segunda-feira, 17 de setembro de 2012

De crise em crise até à queda fatal



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Hoje, mais do que nunca, estamos todos aqueles que empobrecem acreditando que a prosperidade é função do valor que se cria, contra esses tais, aqueles para quem o lucro é função da riqueza que os deixamos destruir.

Num grupo de debate em que participei, discutia-se que o próximo passo nas exigências da Troika seria o despedimento de funcionários públicos. Quando isso acontecer, não faltarão os aplausos dos fundamentalistas do liberalismo, de alguns empresários e até de funcionários do setor privado. Mesmo porque, como é costume, tudo será antecedido por uma ampla campanha noticiosa: quanto ganham os gestores? Quanto se gasta em salários? Quantos carros tem o tal instituto ou o tal hospital? Tudo questionado sem que jamais se fale nas contrapartidas em serviços, mas sempre e sempre denunciando os gastos e apenas os gastos.
Sem aplaudir por decoro, mas esfregando as mãos de contentamento, estarão ainda aqueles que contratarão os ex-funcionários públicos, para que façam as mesma tarefas por metade dos salários, mas com o triplo dos custos para o Estado. Rejubilarão também os que se preparam para as Parcerias Publico Privado que substituirão os serviços em causa.
Sinceramente, eu estou farto de ouvir falar na ineficácia do setor público como justificação de todos os males. Só para ilustrar com um exemplo, os Estados Unidos são o país do mundo onde o gasto percapita na saúde é maior e têm indicadores piores do que Portugal. Por lá, a saúde sempre foi um negócio exclusivamente privado, por cá tudo se prepara para que também seja.
Já agora, como não comparar também as Universidades Públicas às privadas, algumas das quais até diplomas de favor vendem?
Os problemas que atravessamos nada têm a ver com os serviços que o Estado assegura (o que, claro, implica funcionários), mas com a completa desregulação da finança internacional que nos tem levado de bolha em bolha até à explosão final. Um turbilhão em que a bolha seguinte serve para compensar as perdas da anterior e, no final, o cidadão/consumidor ou pequeno investidor é sempre quem suporta os custos.
Nesta sucessão de consecutivos empolamentos de valor, o ataque seguinte é sempre praticado sobre um tipo de produto mais essencial do que o anterior.
Eles querem distração? Espetemos-lhes com uma bolha tecnológica. Rebenta a tecnológica e eles têm de abdicar da distração, mas de casa não que de telha todos precisam: pum, bolha imobiliária e os preços da habitação a disparar. Ai Jesus que se nos rebentou a imobiliária. E agora? De que não podem eles abdicar mesmo? De comer, claro: catrapum, especulação no mercado alimentar e os preços dos alimentos a subir, a subir.
Esta última é a bolha em que estamos a viver. Que morra gente de fome pelas ordens que são dadas a partir de luxuosos gabinetes, isso não importa. Especular-especular, isso sim, que pode não haver casa mas comer todos têm de comer.
De mãos dadas com este movimento, está a corrupção, que o dinheiro sobra sempre para quem ajuda a tornar possíveis lucros tamanhos. Marcha em frente que no fim alguém há-de pagar… e alguém está a pagar, como bem se tem visto.
É este ciclo infernal que temos de interromper. Hoje, mais do que nunca, não deveríamos estar portugueses contra alemães, alemães contra americanos, americanos contra chineses. Hoje, mais do que nunca, estamos todos aqueles que empobrecem acreditando que a prosperidade é função do valor que se cria, contra esses tais, aqueles para quem o lucro é função da riqueza que os deixamos destruir.
Uma última questão. Quando finalmente rebentar mais esta bolha, a alimentar, qual será a que se segue? Há dias fui abordado por uma promotora de talhões num cemitério… temo que a seguir só reste mesmo este setor, que comer até podemos não comer, mas morrer lá teremos todos de morrer…
 
Luís Novais

* Foto: Everystockphoto 

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

As minhas razões para estar com a manifestação de dia 15

Amanhã há manifestação contra a Troika. É assim mesmo que está convocada por um grupo de cidadãos: “Contra a Troika, que se lixe a austeridade”.
 
