quinta-feira, 19 de novembro de 2015

A AGENDA NEOLIBERAL DE ANTONIO COSTA


Se o mundo da finança está tão tranquilo, tudo continuará na mesma. Os economistas do PS estiveram ao telefone com as agências e também António Costa já tem uma agenda neoliberal. A social-democracia segue dentro de momentos…

A Schroders deu-se à despesa de financiar uma deslocação do “Jornal de Negócios” a Londres, para entrevistar Azad Zangana, seu economista chefe. Não estou a criticar o referido jornal, que assumiu transparentemente a situação; apenas tento perceber o objetivo deste convite, para mais feito por uma empresa que entende melhor do que ninguém o significado da palavra “investimento”.

A ideia que Zangana quis passar resume-se em poucas frases: Que não vê problema num governo do Partido Socialista mesmo apoiado pelos partidos à sua esquerda e que o PS já governou antes e as pessoas viveram felizes e contentes.

Alguns amigos socialistas e apoiantes da solução parlamentar que António Costa negociou, apressaram-se a colocar a respetiva ligação nas redes sociais, resplandecendo também eles de felicidade e alegria: Afinal os investidores não estariam assustados.

Esta alegria é a minha tristeza. Significa que nada vai, afinal, mudar.

Em primeiro lugar é preciso que se note qual é o tipo de investidor que serve uma entidade como a Schroders. Não se trata do industrial, do pequeno empresário ou do empreendedor inovador. Quando falam em “investidor”, referem-se ao financeiro especulador que, em vez de criar riqueza, destrói valor. Esse mesmo que depois de guardar para si os ganhos, põe a sociedade a pagar as suas aventuras especulativas.

Acredito que a generalidade dos que não aceitamos a visão neoliberal que nos tem governado, não somos contra o modelo económico assente na iniciativa privada, mas sim a favor duma opção política assente na defesa do trabalho e da função redistribuidora do Estado. Qualquer confusão entre isto e o alerta de que vamos regressar ao PREC, ou de que há uma perigosa agenda leninista, não passa de propaganda.

Estamos num confronto, sim, mas entre a parcela da riqueza gerada que remunera o trabalho e aquela que remunera o capital. Trabalho e capital são duas componentes importantes, não tenho qualquer preconceito contra este último e reconheço-lhe o papel. Mas a questão é essa: ambos são importantes e ambos devem partilhar de igual maneira os bons e os maus momentos da economia.  

Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas, a riqueza criada em Portugal entre 2010 e 2014 teve uma quebra de 4,5%, enquanto a massa salarial desceu 10%. Simultaneamente, o volume destinado ao capital aumentou quase 6% .

Nada disto é novo. Desde o seculo XIX sabemos que o trabalho não consegue competir com o capital quando este é deixado em completa liberdade.

Durante as eleições e no período pós-eleitoral, aquilo que esteve em confronto não foi o modelo económico do país, mas apenas uma maior preponderância da finança, representada pela coligação, e uma maior representação do trabalho, no programa do Partido Socialista. Nenhuma das soluções punha ou põe em causa a iniciativa privada ou a economia de mercado, apesar dos fantasmas que andam por aí a ser levantados.

Não sou liberal e defendo uma política pública assente na evolução que tivemos depois da segunda guerra mundial. Para mim, os governos têm um papel na redistribuição e na garantia da coesão social. É por isso que esta alegria da Schroeders é uma péssima notícia e não percebo como pode ser aplaudida por aqueles que andaram 4 anos a queixar-se da quebra de salários e de reformas… Se o mundo da finança está tão tranquilo, tudo continuará na mesma. Os economistas do PS estiveram ao telefone com as agências e também António Costa já tem uma agenda neoliberal. A social-democracia segue dentro de momentos…


Luís Novais



Foto: DasWortgewand

terça-feira, 17 de novembro de 2015

PORQUÊ CHORAMOS MAIS PARIS?




