Quem és?
Homem, mulher serás.
Mas.
Quem és?
Que vês?
Que sentes?
Que mund’é teu mundo?
Que vid’é tua vida?
Qu’ eu é teu eu?
Qu’ outro é teu outro?
Dramas, alegrias;
risos, choros;
quereres, paixões.
Quem és?
Ó vã pergunta: quem és?
De quem foi o qu’és.
Quem adulto se fazendo
Inseguro se houve:
Medo:
Indesvendáveis desvendar;
falsas certezas querer.
Bojadores, Tormentas passar.
Navegar navegar navegar.
E tu? rapaz, menina, criança:
Quem és?
(aos meus filhos. Os havidos e os a haver)
sexta-feira, 18 de junho de 2010
quinta-feira, 3 de junho de 2010
Condenação
Condenação teremos
à livre liberdade,
à vida viver.
Precessão ?
Pois s’a livre condenado,
a viver menos não sou.
Regras m’ avassalem,
grilhões me prendam;
liberdade roubem,
vida me mantenham.
Precessão?
Ó sublime ideia, essa.
Essa para mim quero.
S’a livre condenado estar,
a vida que precede a me limitar.
Precessão!
Condenado sim.
Livre e morto,
preso e vivo.
Choro e sorrio,
em paradoxo iludido.
à livre liberdade,
à vida viver.
Precessão ?
Pois s’a livre condenado,
a viver menos não sou.
Regras m’ avassalem,
grilhões me prendam;
liberdade roubem,
vida me mantenham.
Precessão?
Ó sublime ideia, essa.
Essa para mim quero.
S’a livre condenado estar,
a vida que precede a me limitar.
Precessão!
Condenado sim.
Livre e morto,
preso e vivo.
Choro e sorrio,
em paradoxo iludido.
terça-feira, 25 de maio de 2010
SORRISO DE R.
Há sorrisos vários,
tamanhos sorrisos.
Sorrisos, tantos sorrisos.
Sorrisos que me sorriram,
sorrisos que passaram.
Sorrisos que sorri,
sorrisos que esfumaram.
Mas sorridos com’o sorriso teu:
labirinto d’alma são.
Mostra o que não mostra
esconde o qu’oculta.
Não é palco, cena ou acto,
é pano caído
cena e acto tapando.
Drama, tragédia, o quê,
atrás do pano nesse palco teu?
Alegre pano qu’oculta
o sofrimento que tapa,
essa dor d’alma
qu’íntima se mantém
no esconder de tal pano.
E eu?
Eu que já pano não vejo,
eu que já o pano não quero.
Eu que a cena antevejo:
atrás do pano espreitando.
À boca de cena estou.
Quereria entrar.
‘boca de cena estou.
Quereria ver:
Que esconde afinal esse teu sorriso teu?
À boca de cena estou.
À boca de cena estou.
Quero também actuar,
até que sorrido seja
insorrido sorriso teu.
tamanhos sorrisos.
Sorrisos, tantos sorrisos.
Sorrisos que me sorriram,
sorrisos que passaram.
Sorrisos que sorri,
sorrisos que esfumaram.
Mas sorridos com’o sorriso teu:
labirinto d’alma são.
Mostra o que não mostra
esconde o qu’oculta.
Não é palco, cena ou acto,
é pano caído
cena e acto tapando.
Drama, tragédia, o quê,
atrás do pano nesse palco teu?
Alegre pano qu’oculta
o sofrimento que tapa,
essa dor d’alma
qu’íntima se mantém
no esconder de tal pano.
E eu?
Eu que já pano não vejo,
eu que já o pano não quero.
Eu que a cena antevejo:
atrás do pano espreitando.
À boca de cena estou.
Quereria entrar.
‘boca de cena estou.
Quereria ver:
Que esconde afinal esse teu sorriso teu?
À boca de cena estou.
À boca de cena estou.
Quero também actuar,
até que sorrido seja
insorrido sorriso teu.
sábado, 8 de maio de 2010
Guiné
Quem és, mulher?
Mulher que passas,
um filho na mão,
outro às costas
ao pano amarrado.
Outro inda à frente
tuas peles entranhando.
Que pensas que buscas?
Que força é tua?
Tamanha à dessa terra,
terra vermelha
que c’os pés pisas.
Força tens com'a terra;
terra que pisamos;
terra que pisam,
inda que chão nos dê,
inda que vida nos brote.
És terra, tu.
Negra terra és
em vermelha uma.
És povo és país,
chão que pisam,
vida que dás,
inda que te pisem.
És mulher, és pátria
inda que te pisem.
És mulher, és tu
inda que te pisem
que te repisem,
que te pisem.
Tu és Guiné.
Bissau, Maio-9 2010
Mulher que passas,
um filho na mão,
outro às costas
ao pano amarrado.
Outro inda à frente
tuas peles entranhando.
Que pensas que buscas?
Que força é tua?
Tamanha à dessa terra,
terra vermelha
que c’os pés pisas.
Força tens com'a terra;
terra que pisamos;
terra que pisam,
inda que chão nos dê,
inda que vida nos brote.
És terra, tu.
Negra terra és
em vermelha uma.
És povo és país,
chão que pisam,
vida que dás,
inda que te pisem.
És mulher, és pátria
inda que te pisem.
És mulher, és tu
inda que te pisem
que te repisem,
que te pisem.
Tu és Guiné.