Apoio esta manifestação e estaria na de Braga se estivesse em Portugal. Faço-o porque acho que todos temos de abalar os modelos políticos, económicos e sociais que nos estão a ser impostos. Digo bem, impostos, que hoje o verdadeiro decisor já não é o povo. Não o faço porque queira fazer cair este Governo. Sou realista: sei quais são as alternativas e, apesar de não apoiar as medidas anunciadas, prefiro quem me diga claramente o que pretende do que quem me leve a cantar e rir para o abismo. Abismo por abismo, que seja consciente.
Vejo muitos dos que foram responsáveis pela situação atual a bradarem aos céus contra este Governo. Uns disfarçam melhor do que outros, mas nenhum consegue esconder uma vontade irreprimível de regressar ao poder, de repartir os cargos e sinecuras de que agora acusa os outros.  Alguns dos que andam a colocar no facebook recortes do Diário da república com as nomeações deste Governo, deveriam corar de vergonha antes de o fazer (saliento o "alguns").
Há muita gente a querer cavalgar a justa indignação popular, é o que é. E para voltar ao poder e fazer pior, é também o que também é.
 
Fazer cair este Governo para o substituir por outro que seja pior e mais irresponsável, não é alento para a minha adesão ao movimento de dia 15. Substituir Pedro passos Coelho por António José Seguro, muito menos. Menos ainda contribuir para que uma qualquer brigada do reumático social democrata reocupe um lugar que nunca aceitou perder.
 
O que vejo é a oportunidade para o regresso do Povo à política. O que vejo é uma oportunidade para um efetivo debate sobre quem somos enquanto país e para onde queremos ir. A par de muita exaltação impensada, de muitos insultos gratuitos, de algumas ameaças condenáveis, vejo que as pessoas voltam a ter interesse no destino de Portugal, que voltam a debater, que voltam a apresentar ideias. É esta revitalização que me faz correr, é a esta revitalização que adiro.
 
Temos de assumir que chegamos ao fim dum ciclo, temos de perceber que a geração de unionistas europeus gastou o nosso futuro no seu presente. Salvaguardaram-se, blindaram-se e mandaram que os seguintes, nós, fechássemos a porta, enquanto a sua orgia continuava garantida.
 
No poder, deixaram de ter um contrato com os cidadãos e passaram a tê-lo com obscuros interesses económicos. Não geraram riqueza porque não criaram, enriqueceram porque traficaram. Não foi por inovarem, não foi por gerarem valor para a sociedade (ou para o mercado, se preferirem), não foi por serem gestores geniais. Não. Foi apenas tráfico, tudo foi tráfico e nem é preciso perder tempo com exemplos, todos os conhecemos.
 
Eu não sou contra as reformas dos políticos. Eu defendo que os políticos as tenham. Porque o que eu espero dum político é que me defenda da cobiça dos interesses económicos. Eu quero políticos que nenhum grupo económico queira empregar quando terminem as suas funções públicas. E porque quero isso, quero políticos que não corram o risco de perder uma dignidade mínima de vida material quando saem. Estou disposto a pagar por isso, mas em contrapartida não aceito que se aproveitem das suas funções a pensar gananciosamente naquilo que vão ganhar a seguir, graças aos tráficos que praticaram, graças aos negócios que proporcionaram. Essa ganância é a principal responsável pela situação em que nos encontramos. Sem essa ganância não estaríamos agora todos a pagar o calculismo de tão poucos.
 
Portugal precisa duma refundação. A União Europeia odeia-se a si mesma e despreza-nos. O ciclo europeu chegou ao fim e temos de pensar uma nova geoestratégia para o nosso país.
 
