segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

AONDE VAIS, PORTUGAL?



Teríamos de recuperar asas, voar. E é nestas alturas que aparecem os que vendem ilusões de sonho travestidas. São perigosos, quase tanto quanto os outros, os que preferem a segurança do mal que estão, à incerteza do caminho a explorar. Talvez assim fiquemos: uma vez mais passando aos seguintes um país que queimou toda a energia que tinha para imobilizar-se onde deveria ter saído.

Há no ar um sentimento de fim de ciclo que se confunde com descrença no sistema. Talvez este denso nevoeiro que Sebastião teima em não cortar, nos impeça de ver mais além, nos oculte Juno confundindo-o com a nuvem que nos envolve, talvez nos imobilize penetrando carne e tutano.

Confundidos nesse nevoeiro, perdemos rumo e perspetiva. Ficamos onde estamos, ou caminhamos em incerta busca por sinais difíceis de entender: aquela mancha amarelada que pode ser farol ou veículo que nos embata, essa buzina que será  um vem por aqui, ou quem sabe se um foge daí.

Caminhamos há duzentos anos de ciclo em ciclo, sem que o anterior passe ao seguinte a energia que lhe consumiram serôdias tentativas de sobrevivência. As luzes e uma revolução Francesa à nossa moda instalaram-se em 1834, quando há muito o liberalismo ocidental não passava de burguês gordo. O comboio, quando já a Europa não tinha por onde estender linhas. Havia 40 anos da comuna de Paris, quando nos chega uma república que não sabe se é carbonaria ou maçónica, pequeno-burguesa ou sindicalista. Do Portugal nacionalista e imperial, grande no discurso e pequeno no ser, o mesmo que sobreviveu 30 anos ao fascio e à suástica, desse nem falemos. Em Abril, socialismo foi utopia de alguns e não resistiu, nem ao canto de sereia do capital, nem ao que aquém do muro do além já se sabia. À europa chegamos tarde, caindo numa União que resiste para resolver guerras de séculos e que nunca foram nossas.

Subitamente ganhamos consciência de que esse sonho europeu e de mercado não passava afinal de pesadelo. Assustados e sem saber aonde ir, dedicamo-nos mais à pequena culpa do que às responsabilidades históricas, mais aos bodes que expiam do que à reflexão. "É o sistema", como se o sistema fosse ilha distante de cada um, "É a partidocracia", como se os partidos não fossem o reflexo daquilo que somos enquanto povo, "É a corrupção", como se não fosse a moral, "É a crise financeira", como se não fosse a cultural. 

Estamos sem sonhos, essa é que é essa; e sem sonho nada mais É. Mas mandam os que se dizem pragmáticos, os que se contrapõem aos utópicos, sem entenderem que são os mais de  entre estes. São de fazer e não de questionar, não alcançam que sonho é cultura.

Teríamos de recuperar asas, voar. E é nestas alturas que aparecem os que vendem ilusões de ideais travestidas. São perigosos, quase tanto quanto os outros: os que preferem a segurança do mal que estão, à incerteza do caminho a percorrer. 

Talvez assim fiquemos: uma vez mais passando aos seguintes um país que queimou toda a energia que tinha para imobilizar-se aí, nesse sítio de onde deveria ter saído.

Aonde vais, Portugal?


quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

UMA CAMPANHA NADA ALEGRE




De tudo o que vi e ouvi neste debate, somado a outro tanto que durante a campanha fui ouvindo e vendo, ficou-me a ideia de que apenas um dos candidatos tem aquele perfil que imagino num Presidente da República.

Ontem foi dia de debate e, ainda que no Peru, consegui acompanhá-lo através da RTP internacional. O resultado foi um nim quase generalizado, com o candidato da direita a lançar a cana de pesca à esquerda, e o preferido da esquerda algum engodo à direita. 

Marcelo como Nóvoa, fugiram ao compromisso como o diabo da Cruz. Um cínico professor a dizer que confia no Primeiro-ministro quando este se afirma capaz de dar quadratura ao círculo em que se meteu. Um patético ex-reitor querendo fazer-nos acreditar que não garante que aprove o Orçamento de Estado porque ainda não o conhece.

Valeram as tiradas de Tino o de Rãs, que desanuviou pela via do riso, mas que pelo menos uma vez teve capacidade de avistar a Taprobana, quando deu o exemplo do sem-abrigo com quem tinha passado a noite anterior.  
  
Certeiro também Paulo Morais, pelo menos em duas ocasiões. Primeiro quando relacionou o cumprimento da constituição com a gratuitidade dos livros escolares, denunciando a relação entre o lobby editorial e a inexistência de um banco de manuais em cada escola. Marcou igualmente pontos quando respondeu às críticas de que as suas denúncias eram genéricas: Apontou casos concretos que entregou à procuradoria e, depois, denunciou os políticos honestos que, em vez de atacarem os desonestos, o atacam a ele. 

