quarta-feira, 12 de setembro de 2012

UM GRITO DE INDIGNAÇÃO



Publicação eletrónica e gratuita do romance 
 
"Crónica d'Orelhudos" 
(com prefácio de Pedro Barroso)

Edição especial: dia 15 de Setembro todos à Manif.

 

Não sou um frequentador habitual de manifestações. Não é por preferir o conforto de casa enquanto os outros reivindicam os meus direitos. É apenas uma questão de feitio, de predisposição pessoal. Não é que aceite ficar calado perante tudo o que me queiram impor. É tão só porque cada um tem a sua idiossincrasia. A minha leva-me a uma revolta pausada, mais do que inflamada. Leva-me a debater, mais do que a gritar palavras de ordem. Leva-me a escrever mais do que a exibir cartazes.
 
Nada contra quem o faça, é apenas o meu modo. Procuro contribuir para a mudança, mas no âmbito do meu ser.
 
Sou adepto dos meios de resistência pacífica que Gandhi tão bem advogou. Prefiro, por exemplo, um dia “Todos em casa” do que uma concentração. Prefiro fazer uma greve à rua do que a rua ela mesma. Lembram-se de quando os brasileiros se vestiram todos de branco para afastar um presidente corrupto? Prefiro.
 
Todavia, há limites para aquilo que um país pode aceitar. Nem sequer falo deste Governo e destes governantes, mas de tudo o que nos trouxe até ao momento atual. É altura de dizermos claramente que não queremos ir por aí.
 
Desta vez, lamento não estar em Portugal no próximo dia 15. Não poderei ir a uma manifestação a que, agora, iria convictamente.
 
Dou o meu grito com esta edição especial da Crónica d’Orelhudos. Tem capa comemorativa “Dia 15 todos à Manif.” e está para descarga  livre e gratuita no meu blog.
 
A “Crónica” é uma fábula de gente. Gente capaz de se governar mas que se viu transformada em Orelhuda com a chegada dessa grande parideira de mulas governadoras. É também a manifestação da minha revolta, esta “Crónica”. Em alguns aspetos, só eu seu quanto.
 
Uma última palavra, para fazer um voto de que saibamos aproveitar a energia que se está a libertar. Saibamos ser criativos em todo este processo, para que não sejamos vítimas de outros que, com mais responsabilidades, já se preparam para entrar no comboio, já se preparam para lhe tomar os comandos.
 
Precisamos de saber o que não queremos? Sim, tem razão José Régio. Mas da poesia à vida, vai o salto do não querer ao querer. Que também saibamos, portanto, o que queremos. Esse é o debate que espero que saia de toda esta movimentação.
 
Lima, 12 de Setembro de 2012
 
Luís Novais
 
 





terça-feira, 11 de setembro de 2012

O IMPOSTO QUE ARRUMARIA A QUESTÃO PPP

Vitor Gaspar
“Efetivamente, eu seria de opinião que num mundo ideal teria sido possível realizar progressos mais rapidamente do que conseguimos”. Em entrevista à SIC e sem pestanejar foi com estas palavras que o Ministro das Finanças respondeu a José Gomes Ferreira, a propósito dos atrasos na renegociação das Parcerias Publico Privados (PPP). Perante a insistência do entrevistador, Vítor Gaspar diria ainda que “queremos conseguir os resultados tão cedo quanto possível, mas não foi possível avançar mais depressa”.
 
Proferidas com a maior das displicências, estas afirmações são uma clara declaração da rendição do Estado. Isto na melhor das hipóteses, que na pior são a prova da total subserviência dos governantes perante o grande poder económico.
 
