segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

O ABADE PRESIDENTE



Vamos escolher entre três candidatos paroquiais. O previsível eleito é a metáfora perfeita do pároco de aldeia, que ninguém conhece a uma légua do seu campanário, mas batizou quase todos os fregueses, não é muito exigente nas absolvições e, sublinhe-se, faz umas homilias semanais tão comoventes que as beatas até choram emocionadas.


Marcelo Rebelo de Sousa, Sampaio da Nóvoa ou Maria de Belém. A menos que nosso senhor desça à terra e troque as voltas à contabilidade eleitoral, coisa que aparentemente já aconteceu, é deste trio que sairá o próximo presidente da república. 

Independentemente das divergências ideológicas, que não são muitas, há uma linha que une estes candidatos: Ou nunca fizeram política, ou são políticos de segunda linha, que jamais ocuparam um cargo cimeiro na hierarquia do Estado. Todos são sobejamente conhecidos em Portugal, mas completamente ignorados fora da nossa pequena fronteira.

Guterres e Barroso puseram-se de fora. Barroso foi sucessivamente ministro dos negócios estrangeiros, primeiro-ministro e presidente da Comissão Europeia por dois mandatos. Guterres foi primeiro-ministro e alto comissário das Nações Unidas para os refugiados. Nenhum dos dois quis chegar a ser o mais alto magistrado da nação.

O reconhecimento externo, cimentado numa sólida carreira política nacional e, de preferência, multilateral, é um importante valor acrescentado que o presidente da república pode dar ao país. Pela ordem natural, teríamos em janeiro um confronto entre estes dois pesos pesados. Mas não: teremos aqueles que temos, que foram os únicos disponíveis para ir à liça.

Vamos escolher entre três candidatos paroquiais. O previsível eleito é a metáfora perfeita do pároco de aldeia, que ninguém conhece a uma légua do seu campanário, mas batizou quase todos os fregueses, não é muito exigente nas absolvições e, sublinhe-se, faz umas homilias semanais tão comoventes que as beatas até choram emocionadas. “Diz umas coisas tão bonitas, o senhor abade”, na voz apiedada de uma delas.

Em vez dum presidente, vamos eleger um arcipreste. Os políticos emigraram e isso mostra bem quão desinteressante está o país. Ficaram-nos estes; é o que temos.


Nota final: Paroquiadas à parte, estava convencido a votar Sampaio da Nóvoa se o PàF formasse governo. António Costa trocou-me as voltas e agora tenho quase certo que votarei Marcelo. É a velha história dos ovos e dos cestos.



Luís Novais

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

ÊXITOS, FALHAS E LIÇÕES DO CHAVISMO




É certo que a dupla Chavez-Maduro não alcançou os objetivos de desenvolvimento que seriam expectáveis; mas tampouco o modelo liberal que os antecedeu.

A derrota clara de Maduro nas eleições parlamentares venezuelanas, não deve ofuscar as lições aprendidas com 16 anos consecutivos de governo chavista.

A vida diária no país está insustentável, com falhas no abastecimento de bens essenciais, e à população não lhe resta outra alternativa do que passar largas horas em filas intermináveis. Ao mesmo tempo, grassa a insegurança e a rua transformou-se num lugar muito perigoso de frequentar.

Enquanto a nova maioria celebra vitória, e enquanto quase todos proferem discursos sobre a falência do socialismo chavista, há que assentar os pés na realidade. É certo que a dupla Chavez-Maduro não alcançou os objetivos de desenvolvimento que seriam expectáveis; mas tampouco o modelo liberal que os antecedeu.

Graças às suas reservas petrolíferas, a Venezuela é uma nação extraordinariamente rica. Rica sim, mas até à “revolução bolivariana” a maioria da população estava excluída do desenvolvimento e nada tinha a perder. Foram estes que aderiram entusiasticamente aos seus governos.

Os números são claros. Segundo a CEPAL (organismos das Nações Unidas), um ano antes da sua presidência 78% da população vivia entre a indigência (23.4%) e a pobreza (54.5%). Em 2013, o ano da sua morte, esta cifra tinha descido para 42%, com 9.8% de indigentes e 32.1% de pobres. 

