sentida quando confrontaram a real dimensão da tragédia testemunhada com a ocultação da verdade que a censura impunha.

Voltando a Pedrogão Grande, a atitude de António Costa não tem qualquer justificação, menos ainda o refugio num alegado segredo de justiça que não tem sentido aplicar à identificação das vitimas. Trocar a censura de antigamente por um injustificado argumento como este, não é essencialmente diferente.

Curioso, é o refugio de alguns, que preferem comentar o infeliz estilo do líder parlamentar do PSD, do que a forma como o governo está a procurar ocultar a verdade. A História serve para isso e, se concordamos que as afirmações de Gentil Martins ou André Ventura são perigosas porque já vivemos intolerâncias e holocaustos, não é menos certo que também o comportamento de António Costa, porque já vivemos censura e fascismo.



Luís Novais

Foto, retirada do Blog Ié Ié