Seguem-se outras pérolas idênticas. Os monopólios energéticos deveriam usar a poupança na Taxa Social Única (TSU) para baixar os custos da energia, vai obrigá-los a isso? A resposta: não compete ao Estado, mas o poder da opinião é muito forte…
Fica claro que em nada se vai mexer. Num caso, o das PPP, enreda-se o assunto em negociações que se complicam o mais possível para criar a aparência de que se faz sem que se faça. Noutro caso, o do custos energéticos, apela-se a que os portugueses opinem…
 
Houvesse verdadeira vontade e coragem políticas e um caso como o outro teriam resolução automática. Em vez do Estado se enredar numa negociação infindável, por que não faz aos detentores das PPP’s o mesmo que faz aos cidadãos? Por que não lhes cria um imposto? Um pagamento especial sobre os rendimentos destas parcerias resolveria tudo no mesmo tempo que demora a inserir mais um artigo no Orçamento Geral do Estado. E o mesmo para os custos energéticos: um imposto de 100% sobre toda a faturação superior à média europeia.
Se os grandes beneficiários dos deficits de Portugal fossem tratados como são tratados os portugueses, o Ministro das Finanças não diria que “num mundo ideal teria sido possível realizar progressos mais rapidamente” na renegociação das PPP. Eu nem peço um mundo ideal. Para usar uma expressão da moda, só peço um mundo mais equitativo. E num mundo mais equitativo, o Estado iria buscar a estas empresas pelo mesmo processo célere e eficaz com que vai buscar aos cidadãos: pela via fiscal, com a criação dum imposto especial, ou, melhor dito, de uma taxa.


Luís Novais

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

ATLÂNTIDA, UM RUMO PARA PORTUGAL



*
Quebre-se o tabu e discuta-se a União Europeia. Olhemos para a nossa História. Somos o país mais antigo da Europa e nunca, mas nunca, quisemos estar aí. Nunca, mas nunca, estivemos voltados para o continente.

 
O desespero dos portugueses é, hoje, óbvio e justificado. Nas redes sociais abundam as sugestões para debelar a crise, muitas delas assentes em exigência de diminuição do número de deputados, cargos públicos e quejandos. Estas sugestões podem até ser justas e aliviam, mas não resolvem a nossa situação. A olhómetro, sem fazer contas, é fácil tirar uma conclusão: com estas medidas quase nada mudaria no nosso deficit crónico. Não discuto a justiça, discuto a eficácia.

O que trouxe Portugal até aqui não foi o facto de ter algo mais do que duas centenas de deputados e não sei quantos ministros. Tão pouco foi o facto desses ministros terem motorista e carro oficial. O que nos trouxe aqui foram as políticas, foram os modelos adotados.
Claro que os políticos têm muita responsabilidade. Mas os cidadãos, todos nós, também. Se é certo que muitas vezes fomos enganados, também é certo que outras tantas preferimos deixar-nos enganar, por uma cómoda anestesia em que o presente contava sempre mais do que o futuro.

Finalmente, o futuro chegou.  Sentimos o desespero e com o desespero  já sabemos o que não queremos. Todavia, o único lugar onde é bonito saber para onde se não vai sem que se saiba para onde ir, é nessa magnifico poema de José Régio. A vida é, infelizmente e por norma, diferente da poesia. Na vida temos de saber o que querer de cada vez que sabemos o que não querer.

A energia da revolta precisa de ser canalizada para o debate sobre as alternativas, sob pena de que, como nos querem fazer crer, não haja mesmo alternativa à política atual. Uma política que não está a tentar salvar o futuro, como nos dizem, mas o passado: os modelos sociais do passado, os privilégios do passado, a geoestratégia do passado, a economia do passado.
Os que não queremos o que está, temos de ser capazes de apontar caminhos.

Nestes textos, buscarei dar o meu contributo de cidadão, por vezes coligindo algumas coisas que fui escrevendo noutras ocasiões.

Uma Nova Geoestratégia para Portugal.

A Europa tornou-se um tabu. Durante três décadas, questionar a via europeia quase redundava em excomunhão política. Contudo, ao mesmo tempo que nos estendia parca esmola, essa Europa exigia-nos a destruição de todo o nosso setor produtivo. Foi uma espécie de velho ditado, mas ao contrário: se queres ajudar, dá-lhe dinheiro para que desaprenda de pescar.
Isso foi o que nos fizeram: levaram-nos a quebrar a nossa cana de pesca e nós quebramo-la alegremente porque alguns ganhavam euros fáceis com ações de formação e consultorias e outros ganhavam umas migalhas, igualmente fáceis, frequentando essas mesmas ações. Sem falar nos que fizeram obscuras fortunas, claro, que esses são ou deveriam ser casos de polícia. Prometiam-nos que, no fim, o país estaria mais qualificado e poderiam os portugueses entrar numa nova era económica. Vê-se o resultado.