França é geográfica e culturalmente uma espécie de mínimo denominador comum do ocidente. Há uma ideia, muitas vezes não confirmada pela História, de que as convicções mais profundas da nossa contemporaneidade tiveram aí o seu berço: liberdade para pensar, exprimir e fazer; democracia; fraternidade. Será por isso que um golpe sobre Paris é sentido como um ataque ao nosso modelo civilizacional.

Recentemente, uma amiga questionava-se sobre os motivos que nos levaram praticamente a ignorar o ataque ao avião russo no Sinai, que provocou 225 mortos, ao mesmo tempo que nos comocionávamos com as 130 vítimas de França. “Porque não puseram a bandeira russa nos seus perfis do Facebook?” “Porque quase não se pronunciaram?”

Essa mesma questão apareceu indiretamente nas redes sociais, não sobre este caso particular, mas sobre a desproporcionalidade do choque que provocou Paris quando comparado com uma menor atenção à grande lista de ataques ocorridos noutros locais. 

Julgo que há quatro razões para isso.

A primeira é a forma como tudo foi feito. Numa cultura de imagens em tempo real, tem um impacto psicológico muito maior que um grupo de terroristas irrompa teatro adentro, com a surpreendente frieza de matar um-por-um quem aí esteja. Os relatos de terror dos sobreviventes, as mensagens desesperadas que iam colocando nas redes sociais enquanto se escondiam, as imagens literalmente sangrentas. Tudo isto contribui para um horror muito maior, e também para um incomparável sentimento de insegurança: afinal, não estamos constantemente dentro dum avião e até podemos optar por não fazê-lo, sem que isso altere insuportavelmente o nosso modo de vida. O que não podemos é deixar de frequentar a rua.

A segunda razão terá sido o tempo que passou entre a queda do avião e o reconhecimento oficial de que não foi um acidente. A informação foi sendo libertada progressivamente e sempre com uma substancial dose de dúvida. Só quinze dias depois o governo russo reconheceu oficialmente o atentado. Nessa altura, já estávamos numa fase pós-comoção.

Creio que estes dois fatores foram importantes, mas não são os principais determinantes da maior e mais generalizada reação aos ataques de Paris. O ser humano tem mecanismos de defesa instintiva que são ancestrais e que, por um lado, o fazem repudiar de forma animal aquilo que lhe está distante e, pelo outro, solidarizar-se com o que lhe está próximo. Era assim que os nossos antepassados reagiam às ameaças e protegiam o seu espaço vital. São instintos básicos que a razão e a moral humanista não conseguiram debelar totalmente. Esta bestialidade humana está na origem de alguns fenómenos, uns malignos e outros neutros, como são racismo, nacionalismo, bairrismo clubismo etc. Somos um coquetail bipolar entre besta e humano que nos impulsiona a sentir de forma mais profunda o sofrimento daqueles que estão perto.

Acontece que França é geográfica e culturalmente uma espécie de mínimo denominador comum do ocidente. Há uma ideia, muitas vezes não confirmada pela História, de que as convicções mais profundas da nossa contemporaneidade tiveram aí o seu berço: liberdade para pensar, exprimir e fazer; democracia e fraternidade. Será por isso que um golpe sobre Paris é sentido como um ataque ao nosso modelo civilizacional. 

Em simultâneo, a Rússia é cada vez mais vista como “o outro”. A invasão da Crimeia, a crise ucraniana, o diferendo de posições sobre a Síria, os alertas dos países bálticos e da Polónia… com ou sem razão, de dia-para-dia o ocidental vê Moscovo mais distante, e este afastamento provoca anomia.  

“Só se se formos capazes de pensar como humanidade conseguiremos vencer”, respondeu-me a minha amiga, depois de ouvir estas explicações (que não justificações). Tem razão; a fera ancestral é o maior inimigo do ser humano que fomos construindo, diga-se que por vezes a ferro e fogo.


Luís Novais

Foto: Stux

sábado, 14 de novembro de 2015

GUERRA AOS FILHOS DA PUTA!


Talvez agora possamos compreender com mais intensidade a situação em que sobrevivem as maiores vítimas destes filhos da puta, porque se ontem tivemos 130 mortos em Paris, no dia-a-dia temos milhares, e a grande maioria ora ao mesmo deus que estes filhos da puta.

