quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Acabo de ler “Os Pobres”. Raul Brandão escreveu-o na ressaca da primeira bancarrota de Portugal, a de 1891. Arrepia a profundidade daquelas personagens que nos desfilam numa atualidade latente, o Gebo, o Gabiru, as prostitutas… até deprime, ler agora o que então se escreveu . Ver essa mesma passadeira negra que nos estendem...
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
Nem admira o Estado a que isto chegou
Tantas são as cobras e não menos
os lagartos que andam por aí a soltar-se contra essa besta gorda que se diz
Estado, que decidi andar em busca das fontes da sua voracidade. Consultei
alguns entendidos, consultores de horas vagas, e de pronto me disseram que se
era para decepar que se decepasse na saúde, que essa é uma autêntica desgraça
despesista, mais do que uma pipa de desperdício.
Armei-me de lupa e fui em busca.
Já tinha a minha estratégia toda muito bem montada: pegar no ágil campeão do
anti-Estado e compará-lo com esse gordo e flácido que é o que se diz nosso. “Deixa
estar que já te apanho”.
Fiquei a saber, nada mais e nada
menos, que em 2008 cada americano gastava com a sua rica saúde 5.988 euros,
contra os 1.957 de cada português, ainda que a despesa do português corresse sobretudo
por conta desse tal pançudo, o Estado. Qualquer coisa como 15,6% do bruto
produto deles e apenas 9,5% do nosso.
Que ricos meninos, eles, com uma
despezinha destas deverão ter uma saúde de leão. Quanto a nós, coitaditos, deveremos
andar a pedir valhas a Deus.
Nem pude acreditar na surpresa
que me estava reservada: morremos menos, nós, caramba! Numa conta a que se
chama a média, aqui os tugas vivem até
aos 79 anos com quatro meses e eles apenas 78 com mais dois mesitos. Somos os
vigésimos que menos morrem e eles os trigésimos oitavos, que até o inimigo
cubano lhes fica acima.
Não me deixei enganar por uma
aparência que só poderia ser enganosa, uma armadilha da estatística que é por
essas e por outras que nunca confiei muito em Pitágoras. De tanto pensar, o meu
eureka surgiu bem postulado: hábitos de pobre meu caro, hábitos de pobre; não
há comidinha mais saudável do que a dos pobrezinhos, já lá dizia o meu médico, “coma
sopa, homem, você coma-me sopinha”. Deixa estar, que eu já descubro a careca a
isto tudo.
Foi com fito nisto que fui à cata
daquele grupo a quem as maioneses e molhangas afins ainda não tiveram tempo,
nem para entupir veias, nem para engordurar outros sistemas vitais: as
crianças, mas aquelas que são mesmo muito criancinhas, nada mais do que até 5
aninhos. Procurei e… mais uma surpresa, que com esta eu já estava quase a
agradecer ao quarto joanino pela lusa encomenda à Senhora da Conceição. Pois
não é que nos morrem 6,6 em mil contra a 7,8 a eles. Atenção que não é caso
para menos do que benzedura: estamos no lugar 26 e eles no 33 (e Cuba em 28)!
Caramba que até impressiona: uma
miséria de 1.957 por cidadão e estamos muitos pontos acima desses ricos parentes
afastados, que gastam à tripa forra, mais do que o triplo, esses tais que são aqueles
de quem se diz serem a maior potência económica de todo o planeta sem exceção, os
que têm as melhores bombas de que há memória passada e presente.
Olá, olá, que podemos não ser o
país que melhor bombardeia o semelhante, mas somos um dos que melhor cuida dos
seus.
Foi então que, assim como uma
luz, pensei que talvez o pecado fosse outro. Talvez nos andemos a render anos
de vida, em vez de lucros aos acionistas. Não percebemos nada de economia, nós.
Não admira o estado a que isto chegou.
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
Pelo Reconhecimento do Gene como Património da Natureza.
![]() |
| Logotipo da Monsanto |
Não
é a primeira vez que escrevo sobre a manipulação genética e a sua exploração
comercial. O gene é a partícula que sustenta a vida e é seguramente a “tecnologia”
mais avançada do planeta. Se chegamos até nós, foi graças ao seu desenvolvimento.