Quebre-se o tabu e discuta-se a União Europeia. Olhemos para a nossa História. Somos o país mais antigo da Europa e nunca, mas nunca, quisemos estar aí. Nunca, mas nunca, estivemos voltados para o continente. A Europa sempre foi, para nós, um espaço de intensa e necessária diplomacia e não um espaço de integração política. Com exceção do Reino Unido, mais nenhum país europeu pode afirmar o mesmo. Duma forma ou doutra, todos tiveram o continente como epicentro político. Nós não. Terminada a reconquista, todo o Portugal lhe virou costas e se voltou ao Atlântico. As poucas aproximações continentalistas, sempre redundaram em tragédia, como aconteceu quando os Filipes nos imiscuíram nas suas lutas europeias e nos afundaram numa armada que diziam invencível.
Somos atlânticos, não somos europeus e sempre que o quisemos ser, a farsa que nos relata Eça terminou em tragédia, como se comprova historicamente.

Veja-se para aonde emigram hoje os nossos recursos humanos mais qualificados: para Angola e Brasil. Veja-se para aonde se voltam as nossas empresas, para África e América Latina. Veja-se onde sentimos a nossa continuidade cultural, a nossa identidade linguística… sempre e sempre no sentido oeste que “de leste nem bom vento nem bom casamento”, interessante expressão e grande metáfora que não por acaso nos trouxe o passado.
Em vez de estarmos metidos num barco onde não nos sentimos confortáveis, seria tempo de estreitarmos laços com o Atlântico de língua portuguesa: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné e São Tomé.

A geoestratégia do futuro (do presente) passa grandemente pela ligação Índico-Atlântico e Atlântico-Pacífico. O Brasil sabe isso perfeitamente, razão por que está a investir imenso na integração rodo-portuária com os dois países da América do Sul que podem ligar o seu interior ao Pacífico: o Peru e o Chile.
Se formos capazes de participar na construção duma União Atlântica (gosto de chamar-lhe Atlântida) estaremos a fazer algo de grande, onde poderemos partilhar grandeza. Todos estes países formam uma territorialidade marítima (não esquecer os Açores e a Madeira) que, a unir-se, criaria o fenómeno político do Sec XXI e, unidos pela mesma língua, teriamos uma economia e uma cultura pujantes.

Qual é a contrapartida? Que continuemos a arrastar-nos por uma Europa que se odeia a si mesma e que nos despreza.

Mas, é claro, para isso seria necessário que deixássemos de ter obedientes contabilistas no poder e passemos a ter estadistas determinados.

Um desabafo final
Enfim, sentindo-me revoltado, como quase todos os portugueses, não posso deixar de procurar o que quero mais além do que não quero. Esta é a minha partilha. Outro tanto teria a dizer sobre o modelo económico e social, mas isso deixo para outra ocasião. Por hoje, para sonho e para me dar alguma alegria, basta-me pensar nesta Atlântida.


Luís Novais
* À foto, tirei-a nesse paraíso atlântico chamado Arquipélago de Bijagós, Guiné-Bissau

sábado, 8 de setembro de 2012

Pathos e Catarse na Comunicação de Ontem



Nas redes sociais assiste-se a um avolumar da revolta que vai sair caro a este governo e sobretudo a Portugal. Quem analisar os comentários e tiver amigos de várias vertentes políticas, como sucede ser o meu caso, percebe que a tensão é muita e, quando explodir, aqueles que seriam a base de apoio dos partidos no poder estarão desmoralizados, incapazes de reagir, quando não também eles extremamente revoltados.  
 