Os Filhos da Puta atacaram de novo. No meio da tragédia, é bom lembrar que estes filhos da puta não são os únicos filhos da puta do mundo, não vêm do único lugar onde se criam filhos da puta, e menos oram ao único deus em nome do qual estas filhas da putice são feitas.

Dum lado há as vítimas, nós, e do outro lado há eles, os filhos da puta. E há-os em todo o lado, idos e vindos de qualquer parte. Se estamos numa guerra, e sim estamos, não é entre povos, religiões ou países. É uma guerra entre aqueles que acreditam na fraternidade, na compreensão mútua, na solução pacífica dos diferendos, e eles, os filhos da puta.

Talvez agora possamos compreender com mais intensidade a situação em que sobrevivem as maiores vítimas destes filhos da puta, porque se ontem tivemos 130 mortos em Paris, no dia-a-dia temos milhares, e a grande maioria ora ao mesmo deus que estes filhos da puta.

Segregar os que sofrem, plasmados em cada refugiados que consegue alcançar as praias europeias, seria o mesmo que segregar as crianças duma escola americana, porque um tarado dum filho da puta que por acaso ali estudou, decidiu entrar armado numa das salas de aula e matou quantos colegas pôde. Esse não assassinou em nome de deus, pelo menos do mesmo deus, mas não sou segregacionista: Todos os filhos da puta são iguais, assim como todas as suas vítimas.

Estamos horrorizados com o que acaba de acontecer em Paris. França é aqui ao lado e o ser humano é assim: quanto mais perto mais se choca. É normal e não é condenável que assim seja. Devemos chorar o que aconteceu ontem, e compreender melhor aquilo que sentem as vítimas de outros filhos da puta que atuaram e atuam em nosso nome e que têm uma legitimidade que advém do nosso voto.

Graças a Snowden, tivemos acesso a imagens que mostram a forma leviana e indiscriminada como os soldados norte-americanos dizimaram pessoas inocentes no Iraque. Ouvimos os seus Ala Aqbares, transformados em gritos de triunfo. Devemos aproveitar para nos sentirmos mais próximos desses que estavam do outro lado e que foram assassinados por gente que ali estava em nosso nome, comandada por gentalha que foi apoiada por gentalha nossa, que com ela se sentou à mesa.

Hoje devia ser dia de apoio a todas as vítimas, que o sangue não tem cor que o discrimine. As de Paris, as do Iraque, as da Síria, as dos genocídios de África, as que são assassinadas por colonos fanáticos na palestina… tão grande é a lista!

Se estamos em guerra, é contra todos os filhos da puta. Porque a filhadaputice desenvolve-se assim: não conhece raça, nacionalidade ou credo.

Guerra aos filhos da puta!


Luís Novais

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

O MALABARISTA ANTÓNIO: SER COM UNS, FAZER COM OUTROS


Depois dum péssimo resultado eleitoral, o malabarista António quer a esquerda para ser governo e a direita para governar. Conclusão óbvia: tudo não passa duma incontinente vontade de poder, enganando “les uns et les autres”. Tantos são os equívocos que, mais cedo do que tarde, esta casa terá de cair-lhe em cima.

Houve um tempo em que tive expectativa naquilo que poderia fazer um governo de António Costa apoiado à esquerda. Não vou em fantasmas e detesto argumentos que recorrem ao medo como condicionante da liberdade para decidir e fazer.

Acredito na iniciativa privada desde que controlada pela Polis, e tenho apreensão relativamente ao modelo de mega empresas, que as leva a perder donos com rosto passando para essa massa difusa chamada acionistas, que geralmente mais não é do que uma fórmula para não dizer "especuladores". Quando isso acontece, enfermam do mesmo problema normalmente apontado por aqueles que defendem que o Estado é um mau gestor: “Não são de ninguém”. A diferença está em que o setor público é, apesar de tudo, muito mais vigiado e tem, normalmente, muito mais pensamento estratégico do que os gestores dessas grandes corporações, quase sempre apenas interessados em resultados imediatos, que podem transformar-se em desastres no médio prazo.

