Num jornal de Lima leio um artigo onde Francisco Miró, assim se chama o articulista, divaga sobre um tema que, aqui no Peru, é levado muito a sério: a origem dos terramotos e a quimera da sua previsão. Lembra Miró que até ao Sec. XVIII se acreditava que este fenómeno era provocado por Deus para castigo dos pecados da humanidade. Hoje porém, prossegue, conhecemos a sua origem natural, as suas causas físicas. Ainda assim, a ciência não alcançou a questão mais importante: prever um terramoto e, por isso, “lo único que podemos esperar es tener suerte, y que esos sucessos terribles no se produzcan entre nosotros”.domingo, 29 de abril de 2012
Descrença e angustia neste nosso tempo.
Num jornal de Lima leio um artigo onde Francisco Miró, assim se chama o articulista, divaga sobre um tema que, aqui no Peru, é levado muito a sério: a origem dos terramotos e a quimera da sua previsão. Lembra Miró que até ao Sec. XVIII se acreditava que este fenómeno era provocado por Deus para castigo dos pecados da humanidade. Hoje porém, prossegue, conhecemos a sua origem natural, as suas causas físicas. Ainda assim, a ciência não alcançou a questão mais importante: prever um terramoto e, por isso, “lo único que podemos esperar es tener suerte, y que esos sucessos terribles no se produzcan entre nosotros”.
Dias mais tarde, no mesmo jornal, Umberto Eco assina um artigo sob um curioso título: “O que viaja mais rápido: os neurónios ou um mito?”. Entre outras coisas, diz o escritor que, afinal, o espinafre não tem tanto ferro como se dizia, um mito que foi construído sobre a figura de Popeye, o intrépido marinheiro que devia a sua força à voracidade com que consumia o dito legume.
Diz-se que Popeye terá sido responsável por 33% do consumo mundial de espinafres e afinal, conta-nos Umberto Eco, 100 gramas de espinafre contêm apenas 2,7 de ferro, conta os 11,6 de, por exemplo, a mesma quantidade de fígado de galinha.
Para avivar uma memória que nos é próxima, os da minha geração estarão lembrados de que, quando éramos crianças, o consumo de azeite era considerado nocivo à saúde e que, em alternativa, os médicos aconselhavam os óleos. Hoje, quando recordamos esta história, imediatamente surge a resposta consensual de que as investigações que levaram a tais conclusões se destinaram a fomentar a indústria e a agricultura norte americanas. Ressalvo que, neste caso, não me interessa saber se assim foi ou não, mas antes apontar a consensualidade do registo.
Quem viu o documentário “Inside Job” de Charles Ferguson, assistiu a um desmontar da recente crise e à demonstração da responsabilidade que cientistas e universidades tiveram na acumulação dos fatores que nos trouxeram até aqui. Nomeadamente, reconhecidos investigadores assinaram estudos académicos, onde asseguravam a solidez de aglomerados bancários que, pouco depois, entrariam em bancarrota e que, sabemos hoje, haviam sido os financiadores desses mesmos trabalhos “científicos”.
Esta bateria de citações e exemplos serve-me para abordar o que vejo como sendo as causas profundas da desorientação que se sente hoje no mundo ocidental. Netos que somos do Iluminismo do Sec. XVIII e filhos do positivismo do XIX, levamos a Ciência ao altar do dogma: sem que disso se possa culpar a própria Ciência, acreditamos que poderíamos encontrar todas as respostas através da liturgia do seu método e, mais, que o Homem educado cientificamente seria um Homem bom. O cientista substituía o sacerdote, assim como, muito antes, este substituíra o druida. Como consequência, ao longo do Sec. XIX as universidades começam a afirmar-se como os novos templos, os da Ciência, um papel que assumem plenamente no Sec. XX.
A verdade é que o templo falhou, ou nos seus grandes objetivos, ou na contradição entre expetativa gerada e realidade. A consciência disso mesmo, que nos nossos dias se vai generalizando, é, julgo, a grande responsável pela crise cultural que enfrentamos.