Bissau, Maio-9 2010
Quem és mulher?
Mulher que buscas
em deslumbrado olhar:
azuis que brilham
buscando sem parar.
Que força é tua
que tanta busca te dá?
Descalça sobre o chão,
a sentir, a sentir,
a caminhar, a caminhar.
És mundo e és vida
a horizonte alcançar,
olhos abertos,
procurar procurar:
horizonte alcançar,
horizonte alcançar.
E tu bem sabes mulher,
horizonte longe sempr’é.
E tu bem sabes mulher:
um dia d’olhos fechados,
teu horizonte s’abrirá.
E quando se abram verás:
ao perto longe alcançaste,
tão perto que poderás
teu eu correr a largar,
prenhe de vontades mil:
prenhe de entrega plena.
E o que viste e vês
sem o dizeres.
E o que vi e vejo
sem o dizer:
pronto o dirás,
pronto o direi.
Me dirás?
Te direi.
Dito está.
Bissau, Maio-9 2010
Mulher que buscas
em deslumbrado olhar:
azuis que brilham
buscando sem parar.
Que força é tua
que tanta busca te dá?
Descalça sobre o chão,
a sentir, a sentir,
a caminhar, a caminhar.
És mundo e és vida
a horizonte alcançar,
olhos abertos,
procurar procurar:
horizonte alcançar,
horizonte alcançar.
E tu bem sabes mulher,
horizonte longe sempr’é.
E tu bem sabes mulher:
um dia d’olhos fechados,
teu horizonte s’abrirá.
E quando se abram verás:
ao perto longe alcançaste,
tão perto que poderás
teu eu correr a largar,
prenhe de vontades mil:
prenhe de entrega plena.
E o que viste e vês
sem o dizeres.
E o que vi e vejo
sem o dizer:
pronto o dirás,
pronto o direi.
Me dirás?
Te direi.
Dito está.
Bissau, Maio-9 2010
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
FADO DUM ATLÂNTIDO

Terra que m’oprime,
mar que me liberta.
Ocidental mar,
oriental terra.
Dêem-me mar,
desse que salguei.
Desenterrem-me
d'onde me salgam.
Eu sou da terra total.
Sou verso sem rima:
sem nada que me oprima.
Sou poema sem métrica:
sem nada que me prenda.
Sou mundo,
não m’amarrem,
qu’amarrado me morro.
Dêem-me telas, muitas.
Mas telas sem molduras,
dessas que são velas
qu’ao mundo me levam.
Não m’imponham regras
os homens do norte,
que criar é meu destino,
desregrar é meu saber.
Dêem-me lugares distantes,
p’ra onde eu navegue.
Da cercania serei,
em inverso caminho
do redondo que piso.
Sou mais preto que branco.
Sou mais branco que preto.
A um mundo mundo levo,
a outro mundo mundo trago.
Sou árabe e sou judeu,
ameríndio e chinês,
sou até europeu.
Eu sou português.
Sou português. Sou português.
Luís Novais
Ocidental mar,
oriental terra.
Dêem-me mar,
desse que salguei.
Desenterrem-me
d'onde me salgam.
Eu sou da terra total.
Sou verso sem rima:
sem nada que me oprima.
Sou poema sem métrica:
sem nada que me prenda.
Sou mundo,
não m’amarrem,
qu’amarrado me morro.
Dêem-me telas, muitas.
Mas telas sem molduras,
dessas que são velas
qu’ao mundo me levam.
Não m’imponham regras
os homens do norte,
que criar é meu destino,
desregrar é meu saber.
Dêem-me lugares distantes,
p’ra onde eu navegue.
Da cercania serei,
em inverso caminho
do redondo que piso.
Sou mais preto que branco.
Sou mais branco que preto.
A um mundo mundo levo,
a outro mundo mundo trago.
Sou árabe e sou judeu,
ameríndio e chinês,
sou até europeu.
Eu sou português.
Sou português. Sou português.
Luís Novais
domingo, 7 de fevereiro de 2010
CONHECI-TE
Sem saber: conheci-te.
Sem o querer: conheci-te.
Uma noite: conheci-te.
E agora que conhecida m’és?
A mim que vento sou,
mim que livre me quero,
mim de meu arbítrio,
mim qu’eu ser eu é.
E foi sem querer: conheci-te.
Eu que sou para todos,
porque todos é ninguém
e ninguém é eu.
E agora que não?
Que sem saber: conheci-te.
Sem querer.
Sem procurar.
E conheci-te.
Poderei a mim voltar?
Viver como não sabendo
este segredo que sei?
E afinal eu é querer:
querer enfim talvez ser,
em quem sem querer conheci.
Ó, não sei se te perdoe,
se me perdoe até.
Mas conheci-te.
Sem o querer: conheci-te.
Uma noite: conheci-te.
E agora que conhecida m’és?
A mim que vento sou,
mim que livre me quero,
mim de meu arbítrio,
mim qu’eu ser eu é.
E foi sem querer: conheci-te.
Eu que sou para todos,
porque todos é ninguém
e ninguém é eu.
E agora que não?
Que sem saber: conheci-te.
Sem querer.
Sem procurar.
E conheci-te.
Poderei a mim voltar?
Viver como não sabendo
este segredo que sei?
E afinal eu é querer:
querer enfim talvez ser,
em quem sem querer conheci.
Ó, não sei se te perdoe,
se me perdoe até.
Mas conheci-te.
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