O axioma neoliberal de que o Estado gere pior do que os privados, ou de que o lucro dos privados é inferior ao desperdício do Estado (em que eu mesmo já acreditei antes de cair o meu muro de Berlim), está hoje muito longe de provado.

Tudo isto para dizer que me pareceu interessante juntar um Partido Socialista que tem um programa mais ou menos liberal e mais ou menos amarrado aos grandes interesses, com a visão dum Partido Comunista que acredita genuinamente no Estado e na sua função, e que programaticamente se afirma defensor das pequenas e médias empresas.

Quanto a António Costa, nenhum preconceito. Não gostei da forma como derrubou António José Seguro e tão pouco dum certo Estalinismo revelado no afastamento da Presidente das mulheres socialistas das listas de deputados; mas esta última questão é quase pessoal, já que sou amigo da pessoa em causa.

Tenho boa impressão de Jerónimo de Sousa e, quanto ao Bloco, não sei o que pensar e, por isso, tenho pouco contra como tenho pouco a favor.

Em conclusão: zero preconceitos contra esta aliança, zero preconceitos contra os seus subscritores e, até, alguma expectativa positiva sobre a solução.

Trata-se, contudo, duma esperança que os driblares de António Costa estão a deitar por terra. Às declarações de que este foi o acordo possível e que talvez se possa avançar mais, segue-se aquela afirmação de não lhe passar pela cabeça “que este ressabiamento nervoso que a direita apresenta neste momento não desapareça ao fim de uns meses e que não passe a ter uma postura responsável". Um discurso claro e que Centeno torna ainda mais óbvio: “Espero que PSD e CDS aprovem todas as medidas com as quais concordem”.

Ou seja, depois dum péssimo resultado eleitoral, o malabarista António quer a esquerda para ser governo e a direita para governar. Conclusão óbvia: tudo não passa duma incontinente vontade de poder, enganando “les uns e les autres”. 

Tantos são os equívocos que, mais cedo do que tarde, esta casa terá de cair-lhe em cima.


Luís Novais

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

ANTÓNIO COSTA: Desejando com os olhos, empurrando com a barriga

Quando lhe criticaram as negociações em curso, respondeu que não aceitava a contestação de quem não as conhecia; empurrou com a barriga. Quando lhe perguntaram pelos acordos, respondeu (ou mandou responder) que só depois da queda do governo; empurrou com a barriga. Quando o confrontaram com a sua falta de intervenção no debate do programa de governo, respondeu que interviria no dia seguinte, quando já não lhe poderiam fazer perguntas; empurrou com a barriga. Agora, está claro, quando lhe perguntarem quem vai pagar este programa de governo, responderá que isso é matéria para o orçamento de Estado; voltará a empurrar com a barriga.

Dei-me ao trabalho de ler o Programa de Governo que António Costa pretende apresentar e que já resulta do acordo com os três partidos à sua esquerda.

Trata-se dum projeto praticamente impossível de rejeitar em si mesmo. Conta com consciência social, procura reduzir a pobreza, dá garantias aos reformados, repõe os níveis salariais da função pública e eleva o salário mínimo.

Quem não concordar, ou é masoquista, se andar entre o pobre e o remediado, ou é um tremendo sádico, se for rico.

A este conjunto de medidas que só podem gerar unanimidade, somam-se outras que poderão ser mais polémicas, mas que aplaudo. Começo pela não privatização da TAP. Um país periférico como o nosso, só pode ser central se tiver um instrumento para controlar a acessibilidade aérea. O impacto para o turismo e para os negócios é grande de mais para deixarmos absolutamente tudo nas mãos do mercado. Mais a mais quando os interessados que apareceram estão longe de inspirar um razoável nível de confiança.

Aplauso também para os prometidos impedimentos da dança de cadeiras das entidades reguladoras para as reguladas, e aqui só é pena não ter havido coragem para estabelecer as mesmas limitações aos ex-membros do Governo.

São igualmente muito interessantes algumas das medidas para criar um espaço cultural e económico lusófono; há muito tempo que defendo isso mesmo.