O anúncio de ontem não contribuiu em nada para inverter esta situação, nem no conteúdo, nem na forma.
Quanto ao conteúdo, nem é necessário dizer porquê, mas lá poderá o Governo dizer que não tem alternativa. Quanto à forma, essa sim poderia e deveria ser diferente. Caramba, desde que os gregos criaram a tragédia, sabemos que o pathos (sofrimento) antecede a catarse. Um mecanismo que Sócrates (o que acreditava na Verdade e não o outro) bem explicitou quando lhe soltaram as correntes com que o prendiam, nesse dia em que tomou a cicuta: “que extraordinária coisa é aquilo a que os homens chamam prazer. Em consequência da cadeia, sentia na minha perna a dor, mas agora vai o prazer tomando o lugar dela” (“Fédon”). Ou seja, o prazer pode ser resultado da ausência de dor.
Esta descoberta, que já tem mais de 2.500 anos, criou um modelo para a ficção e para a comunicação: criar tensão, para que a distensão seja catártica. Sabem disto qualquer caloiro de comunicação e qualquer roteirista de telenovelas. Para o contrário, provocar o pathos depois da catarse, só encontro um nome: sadismo. Uma técnica que usam muito os outros roteiristas, os de filmes de terror.
Posto isto, se não concordo com o conteúdo daquilo que o Primeiro-ministro anunciou ontem, quanto à forma não a entendo mesmo. Começou pela catarse (devolver um subsidio aos funcionários públicos), para em seguida disparar com o pathos (um aumento de impostos que vai levar tudo o que acabara de se oferecer). Que se pretendia? Terão os comunicadores de São Bento a ingenuidade de pensar que conseguiriam iludir a realidade? Que todos os funcionários públicos sairiam a festejar e que não perceberiam que afinal ficava tudo na mesma?
Esta crença na ilusão da palavra não é uma originalidade nacional. Os políticos estão atacados por esse vírus que criou a crise da pós-modernidade: deixaram de acreditar na transcendência da Verdade, a verdade passou a ser a palavra e aquilo que pela palavra possa ser transmitido, um modelo que tem origem nessa famosa ideia de Walter Lipmann: “há que fabricar o apoio”.
Sócrates (agora o José) era mestre nesta técnica, que em linguagem popular se resume na ideia de que a mentira repetida  10 vezes se transforma em verdade. Quanto ao exercício de ontem, foi tão rocambolesco que chegou a ser uma caricatura.
Obviamente que ninguém se deixou enganar. Parece que, de tão usada, a técnica se gastou a si mesma. Ainda bem. Tenho agora esperança que o cansaço das consciências que consentem obrigue a que a Verdade volte a ser.

sábado, 25 de agosto de 2012

ALTERNATIVAS À ECONOMIA FINANCEIRA, OU, EM BUSCA DE PARADIGMAS PERDIDOS

“Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de sequer ser semeada. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, apesar de te deixar na merda se descer.“
 
Assim se refere o articulista do El Pais Juan José Millás à economia financeira, num texto que incendiou as redes sociais espanholas e que a “Dinheiro Vivo”acaba de traduzir e publicar (ver artigo completo).
As reações dos leitores portugueses não tardaram, umas emotivamente a favor e outras cegamente contra. Vejamos o que se diz: “Há um bom motivo pelo qual se compram futuros, e vem exactamente do exemplo da produção de trigo: o agricultor antes de colher a plantação já tem necessidade de alimentar a família, portanto tem de conseguir vende-la antes de a ter colhido.” Outro leitor pergunta: “A verdadeira questão: qual é a solução? Qual o melhor sistema a seguir ao melhor por defeito? Já não vale reclamar”.
Ao longo da História foi sempre desta forma que os donos dos sistemas dominantes afirmaram o seu poder. É célebre o discurso das mãos e do estômago com que Menénio Agripa procurou convencer a plebe romana. Podemos imaginar semelhante argumentação num industrial de Manchester oitocentista falando aos seus operários quase mortos de fome: “agora que fostes expulsos dos vossos campos, só eu vos posso garantir que a fome não seja completa”. Ou dum senhor feudal: “se eu não vos organizo quem vos vai defender dos inimigos que nos podem atacar?” No fundo, o argumento foi e é sempre o mesmo: “podemos não ser bons mas não tendes alternativa”. A História sempre se encarregou de lhes tirar razão: tal como nas pessoas, não há sistemas insubstituíveis.
Ninguém se lembrou de dizer ao Senhor feudal que se poderiam organizar num sistema democrático, assim como ninguém disse a Agripa que estava a meter as mãos pelos estômago porque a sociedade poderia ser mecânica e não orgânica, para usar os conceitos de Durkheim.
Hoje, fazem-nos crer que não há alternativa a esta economia financeira que, dominando a produtiva, nos domina a todos. Apostam no medo, no horror ao vácuo que se produz ante a possibilidade de, a este mal, se suceder mal pior que é o vazio. Procura-se até confundir Ocidente com capitalismo, como se o fim deste fosse o fim daquele; uma óbvia mentira se considerarmos que temos séculos de cultura ocidental e apenas 200 anos de capitalismo como sistema dominante.
Mas sim, a pergunta é essa mesma: o agricultor tem de comer antes de colher o trigo e pode morrer de fome se a colheita for má. Que alternativa a uma economia financeira que é também uma almofada (ainda que de cimento) para este risco?
As respostas são fáceis. Se não as encontramos é tão só porque costumamos sofrer de dois centripetismos: o cronológico e o cultural. O primeiro apenas nos permite ver o nosso tempo, o segundo impede-nos de buscar soluções fora da nossa cultura.
 
