A primeira estrofe é do poeta Luís Ene. Uma amiga ma apresentou. E sem querer dei por mim a continuá-la. Levado por onde imaginação e desejo levaram. Foi estranha, a sensação que tive no fim. Estou habituado a escrever de mim para outras pessoas. Estou habituado a escrever para mim. Nunca escrevera como se escrevesse de outra pessoa para mim.
Obrigado ao Luís Ene que me autorizou tal abuso: começar a minha escrita a partir da sua. Assim me disse: “esteja à vontade, a poesia nunca precisa de autorização para acontecer.”
D.
“Despe-me
ou deixa que eu me dispa
e depois
veste-me
pouco a pouco de carícias.”
***
Olha-me.
Em meu corpo tu me vês
em olhos
vestindo
sofrimento que escondo.
Viste-o.
Ess’eu qu’eu tanto oculto.
Despe-te:
agora.
Pouco a pouco te vestirei.
Agora,
que já despido eu te hei:
visto-te.
Vestes-me:
tu, o que despida me hás.
E aí,
no toque de tua pele:
sinto-me.
Sentes-te:
em toque de pele minha.
E sou!
Porque minha a pele tua:
faço-me.
Fazes-te:
porque já minha tua é.
terça-feira, 2 de novembro de 2010
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
AMAZONAS
Mole de água
desemprenhada.
Rio mar,
a guerreira
nome buscar:
AMAZONAS
Onde desta força:
gente poema faz.
Onde em poema:
força gente tem.
Mistério;
mãe d'água
mãe de vida,
equilíbrios
constantes,
em natureza
que se fez homem
que se fez mulher.
Em homem
em mulher
natureza feitos.
Onde mistério vida
a quem olha nega,
a quem vê mostra.
E a mim me mostrou.
E a mim me mostrou.
AMAZONAS
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Hoje sonhei que mataste um pássaro.
Hoje sonhei que mataste um pássaro. Uma pomba. Uma pomba verde daquelas que Malan mata quando com ele saio ao mato: à caça; na Guiné.
Não sei por que construi as frases que acabo de construir da forma como estão construídas. Sei; claro. Foi para te fazer sentir que tu matas. E que eu não. Que mesmo quando saio ao mato é para ver matar e não para que mate. E assim também o meu tiro fica dado.
Não te vi. Ouvi o teu disparo: certeiro. E vi-a cair da árvore; à pomba. Quando a mataste estava pousada: entre o ramo duma árvore e um cabo da companhia de telefones. Talvez eu não tenha a certeza se caiu do ramo se do cabo. É simbólico: a pomba que mataste estava entre a árvore e o telefone. Entre o “ser para si” e o “ser para o outro”; para ti.
Fui eu quem a foi buscar. Caída no chão: entre arbustos rasteiros e caruma de pinheiro. Ferida de morte. Pensei que talvez a devesse matar. Apertar-lhe o pescoço. Terminar com a sua agonia. É o que costumo fazer às pombas que Malan mata…
…e agora, muito agora: agora descubro que afinal sou eu quem as mata. Malan fere-as de morte. mas quem as mata sou eu.
Não me lembro se matei ou não matei a que feriste de morte.
De qualquer forma o tiro estava dado.
E se eu fosse apresentado ao tribunal das pombas? Se fosse posto perante um juiz pomba como se fora um outro qualquer juiz qualquer: com o traje negro dos juízes e com a majestosa cadeira. Ele sempre em cima. Eu sempre em baixo. Ele sempre a mirar-me do seu alto posto. Eu sempre a mirá-lo do meu chão; do meu nada. Quem seria culpado do crime? Malan que feriu ou eu que matei?
Não interessa. De qualquer forma: neste sonho eu não me lembro se matei ou se não matei a pomba que tu feriste de morte. É até provável que não o tenha feito.
Um sonho. Só um sonho. Que significado terão os sonhos? Terão algum?
Não sei por que construi as frases que acabo de construir da forma como estão construídas. Sei; claro. Foi para te fazer sentir que tu matas. E que eu não. Que mesmo quando saio ao mato é para ver matar e não para que mate. E assim também o meu tiro fica dado.