Só assim conseguimos compreender consecutivos resultados eleitorais. O comandante somava vitórias, apesar das críticas da imprensa, das vozes dos líderes de opinião, da revolta mais ou menos silenciosa da classe média e do protesto dos muito ricos. Porquê? Porque para quase 80% da população que vivia em condições miseráveis, representou uma esperança, primeiro, e uma real ascensão económica, depois. Chávez deu-lhes a dignidade que lhes tinha sido negada, por isso o idolatravam.

Claro que o regime tinha muitos defeitos que nem é preciso enumerar, e que foram ampliados pela inabilidade de Maduro. A própria escolha do sucessor foi um sinal dessas debilidades: Chávez considerava-se providencial e dum homem que assim se crê, sempre se afastam os melhores. 

Neste momento, parece que pouco mais resta a Maduro do que um processo de lenta agonia até à queda final. Mas de tudo isto deve guardar-se lição: não é possível construir um sistema na base da exclusão.

Os que muito têm a ganhar, muito perdem se grande parte da população nada tiver a perder. Quando a exclusão social é generalizada e o reformismo não cumpre com o seu papel, tarde ou cedo se abre a porta à revolução; esta é a moral da história, e não estou certo de que tenha sido compreendida por aqueles que, dentro e fora da Venezuela, festejam o resultado eleitoral.


Luís Novais

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

MORREU ADÃO!


Foto: ruurmo / VisualHunt.com / CC BY-SA















Olho para mim como outro…
tento, pelo menos.
E quem vejo não conheço
e tão pouco quem me vê:
eu feito outro.
Imagino-me nesse que passeia um rafeiro:
vendo-me, dissecando-me, concluindo-me.
Já não o reconheço, ao outro agora eu:
Tão ridículo naquele andar, antes de eu-ele:
observando-me, a eu-mim.
E agora tão nada, eu,
visto por quem antes nada era.
E eu nele,
sabendo-me majestoso, imperial.
Raça pura passeando, 
ideias de mundo.
Metafísico, grande pensador:
Mão na trela,
melhor do que todos;
Outra ao bigode (antes ridículo),
universos valendo.
É com ele que percebo o nada que era,
e é nele que percebo tudo agora sendo.

Desisto de humilhação tamanha.
Regresso-me.
Na montra meu reflexo: sossego.
Na cabeça, pensamento profundo pensamento:
um poema, talvez este.
Acalmei-me: sou de novo eu-eu.
E aquele trôpego ridículo,
senhor do nada.
Esse que passeia um rafeiro pela rua:
Burlescos dois.

Mas já não consigo.
Por outro me vi,
comi do fruto:
Como vê, sei;
sabendo como vejo.
Como vejo, sei;
sabendo como vê.

Não há paraíso.
Morreu Adão!


sábado, 21 de novembro de 2015

A INDIGNA PRIVATIZAÇÃO DA TAP



Aos governantes exige-se que consigam ver o país no seu todo. E que façam contas, já não digo de merceeiro, porque esses têm a loja limpa: Sabem que há centros de custo que significam receitas indiretas.

Na privatização da TAP não há nada que não me indigne: a falta de entendimento da sua importância estratégica, a pressa com que um governo de gestão fechou o dossiê, o preço de saldo, o risco financeiro que o Estado continuou a assumir, a falência técnica do comprador e até a suave contestação do PS… Fiquemos por aqui, que o mais grave foi o desprezo absoluto pelos interesses estratégicos do país.

Imagine-se o futuro duma empresa cuja administração decida ter apenas produção e vendas, já que o resto é despesa. Rapidamente se desintegraria a relação com a comunidade envolvente, com as famílias dos seus trabalhadores, não teria formação, marketing, investigação, segurança no trabalho, planos de carreira, limpeza das instalações… Está imaginado? Não é preciso perguntar pelo futuro dessa empresa.

Uma organização não é um conjunto de partes disfuncionais, mas uma soma em que todos contribuem para objetivos centrais. Numa empresa, isso reflete-se em ter centros que são de custo e de receita, junto com outros que são apenas de custo, mas indiretamente essenciais à receita.

Surpreende-me que isto seja menos óbvio para governantes do que para o gestor duma simples PME.

De entre os reptos que Portugal enfrenta, um dos mais importantes é transformar a sua periferização numa nova centralidade. Pela nossa situação geográfica poderíamos ser e não somos o ponto fulcral do ocidente. Pela nossa história, o ponto de encontro de diferentes culturas que tão pouco estamos a ser.