O que nos ensina cronos?
Ensina-nos que a humanidade sempre foi capaz de encontrar soluções. Já aqui abordei este tema (A Grande Apropriação,ou a Falácia do Estado Social): perante a desproteção social completa em que se encontravam os primeiros operários do Sec XIX, estes souberam aproveitar a tradição comunitária que traziam do mundo rural e auto-organizaram-se em sociedades mutualistas, capazes de lhes garantir alguma estabilidade.
Em Inglaterra, por exemplo, as Friendly Societies contavam com 1 milhão de sócios em 1850 e 4 milhões em 1872. Em 1913, na Alemanha, 16 milhões de operários estavam associados em diversas caixas de invalidez e velhice (Y. Lequin). Igualmente fruto da auto-organização daquilo a que hoje chamaríamos “sociedade civil”, foram surgindo inúmeras cooperativas de consumo que pretendiam salvaguardar produtores e consumidores dos ataques especulativos e garantir, assim, um controlo sobre o preço dos bens de consumo. Por volta de 1860, esta tendência alargou-se ao crédito com o aparecimento de associações de crédito mútuo, com origem na Alemanha.
É deste movimento e do seu exemplo que mais tarde o Estado se aproveitará para começar a criar aquilo em que nos nossos dias se tornou a mastodôntica burocracia social (C Ward).
Se as coisas tivessem seguido o seu rumo natural, a segurança social estaria agora a ser gerido por pequenas e médias organizações mutualistas de âmbito territorial ou social, com uma profunda ligação aos seus utentes, porque por eles criadas, geridas e controladas. Organizações que, tanto pela sua dimensão como pela proximidade ao utilizador, teriam, como tiveram no passado, uma estrutura burocrática muito leve.
Mas, é claro, com esta fórmula não se teria dado emprego a uma elite político-partidária cada vez mais ávida e, na fase em que estamos, não se encontrariam argumentos para que, por ingovernabilidade do sistema, o Estado pudesse entregar de mão beijada a nossa assistência social a grupos económicos cujos cadastros não nos deveriam deixar nada descansados.
 