Não te vi. Ouvi o teu disparo: certeiro. E vi-a cair da árvore; à pomba. Quando a mataste estava pousada: entre o ramo duma árvore e um cabo da companhia de telefones. Talvez eu não tenha a certeza se caiu do ramo se do cabo. É simbólico: a pomba que mataste estava entre a árvore e o telefone. Entre o “ser para si” e o “ser para o outro”; para ti.
Fui eu quem a foi buscar. Caída no chão: entre arbustos rasteiros e caruma de pinheiro. Ferida de morte. Pensei que talvez a devesse matar. Apertar-lhe o pescoço. Terminar com a sua agonia. É o que costumo fazer às pombas que Malan mata…
…e agora, muito agora: agora descubro que afinal sou eu quem as mata. Malan fere-as de morte. mas quem as mata sou eu.
Não me lembro se matei ou não matei a que feriste de morte.
De qualquer forma o tiro estava dado.
E se eu fosse apresentado ao tribunal das pombas? Se fosse posto perante um juiz pomba como se fora um outro qualquer juiz qualquer: com o traje negro dos juízes e com a majestosa cadeira. Ele sempre em cima. Eu sempre em baixo. Ele sempre a mirar-me do seu alto posto. Eu sempre a mirá-lo do meu chão; do meu nada. Quem seria culpado do crime? Malan que feriu ou eu que matei?
Não interessa. De qualquer forma: neste sonho eu não me lembro se matei ou se não matei a pomba que tu feriste de morte. É até provável que não o tenha feito.
Um sonho. Só um sonho. Que significado terão os sonhos? Terão algum?
terça-feira, 20 de julho de 2010
No Amazonas, nadando com piranhas

Entraria em pânico, claro: não fora Carlos ter-me avisado que não passariam daí. Ainda assim não tive a mesma confiança que Carlos tem: não saltei para o grande rio sem calções.
E há duas horas que eu e Carlos o guia pescávamos. O Amazonas estava calmo e a canoa deixava-se estar e era estremecido apenas pelos nossos movimentos. Tudo o que é necessário para aqui se pescar é o que temos: uma pequena vara e dois metros de fio e um anzol.
Isco também; claro que sim; os peixes não são tantos ou tão simpáticos que mordam o anzol sem que recebam nada em troca. Aqui chamam carnada ao isco. Não vi que Carlos a trouxesse.
Já chegamos ao nosso local de pesca. Quase sempre à força de braços. A gasolina é um bem raro e o motor só se liga quando não pode deixar de ser. Cruzamo-nos com outra canoa. Esta é minúscula e não tem motor e transporta apenas um homem que quase a ocupa toda. “Olá Pancho. Vens da pesca?” e “Dás-me uns pescaditos para carnada?” Claro que Pancho dá. Encostamos as canoas. E agora já temos três peixes com que pescar muitos mais. “Gracias amigo.”
Pergunto-me se todos os pescadores sairão sem levar isco. Faço a mesma pergunto a Carlos. Responde-me que sim. “Há sempre alguém a regressar da pesca e quem regressa sempre tem uns pescaditos para dar.”
Enquanto Carlos corta a carnada eu vou cortando pensamentos. Afinal há sempre alguém que vai sem isco e alguém que volta com peixe. Nestes contínuos ires e vires de homens que partem e homens que regressam: é a esta cadeia de gente que temos de agradecer o peixe que agora temos: talvez ao primeiro homem que há séculos aqui pescou; que iniciou o ciclo imparável dos que regressando oferecem peixe aos que vão…
A piranhas começam a morder: sente-se na cana. “Primeiro só mordiscam. Quando derem o segundo ou terceiro esticão é que deves tirar a linha da água”, Carlos instrui-me e eu assim faço. Conversamos conforme vamos pescando. Dentro da canoa já se ouve o sapateado de uma meia dúzia. “Podem resistir até quatro horas fora de água”, Carlos o guia.
E não. Não são aquele terrível animal que o cinema nos vende. Menos ainda têm aquele aspecto sanguinário das que depois de secas são colocadas em suporte de madeira como objecto de decoração. De mau gosto, diga-se. Até qualquer humano ficaria com um ar terrífico se o secassem e o empalassem sobre um paralelepípedo de madeira. Com a diferença de que o humano é mesmo perigoso; selvagem. As piranhas que retiramos do anzol, não: parecem até razoavelmente inofensivas. Carlos o guia: “Já tirei da barriga duma piranha o dedo dum alemão que estava a pescar comigo”. Não fora a advertência de Carlos e nem sequer teria muitos cuidados. Na verdade o dedo do alemão em barriga de piranha não me sai da cabeça. É sempre Carlos quem tem de tirar as minhas do anzol; e as dele, claro.
