segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Rosa em malmequer

Fosse rosa
malmequer
bemequerer.
Amor:
liberdade
ir
regressar
regressar
sem ir.
Voltaria
livre fosse,
livre não sou.
Não ficaste:
tu.
Não parti:
eu.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Eu mar, areia tu.

Em ondas s’agitam,
mares se combatem,
marés se confrontam.
Calipsos, Polifemos;
de sereias canto seu,
titãs s’enfrentam.

Rude mar, rude mar.
Lutar lutar lutar.

E de tanto e tanto,
navegar navegar:
ao destino enfim;
praia onde s’espraia
e de si se faz teu.

De guerra eles foram,
d’amor já gritos são.
Suave que se vai,
suave que se vem.
Já da raiva espuma fez,
e já n’areia a serenar.

Doce areia doce:
tu.
Suave mar suave:
eu.













(Imagem: "Batalla en las nubes", Salvador Dali, 1974)

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Céu em espaço e tempo.

Olho
em volta;
julgo
ver.
Volto
a olhar:
não.

Penso
em torno;
julgo
saber.
Volto
a pensar:
não.

Penso
e vejo.
Dispenso
invejo
o que penso
ver,
o que penso
saber.

Vejo.
Penso.
Penso ver
tudo.
Vejo
nada.
Tudo
é nada,
nada é tudo.

Se vejo,
se penso,
s’o que vejo,
s’o que penso,
vejo
e penso
com tudo:
e sem ti,
contudo.

Diz-me:
onde
fica.
Diz-me:
quando
é.
O espaço,
o tempo,
o céu:
tu.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

D.

A primeira estrofe é do poeta Luís Ene. Uma amiga ma apresentou. E sem querer dei por mim a continuá-la. Levado por onde imaginação e desejo levaram. Foi estranha, a sensação que tive no fim. Estou habituado a escrever de mim para outras pessoas. Estou habituado a escrever para mim. Nunca escrevera como se escrevesse de outra pessoa para mim.
Obrigado ao Luís Ene que me autorizou tal abuso: começar a minha escrita a partir da sua. Assim me disse: “esteja à vontade, a poesia nunca precisa de autorização para acontecer.”


D.

“Despe-me
ou deixa que eu me dispa
e depois
veste-me
pouco a pouco de carícias.”

***

Olha-me.
Em meu corpo tu me vês
em olhos
vestindo
sofrimento que escondo.

Viste-o.
Ess’eu qu’eu tanto oculto.
Despe-te:
agora.
Pouco a pouco te vestirei.

Agora,
que já despido eu te hei:
visto-te.
Vestes-me:
tu, o que despida me hás.

E aí,
no toque de tua pele:
sinto-me.
Sentes-te:
em toque de pele minha.

E sou!
Porque minha a pele tua:
faço-me.
Fazes-te:
porque já minha tua é.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

AMAZONAS











Mole de água
desemprenhada.
Rio mar,
a guerreira
nome buscar:

AMAZONAS

Onde desta força:
gente poema faz.
Onde em poema:
força gente tem.

Mistério;
mãe d'água
mãe de vida,
equilíbrios
constantes,
em natureza
que se fez homem
que se fez mulher.
Em homem
em mulher
natureza feitos.
Onde mistério vida
a quem olha nega,
a quem vê mostra.

E a mim me mostrou.
E a mim me mostrou.
AMAZONAS

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Hoje sonhei que mataste um pássaro.

Hoje sonhei que mataste um pássaro. Uma pomba. Uma pomba verde daquelas que Malan mata quando com ele saio ao mato: à caça; na Guiné.

Não sei por que construi as frases que acabo de construir da forma como estão construídas. Sei; claro. Foi para te fazer sentir que tu matas. E que eu não. Que mesmo quando saio ao mato é para ver matar e não para que mate. E assim também o meu tiro fica dado.

Não te vi. Ouvi o teu disparo: certeiro. E vi-a cair da árvore; à pomba. Quando a mataste estava pousada: entre o ramo duma árvore e um cabo da companhia de telefones. Talvez eu não tenha a certeza se caiu do ramo se do cabo. É simbólico: a pomba que mataste estava entre a árvore e o telefone. Entre o “ser para si” e o “ser para o outro”; para ti.

Fui eu quem a foi buscar. Caída no chão: entre arbustos rasteiros e caruma de pinheiro. Ferida de morte. Pensei que talvez a devesse matar. Apertar-lhe o pescoço. Terminar com a sua agonia. É o que costumo fazer às pombas que Malan mata…

…e agora, muito agora: agora descubro que afinal sou eu quem as mata. Malan fere-as de morte. mas quem as mata sou eu.

Não me lembro se matei ou não matei a que feriste de morte.

De qualquer forma o tiro estava dado.

E se eu fosse apresentado ao tribunal das pombas? Se fosse posto perante um juiz pomba como se fora um outro qualquer juiz qualquer: com o traje negro dos juízes e com a majestosa cadeira. Ele sempre em cima. Eu sempre em baixo. Ele sempre a mirar-me do seu alto posto. Eu sempre a mirá-lo do meu chão; do meu nada. Quem seria culpado do crime? Malan que feriu ou eu que matei?

Não interessa. De qualquer forma: neste sonho eu não me lembro se matei ou se não matei a pomba que tu feriste de morte. É até provável que não o tenha feito.

Um sonho. Só um sonho. Que significado terão os sonhos? Terão algum?

terça-feira, 20 de julho de 2010

No Amazonas, nadando com piranhas



Entraria em pânico, claro: não fora Carlos ter-me avisado que não passariam daí. Ainda assim não tive a mesma confiança que Carlos tem: não saltei para o grande rio sem calções.