Que a ciência não nos levaria ao bem universal, já desde a Primeira Guerra que o sabíamos. Que a ciência fosse capaz de nos dar todas as respostas, nem foi preciso esperar por Heisenberg ou Bergson para percebermos que não pode. Hoje porém, já se descrê que os seus sacerdotes sejam incorruptíveis interessados em alcançar a verdade e discute-se que muitas das suas conclusões serão, antes, orientadas por outros interesses bem diferentes, sejam políticos, sejam económicos, ideológicos ou sociais.
É sempre assim que acabam os grandes sistemas: primeiro, começam a esboroar-se os seus fundamentos filosóficos, depois, são os seus próprios guardiões que, dispensáveis pelo filosófico esboroamento, são alvo da descrença.
Para uma cultura assente nos pilares que construiu Platão, uma cultura que acredita na transcendência da verdade, estas constatações têm de produzir uma profunda crise cultural. Nós, ocidentais, não somos capazes de viver sem o mito da Verdade e, descrentes que estamos, resta perguntar: Onde a iremos procurar de seguida?
Entretanto, sobra-nos a angústia e os seus reflexos, que vão desde a crítica generalizada e a incapacidade de acreditar em tudo e todos que se discute nos cafés, até ao extremo dos novos movimentos de contestação que, unitários, não aceitam confiar-se à mínima liderança individual.
A crise que atravessamos, muito mais do que económica, é uma crise de descrença e é paradoxal que, numa época como a nossa em que temos tanto acesso à informação, não saibamos em quem e no que confiar. E assim se vai instalando essa terrível convicção: “lo único que podemos esperar es tener suerte, y que (…) sucessos terribles no se produzcan entre nosotros”.
Luís Novais
domingo, 15 de abril de 2012
Assunção Cristas e os Leilões do nosso descontentamento
Embora estando no Peru, continuam a chegar-me ecos de Portugal. Maravilhas da tecnologia, que agora já não perguntamos ao vento que passa: ligamos o computador e esse não nos cala a desgraça.
Hoje li no “Público” digital que a Ministra da Agricultura vai leiloar os 600 hectares sobrantes da reforma agrária. Assunção Cristas diz coisas como: é “para que possam ser aproveitados por jovens agricultores” e “é um primeiro sinal do sentido que o Governo quer dar de que o Estado não quer açambarcar mais terras, quer é pôr no mercado terra que não esteja a ser eficazmente usada” (ver notícia)
Não sei se entendi bem: para que sejam aproveitadas por jovens agricultores, vai colocar a leilão? Achará a ministra que os jovens deste país estão assim tão capitalizados? Que os que têm pais ricos estarão interessados em trabalhar a terra?
Não creio que uma ministra se engane tão facilmente. Sou, portanto, levado a concluir que, na prática, os jovens serão testas de ferro da banca que, à força de juros, tarde ou cedo as açambarcará. Simples, não? O jovem endivida-se para comprar a terra, o Estado recebe o seu e o banco recebe os juros e, quando não, apropria-se da terra: ganha o Estado, ganha o banco, perde o sonho.
Portugal está cheio de terras incultas, ao mesmo tempo que tem níveis de desemprego elevadíssimos entre os jovens. Portugal tem um problema de macrocefalia de dois ou três centros urbanos que secaram o mundo rural, que lhe absorveram os seus líderes, que lhe roubaram a sua gente mais dinâmica, que lhe levaram os seus jovens.
Uma política da terra pode contribuir para resolver ambos os problemas: para inverter o ciclo migratório e para dar ocupação a parte da massa desempregada. Mas, para isso, é preciso que as políticas sirvam esse fim e não o contrário, que é o que se adivinha com este leilão.
Uma alternativa seria uma nova sesmaria, em que o Estado isentaria de impostos as terras que lhe fossem entregues por um prazo de 20 ou 30 anos e ainda pagaria uma renda não especulativa aos proprietários. Essas terras seriam entregues por contrato-programa a quem as quisesse trabalhar, havendo uma separação entre a posse da terra (que seguiria sendo dos seus proprietários), a intermediação (que seria do Estado e, em casos extremos, coerciva) e o usufruto, que seria de quem as trabalhasse.