Entre as medidas com impacto na despesa que aplaudo, enumerei 39. São inteiramente justas e citarei alguns exemplos. Promete-se “o fim dos cortes salariais e a reposição integral dos salários da Função Pública durante o ano de 2016, de forma gradual”, “o descongelamento das carreiras a partir de 2018”, “o aumento anual das pensões” e um apoio complementar ao rendimento disponível das famílias com salários mais baixos. De igual maneira, garante-se “uma política clara de eliminação progressiva do recurso a trabalho precário e programas de tipo ocupacional no setor público”, a discriminação positiva nas taxas moderadoras, a universalidade da educação pré-escolar e o reforça da ação social escolar, tanto no básico e secundário como nas universidades, “através do aumento do valor das bolsas de estudo e do número de estudantes elegíveis, e da ação social indireta com a transferência do financiamento público adequado às universidades e politécnicos”.

O problema começa a surgir quando, depois de concordar com a nova despesa, começamos a procurar soluções do lado da receita.

Neste domínio, de medidas que dependam exclusivamente do Governo português, encontrei apenas 9, e algumas são tão genéricas como esta: “Repor como prioridade o combate à fraude e evasão”, como se isso não fosse o que mais se praticou, ao ponto de gerar situações de inconcebível prepotência, que neste mesmo programa se reconhecem: “A cobrança e o pagamento de impostos não pode (sic) ser feito a todo o custo, sem olhar a meios”, uma prática ilegítima que foi muito comum no passado, mas que terá sido eficaz para aumentar receita. Novidades, apenas a criação dum imposto sobre heranças de elevado valor que, imagino, não será de grande impacto orçamental, a diminuição do prazo para reportar prejuízos fiscais e “reavaliar as isenções e reduções da taxa contributiva para a Segurança Social”.

Além destas há mais 8 medidas, totalmente dependentes de mudanças na política europeia, algumas de pouca monta, mas outras de relevo. Ou seja, o mesmo que já anteriormente foi tentado pela Grécia, com muita razão mas com os resultados que conhecemos. Por exemplo “o alargamento das condições e maior gradualismo no trajeto orçamental em ciclos económicos negativos” e a diminuição da comparticipação nacional na utilização de fundos comunitários, coisa que a Europa estará muito longe de permitir e, digo eu, ainda bem: Se houve alguma coisa que limitou a perversão completa dos objetivos desses fundos, foi a obrigação de comparticipação pelos beneficiados.

Até mesmo o caso da TAP parece dependente da boa vontade comunitária, já que se reconhece a necessidade de “encontrar formas – designadamente através de uma efetiva ação junto das instituições europeias e do mercado de capitais – de capitalizar, modernizar e assegurar o desenvolvimento da empresa”.

De qualquer forma, o que é relevante é que António Costa não se diferencia muito de Passos Coelho, quando assegura que vai cumprir escrupulosamente os tratados e compromissos europeus. A dúvida é legítima, portanto: Quem pagará as faturas que a Europa recusar?

Imagino qual será a resposta. A mesma de sempre e que é já um modus operandi. Quando lhe criticaram as negociações em curso, respondeu que não aceitava a contestação de quem não as conhecia; empurrou com a barriga. Quando lhe perguntaram pelos acordos, respondeu (ou mandou responder) que só depois da queda do governo; empurrou com a barriga. Quando o confrontaram com a sua falta de intervenção no debate do programa de governo, respondeu que interviria no dia seguinte, quando já não lhe poderiam fazer perguntas; empurrou com a barriga. Agora, está claro, quando lhe perguntarem quem vai pagar este programa de governo, responderá que isso é matéria para o orçamento de Estado; voltará a empurrar com a barriga.

De olhos, já sabemos que António Costa tem muito, quanta mais barriga lhe restará?


Luís Novais

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

A TENDA DOS MILAGRES


Livres dos axiomas liberais, esperava que o Bloco de Esquerda fosse capaz de obrigar um PS ideologicamente esquizofrénico, a reencontrar a sua raiz política. Precisamos de mais e não de menos Estado, precisamos que a política tenha preponderância sobre a economia, precisamos que a ágora se sobreponha ao mercado. Para o altar bastou-nos Isabel, não precisamos duma Catarina.