Já neste Blogue partilhei muitas das minhas ideias, não as vou repetir. Mas é por isso e só por isso que estou com a manifestação de dia 15. Não admito a nenhum partido co-responsável por esta situação que se aproprie do meu grito.
 
 
Luís Novais
 

PS: Uma vez que não estou em Portugal, decidi participar fazendo uma edição gratuita do meu romance “Crónica d’Orelhudos” para carregamento online e com capa alusiva à Manif. É a minha participação, assim como a própria Crónica já tinha sido um dos meus gritos. Podem descarregá-la clicando aqui.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

UM GRITO DE INDIGNAÇÃO



Publicação eletrónica e gratuita do romance 
 
"Crónica d'Orelhudos" 
(com prefácio de Pedro Barroso)

Edição especial: dia 15 de Setembro todos à Manif.

 

Não sou um frequentador habitual de manifestações. Não é por preferir o conforto de casa enquanto os outros reivindicam os meus direitos. É apenas uma questão de feitio, de predisposição pessoal. Não é que aceite ficar calado perante tudo o que me queiram impor. É tão só porque cada um tem a sua idiossincrasia. A minha leva-me a uma revolta pausada, mais do que inflamada. Leva-me a debater, mais do que a gritar palavras de ordem. Leva-me a escrever mais do que a exibir cartazes.
 
Nada contra quem o faça, é apenas o meu modo. Procuro contribuir para a mudança, mas no âmbito do meu ser.
 
Sou adepto dos meios de resistência pacífica que Gandhi tão bem advogou. Prefiro, por exemplo, um dia “Todos em casa” do que uma concentração. Prefiro fazer uma greve à rua do que a rua ela mesma. Lembram-se de quando os brasileiros se vestiram todos de branco para afastar um presidente corrupto? Prefiro.
 
Todavia, há limites para aquilo que um país pode aceitar. Nem sequer falo deste Governo e destes governantes, mas de tudo o que nos trouxe até ao momento atual. É altura de dizermos claramente que não queremos ir por aí.
 
Desta vez, lamento não estar em Portugal no próximo dia 15. Não poderei ir a uma manifestação a que, agora, iria convictamente.
 
Dou o meu grito com esta edição especial da Crónica d’Orelhudos. Tem capa comemorativa “Dia 15 todos à Manif.” e está para descarga  livre e gratuita no meu blog.
 
A “Crónica” é uma fábula de gente. Gente capaz de se governar mas que se viu transformada em Orelhuda com a chegada dessa grande parideira de mulas governadoras. É também a manifestação da minha revolta, esta “Crónica”. Em alguns aspetos, só eu seu quanto.
 
Uma última palavra, para fazer um voto de que saibamos aproveitar a energia que se está a libertar. Saibamos ser criativos em todo este processo, para que não sejamos vítimas de outros que, com mais responsabilidades, já se preparam para entrar no comboio, já se preparam para lhe tomar os comandos.
 
Precisamos de saber o que não queremos? Sim, tem razão José Régio. Mas da poesia à vida, vai o salto do não querer ao querer. Que também saibamos, portanto, o que queremos. Esse é o debate que espero que saia de toda esta movimentação.
 
Lima, 12 de Setembro de 2012
 
Luís Novais
 
 





terça-feira, 11 de setembro de 2012

O IMPOSTO QUE ARRUMARIA A QUESTÃO PPP

Vitor Gaspar
“Efetivamente, eu seria de opinião que num mundo ideal teria sido possível realizar progressos mais rapidamente do que conseguimos”. Em entrevista à SIC e sem pestanejar foi com estas palavras que o Ministro das Finanças respondeu a José Gomes Ferreira, a propósito dos atrasos na renegociação das Parcerias Publico Privados (PPP). Perante a insistência do entrevistador, Vítor Gaspar diria ainda que “queremos conseguir os resultados tão cedo quanto possível, mas não foi possível avançar mais depressa”.
 