Para isso, é essencial ter uma companhia aérea que seja agente destes interesses estratégicos. Quando mencionamos a TAP, falamos apenas do maior exportador português, e não é qualquer tipo de exportação: É uma empresa que transporta turismo, negócios e cultura para o país. Quantos investimentos se sentam nos bancos desses aviões? Quanto consumo no comércio e serviços? Quanta diversidade cultural?

Por mim, a TAP pode dar prejuízo; defendo que dê muito mais. É essencial ter voos diretos para Pequim e Macau, para a Índia, para vários países da América Latina, para todas as capitais da União Europeia, Moscovo, Tóquio... São voos que significam perdas diretas, e é por isso que os privados jamais os farão. Mas são voos que garantem grandes resultados a um Portugal que precisa de aproveitar a sua posição geográfica, para ser central como poderia, em vez de periférico como é. E isso é dinheiro em caixa, se mais não fosse.

Aos governantes exige-se que consigam ver o país no seu todo. E que façam contas, já não digo de merceeiro, porque esses têm a loja limpa: Sabem que há centros de custo que significam receitas indiretas.

Luís Novais




sexta-feira, 20 de novembro de 2015

CIDADANIA CONTRA RADICALIZAÇÃO

Mais e não menos humanidades em todo o sistema educativo, fornecendo ferramentas para um exercício pleno da cidadania; acredito que esse seria o caminho estruturante para evitar a proliferação de jovens perdidos, que buscam na radicalização a resposta para as suas angústias.

Admirador que sou da obra de Dali, sempre me intrigou a sua relação com Gala. Gala não era bonita, excecionalmente culta, dotada de grande inteligente ou com produção artística. Mas foi a ela que o génio se dedicou e, em grande parte, se submeteu.

Dali era um homem livre, na verdadeira aceção da palavra. Dizia o que pensava, fazia o que queria e apenas dependia de si para sustentar uma vida extravagante. Que papel podia desempenhar uma mulher como Gala na sua existência?

Por vezes temos de ir aos lugares, vendo e respirando o mesmo ar para entender certos fenómenos comportamentais. Um dia visitei a casa castelo de Púbol que o artista ofereceu à musa, e lembro-me da intuição: Sendo a liberdade uma aspiração tão difícil de gerir, pode ser insuportável em absoluto. Nessa perspectiva, Gala seria a fronteira que limitava Dali.

Em 1941 o psicanalista e filósofo Erich Fromm publicava uma obra onde falava no medo da liberdade. A sociedade do sucesso económico individualista teria criado seres humanos isolados que, ou não se inserem socialmente, ou procuram limites à sua liberdade aderindo a grupos e seitas que lhes impõem limites.

Em grande parte, acredito que isto explica a expansão de alguns fundamentalismos religiosos. Na América Latina, onde vivo, difundem-se rapidamente certas correntes evangélicas com um grande radicalismo moral. Conheço pessoalmente alguns casos de ex-delinquentes, com uma vida anterior desnorteada, que se converteram (ou, como dizem, voltaram a nascer) e que estão entre os mais acérrimos seguidores das “verdades bíblicas” literais, contra aquilo que consideram desvios morais, como é o caso da homossexualidade.

Voltei a pensar nisto quando li um recente artigo de Mafalda Anjos na revista “Visão”, sobre as mulheres da Jihad, em particular sobre Hasna Boulahcen, que se fez explodir em Saint-Denis no decorrer da operação policial que se seguiu aos atentados. Hasna “fez uma juventude rebelde com muitas festas, álcool e sexo” e, há seis meses, “passou a andar de hijab (a túnica que cobre o rosto menos a face)”. Pouco depois, “radicalizou-se e arranjou amigos Daesh”, tendo aderido “com unhas e dentes ao terrorismo islâmico”.

Talvez uma liberdade que não se consegue gerir possa criar um sentimento contraditório de autodefesa que, no limite, arrasta à própria destruição.

O ser humano é ação e pensamento, é força física e moral. O modelo que vivemos centra-se cada vez mais no binómio ação-força e cada vez menos no pensamento e na moral. São estes últimos que nos permitem gerir aqueles e ter capacidade para o exercício duma liberdade consciente. Procurar responder com plenitude à mais antiga pergunta “de onde venho e para onde vou”, é condição elementar para que isso seja possível.

Infelizmente vivemos uma doutrina económica que se apropriou do sistema educativo e, obcecada por criar o profissional, esquece o cidadão… Como se fosse possível fazer bem feito quando se É mal.