Consta que Isabel dava pão aos pobres, coisa que a Dinis não agradava, tão zeloso era de suas riquezas conservar. O resto já sabemos: “Rosas são senhor”, espécie de anti milagre que transformou o que era útil ao estomago dos que o têm vazio, em algo apenas prazenteiro à vista dos que fruem de  preocupações muito mais sublimes do que o almoço do dia seguinte.

Caridosa e meritória, Isabel foi elevada ao altar e ficou com história para ser contada, mas não consta que tenha mudado o seu tempo rumo a uma sociedade mais justa.

Nesta diferença entre caridade e reforma social, está a distância que deve separar o Estado moderno, dum cidadão isolado; uma santa dum político.

Tantas foram as revelações dos transvios económicos das últimas décadas, que deveria ser impossível nada aprender com tudo o que agora sabemos. No caso português, basta citar alguns nomes que antes eram marcas inexpugnáveis, umas, e ascendentes, outras: BES, PT, BPN, BPP… E já nos estão a preparar para mais.

No estrangeiro poderíamos dar outros tantos exemplos que atestam quanto o descontrole da ganância pode destruir valor: Madoof, Lehman Brothers e, mais recentemente, Volkswagen.

O desafio político dos nossos dias, está em encontrar um novo equilíbrio: Entre iniciativa privada e controle estatal; entre sector público e sector privado; entre intervenção do Estado e liberdade do indivíduo; entre harmonia social e ambição pessoal.

Tão distante que está dos axiomas liberais, esperava que o Bloco de Esquerda fosse capaz de obrigar um PS ideologicamente esquizofrénico, a reencontrar a sua raiz política. Precisamos de mais e não de menos Estado, precisamos que a política tenha preponderância sobre a economia, precisamos que a ágora se sobreponha ao mercado.

Sei que o acordo entre os dois partidos não está finalizado. Reconheço que este comentário é guiado apenas pelo que vai saindo na imprensa e por alguma informação que fontes amigas me vão passando. Se tudo aquilo que se tem sabido é verdade, então não estamos perante uma negociação política na verdadeira aceção, mas face a uma distribuição de pães, eventualmente regada com algumas sinecuras para militantes.

Mais um ou menos um ponto de aumento nas pensões, descongelamentos, reposição salarial a um ritmo menos lento. Isto é querer mudar efeitos sem mudar causas. Não é política, é populismo quase à moda de Portas quando era Paulinho e das feiras.

Por esta a via, têm razão os que adivinham dilúvios desperdiçadores dos sacrifícios que foram feitos.

Resta-me a esperança de que o PCP não abdique de ter um papel político e não aceite ficar por este bodo aos pobres.

Para o altar bastou-nos Isabel, não precisamos duma Catarina.



Luis Novais

terça-feira, 27 de outubro de 2015

RIO DE JANEIRO, UMA EXPOSIÇÃO E “O QUE NÃO EXISTE MAIS”

Clovis Graciano, “Músicos” (1969) 

Foram trezentos anos desgastantes, estes que vivemos. Fizemos e desfizemos utopias, matamos e ressuscitamos deuses, navegamos bipolares entre razão e obscurantismo, levantamos altares a uma ciência que nos devolveu holocaustos, apostamos alma na matéria e ficamos sem nada, quisemos fazer mundos e o mundo era afinal terra que nos assentou sonhos. Estamos numa dessas fases, dessas em que tudo o que foi esperança de gerações passadas é agora desesperança.


A história das mentalidades decorre num contexto de esperanças, desesperanças e redobradas esperanças. Somos humanas e temos consciência, o que nos dá essa tão fantástica quão desesperante capacidade para entender que não somos entidade, mas entes, seres sem Ser. Não nos é possível esse alcance sem cairmos na tentação do aprendiz de feiticeiro, sem entrarmos no tão humano jogo de querer marcar e mudar o mundo. Podendo imaginá-lo, é impossível não tentá-lo; mas tentar é muito mais fácil do que alcançar. E eis o alento duma geração que rapidamente se transforma em desânimo, até que os seguintes seu próprio ânimo encontrem.