Proferidas com a maior das displicências, estas afirmações são uma clara declaração da rendição do Estado. Isto na melhor das hipóteses, que na pior são a prova da total subserviência dos governantes perante o grande poder económico.
 
Seguem-se outras pérolas idênticas. Os monopólios energéticos deveriam usar a poupança na Taxa Social Única (TSU) para baixar os custos da energia, vai obrigá-los a isso? A resposta: não compete ao Estado, mas o poder da opinião é muito forte…
Fica claro que em nada se vai mexer. Num caso, o das PPP, enreda-se o assunto em negociações que se complicam o mais possível para criar a aparência de que se faz sem que se faça. Noutro caso, o do custos energéticos, apela-se a que os portugueses opinem…
 
Houvesse verdadeira vontade e coragem políticas e um caso como o outro teriam resolução automática. Em vez do Estado se enredar numa negociação infindável, por que não faz aos detentores das PPP’s o mesmo que faz aos cidadãos? Por que não lhes cria um imposto? Um pagamento especial sobre os rendimentos destas parcerias resolveria tudo no mesmo tempo que demora a inserir mais um artigo no Orçamento Geral do Estado. E o mesmo para os custos energéticos: um imposto de 100% sobre toda a faturação superior à média europeia.
Se os grandes beneficiários dos deficits de Portugal fossem tratados como são tratados os portugueses, o Ministro das Finanças não diria que “num mundo ideal teria sido possível realizar progressos mais rapidamente” na renegociação das PPP. Eu nem peço um mundo ideal. Para usar uma expressão da moda, só peço um mundo mais equitativo. E num mundo mais equitativo, o Estado iria buscar a estas empresas pelo mesmo processo célere e eficaz com que vai buscar aos cidadãos: pela via fiscal, com a criação dum imposto especial, ou, melhor dito, de uma taxa.


Luís Novais

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

ATLÂNTIDA, UM RUMO PARA PORTUGAL



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Quebre-se o tabu e discuta-se a União Europeia. Olhemos para a nossa História. Somos o país mais antigo da Europa e nunca, mas nunca, quisemos estar aí. Nunca, mas nunca, estivemos voltados para o continente.

 
O desespero dos portugueses é, hoje, óbvio e justificado. Nas redes sociais abundam as sugestões para debelar a crise, muitas delas assentes em exigência de diminuição do número de deputados, cargos públicos e quejandos. Estas sugestões podem até ser justas e aliviam, mas não resolvem a nossa situação. A olhómetro, sem fazer contas, é fácil tirar uma conclusão: com estas medidas quase nada mudaria no nosso deficit crónico. Não discuto a justiça, discuto a eficácia.

O que trouxe Portugal até aqui não foi o facto de ter algo mais do que duas centenas de deputados e não sei quantos ministros. Tão pouco foi o facto desses ministros terem motorista e carro oficial. O que nos trouxe aqui foram as políticas, foram os modelos adotados.
Claro que os políticos têm muita responsabilidade. Mas os cidadãos, todos nós, também. Se é certo que muitas vezes fomos enganados, também é certo que outras tantas preferimos deixar-nos enganar, por uma cómoda anestesia em que o presente contava sempre mais do que o futuro.

Finalmente, o futuro chegou.  Sentimos o desespero e com o desespero  já sabemos o que não queremos. Todavia, o único lugar onde é bonito saber para onde se não vai sem que se saiba para onde ir, é nessa magnifico poema de José Régio. A vida é, infelizmente e por norma, diferente da poesia. Na vida temos de saber o que querer de cada vez que sabemos o que não querer.

A energia da revolta precisa de ser canalizada para o debate sobre as alternativas, sob pena de que, como nos querem fazer crer, não haja mesmo alternativa à política atual. Uma política que não está a tentar salvar o futuro, como nos dizem, mas o passado: os modelos sociais do passado, os privilégios do passado, a geoestratégia do passado, a economia do passado.
Os que não queremos o que está, temos de ser capazes de apontar caminhos.