Ao mesmo tempo, incentivar-se-ia a criação de bolsas locais de recursos (tratores, formação, apoio técnico) que, numa lógica mutualista, poderiam ser utilizados por todos.
Aí, sim, acredito que se estaria a fazer alguma coisa pelo progresso económico, social e territorial do país; que se estariam a dar passos rumo a um novo paradigma. Mas não é isso que se adivinha, o que se adivinha é mais do mesmo e o mesmo já se sabe até onde nos trouxe. …
Luís Novais
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Mário Vargas Llosa e a Utopia Liberal
Sou duma geração que foi educada no princípio da competição, que foi preparada para um desenfreado mata e morre ritual que, prometiam-nos, nos traria o progresso, que, diziam-nos, seria fonte de bem comum. Até já acreditei nisso, confesso. Hoje, estou consciente da mentira em que fui formado. Hoje acredito que podemos trocar a competição pela cooperação, a caridade pela solidariedade, a assistência pelo mutualismo. E nunca, jamais abraçar essa utopia que é também a de Mário Vargas Llosa, essa que é talvez a maior mentira de todos os tempos, a utopia liberal.
Ontem assisti em Lima a um colóquio sobre “Literatura, Poder e Liberdade em Vargas Llosa”, onde, para além do próprio Nobel da literatura, participaram Efraín Kristal, da Universidade da Califórnia e o historiador mexicano Enrique Krauze.
Na sua intervenção, Krauze procurou estabelecer uma periodização da obra do escritor, que considerou dividida em três fases. Primeiro, os anos sessenta, em que abraçou a causa socialista, com obras como “A Cidade dos Cães”, “A Casa Verde” e “Conversações na Catedral”. Seguiu-se, na década de oitenta, uma fase de desencanto com as ideias de esquerda e um progressivo caminhar para o modelo liberal; nesta fase abordou as fragilidades da sociedade latino americana e a facilidade com que esta podia cair nas mãos de autocracias brutais e corruptas; fê-lo em livros como “A Guerra do Fim do Mundo”. Por último, dos anos noventa até à atualidade, um certo rumo ao pessimismo, parecendo descrer da possibilidade de mudar o panorama social, ainda que nutrindo algum afeto por heróis que, sem êxito, o tentam fazer, como sucede no seu último livro, “O Sonho do Celta”.
Confesso que tinha alguma expetativa sobre a forma como Vargas Llosa comentaria esta abordagem e não fiquei desiludido com a maneira como o fez: clara, corajosa e brilhante, ainda que discorde da abordagem ideológica que defendeu e, sobretudo, da sua justificação.
Relativamente ao seu socialismo dos anos sessenta, explicou-o de uma forma geracional: face às ditaduras brutais que assolavam a América Latina, o Socialismo parecia ser a única forma de vencer o monstro. Isto para uma juventude que descria profundamente que o capitalismo fosse compatível com a liberdade uma vez que, seguindo Sartre, cria não ser possível que houvesse liberdade sem igualdade económica. “A vitória da Revolução Cubana teve um impacto épico em todos nós. Aqueles guerrilheiros que foram para as montanhas sem nada e que conseguiram destronar uma ditadura corrupta, pareciam anunciar a possibilidade de um futuro mais justo”.
O seu progressivo afastamento do Socialismo deu-se com a consciencialização de que o bloco soviético, “estava muito longe de nos trazer a justiça social que nos prometia e que, pelo contrário, não passava de uma autocracia brutal. Assistimos à invasão da Checoslováquia, começávamos a saber o que se passava em Cuba, ouvíamos o que nos relatavam os primeiros dissidentes do bloco socialista… tudo isto contribuiu para que me afastasse dessas ideias e para que percebesse quão perigosas são as utopias, para que compreendesse também quão perigosos são alguns indivíduos que, armados de uma ideia, vão para as montanhas e, pela força das armas, tentam impô-la a toda a sociedade” (sublinhados meus).