Lembro-me de ter feito esta reflexão num pequeno museu de Estrasburgo, quando fui observando as transfigurações mitológicas, fantásticas e realistas que se sobrepunham numa cronologia muito óbvia: Clássico, barroco, romântico, neoclássico. Recentemente, tive a mesma sensação no Rio de Janeiro, que além de me oferecer a sua beleza natural, me presenteou uma mostra de arte e um livro. Aquela, foi a coleção Santander de arte contemporânea, exposta no Museu de Belas Artes. O livro, foi a primeira obra dum escritor que não conhecia: “O Que Não Existe Mais”, de Krishna Monteiro.

A própria exposição convidava este casamento, que aí se procurava unir obras de arte plástica, com obras de arte literária. Poemas de Vitor Loureiro, ou Paulo Henriques Britto, lado a lado com quadros de Manabu Mabe, Milton da Costa ou Francisco Robalo.

A face opaca do mundo
Nos encara, fria e cega
É necessário enfrentá-la

Talvez tudo se resuma nestas palavras de Britto, também elas expostas no Museu. Talvez o problema esteja entre essa imperiosa necessidade de enfrentar, e a desalentadora ignorância de como fazê-lo.

Nas telas que se sucediam, cada artista com sua visão, a sua parte da poção transformadora. Absolutamente certos, uns, prenhes de dúvidas e desalento, outros.

John Graz, “Canoeiros” (1975)

Motivos relacionados com o trabalho, dum “Colheita de Café” (1953) de Manabu Mabe, dos “Músicos” (1969) de Clovis Graciano ou dos “Canoeiros” (1975) de John Graz. Quadros que nos levam fugindo para o regionalismo das “Casas de Ouro Preto” (1936) de Milton Costa e dos “Coqueiros de Itapuã” (1956) de José Pancetti. Artes que mostram uma crença nas mãos transformadoras, porque trabalham, porque tocam melodias que nos comovem; ou então na mudança pela regeneração, pela busca do que foi e já não é, uma antiga integridade apenas visível na natureza, no campo ou na velha urbe.

 José Pancetti, “Coqueiros de Itapuã” (1956)

“Fauna, Flora e Nativos Brasileiros” (1953) de Carybé, é já completamente indigenista, quase em desespero e não vendo qualquer reforma possível dentro dos nossos parâmetros civilizacionais, o artista parte em busca da harmonia dum autêntico bom selvagem, essa mesma harmonia que já não consegue encontrar no seu próprio contexto civilizacional. Entre o eu que conheço bem ser mau, e o outro que conheço mal ser bom, a opção pelo outro.

 Carybé
“Fauna, Flora e Nativos Brasileiros” (1953)


Desconcertados com a nossa incapacidade transformadora, já não cremos mãos, não cremos música nem procuramos mistérios em passados anacrónicos ou sincrónicos. Se à face opaca do mundo é necessário enfrentar, façamo-lo “Como se escala uma pedra/ É preciso penetrá-la/ Como se houvesse um lá dentro”.

A única forma de decifrar um enigma, é outro enigma que, por indecifrável, esconda quão real é o irreal.  Entramos em “Delirio” (1964), “Extase” (1964) ou “Sonho”, todos de Farnese de Andrade. Já não conseguimos a unidade perdida, eu e o outro são peças impossíveis de reunir, tanto que já sentimos estranhamento quando descobrimos que “É até curioso falar com um homem inteligente”(2010) de Flávia Metzler. Essa mesma desmultiplicação de eus que encontramos nas “Cabeças” (1995) de Siron Franco. E afinal, tudo se resume num “Enigma” (1989), de Gilvan Samico.

