Poderá
Definir-se
tempo e Ser?
Um instante:
o tempo.
Felicidade:
o ser.
Assim tal:
Ser sendo
nessa linha
que do tempo
é linha?
E por que não?
Se punhos
fechados
em mãos
abertas
se tornam.
Mãos tuas
se abrem.
Mãos minhas
também.
Aí.
Deixa-te.
Ai, aí.
Aí acontece.
Aí:
te acolho eu
Aí:
me acolhes tu.
Eterno, o tempo.
Ternos, eu tu.
E Ser sermos nós
terça-feira, 9 de novembro de 2010
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Rosa em malmequer
Fosse rosa
malmequer
bemequerer.
Amor:
liberdade
ir
regressar
regressar
sem ir.
Voltaria
livre fosse,
livre não sou.
Não ficaste:
tu.
Não parti:
eu.
malmequer
bemequerer.
Amor:
liberdade
ir
regressar
regressar
sem ir.
Voltaria
livre fosse,
livre não sou.
Não ficaste:
tu.
Não parti:
eu.
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
Eu mar, areia tu.
Em ondas s’agitam,
mares se combatem,
marés se confrontam.
Calipsos, Polifemos;
de sereias canto seu,
titãs s’enfrentam.
Rude mar, rude mar.
Lutar lutar lutar.
E de tanto e tanto,
navegar navegar:
ao destino enfim;
praia onde s’espraia
e de si se faz teu.
De guerra eles foram,
d’amor já gritos são.
Suave que se vai,
suave que se vem.
Já da raiva espuma fez,
e já n’areia a serenar.
Doce areia doce:
tu.
Suave mar suave:
eu.

(Imagem: "Batalla en las nubes", Salvador Dali, 1974)
mares se combatem,
marés se confrontam.
Calipsos, Polifemos;
de sereias canto seu,
titãs s’enfrentam.
Rude mar, rude mar.
Lutar lutar lutar.
E de tanto e tanto,
navegar navegar:
ao destino enfim;
praia onde s’espraia
e de si se faz teu.
De guerra eles foram,
d’amor já gritos são.
Suave que se vai,
suave que se vem.
Já da raiva espuma fez,
e já n’areia a serenar.
Doce areia doce:
tu.
Suave mar suave:
eu.

(Imagem: "Batalla en las nubes", Salvador Dali, 1974)
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Céu em espaço e tempo.
Olho
em volta;
julgo
ver.
Volto
a olhar:
não.
Penso
em torno;
julgo
saber.
Volto
a pensar:
não.
Penso
e vejo.
Dispenso
invejo
o que penso
ver,
o que penso
saber.
Vejo.
Penso.
Penso ver
tudo.
Vejo
nada.
Tudo
é nada,
nada é tudo.
Se vejo,
se penso,
s’o que vejo,
s’o que penso,
vejo
e penso
com tudo:
e sem ti,
contudo.
Diz-me:
onde
fica.
Diz-me:
quando
é.
O espaço,
o tempo,
o céu:
tu.
em volta;
julgo
ver.
Volto
a olhar:
não.
Penso
em torno;
julgo
saber.
Volto
a pensar:
não.
Penso
e vejo.
Dispenso
invejo
o que penso
ver,
o que penso
saber.
Vejo.
Penso.
Penso ver
tudo.
Vejo
nada.
Tudo
é nada,
nada é tudo.
Se vejo,
se penso,
s’o que vejo,
s’o que penso,
vejo
e penso
com tudo:
e sem ti,
contudo.
Diz-me:
onde
fica.
Diz-me:
quando
é.
O espaço,
o tempo,
o céu:
tu.
terça-feira, 2 de novembro de 2010
D.
A primeira estrofe é do poeta Luís Ene. Uma amiga ma apresentou. E sem querer dei por mim a continuá-la. Levado por onde imaginação e desejo levaram. Foi estranha, a sensação que tive no fim. Estou habituado a escrever de mim para outras pessoas. Estou habituado a escrever para mim. Nunca escrevera como se escrevesse de outra pessoa para mim.
Obrigado ao Luís Ene que me autorizou tal abuso: começar a minha escrita a partir da sua. Assim me disse: “esteja à vontade, a poesia nunca precisa de autorização para acontecer.”
D.
“Despe-me
ou deixa que eu me dispa
e depois
veste-me
pouco a pouco de carícias.”
***
Olha-me.
Em meu corpo tu me vês
em olhos
vestindo
sofrimento que escondo.
Viste-o.
Ess’eu qu’eu tanto oculto.
Despe-te:
agora.
Pouco a pouco te vestirei.
Agora,
que já despido eu te hei:
visto-te.
Vestes-me:
tu, o que despida me hás.
E aí,
no toque de tua pele:
sinto-me.
Sentes-te:
em toque de pele minha.
E sou!
Porque minha a pele tua:
faço-me.
Fazes-te:
porque já minha tua é.
Obrigado ao Luís Ene que me autorizou tal abuso: começar a minha escrita a partir da sua. Assim me disse: “esteja à vontade, a poesia nunca precisa de autorização para acontecer.”
D.