Nestes textos, buscarei dar o meu contributo de cidadão, por vezes coligindo algumas coisas que fui escrevendo noutras ocasiões.

Uma Nova Geoestratégia para Portugal.

A Europa tornou-se um tabu. Durante três décadas, questionar a via europeia quase redundava em excomunhão política. Contudo, ao mesmo tempo que nos estendia parca esmola, essa Europa exigia-nos a destruição de todo o nosso setor produtivo. Foi uma espécie de velho ditado, mas ao contrário: se queres ajudar, dá-lhe dinheiro para que desaprenda de pescar.
Isso foi o que nos fizeram: levaram-nos a quebrar a nossa cana de pesca e nós quebramo-la alegremente porque alguns ganhavam euros fáceis com ações de formação e consultorias e outros ganhavam umas migalhas, igualmente fáceis, frequentando essas mesmas ações. Sem falar nos que fizeram obscuras fortunas, claro, que esses são ou deveriam ser casos de polícia. Prometiam-nos que, no fim, o país estaria mais qualificado e poderiam os portugueses entrar numa nova era económica. Vê-se o resultado.

Quebre-se o tabu e discuta-se a União Europeia. Olhemos para a nossa História. Somos o país mais antigo da Europa e nunca, mas nunca, quisemos estar aí. Nunca, mas nunca, estivemos voltados para o continente. A Europa sempre foi, para nós, um espaço de intensa e necessária diplomacia e não um espaço de integração política. Com exceção do Reino Unido, mais nenhum país europeu pode afirmar o mesmo. Duma forma ou doutra, todos tiveram o continente como epicentro político. Nós não. Terminada a reconquista, todo o Portugal lhe virou costas e se voltou ao Atlântico. As poucas aproximações continentalistas, sempre redundaram em tragédia, como aconteceu quando os Filipes nos imiscuíram nas suas lutas europeias e nos afundaram numa armada que diziam invencível.
Somos atlânticos, não somos europeus e sempre que o quisemos ser, a farsa que nos relata Eça terminou em tragédia, como se comprova historicamente.

Veja-se para aonde emigram hoje os nossos recursos humanos mais qualificados: para Angola e Brasil. Veja-se para aonde se voltam as nossas empresas, para África e América Latina. Veja-se onde sentimos a nossa continuidade cultural, a nossa identidade linguística… sempre e sempre no sentido oeste que “de leste nem bom vento nem bom casamento”, interessante expressão e grande metáfora que não por acaso nos trouxe o passado.
Em vez de estarmos metidos num barco onde não nos sentimos confortáveis, seria tempo de estreitarmos laços com o Atlântico de língua portuguesa: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné e São Tomé.

A geoestratégia do futuro (do presente) passa grandemente pela ligação Índico-Atlântico e Atlântico-Pacífico. O Brasil sabe isso perfeitamente, razão por que está a investir imenso na integração rodo-portuária com os dois países da América do Sul que podem ligar o seu interior ao Pacífico: o Peru e o Chile.
Se formos capazes de participar na construção duma União Atlântica (gosto de chamar-lhe Atlântida) estaremos a fazer algo de grande, onde poderemos partilhar grandeza. Todos estes países formam uma territorialidade marítima (não esquecer os Açores e a Madeira) que, a unir-se, criaria o fenómeno político do Sec XXI e, unidos pela mesma língua, teriamos uma economia e uma cultura pujantes.

Qual é a contrapartida? Que continuemos a arrastar-nos por uma Europa que se odeia a si mesma e que nos despreza.

Mas, é claro, para isso seria necessário que deixássemos de ter obedientes contabilistas no poder e passemos a ter estadistas determinados.