Onde a vista alcança vejo algumas crianças nativas. Lavam-se e brincam na água indiferentes à má fama destes peixes dentudos. “Não têm medo das piranhas?”, pergunto. “As piranhas são inofensivas”, Carlos o guia. A minha expressão deverá ser de descrença. Carlos insiste: “É verdade. Nunca nos atacam. Já levo cinquenta e quatro anos de Amazónia e nunca soube de alguém comido por piranhas.” Como para provar o que diz: Carlos começa a tirar a roupa. Faz tenção de se atirar à água. “Tem cuidado Carlos. Não quero ficar sozinho e perdido no meio do Amazonas.” Rimo-nos. “Também podes vir Luisito. Tira a roupa e tchás.” Carlos fala assim: por onomatopeias. Talvez uma réstia dos idiomas indígenas que lhe correm nas veias. “Tens a certeza?” “Claro. Vais senti-las a aproximarem-se de ti. São muito curiosas. E depois sentirás os seus dentes. Mas suavemente. Quase como uma pequena beliscada. Umas cócegas até. Mas não te mordem. São inofensivas para nós.” Carlos já se atirou à água. “Já estão à volta de mim”, gritar a rir. E eu ganho coragem. Tiro a roupa. E já me atirei às águas do Amazonas. E já estou rodeado de inofensivas piranhas que com suavidade me vêm saudar. Entraria em pânico, claro: não fora Carlos ter-me avisado que não passariam daí. Ainda assim não tive a mesma confiança que Carlos tem: não saltei para o grande rio sem calções.
Estamos a regressar. Três golfinhos acompanham-nos algum tempo. Um é rosado e os outros dois são cinzentos. Carlos tira o remo da água e liga o motor. Ao som do motor sou conduzido para as aulas onde me fui fazendo eu. Do pensamento mitológico à racionalidade. Nós somos os da racionalidade. Penso nas piranhas, agora. Afinal tão inofensivas apesar de Hollywood. E penso no que irão dizer os meus amigos quando lhes disser que nadei entre piranhas. Que falsa é a ideia de que somos racionais e livres do mito. Também temos os nossos feiticeiros ou chamans ou balobeiros ou sacerdotes tribais; conforme lhes queiramos chamar: o cinema ou a literatura ou a imprensa. Tudo a criar-nos os mitos sem os quais nos recusamos afinal a viver.
Carlos voltou a parar o motor. Prosseguimos a remo. E vejo os golfinhos e nas margens mais um grupo de crianças indígenas que se atiram à água e oiço a piranhas que pescamos e que insistem em saltar contra a madeira do barco. As piranhas. As perigosas piranhas. E Carlos que “as piranhas são deliciosas.” E o mito. O mito da piranha devoradora de gente e que afinal é apenas uma deliciosa piranha para essa mesma gente.
quarta-feira, 14 de julho de 2010
Em Iquitos, entrando na Amazónia.
Sensação estranha: ver a mãe de água do mundo. Pai deverá ser. À floresta se une e fêmea é; esta. Amazonas.Aeroporto. “Ali já é o Amazonas?”. “Não, aí é apenas um braço”, o taxista. Depois Carlos, o guia. Sangue índio nas veias: muito. Com ele entrarei na selva. Comeremos do que a selva nos der. Do que o rio nos deixar apanhar. “São deliciosas, as piranhas”; Carlos o guia.
Computador: não. Telefone: ainda menos; não há rede. Dormir será na selva. “Quando dormir não se encoste à rede mosquiteira que os morcegos aproveitam imediatamente e sugam-no”; Carlos o guia.
A mística: há uma mística nesta selva. Freudiana será: penetrar no que dificilmente é penetrável. Ou talvez um regresse uterino: a selva é mãe de vida.
Ainda Iquitos, contudo. De selva só amanhã. Plaza de Armas. “Amazon Café Restaurante”. Varanda com vista para a Praça. “Quero comida típica da selva”. “Lagarto Senhor? Crocodilo? Tartaruga?” Ainda não me sinto preparado. “Não, isso não”. Penso: “talvez quando regressar da selva”. Um peixe do rio.