O que nos ensinam outras culturas?
Socorro-me dum só exemplo: as culturas andinas pré-hispânicas, normalmente englobadas no conceito de Império Inca. Antes da chegada dos espanhóis em 1533, esta região era talvez a mais avançada do mundo dos pontos de vista social, alimentar e, arriscaria até, científico.
Apenas num ou dois aspetos estavam atrás da Europa de então: o primeiro e central foi o militar, o segundo, talvez o da filosofia/teologia. Foi com o primeiro que foram dominados e foi com o segundo que foram colonizados. Isto não obstante os seus claros avanços nas demais áreas, bastando recordar o que aconteceu à demografia europeia quando aqui chegaram as espécies agrícolas desenvolvidas e melhoradas no mundo andino.
A economia dos incas era profundamente rural e obviamente que padecia dos riscos naturais inerentes: secas, cheias, desastres… e no entanto não havia fome nem subnutrição. Porquê? Primeiro porque o usufruto da terra era privado mas a posse era comunitária, ou seja, quando alguém morria a terra voltava à comunidade e quando alguém chegava à idade de trabalhar a comunidade entregava-lhe um campo para que dele usufruisse. Com isto, garantiam um elevado nível de igualdade social (ainda que no âmbito duma sociedade que não era igualitarista). Garantiam também que heranças sucessivamente divididas não depauperassem o ciclo geracional e, já agora, que a transação não resultasse em bolhas especulativas que levassem alguns a destruir a riqueza de quase todos.
O melhor que o Ocidente desse tempo conseguiu para responder a estes riscos foi a injustiça do morgadio e dos bens de alma… julgo que estamos conversados.
Mas o que mais me interessa enfocar é o sistema de segurança alimentar mútua: cada família entregava uma parte da sua produção para celeiros comuns que asseguravam que uma boa colheita numa região pudesse acudir a uma má colheita noutra… ou seja, já nesse tempo garantiam a segurança alimentar sem precisarem de se submeter à caridade ou de se sujeitarem a essa almofada de cimento que é o mercado de futuros.
 
Uma alternativa à economia financeira.
Em conclusão, é obviamente falacioso o argumento daqueles que dizem que não temos alternativa à financiarização da economia e que este modelo de capitalismo é o melhor dos mundos possíveis. Todos os regímenes dominantes argumentaram que estavam a oferecer esse tal melhor mundo e todos caíram.
A base da economia tem de voltar a ser a produção e, se perdermos a cegueira que nos impede de olhar para a História e para outras culturas, há claras alternativas ao modelo em que estamos a viver. Basta que pensemos mais em cooperação e menos em competição, mais em solidariedade e menos em caridade, mais em mutualismo e menos em assistência. Em suma, o segredo está em usarmos a entreajuda para que o risco deixe de ser um produto transacionado, um produto que depaupera muitos e enriquece alguns.
Só não vê quem não quer… ou quem ganha com isso.
 
Luís Novais

 

  

 

 

terça-feira, 21 de agosto de 2012

A PROPÓSITO DE “AMOR E LIBERDADE DE GERMANA PATA ROXO” DE FERNANDO ÉVORA


Acabo de ler “Amor e Liberdade de Germana Pata Roxo”, de Fernando Évora.

Sete histórias aparentemente desconexas, aparentemente dispersas, mas com grande unidade na mensagem e nas preocupações que relevam. Nem de propósito, interrompi a leitura das memórias de Raul Brandão para iniciar este livro. Em cada conto, vinham-me à memória as suas palavras: “A necessidade de transigir, o preceito, a lei, fizeram de mim este ser inútil, que não sabe viver”. Esse mesmo, parece ser o drama das personagens que Évora nos apresenta: ou transigem na fatalidade do destino, ou pagam o preço de contrariar preceitos e lei.

Trata-se duma obra sobre a saudade, não do que as coisas foram, mas do que poderiam ter sido. Todas as personagens vagueiam entre acasos e opções que lhes vão criando destino. São acasos e opções que os levam por caminhos sem retorno, que os conduzem a vidas, umas vezes muito diferentes, outras vezes sempre iguais. Évora narrador vê-se a si mesmo neste turbilhão de possibilidades que o andar dos tempos tornou impossibilidades e, mais de uma vez, interroga-se como seria se outro tivesse sido o caminho.

Percebe-se neste “Amor e Liberdade” uma força contida, uma energia que Georges Bataille diria impossível de guardar, mas que se acumula. E essa energia, porque impossível de guardar, vai carcomendo personagens e narrador em revoltas internas e sonhos por cumprir.

Lemos e ressoa-nos a incomodidade do conformismo. Quem, como eu, tem o privilégio de conhecer o escritor além da escrita, perceberá que esse sentir transcende a obra. Não será por acaso que, muitas vezes e indelevelmente, nos confundimos e quase temos a satisfação secreta dos voyeurs.

Mas a obra é, neste caso, muito mais do que o seu autor. Nesta série de contos desfila-nos o drama que hoje enfrentamos, não só em Portugal, mas no Ocidente. A questão literária deste livro é igual à questão histórica que se nos coloca: o que fazer com a energia que ainda temos? Aprisionarmo-nos na raiva contida, ou insubmetermo-nos em amor e liberdade?

