quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Corrompidos Restos

Antigamente eram os construtores os que tinham fama de corromper. Corromper é sempre corromper. Mas sempre era um corromper para construir.

Agora são os sucateiros. Já nem para construir se corrompe. Corrompe-se tão só para levar os corrompidos restos.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Inexistêncial.

Tantos são que dizem
qu’esse que digo outro,
visão é de não mim
por existencial de mim,

que para mim olho
e de mim me temo
que mim afogue mim.

Mim serei eu; sou!
Mas mim será outro?
Então que mim serei,
s’outro se faz mim?

De mim quero ser Ser,
que mim não será,
quem si Ser quer também.

E sendo mim Ser.
E Ser sendo si.
Mim é si por Ser.
E si por Ser é mim.

Filosofal Pedra

Do tanto muito que penso,
tod’a sua origem ignoro.
Origem de pensamento “eu”,
ou pensar q’a mim cria?

Vej’o Mundo vendo-me
e vendo-me par’o ter:
por cosmos troco mim:
cego me vejo par’o ver.

Acontece quando cego sou:
idei’acontece: idei’apenas.
cegueira? Sombra sem limite.

E é então que sorrio; descanso.
Podend’a pedra ser filosofal (ela),
pod’a filosofia ser pedra (eu)

domingo, 1 de novembro de 2009

A Voz

Quand’em fundo silêncio,
vinda do longe ouço
voz forte que fala
e ordenante m’ordena.

Não sei que voz seja:
Se voz minha feita mim,
s’alheia voz, feita de quê?

Sei q’a ouço, isso sei.
Sei q’ordena, isso sei
Sei o quê, sei também.

Em sua força me diz: “Vive!”
E eu não sei o que seja:
Se voz da q’é natural,
se precedente imaterial

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O defeito das qualidades.

Hoje ocorreu-me que na política as pessoas são mais vezes afastadas pelas suas qualidades do que pelos seus defeitos.

Um preço para uma vida humana!

O jornal "Público" de hoje entrevista Joaquim Martinez. Equatoriano. Residente na Florida. Condenado à pena capital. Três anos no corredor da morte. Teve sorte: com dificuldades várias conseguiu que lhe repetissem o julgamento. Segundo veredicto: inocente. Hoje é activista da abolição da pena de morte.

“Público: Quando é que os Estados Unidos se juntarão aos países abolicionistas?
J. Martinez: Há estados como o Texas, a California ou a Florida, que estão a tomar o pulso ao que gastam com isso. Matar uma pessoa pode custar um milhão de dólares, dez vezes mais do que mandá-la para prisão perpétua.”

Li uma vez e tive de ler outra e outra. Não acreditava no que lia. É uma tabela de preços e não a inviolabilidade da vida humana que pode levar à abolição. Que mundo é este?

domingo, 9 de agosto de 2009

Em cama tua.

EM CAMA TUA

Deitas-te. Deito-te.
Lentamente te deitas.
Lentamente te deito.
Lábios de mim, lábios de ti.
Pescoço teu, lábios meus.
Lábios de mim, lábios de ti.
Sensuais são: esses teus lábios meus.
Lábios de mim, lábios de ti.
Abandonas-te de ti: desse ti q’é teu.
Sinto-te! Co’as mãos te sinto,
nesse ti q’a mim se entrega.
Mãos: dedos de minhas mãos.
Dedos: pontas de meus dedos.
Navegadores navegantes navegando.
Por ti fêmea onde mais fêmea és.
Navegadores navegantes navegando.
Por ti em mar q’alevantando se vai.
Passagens, suaves passagens: leves.
De suaves que tocam sem tocar.
De leves que agitam sem agitar.
Lábios de mim, lábios de ti.
Vestes tuas, vestes minhas.
Fêmea és em flor de pele.
Pele tens em flor de fêmea: arrepiada
Mãos de mim em ti.
Intensidade projectada:
em mamas que tuas são,
que de tuas minhas se fazem.
Libertas-te. Envolves-te
Arfas. Desejas.
Beijos. Beijos que prosseguem,
q’em corrente seguem.
Corrente de rio que foz tem.
Deslumbro-me: vejo’sol,
esse teu tatuado sol.
Sol que é nascente.
Nascente de sol em foz de rio.
Principio de sol e fim de rio.
Nascente e foz em princípio de tudo;
em fusão de fim com princípio,
na púbis tua que tens lisa.
E intensa respiras.
Expiras corpo. Inspiras mente:
Corpo que se faz mente,
mente que se faz corpo.
Voz minha em língua tua:
“Open your eyes!”
Olhos meus em olhos teus
E eu estou em ti!
E tu estás em mim!