Toda a casa do restaurante é em ferro. Oitocentista excentricidade. Alguém a trouxe parede-por-parede e parafuso-por-parafuso de França. Eiffel a concebeu. Lá em baixo tem uma placa a explicar o que estranhamente aqui faz esta casa de ferro de França trazida . Explica até como veio aqui parar. Tento lembrar-me. Não me lembro. Também não é importante: não estou a fazer um guia de Iquitos; um percurso. Só me interessa o meu guia mental; o percurso dos meus pensamentos. É para mim que escrevo, sempre.
Varanda do Amazónia Café. Ruído dos moto-taxis. Centenas deles. Não estivera com o Amazonas já ali e esta seria a maior excentricidade local. E vão eles. Metáfora de rio: Iquitos abaixo. E vão eles. Metáfora de gente: minúsculos mas irritantemente barulhentos. O rio não que esse é grande. E silencioso, até. Talvez porque grande. E assim fica a gente sem metáfora no rio e com metáfora nos táxis que são motas.
Da minha mesa olho pela varanda. A Plaza de Armas. A minha cabeça não que essa já está na selva. “Que ruídos serão os da selva quando o dia se põe e a noite se faz noite?” Amanhã já saberei. “Pássaros certamente”. Amanhã saberei. “O arrastar da anaconda. Será audível?” Amanhã saberei, talvez.
Chega o peixe. Dentro folhas cozinhado. Mais tarde Carlos o guia explicar-me-á que não: não são folhas de bananeira. Puta de mania de tudo tentar adivinhar. Ensina-me Carlos: "É uma folha que acrescenta sabor ao sabor do peixe e sabor ao sabor da cebola e do tomate e do alho". Carlos diz-e o nome da folha Não me lembro. O peixe tem nome e a esse apontei-o: Fibaro. E não, isto que parece mesmo batatas fritas não é batata frita. Patacoles se chamam: com banana esmagada e frita se fazem. Misturam-lhe alho, claro. Os fios de palmito na salada… e como. Não sobra.
Vejo os rostos que passam na rua. Aqui são mais angulosos. Nos Andes arredondam-se. São belezas diferentes. Como se os ângulos da montanha tivessem de ser arredondadamente compensados pela gente. Como se em gente angulosa a planura da selva seu equilíbrio procurasse também. E assim o que a montanha dá o homem lhe devolve. E assim o que o Homem dá a selva lhe devolve. Equilíbrios que seriam eternos. Que talvez sejam. Afinal o futuro está ainda por escrever.
quarta-feira, 23 de junho de 2010
Atravessando busca tua entre terra e céu frente a mar.
Sobre terra
que pisas.
Sob nuvem
que tocas.
És céu.
És terra.
És tu.
Pés assentes:
caminhas.
Caravelas voadoras:
sonhas.
Andas dias,
sonhas noites.
Dia: terra
Noite: céu
Buscas dia
o que noite sonhas.
Sonhas noite
o que dia buscas.
E eu?
Entre voos voados
caminhos caminhados.
E eu?
que pisas.
Sob nuvem
que tocas.
És céu.
És terra.
És tu.
Pés assentes:
caminhas.
Caravelas voadoras:
sonhas.
Andas dias,
sonhas noites.
Dia: terra
Noite: céu
Buscas dia
o que noite sonhas.
Sonhas noite
o que dia buscas.
E eu?
Entre voos voados
caminhos caminhados.
E eu?
segunda-feira, 21 de junho de 2010
Sublimado terror.
Humanos somos
Fortes por fora, às vezes.
Fracos por dentro, sempre.
Erros temores
que não mostramos.
Vergonhas que escondemos
que vergonhas não são
que vergonha de sermos que somos.
Que somos humanos.
Livres, dizem uns.
Conscientes, outros.
Mas humanos somos.
De misérias cheios.
Horrores, vazios.
Sempre e sempre a superar.
Inconfesso desespero,
em obra sublimado.
Fortes por fora, às vezes.
Fracos por dentro, sempre.
Erros temores
que não mostramos.
Vergonhas que escondemos
que vergonhas não são
que vergonha de sermos que somos.
Que somos humanos.
Livres, dizem uns.
Conscientes, outros.
Mas humanos somos.
De misérias cheios.
Horrores, vazios.
Sempre e sempre a superar.
Inconfesso desespero,
em obra sublimado.
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