Deste desencanto, passou à sua fase seguinte: “Compreendi que o estabelecimento duma verdadeira Democracia seria a solução para a América latina e, progressivamente, comecei a abraçar o ideal liberal”. Neste abraçar do Liberalismo, Vargas Llosa realça que não se refere apenas ao liberalismo económico, mas também ao político. “Dizem-nos que, por exemplo, Pinochet foi liberal na economia porque defendeu as empresas privadas. Todos sabemos que não, pois tratava-se duma ditadura e portanto havia um grande protecionismo de certos grupos e interesses; não era possível que o mercado funcionasse livremente. Quando falo em Liberalismo, falo na importância do económico, mas também do político, porque aquele não pode ser verdadeiro sem este”. E outra vez: “Enfim, eu compreendera que o marxismo era incompatível com a liberdade e que as utopias são muito perigosas. Que houve gerações que se perderam indo para as montanhas lutar em nome dessas utopias”.
É precisamente no estabelecimento desta fronteira entre utopias para um lado e Liberalismo para o outro, que discordo de Mário Vargas Llosa e o porquê dessa discordância passa muito pela reflexão filosófica, mas também pela análise empírica desta crise em que nos mergulharam, tanto à Europa como aos Estados Unidos; uma crise que, em minha opinião, é o fruto da maior utopia do Século XX: o Liberalismo.
Vejamos.
A legitimação do Liberalismo económico resume-se numa frase de Adam Smith. "não é da bondade do padeiro, do marchante ou do cervejeiro que eu espero que saia o meu jantar, mas sim do empenho que têm em promover o seu auto-interesse", ou seja, como se depreende da demais leitura de Smith, o bem comum procede do egoísmo. Isto é: a atitude moralmente certa está em que cada um se centre no seu interesse particular, já que é desse recentrar que provém o bem comum.
Isto foi uma revolução copérnica da delimitação entre bem e mal: até aí, toda a moral procurara transformar o ser individual em ser social, aproximando o mal daquele e o bem deste, ou seja, imoralizando a egotismo e moralizando a socialização.
Ora, não é preciso estudar muito aprofundadamente as causas primeiras da atual crise, para concluirmos que foi esta libertação do egoísmo que a originou. Administrações de bancos e de grandes grupos económicos, destruíram capital e puseram em risco as sociedades que geriam, porque os gestores se centraram no seu interesse particular, ao mesmo tempo que eram movidos por acionistas que, também eles, não estavam interessados noutra coisa que não fossem os seus ganhos de curto prazo; acionistas para os quais o futuro se resumia ao que pudessem especular em bolsa, graças às perigosas manobras a que, direta ou indiretamente, incentivavam os gestores, cujos as praticavam de bom grado, porque fonte de grandes salários e prémios.
Quando esta filosofia de gestão chega à banca, o resultado é obvio, já que se trata de um setor onde é facílimo apresentar excelentes resultados de curto prazo que mais tarde se transformam nos sobeja e tristemente conhecidos desastres. Desastres de que homens como Bernard Madoff foram meros bodes expiatórios das grandes casas bancárias, essas mesmas que lhe entregavam investimentos sem fazer perguntas, já que ele se tornara numa fonte de resultados imediatos e, portanto, de valorização de ações e de justificação de prémios salariais, sem que os gestores dessas mesmos grupos financeiros tivessem de sujar as próprias mãos e arriscar a prisão. Para usar uma linguagem do meio, foi um consciente (sublinho o consciente) outsorcing do sujar de mãos, Madoff.
É por isso que eu defendo que a crise atual não é económica mas sim filosófica. É filosófica porque assenta na filosofia liberal e no respetivo princípio moral de que podemos e devemos ser egoístas se quisermos contribuir para o bem comum. É-o também porque essa filosofia acabou por minar essa ética própria que tivera um capitalismo ainda emergente no Sec. XVIII e até no XIX e que Max Weber tão bem analisou (isto mesmo abordei num outro artigo: “o Capitalismo sem o Espírito do capitalismo”).