Ele é sagrado e é profano. Sagrado porque sustentação de toda a vida, profano
porque mata para se apurar. Demorou milhões de anos a chegar aqui e esperemos
que muitos mais para chegar até outros; alterado, adaptado, refundado, mas
sempre ele e, nele, sempre o tempo.
É
por isso que a sua privatização é monstruosa. Ser seu dono é ser dono da vida,
ser dono da vida é ser aprendiz de divino.
Além
da questão moral, acresce a da saúde pública. Um trabalho científico recente,
demonstrou que ratos alimentados com milho transgénico da multinacional americana
Monsanto, desenvolveram grandes tumores e tiveram uma taxa de mortalidade três
vezes superior à dos que foram alimentados com milho natural.
Esta
experiência decorreu durante dois anos, contra uma idêntica, da própria
Monsanto, que durou apenas três meses e que serviu de base à autorização para a
comercialização destas sementes.
Basta
bom senso para entender que o organismo animal evoluiu em paralelo com a
disponibilidade alimentar e que, se alterarmos abruptamente as características
desta, isso terá impacto negativo naquele.
Todavia,
a-priori temos a questão da
legitimidade. Empresas como a Monsanto apropriam-se de milhões de anos de
evolução, fazendo uma pequena alteração no processo natural para depois se
tornarem donas da sua totalidade. Isto é legitimo? Para mais, as culturas
geneticamente modificadas contaminam as restantes e,
por outro processo de manipulação, o político, podemos ser condenados por
semear um pé de feijão sem lhes pagar direitos.
A
sua privatização é imoral e o desenvolvimento de pesquisas nesta área não pode
ter fins comerciais. Não estamos sequer a falar dum património que seja nosso,
mas da vida toda ela, aliás, trata-se da própria vida. É por tudo isto que o
gene deve ser declarado património da natureza, nem sequer da humanidade.
Nota: Ainda que recorrendo a um título falacioso, o jornal PÚBLICO mostra os dois lados desta experiência: ver notícia
Luís Novais
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
De crise em crise até à queda fatal
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| * |
Hoje, mais do que nunca,
estamos todos aqueles que empobrecem acreditando que a prosperidade é função do
valor que se cria, contra esses tais, aqueles para quem o lucro é função da
riqueza que os deixamos destruir.
Num grupo de debate em que participei, discutia-se que o próximo passo nas exigências da Troika seria o despedimento de funcionários públicos. Quando isso acontecer, não faltarão os aplausos dos fundamentalistas do liberalismo, de alguns empresários e até de funcionários do setor privado. Mesmo porque, como é costume, tudo será antecedido por uma ampla campanha noticiosa: quanto ganham os gestores? Quanto se gasta em salários? Quantos carros tem o tal instituto ou o tal hospital? Tudo questionado sem que jamais se fale nas contrapartidas em serviços, mas sempre e sempre denunciando os gastos e apenas os gastos.
Sem aplaudir por decoro, mas esfregando
as mãos de contentamento, estarão ainda aqueles que contratarão os
ex-funcionários públicos, para que façam as mesma tarefas por metade dos
salários, mas com o triplo dos custos para o Estado. Rejubilarão também os que
se preparam para as Parcerias Publico Privado que substituirão os serviços em
causa.
Sinceramente, eu estou farto de
ouvir falar na ineficácia do setor público como justificação de todos os males.
Só para ilustrar com um exemplo, os Estados Unidos são o país do mundo onde o
gasto percapita na saúde é maior e têm indicadores piores do que Portugal. Por
lá, a saúde sempre foi um negócio exclusivamente privado, por cá tudo se
prepara para que também seja.
Já agora, como não comparar também
as Universidades Públicas às privadas, algumas das quais até diplomas de favor
vendem?
Os problemas que atravessamos nada têm a ver com os serviços que o Estado assegura (o que, claro, implica
funcionários), mas com a completa desregulação da finança internacional que nos
tem levado de bolha em bolha até à explosão final. Um turbilhão em que a bolha
seguinte serve para compensar as perdas da anterior e, no final, o
cidadão/consumidor ou pequeno investidor é sempre quem suporta os custos.
Nesta sucessão de consecutivos
empolamentos de valor, o ataque seguinte é sempre praticado sobre um tipo de produto
mais essencial do que o anterior.
