sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

VOANDO SOBRE UM NINHO DE COCA


São 59, os portugueses que estão presos no Peru. Correios de droga, apanhados nas malhas dum narcotráfico em que são o elo mais fraco. A minha reportagem sobre as suas histórias de vida, na Revista do Expresso deste Sábado, 8 de dezembro.

Com o recrudescimento da crise, espera-se que estes números aumentem. Normalmente, são recrutados entre jovens com trabalhos precários e desempregados, dois perfis que estão em crescimento, como se sabe.

Viajam em situação precária, ficam 3 a 4 dias no Peru e no último dia têm de ligar para um número de telefone. Entregam-lhes 3-4 kg. em fundos falsos de malas ou fazem-nos a engolir cápsulas e daí vão diretos para o aeroporto... ou para a prisão, em muitos casos.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Da Antroplogia à Ideologia


Recentemente, Luis Alves de Fraga, um pensador português que admiro e costumo acompanhar nas redes sociais, lançou no Facebook o desafio da busca de novos modelos económicos, capazes de darem as respostas que as ideologias do Sec. XIX já não estarão a conseguir.
Não me vou alongar na referência à sua intervenção, porque ela pode ser lida aqui. Basicamente, segundo Alves de Fraga, a seguirmos o pensamento oitocentista com a respetiva concretização novecentista, restar-nos-ia optar entre dois modelos económicos: de mercado, um, planificado, o outro. O repto era este: são necessários novos pensadores que formulem novas teorias e novas doutrinas.

Participei do repto, com um artigo que escrevi há tempos, onde defendia que os centripetismos cultural e cronológico nos impedem de encontrar respostas onde elas já tinham existido (ver artigo). A resposta que Alves da Fraga me deu, também pode ser lida no mesmo local e resumo-a nesta frase: a minha visão apontaria “para a revisitação de velhos métodos de sobrevivência que tiveram uma época e foram fruto dela”.
A minha questão é, no entanto, precedente: a preocupação com a teoria e a doutrina, não será ela mesma oitocentista? Não apontará também para a revisitação de velhos métodos? Não será essa ideia, incubada nas luzes, de que podemos refundar o mundo com base na racionalidade, a base da utopia iluminista em que ainda estamos a viver?
Ao longo da sua História, a humanidade foi capaz de construir modelos económicos e sociais que funcionavam e que, embora potenciados pela doutrina, precediam-na. A doutrina era desenvolvida e utilizada depois, quando essas mesmas sociedades se queriam tornar dominantes e impor o seu modelo antropológico. O imperialismo é filho da resposta doutrinária, portanto, enquanto a doutrina deriva da evolução antropológica.

Talvez a grande novidade do Sec XIX tenha sido essa: uma espécie de metafísica, segundo a qual uma ideia racionalizada deveria preceder a vivência (evitei propositadamente dizer “a existência”). Essa quase teologia que originou das maiores injustiças, dos maiores massacres e das maiores ditaduras a que a humanidade assistiu.
É por isso que gosto de olhar para o passado, de perceber o sentido da evolução antes de chegarmos à ditadura da doutrina.
Houve alguns portugueses temerários no seu pensamento, que procuraram formular sínteses entre os modelos de pensamento dominantes no seu tempo e as forma de vida, o mesmo será dizer que entre a ideologia e a antropologia. Entre eles, destaco Herculano, que toda a vida lutou por uma democracia sem “revolução cultural”, isto é, sem destruição de tudo o que existia para construir sobre as cinzas. Mas até mesmo Garret, na sua súbita nostalgia pelo frade, acabou por alinhar nessa ideia de que a pura racionalidade tinha levado à destruição.

Enfim, não é que eu seja um cego admirador de Calisto Elói antes da queda, sobretudo porque ele mesmo já estava eivado do tal "pecado" doutrinador. Mas lá que o prefiro aos Pereiras de Melo, isso prefiro.

E que estou eu a fazer se não a entrar nessa mesma contradição? Sou mais um dos filhos do Sec. XIX, não há como fugir a isso. Porém, não tão legítimo que não conviva bem com as contradições da minha racionalidade, quando em confronto com a minha vivência.
 
Luís Novais

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Voo em céu de cimento.


 
Voz que diz:
“és multidão”.
Sou eu:
me dizem não eu.
Sou outro:
negado me digo.
 
Querem-me.
Roubam-me.
Voo:
vejo-os.
Vejo-os:
sou.
Aterro:
perco-me.
Perdido:
não sou
 
Ser.
Momento que seja.
Só.
 
Antes me diga:
“Tu”,
“tu és tu”.
Só.

domingo, 25 de novembro de 2012

Capa da edição brasileira,
Novembro, 2012
Ao Domingo, passei-o a atualizar o álbum de “Quando o Sol se Põe em Machu Pichu”. Os trabalhos do meu editor e da minha agente no Brasil, mereciam que me entregasse à tarefa. Interrompi as escritas por um dia e andei enfiado nos baús do meu computador. Quase todas  de 2006, as fotos são relativas às viagens que fiz para escrever este livro.