Por último, o liberalismo político. Aceitando, como aceito, que o marxismo não é fonte de libertação, e nisto estando próximo do pensamento de Vargas Llosa, tão pouco posso aceitar que o liberalismo político no seu modelo atual possa a ser libertador. Temos a forma como a verdade tem sido ocultada aos cidadãos, temos a manipulação da informação, temos as políticas de comunicação, temos a consciência que até mesmo os estudos feitos pelos templos do nosso tempo que são as universidades, conduzem as suas conclusões em função do interesse de quem os encomenda… Temos consciência de tudo isto e é em nome disto que, se a juventude já não vai matar e morrer em pequena escala nas montanhas para defender uma utopia, hoje mata e morre em grande escala, em cenários de guerra tecnológica, em nome dessa grande utopia dos nossos tempos: a utopia liberal, a ideia de que o egoísmo é fonte de bem comum, e também de que este modelo de liberalismo político é libertador.
Sou duma geração que foi educada no princípio da competição, que foi preparada para um desenfreado mata e morre ritual que, prometiam-nos, nos traria o progresso, que, diziam-nos, seria fonte de bem comum. Até já acreditei nisso, confesso. Hoje, estou consciente da mentira em que fui formado. Hoje acredito que podemos trocar a competição pela cooperação, a caridade pela solidariedade, a assistência pelo mutualismo. E nunca, jamais a abraçar essa utopia que é também a de Mário Vargas Llosa, essa que é a talvez a maior mentira de todos os tempos, a utopia liberal.
Luís Novais
terça-feira, 13 de março de 2012
CRÓNICA d'ORELHUDOS
Com esta “Crónica d’Orelhudos” decidi iniciar uma nova fase na minha relação com os leitores. Uma relação que, hoje, pode existir de uma forma muito mais direta, de uma forma radicalmente desintermediada, graças a tecnologias que nos dão mais liberdade e que, por isso, alguns poderes se esforçam por controlar.
A “Crónica d’Orelhudos” aqui está, para quem a queira descarregar da internet, para quem a queira reenviar para os seus amigos. Vai livre de custos de edição, de custos de impressão, de custos de distribuição, de comissões e de todos aqueles encargos que a logística nos habituou a pagar.
Tempo ainda para um agradecimento ao escritor e compositor Pedro Barroso, que tão gentilmente acedeu a escrever um prefácio para este livro. Pelo seu percurso, pela sua coerência, pela sua participação cívica, Pedro barroso foi de imediato a pessoa de quem me lembrei para prefaciar esta "Crónica". Não esperava que, sem que nos conhecêssemos pessoalmente, acedesse tão prontamente a ler o manuscrito e o comentasse nos termos em que o fez
Um abraço e boas leituras
Luís Novais
Para descarregar CRÓNICA d’ORELHUDOS clique aqui
domingo, 6 de novembro de 2011
Sonhos por um Sonho
Que momentos são estes
em que pens’o que não pensei? Sei hoje tão caro,
um sonho a ser.
Pagámo-lo em sonhos,
d’esses que abdicamos
para um só sonhar.
Olho em frente,
lá o vejo distante.
Para os lados,
vejo os d’outros:
desses que sonham
os sonhos com que paguei.
Vejo-os
e julgo-os felizes.
Tanto, quanto sei
quando me vêem
me julgam a mim.
E prossigo pagando.
E sonhando
pagando me vou:Sabend’os que perco,
Sonhand’o que ganhe.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Da Europa-instituição à Atlântida sonhada.
Tão zangados andamos nos dias de hoje. Compreende-se: primeiro o sonho de uma grandeza; a de ontem. Depois o embate com uma pequenez; a de hoje. E assim destilamos tudo: destilamos em remorsos e destila cada português achando que é melhor do que Portugal.Aquilo que nos deixam, em confronto com aquilo que nos sonhamos, enfim.
E o que nos deixam é que nos amarremos à fatalidade da Europa instituição, não da Europa espaço cultural, que dessa também somos, mas a esta centrípeta Europa dita União. Desta nunca fomos, desta sempre fugimos para que continuássemos a existir.