Eles querem distração? Espetemos-lhes
com uma bolha tecnológica. Rebenta a tecnológica e eles têm de abdicar da
distração, mas de casa não que de telha todos precisam: pum, bolha imobiliária
e os preços da habitação a disparar. Ai Jesus que se nos rebentou a
imobiliária. E agora? De que não podem eles abdicar mesmo? De comer, claro:
catrapum, especulação no mercado alimentar e os preços dos alimentos a subir, a
subir.
Esta última é a bolha em que estamos
a viver. Que morra gente de fome pelas ordens que são dadas a partir de
luxuosos gabinetes, isso não importa. Especular-especular, isso sim, que pode
não haver casa mas comer todos têm de comer.
De mãos dadas com este movimento,
está a corrupção, que o dinheiro sobra sempre para quem ajuda a tornar
possíveis lucros tamanhos. Marcha em frente que no fim alguém há-de pagar… e
alguém está a pagar, como bem se tem visto.
É este ciclo infernal que temos
de interromper. Hoje, mais do que nunca, não deveríamos estar portugueses
contra alemães, alemães contra americanos, americanos contra chineses. Hoje,
mais do que nunca, estamos todos aqueles que empobrecem acreditando que a
prosperidade é função do valor que se cria, contra esses tais, aqueles para
quem o lucro é função da riqueza que os deixamos destruir.
Uma última questão. Quando finalmente
rebentar mais esta bolha, a alimentar, qual será a que se segue? Há dias fui
abordado por uma promotora de talhões num cemitério… temo que a seguir só reste
mesmo este setor, que comer até podemos não comer, mas morrer lá teremos todos
de morrer…
* Foto: Everystockphoto
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
As minhas razões para estar com a manifestação de dia 15
Amanhã há manifestação contra a
Troika. É assim mesmo que está convocada por um grupo de cidadãos: “Contra a
Troika, que se lixe a austeridade”.
Apoio esta manifestação e estaria
na de Braga se estivesse em Portugal. Faço-o porque acho que todos temos de
abalar os modelos políticos, económicos e sociais que nos estão a ser impostos.
Digo bem, impostos, que hoje o verdadeiro decisor já não é o povo. Não o faço
porque queira fazer cair este Governo. Sou realista: sei quais são as
alternativas e, apesar de não apoiar as medidas anunciadas, prefiro quem me
diga claramente o que pretende do que quem me leve a cantar e rir para o
abismo. Abismo por abismo, que seja consciente.
Vejo muitos dos que foram responsáveis
pela situação atual a bradarem aos céus contra este Governo. Uns disfarçam
melhor do que outros, mas nenhum consegue esconder uma vontade irreprimível de regressar ao poder, de
repartir os cargos e sinecuras de que agora acusa os outros. Alguns dos que andam a colocar no facebook
recortes do Diário da república com as nomeações deste Governo, deveriam corar
de vergonha antes de o fazer (saliento o "alguns").
Há muita gente a querer cavalgar
a justa indignação popular, é o que é. E para voltar ao poder e fazer pior, é
também o que também é.
Fazer cair este Governo para o
substituir por outro que seja pior e mais irresponsável, não é alento para a
minha adesão ao movimento de dia 15. Substituir Pedro passos Coelho por António
José Seguro, muito menos. Menos ainda contribuir para que uma qualquer brigada
do reumático social democrata reocupe um lugar que nunca aceitou perder.
O que vejo é a oportunidade para
o regresso do Povo à política. O que vejo é uma oportunidade para um efetivo
debate sobre quem somos enquanto país e para onde queremos ir. A par de muita
exaltação impensada, de muitos insultos gratuitos, de algumas ameaças condenáveis,
vejo que as pessoas voltam a ter interesse no destino de Portugal, que voltam a
debater, que voltam a apresentar ideias. É esta revitalização que me faz correr,
é a esta revitalização que adiro.
Temos de assumir que chegamos ao
fim dum ciclo, temos de perceber que a geração de unionistas europeus gastou o
nosso futuro no seu presente. Salvaguardaram-se, blindaram-se e mandaram que os
seguintes, nós, fechássemos a porta, enquanto a sua orgia continuava garantida.
No poder, deixaram de ter um
contrato com os cidadãos e passaram a tê-lo com obscuros interesses económicos.