Um desabafo final
Enfim, sentindo-me revoltado, como quase todos os portugueses, não posso deixar de procurar o que quero mais além do que não quero. Esta é a minha partilha. Outro tanto teria a dizer sobre o modelo económico e social, mas isso deixo para outra ocasião. Por hoje, para sonho e para me dar alguma alegria, basta-me pensar nesta Atlântida.


Luís Novais
* À foto, tirei-a nesse paraíso atlântico chamado Arquipélago de Bijagós, Guiné-Bissau

sábado, 8 de setembro de 2012

Pathos e Catarse na Comunicação de Ontem



Nas redes sociais assiste-se a um avolumar da revolta que vai sair caro a este governo e sobretudo a Portugal. Quem analisar os comentários e tiver amigos de várias vertentes políticas, como sucede ser o meu caso, percebe que a tensão é muita e, quando explodir, aqueles que seriam a base de apoio dos partidos no poder estarão desmoralizados, incapazes de reagir, quando não também eles extremamente revoltados.  
 
O anúncio de ontem não contribuiu em nada para inverter esta situação, nem no conteúdo, nem na forma.
Quanto ao conteúdo, nem é necessário dizer porquê, mas lá poderá o Governo dizer que não tem alternativa. Quanto à forma, essa sim poderia e deveria ser diferente. Caramba, desde que os gregos criaram a tragédia, sabemos que o pathos (sofrimento) antecede a catarse. Um mecanismo que Sócrates (o que acreditava na Verdade e não o outro) bem explicitou quando lhe soltaram as correntes com que o prendiam, nesse dia em que tomou a cicuta: “que extraordinária coisa é aquilo a que os homens chamam prazer. Em consequência da cadeia, sentia na minha perna a dor, mas agora vai o prazer tomando o lugar dela” (“Fédon”). Ou seja, o prazer pode ser resultado da ausência de dor.
Esta descoberta, que já tem mais de 2.500 anos, criou um modelo para a ficção e para a comunicação: criar tensão, para que a distensão seja catártica. Sabem disto qualquer caloiro de comunicação e qualquer roteirista de telenovelas. Para o contrário, provocar o pathos depois da catarse, só encontro um nome: sadismo. Uma técnica que usam muito os outros roteiristas, os de filmes de terror.
Posto isto, se não concordo com o conteúdo daquilo que o Primeiro-ministro anunciou ontem, quanto à forma não a entendo mesmo. Começou pela catarse (devolver um subsidio aos funcionários públicos), para em seguida disparar com o pathos (um aumento de impostos que vai levar tudo o que acabara de se oferecer). Que se pretendia? Terão os comunicadores de São Bento a ingenuidade de pensar que conseguiriam iludir a realidade? Que todos os funcionários públicos sairiam a festejar e que não perceberiam que afinal ficava tudo na mesma?
Esta crença na ilusão da palavra não é uma originalidade nacional. Os políticos estão atacados por esse vírus que criou a crise da pós-modernidade: deixaram de acreditar na transcendência da Verdade, a verdade passou a ser a palavra e aquilo que pela palavra possa ser transmitido, um modelo que tem origem nessa famosa ideia de Walter Lipmann: “há que fabricar o apoio”.
Sócrates (agora o José) era mestre nesta técnica, que em linguagem popular se resume na ideia de que a mentira repetida  10 vezes se transforma em verdade. Quanto ao exercício de ontem, foi tão rocambolesco que chegou a ser uma caricatura.
Obviamente que ninguém se deixou enganar. Parece que, de tão usada, a técnica se gastou a si mesma. Ainda bem. Tenho agora esperança que o cansaço das consciências que consentem obrigue a que a Verdade volte a ser.

sábado, 25 de agosto de 2012

ALTERNATIVAS À ECONOMIA FINANCEIRA, OU, EM BUSCA DE PARADIGMAS PERDIDOS

“Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de sequer ser semeada. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, apesar de te deixar na merda se descer.“
 