Tarefa inacabada: apesar de o dizerem santo, não faz milagres, o Domingo…  ao longo da semana colocarei mais. Todas estão acompanhadas pela transcrição do trecho que lhes diz respeito.
Forte, foi redescobrir aquela em que estou com Yvonne. Tinha eu acabado de chegar a Lima, de vê-la representar o papel de Nina em “A Gaivota” de Tchekov. Convidei-a para almoçar no “Manos Morenas”. Foi aí que, tal como a personagem Remédios na obra, me contou a lenda da cidade perdida dos incas. No livro, inspirou-me a personagem; na vida real, tornou-se minha mulher em Janeiro deste 2012.
E por falar em edição brasileira, tenho de referir o meu agradecimento aos principais responsáveis: a primeira aposta foi do Artur Castro Neves, mas também apostaram e muito o José Pio, a minha agente Valéria Martins, o meu editor Marcus Teles. À Sheila Hue e ao  Alexandre Moutaury, respetivamente do Real Gabinete Português de Leitura e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro: ambos acederam a prefaciar esta edição. Muito obrigado.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

"É A HORA"?

É em resultado desta desadequação que jamais teremos uma Europa de alma connosco, ainda que a tenhamos de corpo, corpo de intervenção, às vezes e cada vez mais.
 
 
“Só vamos sair desta situação empobrecendo” (Passos Coelho, Outubro 2011). “É um enorme aumento de impostos” (Vitor Gaspar, Outubro 2012). “Vamos ter que reaprender a viver mais pobres” (Isabel Jonet, Novembro 2012)…  Os exemplos poderiam suceder-se:  os nossos responsáveis políticos (e hoje já não é possível desenquadrar Jonet dessa categoria) parecem ter apostado na desesperança como terapia de choque.
 
Infelizmente, a desesperança, quando propagada a tão alto nível, acaba por ser uma profecia que se auto-cumpre. Os portugueses estão descrentes e deprimidos; quem ainda acredita em si mesmo, deixou de acreditar no país. Portugal está hoje entalado entre aqueles que mantêm uma pequena zona de conforto que os impede de sair, entre a crescente sangria dos seus quadros mais empreendedores e entre a progressiva saída das suas empresas mais competitivas. Os primeiros ficam, mas com uma desmotivação que os torna improdutivos, os segundos vão-se e criam riqueza fora do país, quanto às empresas, as que ainda podem tocam a fechar as suas portas em Portugal e abrem sociedades no estrangeiro, de onde não trarão um só euro.
 
Esta via depressiva é a única que a Europa tem para nos dar, disso não restam dúvidas e as poucas que restassem partiram no mesmo voo em que Frau Merkel foi de volta, depois da breve visita que nos fez. Com isto tudo, destroem-se os consensos mínimos sem os quais não subsiste um país e basta andar pelas redes sociais para tirar tal conclusão.

Portugal parece um Titanic com a sua orquestra, mas com a originalidade de esta ter optado por tocar música fúnebre, como que dizendo aos passageiros que é melhor desistirem de qualquer esforço porque não têm a mínima chance de sobrevivência.
 
Estamos a precisar de uma via que nos volte a dar esperança. Um povo desesperado não é capaz de se colocar de acordo nos mínimos, é um povo para o qual “tudo é disperso, nada é inteiro”.
 
Se a única coisa que a Europa nos pode dar é o discurso de que temos de empobrecer, se a única liderança que a Europa consegue criar se chama Merkel, então é o momento de encarar a situação de frente e, duma vez por todas, sairmos a grande velocidade desse comboio.
 
A União Europeia não foi criada para integrar o sul e muito menos Portugal. Criaram-na, isso sim, porque a História da sua metade central é uma câmara de horrores. Sempre que se fala na necessidade de manter a União, vem à baila que ela evita a guerra. E nós com isso? Foi palco em que nunca estivemos e em que nunca quisemos estar. É precisamente porque a Europa serve apenas para evitar os conflitos do seu passado, que a Alemanha pôde ter os incumprimentos que teve na década de 50, beneficiar do enorme perdão de dívida subsequente (inclusive à custa da Grécia) e declarar unilateralmente o fim da sua dívida em 1990. É precisamente porque a Europa não serve para integrar o sul, que ao sul nada disto é permitido e apenas lhe resta um estrito respeitinho orçamental. E é em resultado desta desadequação que jamais teremos uma Europa de alma connosco, ainda que a tenhamos de corpo, corpo de intervenção, às vezes e cada vez mais.
 
A nossa geoestratégia e a nossa cultura são atlântica e linguística. Precisamos de voltar a acreditar para nos unirmos num projeto que nos devolva a esperança, que nos termine com esta guerra interna que, de fria, está em aquecimento óbvio.
 
“É a hora”?
 
 
Luís Novais

domingo, 11 de novembro de 2012

AS CEROULAS DA FRAU

Vai para aí um burburinho inacreditável por causa dessa visitante que tanto nos honra. Uns dizem que a Frau é culpada do que por aqui vai. Outros dizem que tamanhos maldizeres só podem vir duns tipos de esquerda que teriam um qualquer complexo de muro de Berlim mal resolvido.
 