Gilvan Samico, “Enigma” (1989)
Mas “A face opaca do mundo/ Nos encara fria e cega”. “É necessário enfrentá-la”, sim. Mas como? Como, agora que as mãos não se provaram regeneradoras? Que o regresso nostálgico não reformou, que cada enigma por decifrar se tornou mais indecifrável pelo enigma decifrador?
Siron Franco, “Cabeças” (1995)


Flávia Metzler, “É até curioso falar
com um homem inteligente”(2010)
Mais más que boas, essas mãos, incapazes do bem, transformam-se em instrumentos do mal. “Howling for You” (2012) de Renata de Bonis. A perturbadora jovem imperturbada, essa que caminha, de costas para nós, rumo a bosque cinzentos, loiro cabelo, sangrentas mãos. “Howling for You”. Talvez este desconcerto do real, esta consciência dos limites, a era do fim dos sonhos, talvez tudo isto explique também o súbito fascínio pelo fantástico: duendes, mortos vivos, possessões. Não somos donos, nem de nós, nem do nosso querer, muito menos do humano destino. “Howling for You”.

Renata de Bonis, “Howling for You” (2012)




“O QUE NÃO EXISTE MAIS”
Será por acaso que descobri esta obra depois de ver esta exposição? Seria bom que tudo estivesse traçado por soberana mão, mas tão pouco sou decifrador de enigmas. Krishna Monteiro desvela-nos oito contos com vidas e pensamentos que rumam sem destino, talvez porque num passado longínquo já acreditamos no destino, talvez porque num outro tempo mais próximo estivemos certos de que, afinal, cada um seria dono do seu caminho e, por último, talvez porque  nos caiu o mito iluminista desse Homem que, graças ao conhecimento, seria bom; eis-nos sem crença salvadora.

Neste livro vemos passar sentimentos em catadupa e sem ordem aparente. A finitude e a incapacidade de aceitá-la, no conto que dá título ao livro. A perda dum pai que, aos olhos do narrador, teima em reaparecer, estando presente em cada objeto, em cada momento. Tudo isto resumindo outro dos nossos dramas: sabemos que somos, o que já não é pouco, e sabemos de insuportável saber que algures deixaremos de ser.

“As encruzilhadas do Dr. Rosa”, parecem ser as mesmas do homem do nosso tempo. Um registo quase onírico, que balanceia entre crenças. Uma batalha de inconciliáveis: o cientista que cura e o batista que purifica. Ou então nesse outro conto, tão simples como sendo apenas a história dum galo de combate. É narração do próprio animal, um conflito permanente entre o que deve ser e o que tem de ser, entre vida e luta, entre amor e ódio, entre luta e morte. Um personagem que balanceia entre o implacável e a autocomiseração.

As histórias sucedem-se e, um por um, vamos sentindo o mesmo desespero de cada personagem. Já não são Ícaros, que caíram, mas subiram, nem Sísifos, de tarefa inglória mas grandiosa. Já não é o mundo de Aquiles e Heitor. Já não ecoa a voz guerreira de Sarpedon, cuja consciência da morte é ânimo para imortalização: “Meu amigo, se tendo fugido desta guerra pudéssemos/ viver para sempre isentos de velhice e imortais,/ nem eu próprio combateria entre os dianteiros/ nem te mandaria a ti para a refrega glorificadora de homens” (“Ilíada”, Canto XII).


Foram trezentos anos desgastantes, estes que vivemos. Fizemos e desfizemos utopias, matamos e ressuscitamos deuses, navegamos bipolares entre razão e obscurantismo, levantamos altares a uma ciência que nos devolveu holocaustos, apostamos alma na matéria e ficamos sem nada, quisemos fazer mundos e o mundo era afinal terra que nos assentou sonhos. Estamos numa dessas fases, dessas em que tudo o que foi esperança de gerações passadas é agora desesperança. O mundo, o outro, voltou a ser um inalcançável que se observa, mas que funciona por si, sem ordem nem ordenador. Então, só resta o que restou a esse personagem que Krishna nos apresenta em “Um âmbito cerrado como um sonho”: “Além da janela, depois da ponte, acima da baía, o sol se põe. Quatro mulheres conversam, eu, refestelado sobre a almofada, observo-as pouco a pouco desaparecerem nos escaninhos do meu sono”. Assim, passivamente, seguindo o seu ritmo, sem alheia interferência, mortal e sem glória, numa palavra: “howlling”.


Luís Novais