Assim se refere o articulista do El Pais Juan José Millás à economia financeira, num texto que incendiou as redes sociais espanholas e que a “Dinheiro Vivo”acaba de traduzir e publicar (ver artigo completo).
As reações dos leitores portugueses não tardaram, umas emotivamente a favor e outras cegamente contra. Vejamos o que se diz: “Há um bom motivo pelo qual se compram futuros, e vem exactamente do exemplo da produção de trigo: o agricultor antes de colher a plantação já tem necessidade de alimentar a família, portanto tem de conseguir vende-la antes de a ter colhido.” Outro leitor pergunta: “A verdadeira questão: qual é a solução? Qual o melhor sistema a seguir ao melhor por defeito? Já não vale reclamar”.
Ao longo da História foi sempre desta forma que os donos dos sistemas dominantes afirmaram o seu poder. É célebre o discurso das mãos e do estômago com que Menénio Agripa procurou convencer a plebe romana. Podemos imaginar semelhante argumentação num industrial de Manchester oitocentista falando aos seus operários quase mortos de fome: “agora que fostes expulsos dos vossos campos, só eu vos posso garantir que a fome não seja completa”. Ou dum senhor feudal: “se eu não vos organizo quem vos vai defender dos inimigos que nos podem atacar?” No fundo, o argumento foi e é sempre o mesmo: “podemos não ser bons mas não tendes alternativa”. A História sempre se encarregou de lhes tirar razão: tal como nas pessoas, não há sistemas insubstituíveis.
Ninguém se lembrou de dizer ao Senhor feudal que se poderiam organizar num sistema democrático, assim como ninguém disse a Agripa que estava a meter as mãos pelos estômago porque a sociedade poderia ser mecânica e não orgânica, para usar os conceitos de Durkheim.
Hoje, fazem-nos crer que não há alternativa a esta economia financeira que, dominando a produtiva, nos domina a todos. Apostam no medo, no horror ao vácuo que se produz ante a possibilidade de, a este mal, se suceder mal pior que é o vazio. Procura-se até confundir Ocidente com capitalismo, como se o fim deste fosse o fim daquele; uma óbvia mentira se considerarmos que temos séculos de cultura ocidental e apenas 200 anos de capitalismo como sistema dominante.
Mas sim, a pergunta é essa mesma: o agricultor tem de comer antes de colher o trigo e pode morrer de fome se a colheita for má. Que alternativa a uma economia financeira que é também uma almofada (ainda que de cimento) para este risco?
As respostas são fáceis. Se não as encontramos é tão só porque costumamos sofrer de dois centripetismos: o cronológico e o cultural. O primeiro apenas nos permite ver o nosso tempo, o segundo impede-nos de buscar soluções fora da nossa cultura.
 
O que nos ensina cronos?
Ensina-nos que a humanidade sempre foi capaz de encontrar soluções. Já aqui abordei este tema (A Grande Apropriação,ou a Falácia do Estado Social): perante a desproteção social completa em que se encontravam os primeiros operários do Sec XIX, estes souberam aproveitar a tradição comunitária que traziam do mundo rural e auto-organizaram-se em sociedades mutualistas, capazes de lhes garantir alguma estabilidade.
Em Inglaterra, por exemplo, as Friendly Societies contavam com 1 milhão de sócios em 1850 e 4 milhões em 1872. Em 1913, na Alemanha, 16 milhões de operários estavam associados em diversas caixas de invalidez e velhice (Y. Lequin). Igualmente fruto da auto-organização daquilo a que hoje chamaríamos “sociedade civil”, foram surgindo inúmeras cooperativas de consumo que pretendiam salvaguardar produtores e consumidores dos ataques especulativos e garantir, assim, um controlo sobre o preço dos bens de consumo. Por volta de 1860, esta tendência alargou-se ao crédito com o aparecimento de associações de crédito mútuo, com origem na Alemanha.
É deste movimento e do seu exemplo que mais tarde o Estado se aproveitará para começar a criar aquilo em que nos nossos dias se tornou a mastodôntica burocracia social (C Ward).
Se as coisas tivessem seguido o seu rumo natural, a segurança social estaria agora a ser gerido por pequenas e médias organizações mutualistas de âmbito territorial ou social, com uma profunda ligação aos seus utentes, porque por eles criadas, geridas e controladas. Organizações que, tanto pela sua dimensão como pela proximidade ao utilizador, teriam, como tiveram no passado, uma estrutura burocrática muito leve.
Mas, é claro, com esta fórmula não se teria dado emprego a uma elite político-partidária cada vez mais ávida e, na fase em que estamos, não se encontrariam argumentos para que, por ingovernabilidade do sistema, o Estado pudesse entregar de mão beijada a nossa assistência social a grupos económicos cujos cadastros não nos deveriam deixar nada descansados.
 