Estamos na Europa-instituição por fatais razões quantitativas. E estamos nessa Europa sem que essa Europa esteja em nós. Porque a Europa dita União foi criada para resolver problemas que nunca foram os nossos: problemas com raízes que são históricas, problemas com raízes que são geográficas. Problemas que começam no século VI. Problemas que vão de Espanha à Hungria. Enfim: as questões históricas dos Impérios continentais e de seus eternos confrontos. Problemas dessa mesma Europa que tão metaforizada está na opção napoleónica: vender a Louisiana para combater no continente. Desistir do além para fincar pé no aquém.
Foi para resolver as questões desta Europa continental que a Europa-União surgiu.
Acontece, porém, que Portugal sempre fugiu a ser ator desse palco. É certo que momentos houve em que nos forçaram a participar da tragédia. Mas sempre que tal nos aconteceu: afundamo-nos em armadas que se diziam invencíveis.
Se continentais fôssemos, já portugueses não seriamos. Se continentais fôssemos: de nós só reminiscência restaria, tal qual um desses reinos que hoje mais não são do que heráldica no escudo Bourbon.
Talvez seja essa a razão do nosso desconforto. Estamos desconfortáveis porque intuímos esta desadequação. Para um lado: aquilo que sentimos que somos. Para o outro lado: aquilo para onde nos obrigam a caminhar. E obrigam-nos sem que aqueles que nos obrigam se emocionem com a causa: “tem de ser”, dizem-nos, “tem de ser porque não temos dimensão”, “tem de ser porque a economia é global”, “tem de ser porque não temos viabilidade”, “tem de ser por causa da dívida que está em euros”, “tem de ser para que não nos fustiguem os mercados”… Não há quem aguente tanto “ter de ser”!
Esforçamo-nos para tentar vestir esta pele que nos espartilha. E assim espartilhados: ficamos entre a impossível dimensão dum passado que foi nosso e a realidade duma Europa criada para resolver problemas dum passado que foi o de outros.
E espartilhados que estamos: o discurso fica desolador. Perdemos toda a nossa energia a tentar dimensão épica no comezinho: mais um ponto ou menos um ponto num deficit e Aquiles matou Heitor. Sim ou não a um comboio e Ulisses fugiu à terrível Calipso. Uma tranche conseguida à Troika e o herói chegou a Ítaca. “Não somos a Grécia” e o cavalo entrou em Tróia… E enfim: quando ficamos com uma terrível sensação de vazio: temos os recorrentes debates: tão estéreis quanto serôdios: a bendita regionalização e outros que tais. Acrescente-se uma mão cheia de estrangeirados de pendor anglo-saxónico. São estrangeirados como convém aos estrangeirados : uma minoria: uma elite que adora a sua pequena expressão quantitativa compensada pela desproporcionada vénia institucional. Dizem benchmark em vez de exemplo e dizem goals em vez de objetivos.
Eu tenho uma razão para não me apegar a estrangeirados. Num país em crise é muito fácil sair e depois chegar debitando receitas. Claro que o problema é sempre o mesmo: não funcionam, as receitas dum doente aplicadas a outro. O pombalismo terminou na viradeira e a viradeira terminou em guerra civil. Valesse-nos o que não deixamos que nos tivesse valido: D João VI e o seu sonho de um reino Atlântico; sonho tão ingloriamente destruído por esses “iluminados” de 1820 que queriam fazer de Portugal uma nova França.
E no entanto, há caminhos para trilhar, novas velas a desfraldar. Façam-se duas viagens. A primeira que comece em Madrid e acabe na mais recôndita vila da Europa central. Feita esta, parta-se para Cabo Verde, passe-se por Luanda e termine-se no mais recôndito lugarejo de Mato Grosso ou da Rondónia.
Imaginemo-nos de regresso. Reflicta-se. Onde nos sentimos em casa? Onde deveríamos estar? Qual a União por que deveríamos estar a trabalhar? Qual a que faz mais sentido? E o que faz sentido em Lisboa não fará também sentido em Luanda e em Brasília? Na Praia e em Bissau?