Não geraram riqueza porque não criaram, enriqueceram porque traficaram. Não foi
por inovarem, não foi por gerarem valor para a sociedade (ou para o mercado, se
preferirem), não foi por serem gestores geniais. Não. Foi apenas tráfico, tudo
foi tráfico e nem é preciso perder tempo com exemplos, todos os conhecemos.
Eu não sou contra as reformas dos
políticos. Eu defendo que os políticos as tenham. Porque o que eu espero dum
político é que me defenda da cobiça dos interesses económicos. Eu quero
políticos que nenhum grupo económico queira empregar quando terminem as suas
funções públicas. E porque quero isso, quero políticos que não corram o risco
de perder uma dignidade mínima de vida material quando saem. Estou disposto a pagar por isso, mas em contrapartida não aceito que se aproveitem das suas funções a pensar gananciosamente
naquilo que vão ganhar a seguir, graças aos tráficos que praticaram, graças aos negócios
que proporcionaram. Essa ganância é a principal responsável pela situação em
que nos encontramos. Sem essa ganância não estaríamos agora todos a pagar o
calculismo de tão poucos.
Portugal precisa duma refundação.
A União Europeia odeia-se a si mesma e despreza-nos. O ciclo europeu chegou ao
fim e temos de pensar uma nova geoestratégia para o nosso país.
Já neste Blogue partilhei muitas
das minhas ideias, não as vou repetir. Mas é por isso e só por isso que estou com a manifestação de dia 15. Não admito a nenhum partido co-responsável por
esta situação que se aproprie do meu grito.
Luís Novais
PS: Uma vez que não estou em
Portugal, decidi participar fazendo uma edição gratuita do meu romance “Crónica
d’Orelhudos” para carregamento online e com capa alusiva à Manif. É a minha
participação, assim como a própria Crónica já tinha sido um dos meus gritos.
Podem descarregá-la clicando aqui.quarta-feira, 12 de setembro de 2012
UM GRITO DE INDIGNAÇÃO
Edição especial: dia 15 de Setembro todos à Manif.
Não
sou um frequentador habitual de manifestações. Não é por preferir o conforto de
casa enquanto os outros reivindicam os meus direitos. É apenas uma questão de
feitio, de predisposição pessoal. Não é que aceite ficar calado perante tudo o
que me queiram impor. É tão só porque cada um tem a sua idiossincrasia. A
minha leva-me a uma revolta pausada, mais do que inflamada. Leva-me a debater,
mais do que a gritar palavras de ordem. Leva-me a escrever mais do que a exibir
cartazes.
Nada
contra quem o faça, é apenas o meu modo. Procuro contribuir para a mudança,
mas no âmbito do meu ser.
Sou
adepto dos meios de resistência pacífica que Gandhi tão bem advogou. Prefiro,
por exemplo, um dia “Todos em casa” do que uma concentração. Prefiro fazer uma
greve à rua do que a rua ela mesma. Lembram-se de quando os brasileiros se
vestiram todos de branco para afastar um presidente corrupto? Prefiro.
Todavia,
há limites para aquilo que um país pode aceitar. Nem sequer falo deste Governo
e destes governantes, mas de tudo o que nos trouxe até ao momento atual. É
altura de dizermos claramente que não queremos ir por aí.
Desta
vez, lamento não estar em Portugal no próximo dia 15. Não poderei ir a uma
manifestação a que, agora, iria convictamente.
Dou
o meu grito com esta edição especial da Crónica
d’Orelhudos. Tem capa comemorativa “Dia 15 todos à Manif.” e está para
descarga livre e gratuita no meu blog.
A
“Crónica” é uma fábula de gente. Gente capaz de se governar mas que se viu
transformada em Orelhuda com a chegada dessa grande parideira de mulas
governadoras. É também a manifestação da minha revolta, esta “Crónica”. Em alguns aspetos, só eu seu quanto.
Uma
última palavra, para fazer um voto de que saibamos aproveitar a energia que se
está a libertar. Saibamos ser criativos em todo este processo, para que não
sejamos vítimas de outros que, com mais responsabilidades, já se preparam para
entrar no comboio, já se preparam para lhe tomar os comandos.
Precisamos
de saber o que não queremos? Sim, tem razão José Régio. Mas da poesia à vida,
vai o salto do não querer ao querer. Que também saibamos, portanto, o que
queremos. Esse é o debate que espero que saia de toda esta movimentação.
Lima,
12 de Setembro de 2012
Luís Novais
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