O que nos ensinam outras culturas?
Socorro-me dum só exemplo: as culturas andinas pré-hispânicas, normalmente englobadas no conceito de Império Inca. Antes da chegada dos espanhóis em 1533, esta região era talvez a mais avançada do mundo dos pontos de vista social, alimentar e, arriscaria até, científico.
Apenas num ou dois aspetos estavam atrás da Europa de então: o primeiro e central foi o militar, o segundo, talvez o da filosofia/teologia. Foi com o primeiro que foram dominados e foi com o segundo que foram colonizados. Isto não obstante os seus claros avanços nas demais áreas, bastando recordar o que aconteceu à demografia europeia quando aqui chegaram as espécies agrícolas desenvolvidas e melhoradas no mundo andino.
A economia dos incas era profundamente rural e obviamente que padecia dos riscos naturais inerentes: secas, cheias, desastres… e no entanto não havia fome nem subnutrição. Porquê? Primeiro porque o usufruto da terra era privado mas a posse era comunitária, ou seja, quando alguém morria a terra voltava à comunidade e quando alguém chegava à idade de trabalhar a comunidade entregava-lhe um campo para que dele usufruisse. Com isto, garantiam um elevado nível de igualdade social (ainda que no âmbito duma sociedade que não era igualitarista). Garantiam também que heranças sucessivamente divididas não depauperassem o ciclo geracional e, já agora, que a transação não resultasse em bolhas especulativas que levassem alguns a destruir a riqueza de quase todos.
O melhor que o Ocidente desse tempo conseguiu para responder a estes riscos foi a injustiça do morgadio e dos bens de alma… julgo que estamos conversados.
Mas o que mais me interessa enfocar é o sistema de segurança alimentar mútua: cada família entregava uma parte da sua produção para celeiros comuns que asseguravam que uma boa colheita numa região pudesse acudir a uma má colheita noutra… ou seja, já nesse tempo garantiam a segurança alimentar sem precisarem de se submeter à caridade ou de se sujeitarem a essa almofada de cimento que é o mercado de futuros.
 
Uma alternativa à economia financeira.
Em conclusão, é obviamente falacioso o argumento daqueles que dizem que não temos alternativa à financiarização da economia e que este modelo de capitalismo é o melhor dos mundos possíveis. Todos os regímenes dominantes argumentaram que estavam a oferecer esse tal melhor mundo e todos caíram.
A base da economia tem de voltar a ser a produção e, se perdermos a cegueira que nos impede de olhar para a História e para outras culturas, há claras alternativas ao modelo em que estamos a viver. Basta que pensemos mais em cooperação e menos em competição, mais em solidariedade e menos em caridade, mais em mutualismo e menos em assistência. Em suma, o segredo está em usarmos a entreajuda para que o risco deixe de ser um produto transacionado, um produto que depaupera muitos e enriquece alguns.
Só não vê quem não quer… ou quem ganha com isso.
 
Luís Novais