E há duas horas que eu e Carlos o guia pescávamos. O Amazonas estava calmo e a canoa deixava-se estar e era estremecido apenas pelos nossos movimentos. Tudo o que é necessário para aqui se pescar é o que temos: uma pequena vara e dois metros de fio e um anzol.

Isco também; claro que sim; os peixes não são tantos ou tão simpáticos que mordam o anzol sem que recebam nada em troca. Aqui chamam carnada ao isco. Não vi que Carlos a trouxesse.

Já chegamos ao nosso local de pesca. Quase sempre à força de braços. A gasolina é um bem raro e o motor só se liga quando não pode deixar de ser. Cruzamo-nos com outra canoa. Esta é minúscula e não tem motor e transporta apenas um homem que quase a ocupa toda. “Olá Pancho. Vens da pesca?” e “Dás-me uns pescaditos para carnada?” Claro que Pancho dá. Encostamos as canoas. E agora já temos três peixes com que pescar muitos mais. “Gracias amigo.”

Pergunto-me se todos os pescadores sairão sem levar isco. Faço a mesma pergunto a Carlos. Responde-me que sim. “Há sempre alguém a regressar da pesca e quem regressa sempre tem uns pescaditos para dar.”

Enquanto Carlos corta a carnada eu vou cortando pensamentos. Afinal há sempre alguém que vai sem isco e alguém que volta com peixe. Nestes contínuos ires e vires de homens que partem e homens que regressam: é a esta cadeia de gente que temos de agradecer o peixe que agora temos: talvez ao primeiro homem que há séculos aqui pescou; que iniciou o ciclo imparável dos que regressando oferecem peixe aos que vão…

A piranhas começam a morder: sente-se na cana. “Primeiro só mordiscam. Quando derem o segundo ou terceiro esticão é que deves tirar a linha da água”, Carlos instrui-me e eu assim faço. Conversamos conforme vamos pescando. Dentro da canoa já se ouve o sapateado de uma meia dúzia. “Podem resistir até quatro horas fora de água”, Carlos o guia.

E não. Não são aquele terrível animal que o cinema nos vende. Menos ainda têm aquele aspecto sanguinário das que depois de secas são colocadas em suporte de madeira como objecto de decoração. De mau gosto, diga-se. Até qualquer humano ficaria com um ar terrífico se o secassem e o empalassem sobre um paralelepípedo de madeira. Com a diferença de que o humano é mesmo perigoso; selvagem. As piranhas que retiramos do anzol, não: parecem até razoavelmente inofensivas. Carlos o guia: “Já tirei da barriga duma piranha o dedo dum alemão que estava a pescar comigo”. Não fora a advertência de Carlos e nem sequer teria muitos cuidados. Na verdade o dedo do alemão em barriga de piranha não me sai da cabeça. É sempre Carlos quem tem de tirar as minhas do anzol; e as dele, claro.

Onde a vista alcança vejo algumas crianças nativas. Lavam-se e brincam na água indiferentes à má fama destes peixes dentudos. “Não têm medo das piranhas?”, pergunto. “As piranhas são inofensivas”, Carlos o guia. A minha expressão deverá ser de descrença. Carlos insiste: “É verdade. Nunca nos atacam. Já levo cinquenta e quatro anos de Amazónia e nunca soube de alguém comido por piranhas.” Como para provar o que diz: Carlos começa a tirar a roupa. Faz tenção de se atirar à água. “Tem cuidado Carlos. Não quero ficar sozinho e perdido no meio do Amazonas.” Rimo-nos. “Também podes vir Luisito. Tira a roupa e tchás.” Carlos fala assim: por onomatopeias. Talvez uma réstia dos idiomas indígenas que lhe correm nas veias. “Tens a certeza?” “Claro. Vais senti-las a aproximarem-se de ti. São muito curiosas. E depois sentirás os seus dentes. Mas suavemente. Quase como uma pequena beliscada. Umas cócegas até. Mas não te mordem. São inofensivas para nós.” Carlos já se atirou à água. “Já estão à volta de mim”, gritar a rir. E eu ganho coragem. Tiro a roupa. E já me atirei às águas do Amazonas. E já estou rodeado de inofensivas piranhas que com suavidade me vêm saudar. Entraria em pânico, claro: não fora Carlos ter-me avisado que não passariam daí. Ainda assim não tive a mesma confiança que Carlos tem: não saltei para o grande rio sem calções.

Estamos a regressar. Três golfinhos acompanham-nos algum tempo. Um é rosado e os outros dois são cinzentos. Carlos tira o remo da água e liga o motor. Ao som do motor sou conduzido para as aulas onde me fui fazendo eu. Do pensamento mitológico à racionalidade. Nós somos os da racionalidade. Penso nas piranhas, agora. Afinal tão inofensivas apesar de Hollywood. E penso no que irão dizer os meus amigos quando lhes disser que nadei entre piranhas. Que falsa é a ideia de que somos racionais e livres do mito. Também temos os nossos feiticeiros ou chamans ou balobeiros ou sacerdotes tribais; conforme lhes queiramos chamar: o cinema ou a literatura ou a imprensa. Tudo a criar-nos os mitos sem os quais nos recusamos afinal a viver.

Carlos voltou a parar o motor. Prosseguimos a remo. E vejo os golfinhos e nas margens mais um grupo de crianças indígenas que se atiram à água e oiço a piranhas que pescamos e que insistem em saltar contra a madeira do barco. As piranhas. As perigosas piranhas. E Carlos que “as piranhas são deliciosas.” E o mito. O mito da piranha devoradora de gente e que afinal é apenas uma deliciosa piranha para essa mesma gente.