Entre uns e outros, é com cada tempestade ideológica que já ninguém se entende. Para aumentar a confusão, o Conselheiro Marcelo até pôs uns putos da escola a fazer um vídeo, que aquela coisa só pode mesmo ser voluntarismo de escolares.
 
Eu cá, não dou para esse peditório. Pendo mais para o lado do velho Almada e que se lixe tanta racionalidade em bicos de pés: não gosto que a tipa nos visite porque ela usa ceroulas, de certeza que as usa.
 
Luís Novais
 
PS: Ah, é verdade… como às vezes também tenho o vício do pensamento, gostei de ler este artigo:  'Germany Was Biggest Debt Transgressor of 20th Century'
 
 

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Isabel Jonet, o Discurso e o Método

Haja o sentido das proporções: Isabel Jonet nem é sagrada pelo que fez, nem diabólica pelo que disse.
 
 
Há por aí grande polémica com as recentes declarações de Isabel Jonet. Uns, diabolizam-na pelo negacionismo da pobreza; outros, santificam-na pela obra a que deu rosto.
 
Nessas reações, o que me desagrada é sentir o maniqueísmo para que nos encaminham as tensões sociais em curso. As pessoas não se dividem entre santos e diabos; ninguém está acima de qualquer crítica, assim como ninguém fica abaixo de qualquer elogio. O exercício da crítica, positiva ou negativa, não é um tabuleiro a preto e branco.
 
Que Isabel Jonet dá a cara por uma obra digna de todo o mérito, parece-me indiscutível e tem de ser reconhecido. Assim como, saliente-se, tem de ser reconhecido que essa obra, mais do que qualquer outra, vive exclusivamente da solidariedade dos portugueses. O “Banco Alimentar contra a Fome” é isso mesmo: um banco que vive de cidadãos anónimos, que aí depositam alimentos sem outra remuneração que não seja a de manter a esperança em muitos que, de outra forma, a teriam perdido.
 
Tem muito mérito esta senhora, como têm muito mérito os milhares de voluntários da organização e outro tanto para os milhões de portugueses que contribuem. Somos um povo com muitas virtudes e também com defeitos, com boas obras e também com opções menos felizes. Assim somos enquanto povo, assim será Isabel Jonet e assim será cada um de nós.
 
Feita a ressalva, sinto-me à vontade para fazer a crítica: não gostei daquilo que lhe ouvi. Ainda assim, a minha crítica não se prende com tudo aquilo que afirmou. Há uma primeira parte da sua intervenção que considero uma justa condenação da sociedade de consumo e que subscrevo por inteiro. Temos de mudar de atitude, disse, “há toda uma necessidade permanente de bens que (supostamente) conduz à felicidade e isso não é real”. Completamente de acordo.
 
Onde me pareceu infeliz, foi quando entrou naqueles lugares comuns: comer mais ou menos bifes, lavar ou não lavar os dentes com água corrente. Vindo de quem trabalha há tantos anos nesta área, esperaria um juízo muito mais fundamentado, o que ficou ainda mais claro quando a moderadora chamou à realidade dos estudos existentes sobre esta matéria.
 
Há cada vez mais óbvios sinais de pobreza (e não de empobrecimento) em Portugal e branquear isso com artifícios parece-me muito desadequado. “Não gostaria de ver em Portugal a miséria que vi na Grécia”, disse. Não deveria ignorar que o caminho da Grécia é precisamente o que estamos a trilhar e que, se a Grécia está pior, é tão só porque foi empurrada para essa via há mais tempo do que nós.
 
Também não gostei de ouvir afirmar que “as pessoas têm de ser ajudadas para que não fiquem complemente enraivecidas”. Não, não é por isso que as pessoas têm de ser ajudadas. Pelo que me toca, badamerda à caridade como um negócio em que se dá para evitar a revolta, para que se mantenha o imobilismo político e social. As pessoas têm de ser ajudadas é por isso mesmo: porque são pessoas e têm direito à esperança. Há uma diferença substâncial entre caridade e solidariedade.
 
Nos momentos de crise, há um lugar para os bombeiros que apagam os incêndios e há um outro lugar para os que avaliam medidas de fundo que os impeçam no futuro, para aqueles que analisam os erros do passado e traçam vias para que não voltem a ser cometidos. Isabel Jonet é excelente no papel de bombeiro e tem muito mérito nesse domínio, não a transformem naquilo que não é.
 
É por tudo isto que não assino qualquer petição para que se demita, até porque o “Banco Alimentar” é uma associação e não me compete tal exigência, mas também porque me parece que tem exercido bem o seu papel. O mesmo se aplica às petições de sinal contrário: não me compete exigir que fique ou que vá. Haja o sentido das proporções: Isabel Jonet nem é sagrada pelo que fez, nem diabólica pelo que disse.
 
No mais, é óbvio que, como muitos outros, não terei a mínima dúvida em continuar a contribuir na medida das minhas possibilidades. O que está em causa é, sobretudo, quem beneficia desta solidariedade.  É nesse essencial que deveriam estar focadas as atenções.

 
 
Luís Novais
 

Links: Declarações de Isabel Jonet. Notícia no Jornal "Público"