terça-feira, 12 de novembro de 2013

Sombras

Numa borda da parede recolho fósforos. Estão gastos e carbonizados. Ficam feios, ali onde estão. Antigamente era assim: o fogão acendia-se a fósforos. Depois vieram os isqueiros. Já ninguém os usa, aos fósforos. Nem para cozinhar, nem para fumar, mas fumar é agora coisa feia, não convém referir. Era assim, em casa da minha avó: havia uma caixinha de madeira onde eles se acumulavam e donde se reutilizavam quando o lume já ardia. Recolho-os desta borda desta parede e recordo-a, a essa cozinha. E cheira-me ao cheiro que era o seu. Muito nitidamente, sinto-o. A que era? Não sei. Talvez um pouco de boroa de milho, com couves e vida que vinha do quintal. Não sei descrevê-lo, sei senti-lo. Percebo que descrever é matar. Triste ofício escolhi.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Montanha Voadora

Vento uiva.
Vontade, medo.
Ir, ficar.
Montanha!
Raíz t’agarra:
árvore ficas.
Folha livre:
voando t’encontras.
Terra, tronco:
no que fica,  és

…na que parte, serás

Luis Novais

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Tenho tendência para esquecer que a vida é um acidente do universo e que a espécie de que sou é um acidente da vida.

sábado, 3 de agosto de 2013

Sôbelo

Sôbelo rio que corre
por  ocidente m’achei ,
onde correndo chorei.
Raízes duas,
frutos três.
De glórias passadas,
desterros presentes.
De riso, choro;
sôbelo rio,
alegria que foi
lágrima qu'é.
Presença d’antes,
saudade d’agora:
Sôbelo rio
qu’ocidente
mais além
o sal me leva.
Fel salgado nascido,
em doce chegado.
Assim se viv’em sombra
qu’Homem julga verdade.
Dia porqu’escrito,
noite porqu'irreal.
E sôbelo rio vi correr
tanta verdade sem ser,
tanto dor verdadeira.
Oscilante desce
inglório rio vão,
tal justiça buscando.
Desequilíbrio constante
d’equilíbrio ilusório:
justo se fingindo,
querendo luz
sendo sombra.
E eu sem ser,
sôbelo rio que corre,
em sal chegarei.
Sente-me Sião!
Desprometida terra:
raízes, duas;
frutos, três.
Luz, é luz;
Sombra também:
desterro.

Luís Novais

terça-feira, 2 de julho de 2013

ÉDIPO REI em LIMA

Por que choras, menina
entrando na combi veloz?
“Choro que sinto sem saber
o que sabes sem sentir.
Tu que és,
eu que estou.
Dói-te ideia,
dói-me carne.
Dói-te que vês,
dói-me que vivo.
Dóis -me tu:
quem sabe sem sentir,
não sabe, nem sente.
E assim me vou:
chorando na combi veloz.
E assim te ficas:
perdido em cega ciência.

Pisas terra, tu;
navego lágrimas, eu”

quarta-feira, 26 de junho de 2013

O meu júnior chama-se Luís Carlos. Tem 10 anos e hoje surpreendeu-me com este poema:

Eu não sou eu,
sou a pessoa que penso ser.
Que não sou.
Ninguém pensa ser
porque não é.
Mas há quem pense,
ser o que pensa

segunda-feira, 24 de junho de 2013

JIRÓN INCA, FRENTE AO TRIPLE

Vejo aquele cachorro.
Fareja lixos,
banquetes seus.
Ser humano, é vocação.
Não lho reconhecem;
Esses:
humanos caninos.
E ele:
paga igual.