Mais e não menos humanidades em todo o sistema educativo, fornecendo ferramentas para um exercício pleno da liberdade e da cidadania; acredito que esse seria o caminho estruturante para evitar a proliferação de jovens perdidos, que buscam na radicalização a resposta para as suas angústias. 

Propor a pena de morte por decapitação como acaba de fazer Le Pen, perseguir muçulmanos em geral e refugiados em particular, fechar mesquitas e outras propostas que por aí andam, podem ser ideias muito populistas mas que agravam o problema em vez de o resolver. Lá está: a falta de cultura cidadã não atinge apenas um lado da barricada.


Luís Novais


quinta-feira, 19 de novembro de 2015

A AGENDA NEOLIBERAL DE ANTONIO COSTA


Se o mundo da finança está tão tranquilo, tudo continuará na mesma. Os economistas do PS estiveram ao telefone com as agências e também António Costa já tem uma agenda neoliberal. A social-democracia segue dentro de momentos…

A Schroders deu-se à despesa de financiar uma deslocação do “Jornal de Negócios” a Londres, para entrevistar Azad Zangana, seu economista chefe. Não estou a criticar o referido jornal, que assumiu transparentemente a situação; apenas tento perceber o objetivo deste convite, para mais feito por uma empresa que entende melhor do que ninguém o significado da palavra “investimento”.

A ideia que Zangana quis passar resume-se em poucas frases: Que não vê problema num governo do Partido Socialista mesmo apoiado pelos partidos à sua esquerda e que o PS já governou antes e as pessoas viveram felizes e contentes.

Alguns amigos socialistas e apoiantes da solução parlamentar que António Costa negociou, apressaram-se a colocar a respetiva ligação nas redes sociais, resplandecendo também eles de felicidade e alegria: Afinal os investidores não estariam assustados.

Esta alegria é a minha tristeza. Significa que nada vai, afinal, mudar.

Em primeiro lugar é preciso que se note qual é o tipo de investidor que serve uma entidade como a Schroders. Não se trata do industrial, do pequeno empresário ou do empreendedor inovador. Quando falam em “investidor”, referem-se ao financeiro especulador que, em vez de criar riqueza, destrói valor. Esse mesmo que depois de guardar para si os ganhos, põe a sociedade a pagar as suas aventuras especulativas.

Acredito que a generalidade dos que não aceitamos a visão neoliberal que nos tem governado, não somos contra o modelo económico assente na iniciativa privada, mas sim a favor duma opção política assente na defesa do trabalho e da função redistribuidora do Estado. Qualquer confusão entre isto e o alerta de que vamos regressar ao PREC, ou de que há uma perigosa agenda leninista, não passa de propaganda.

Estamos num confronto, sim, mas entre a parcela da riqueza gerada que remunera o trabalho e aquela que remunera o capital. Trabalho e capital são duas componentes importantes, não tenho qualquer preconceito contra este último e reconheço-lhe o papel. Mas a questão é essa: ambos são importantes e ambos devem partilhar de igual maneira os bons e os maus momentos da economia.  

Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas, a riqueza criada em Portugal entre 2010 e 2014 teve uma quebra de 4,5%, enquanto a massa salarial desceu 10%. Simultaneamente, o volume destinado ao capital aumentou quase 6% .

Nada disto é novo. Desde o seculo XIX sabemos que o trabalho não consegue competir com o capital quando este é deixado em completa liberdade.

Durante as eleições e no período pós-eleitoral, aquilo que esteve em confronto não foi o modelo económico do país, mas apenas uma maior preponderância da finança, representada pela coligação, e uma maior representação do trabalho, no programa do Partido Socialista. Nenhuma das soluções punha ou põe em causa a iniciativa privada ou a economia de mercado, apesar dos fantasmas que andam por aí a ser levantados.

Não sou liberal e defendo uma política pública assente na evolução que tivemos depois da segunda guerra mundial. Para mim, os governos têm um papel na redistribuição e na garantia da coesão social. É por isso que esta alegria da Schroeders é uma péssima notícia e não percebo como pode ser aplaudida por aqueles que andaram 4 anos a queixar-se da quebra de salários e de reformas… Se o mundo da finança está tão tranquilo, tudo continuará na mesma. Os economistas do PS estiveram ao telefone com as agências e também António Costa já tem uma agenda neoliberal. A social-democracia segue dentro de momentos…


Luís Novais



Foto: DasWortgewand