terça-feira, 18 de junho de 2013

Aforismos III

E eles aí estão: voltei à febre de aforismos.
Hoje foi a propósito de uma notícia que li sobre Aristides de Sousa Mendes.
Em 1940, e contra ordens emanadas de Lisboa,  o cônsul português em Bordéus salvava 30.000 judeus, passando-lhes os vistos de que precisavam para escapar ao terror alemão.

O aforismo de hoje saiu-me assim: "São de desobediência, os melhores exemplos que a História nos dá ".

segunda-feira, 17 de junho de 2013

SOBRE A GREVE DOS PROFESSORES

Tenho pena de estar com tanto trabalho que não tenho tempo para escrever uma reflexão mais profunda, sobre a forma como o governo lidou com a greve dos professores. 

Aqui vai, ainda que apressadamente. 

A greve é, apesar de tudo, um instrumento enquadrado no sistema. A atitude de Nuno Crato, tem um efeito no curtíssimo prazo e outro no curto. 

O que deveria assustar o governo (e não só) é este último. Quando a revolta é muita e justificada. Quando se mostra a uma classe e aos demais portugueses, que os governantes podem com algum êxito e muita arrogância esmagar as formas legais de luta. Quando assim é, transmite-se uma só mensagem: a legalidade já não vale a pena.

Luís Novais

quarta-feira, 12 de junho de 2013

ROSAS SÃO, SENHOR

Já passou,
(o passado).
Nada a fazer.
Não chegou (amanhã).
E hoje é ontem.
Não há que fugir,
nem que ficar.
Mover é ilusão:
finitos somos,
d’infinitos habitantes.

Tudo que é,
já não foi.
O que foi, foi.
Grandes hoje;
amanhã, nada.
Somos pó, merda.
E viva ou morta,
outros nós
tal merda será.

Luís Novais

HOMÓNIMOS


Escrevo para libertar
lágrimas que não verto.
Para botar
mágoas ocultas.
Saudade:
és portuguesa,
saudade.
De terra e de sal,
de ser onde não sou.
Escrevo e não choro.
Escrevo e não sinto.
Vejo esse outro que ri
e que vive e que faz.
Pergunto-me: quem é?
“Sou teus homónimos”.
E em vez dum eu,
minha boca outros fala.
Fosse o grande: muitos em mim.
Sou pequeno: eu em muitos.

Nada, eu;


e eles ninguém.

Luís Novais

sexta-feira, 7 de junho de 2013

NOSTALGIAS d'OLIMPO




















Que sejam maus os deuses,
mas que sejam.

Declaro em troca:
Pelo incerto, o certo;
Pelo caos, a perda.

Chafurdem divindades, chafurdem.
É vosso direito
por paz que me dão.

Comam atrás e adiante
às mães irmãs.
Desregrem.
Orgias e bacanais.
Atraiçoem
Manhas e falsidades.

Mas hajam, caralho!
Seja vossa soberba
meu destino.
Desconserto é que não;
Não e não.

Sejam maus os deuses, sim!
É tão boa certeza.

Luís Novais

(Imagem: "Batalla en las nubes", Salvador Dali, 1974)

Dialética do mim e não mim













Sou
história sem cálculo.
Mito.

Pensamento sem fórmula.
Caos.

Sou tudo e sou nada:
tudo quando nada,
e nada quando tudo.

Nada, meu pensamento:
em que vejo,
em que desejo,
em que lembro,
em que esqueço,

Memória:
a que me lanço,
aonde vou,
e a que vou.

E sonho.
Vou? Voar…

Sou esquecimento:
Engano,
desengano,
desmemória.

Também:
O que me dizem,
o que me vêem.
Sou quem querem, portanto.
Faço outro
e aí, nada:
desfazem-me.

Não deixo
e aí, tudo:
sou que me sou.
Mito e caos.
Medo e fuga.
E vencido me fazem:

outro.


Luís Novais

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Arequipas III

O que é viver, se não
...estar?
...tempo?
Tempo que não foi,
que não será.
O que é viver, se não
...passar
...fugir...
desse que não é?
Ser em não ser.
Viver é desviver.