E não é uma questão de não gostar dos outros: dos europeus. Claro que sim. Há muito, há imenso, de Europa em todos nós. É tão só uma questão de nos descobrirmos, de sermos por nós, de deixarmos de ter os olhos num chão chamado deficit para os colocarmos num horizonte chamado “cumprirmo-nos”. Cumprirmo-nos num espaço onde estamos com naturalidade, um espaço a que por sonho chamo Atlântida, que talvez a Atlântida mais não tenha sido do que um sonho. E a mim agrada-me: dar o nome dum sonho a um sonho. Mas isto sou eu que sou diletante. Que não consigo viver sem a minha utopia.
terça-feira, 14 de junho de 2011
A Propósito de “Zapping Sobre as Madrugadas Idênticas”
A Propósito de “Zapping Sobre as Madrugadas Idênticas” de Eugénia Brito.Na sessão de apresentação da obra em Braga, Maio de 2011
É para mim uma experiência nova, esta de subitamente passar para o lado de lá. O lado que não é o de quem escreveu e submeteu a sua obra a uma crítica, seja ela académica, jornalística, de café ou, como acontece ser o caso, a de alguém a quem o autor pediu que lhe fizesse uma apresentação, que é o que a Eugénia me convidou para aqui fazer, o que, devo dizer, depois de ler “Zapping sobre as madrugadas idênticas”, me deu grande satisfação e uma pitada de orgulho.
Estou habituado a participar neste tipo de sessões, não como apresentador ou comentador, mas como autor. Não sendo um teórico do assunto e muito menos querendo postular, consigo talvez fazer alguma teleologia sobre as formas de apresentar um livro, o que advém do facto de ter assistido a umas boas dezenas de apresentações de livros meus, levadas a cabo por diferentes amigos, desde colegas que também são escritores a académicos, desde jornalistas a activistas sociais, passando por sociólogos e filósofos, historiadores e um realizador de cinema.
Fruto desta experiência, diria que há talvez um primeiro tipo de apresentação, que eu diria ser a de intervenção, e onde se procura detectar na obra os seus factores de desassossego e dela retirar aqueles aspectos que podem contribuir para a inquietação social e, assim, para a mudança.
Há também as apresentações de sentimento, que têm por objecto todo um conjunto de emoções que poderão ser despertadas no leitor.
Há, por último, as de contexto, que têm como preocupação inserir o livro no devir, no movimento histórico.
Certamente que as academias literárias poderiam encontrar inúmeros outros formatos e, até, eventualmente, estar em desacordo com a divisão que acabo de fazer. Repito, sou apenas um escritor e uma pessoa minimamente atenta; estou apenas a falar daquilo que é fruto da minha observação directa e tenho zero preocupações especulativas, reduzo-me à minha insignificância, portanto.
Tudo isto para dizer que o tipo de análise que, em minha opinião, melhor se adequa a “Zapping Sobre as Madrugadas Idênticas”, é esta última, a de contexto. Trata-se de uma opinião a que, reconheço, não será alheio o facto de esta ser a área que mais me excita: o tempo e a sua influência na pessoa, ou, se quiserem, para recorrer ao título de Heidegger, “O Ser e o tempo”. Para além disso, tem também a vantagem de nos resolver o difícil binómio que é o de falar na obra sem a revelar: integramo-la, assim, no seu tempo ao invés de falar da obra em si mesma.
Independentemente do meu próprio contexto, creio contudo que “Zapping Sobre as Madrugadas Idênticas” apela a este tipo de análise. Apela, quer pela sua estrutura interna, quer pela temática, quer ainda pelas preocupações que revela.Pela estrutura interna, desde logo, porque é um livro que se passa em duas épocas distintas. Isto apesar de, curiosamente, ter apenas um narrador. Por um lado, temos aquelas que são as metafóricas madrugadas dos inícios do século XX, quando a humanidade enfrentava aquela que era a guerra mais mortífera e destrutiva que jamais vira, a primeira. Pelo outro lado, temos as madrugadas de hoje, envoltos que estamos num sistema que é talvez o mais destrutivo da humanidade do ser humano. (...)
A versão completa deste texto está disponivel em formato PDF: para download clicar aqui.
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