Não sei e Fernando Évora parece não dar resposta. Mas sabemos que toda a mudança exige um acumular de forças, uma contenção. Até que um dia os diques deixam de suster. É nesses momentos que tanto podem acontecer coisas inesperadamente bonitas, como inesperadamente feias. Que sejam bonitas, pois “Amor e Liberdade de Germana Pata Roxo” também é um livro de esperança.

Uma nota final: pensando em "Gente Singular" de Teixeira Gomes, pergunto-me que raio terão os algarves para que os algarvios sejam assim, exímios na arte do conto.

Ligação à obra, clicar aqui

Etiquetas: Fernando Évora, literatura portuguesa.



sábado, 18 de agosto de 2012

ENTRE O PESADELO EUROPEU E O SONHO ATLÂNTICO

Em entrevista ao Le Monde noticiada pelo PÚBLICO, Francisco José Viegas não fugiu ao tema europeu. Num acesso de coragem assumiu que o rei vai nu no que respeita à nossa presença na União Europeia. “Perdemos a nossa agricultura, a nossa pesca e a nossa indústria já pouco conta. Só nos resta a nossa cultura e o mar como oferta turística”, diz. É um governante quem o afirma, o que lhe poderá custar caro num Governo que se tem mostrado completamente submisso aos ditames de Berlim, mas os portugueses reconhecerão a coragem, assim não venham os habituais desmentidos e desdizeres.

Há muito que me interrogo sobre a nossa opção europeia, uma interrogação que era difícil no tempo em que ainda choviam os euros e o crédito fácil com que ajudamos a engordar o orçamento alemão. Portugal está no extremo do continente e deve a sua existência enquanto país e a sua construção enquanto nação, ao facto de ter teimado em não ser Europa. Ao contrário de Espanha, nunca tivemos ambições europeístas e, no único momento em que nos arrastaram para esse cenário, afundamo-nos em armadas que se diziam invencíveis e fomos atacados além-mar por essa mesma Europa, cuja História é uma câmara de horrores e de conflitualidade permanente.

O mar nos fez e o mar aí está como salvaguarda de muito mais do que praias e turismo. Para onde vão hoje os nossos quadros mais qualificados, se não para Angola e Brasil? Não há ilações a tirar desse movimento?
Subitamente, volta a fazer sentido esse velho sonho que teve D João VI: criar uma união ultramarina que se sobrepusesse ao modelo colonial. Portugal, Angola e Brasil, Cabo Verde, Guiné e São Tomé, têm hoje nas suas mãos a possibilidade de criar um dos fenómenos políticos do Sec. XXI: uma União Atlântica, a Atlântida.

O mundo mudou. O aparecimento de potências emergentes faz com que a questão do desenvolvimento já não se processe nessa relação entre um Norte rico e um Sul pobre. A ligação longitudinal entre o Atlântico e o Pacífico emerge, como o Brasil bem sabe, em razão do que está a aprofundar a sua integração rodoviária e portuária com o Peru. E lembro isto, ainda que para mim a questão não seja económica mas cultural, que eu sou daqueles que pensam que a economia deve ser submetida a outros valores.

O Portugal de 1820 não esteve à altura do que se estava a preparar e, com isso, os portugueses puseram-se a jeito para todas as humilhações que se seguiram, incluindo terem vivido em ditadura quase metade do século XX, incluindo a teimosia colonialista dessa mesma ditadura e incluindo a mão estendida à Europa com que temos vivido.

Em 1820 desperdiçamos a oportunidade de, em pé de igualdade com o Brasil, impedirmos um século XIX unipolar inglês. Em vez disso, preferimos voltar a impor uma economia colonialista a que, obviamente, a colónia não se submeteu.

Termino com palavras de Viegas na citada entrevista. “Acredito que a nossa relação com a Europa não é feliz porque uma parte essencial das nossas raízes continua em África e no Brasil... Com a crise, muitos regressaram para lá”. Touché.

 
Ligação: http://www.publico.pt/Cultura/francisco-jose-viegas-diz-que-os-portugueses-tem-medo-do-futuro-1559429#