“Despe-me
ou deixa que eu me dispa
e depois
veste-me
pouco a pouco de carícias.”
***
Olha-me.
Em meu corpo tu me vês
em olhos
vestindo
sofrimento que escondo.
Viste-o.
Ess’eu qu’eu tanto oculto.
Despe-te:
agora.
Pouco a pouco te vestirei.
Agora,
que já despido eu te hei:
visto-te.
Vestes-me:
tu, o que despida me hás.
E aí,
no toque de tua pele:
sinto-me.
Sentes-te:
em toque de pele minha.
E sou!
Porque minha a pele tua:
faço-me.
Fazes-te:
porque já minha tua é.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
AMAZONAS
Mole de água
desemprenhada.
Rio mar,
a guerreira
nome buscar:
AMAZONAS
Onde desta força:
gente poema faz.
Onde em poema:
força gente tem.
Mistério;
mãe d'água
mãe de vida,
equilíbrios
constantes,
em natureza
que se fez homem
que se fez mulher.
Em homem
em mulher
natureza feitos.
Onde mistério vida
a quem olha nega,
a quem vê mostra.
E a mim me mostrou.
E a mim me mostrou.
AMAZONAS
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Hoje sonhei que mataste um pássaro.
Hoje sonhei que mataste um pássaro. Uma pomba. Uma pomba verde daquelas que Malan mata quando com ele saio ao mato: à caça; na Guiné.
Não sei por que construi as frases que acabo de construir da forma como estão construídas. Sei; claro. Foi para te fazer sentir que tu matas. E que eu não. Que mesmo quando saio ao mato é para ver matar e não para que mate. E assim também o meu tiro fica dado.
Não te vi. Ouvi o teu disparo: certeiro. E vi-a cair da árvore; à pomba. Quando a mataste estava pousada: entre o ramo duma árvore e um cabo da companhia de telefones. Talvez eu não tenha a certeza se caiu do ramo se do cabo. É simbólico: a pomba que mataste estava entre a árvore e o telefone. Entre o “ser para si” e o “ser para o outro”; para ti.
Fui eu quem a foi buscar. Caída no chão: entre arbustos rasteiros e caruma de pinheiro. Ferida de morte. Pensei que talvez a devesse matar. Apertar-lhe o pescoço. Terminar com a sua agonia. É o que costumo fazer às pombas que Malan mata…
…e agora, muito agora: agora descubro que afinal sou eu quem as mata. Malan fere-as de morte. mas quem as mata sou eu.
Não me lembro se matei ou não matei a que feriste de morte.
De qualquer forma o tiro estava dado.
E se eu fosse apresentado ao tribunal das pombas? Se fosse posto perante um juiz pomba como se fora um outro qualquer juiz qualquer: com o traje negro dos juízes e com a majestosa cadeira. Ele sempre em cima. Eu sempre em baixo. Ele sempre a mirar-me do seu alto posto. Eu sempre a mirá-lo do meu chão; do meu nada. Quem seria culpado do crime? Malan que feriu ou eu que matei?
Não interessa. De qualquer forma: neste sonho eu não me lembro se matei ou se não matei a pomba que tu feriste de morte. É até provável que não o tenha feito.
Um sonho. Só um sonho. Que significado terão os sonhos? Terão algum?
Não sei por que construi as frases que acabo de construir da forma como estão construídas. Sei; claro. Foi para te fazer sentir que tu matas. E que eu não. Que mesmo quando saio ao mato é para ver matar e não para que mate. E assim também o meu tiro fica dado.
Não te vi. Ouvi o teu disparo: certeiro. E vi-a cair da árvore; à pomba. Quando a mataste estava pousada: entre o ramo duma árvore e um cabo da companhia de telefones. Talvez eu não tenha a certeza se caiu do ramo se do cabo. É simbólico: a pomba que mataste estava entre a árvore e o telefone. Entre o “ser para si” e o “ser para o outro”; para ti.
Fui eu quem a foi buscar. Caída no chão: entre arbustos rasteiros e caruma de pinheiro. Ferida de morte. Pensei que talvez a devesse matar. Apertar-lhe o pescoço. Terminar com a sua agonia. É o que costumo fazer às pombas que Malan mata…
…e agora, muito agora: agora descubro que afinal sou eu quem as mata. Malan fere-as de morte. mas quem as mata sou eu.
Não me lembro se matei ou não matei a que feriste de morte.
De qualquer forma o tiro estava dado.
E se eu fosse apresentado ao tribunal das pombas? Se fosse posto perante um juiz pomba como se fora um outro qualquer juiz qualquer: com o traje negro dos juízes e com a majestosa cadeira. Ele sempre em cima. Eu sempre em baixo. Ele sempre a mirar-me do seu alto posto. Eu sempre a mirá-lo do meu chão; do meu nada. Quem seria culpado do crime? Malan que feriu ou eu que matei?
Não interessa. De qualquer forma: neste sonho eu não me lembro se matei ou se não matei a pomba que tu feriste de morte. É até provável que não o tenha feito.
Um sonho. Só um sonho. Que significado terão os sonhos? Terão algum?
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