Os restantes candidatos e a candidata não marcaram nem desmarcaram e Marisa fez até um autogolo, quando acusou os restantes de não terem denunciado a tão questionada decisão do Tribunal Constitucional que implica devolver as subvenções vitalícias aos ex-políticos. No contexto dum debate destes, ninguém lhe lembraria de quem foi a decisão e que ao Presidente lhe compete, em primeiro lugar, cumprir e fazer cumprir a constituição, concorde-se ou não. O grande erro foi, contudo, ter aberto a porta para que quase todos a contradissessem, lembrando um momento específico em que também eles se manifestaram contra esta deliberação.

De tudo o que vi e ouvi neste debate, somado a outro tudo que durante esta campanha fui ouvindo e vendo, ficou-me a ideia de que apenas um dos candidatos tem aquele perfil que imagino num Presidente da República. Trata-se de alguém que esteve na política sem dela beneficiar, que nunca calou a denúncia a algumas das páginas mais negras da história do seu próprio partido, que tem sobriedade e perfil ético.

Desde Setembro estava decidido a votar em Sampaio da Nóvoa se o PAF formasse governo, ou em Marcelo Rebelo de Sousa, se essa tarefa caísse sobre António Costa. Num caso como no outro, não era um voto de convicção, mas antes uma forma de contrariar a deriva neoliberal de uns, ou o excesso de devaneio dos outros. Considerava que esta era uma eleição desinteressante e que a falta comparência de Guterres e Barroso tinha aberto a porta a candidatos de segunda divisão.

Henrique Neto poderia dar-me a possibilidade de votar, pelo menos com alguma convicção.


Luís Novais 


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domingo, 10 de janeiro de 2016

CULTURA É COSMOVISÃO






Cada vez que entrei numa casa ocidental, que viajei com beduínos no Sinai, que estive com nativos na amazónia, com seguidores de crenças diversas, com professores numa universidade; de cada vez que leio Platão, Santo Agostinho ou George Steiner; cada vez que estudo civilizações que foram e já não são, que vou a um concerto de roque ou de música clássica, que oiço proclamações políticas e filosóficas, que assisto a celebrações religiosas… Cada vez que entro e observo, esta é a ideia a que recorro quando busco perceber o código cultural: Que estratégias seguem ou seguiram para resolver o drama desse dualismo; o eu e o outro?

Eduardo Lourenço deu uma entrevista ao Expresso da semana passada. O mote foi o lançamento em português do livro “Cultura – Tudo o que é preciso saber”, do filósofo alemão Dietrich Schwanitz. Na conversa que manteve com a jornalista Luciana Leiderfarb, Lourenço definiu “cultura” como sendo“o diálogo da humanidade consigo mesma”, uma fórmula com que não concordo, mas que é interessante, pelo menos narrativamente.

O mais aliciante desta definição é que contraria o enciclopedismo patente no próprio subtítulo da referida obra: “Tudo o que convém saber”. Numa sociedade da hiperinformação, o problema central já não é o acesso se não a seleção do conhecimento, e é por isso que as obras facilitadoras de escolhas estão em voga e têm a sua versão popular nos títulos pensados para captar audiências a partir das redes sociais: “10 Lugares que você tem de visitar antes de morrer”, “10 Obras que tem de ler antes de morrer”… e uma data de outros projetos a não perder antes que chegue a meta fatal.

Opostamente à ideia de cultura como tudo aquilo que se deve saber, Eduardo Lourenço apela a Levi Strauss: “Tudo é cultural. Porque o homem é um ser pensante”.

Quando nasceu a cultura? Para Lourenço, com o tédio. Socorre-se de Pascal: “A infelicidade da humanidade é a incapacidade para estar sozinha num quarto. É não se contentar com o que está à sua volta ou com as coisas urgentes que a solicitam e que deveriam ocupá-la. A cultura é, assim, a invenção contínua de respostas para a expulsão do sem sentido”.

Estaria bem se fossemos a única espécie a sentir essa infelicidade da solidão e do tédio, mas é visível que não somos. Se essa produção artificial chamada cultura é exclusivamente humana, devemos procurar naquilo que é exclusivamente humano para lhe encontrar justificante e uma definição.

Enquanto espécie, somos fruto de mudanças climáticas que ocorreram há uns cinco milhões de anos: Recuaram os glaciares, diminuíram as florestas e as savanas ou os desertos conquistaram uma parcela substancial do planeta. O ecossistema florestal deixou de ser suficiente para quantos aí viviam; os mais fortes apoderaram-se do agora escasso território, expulsando os outros para lugares inóspitos. Entre essas espécies estariam alguns símios, que tiveram de adaptar-se ao novo meio. Já não tinham uma árvore de acesso fácil para escapar à voracidade dos predadores e por isso precisavam de antevê-los. A gradual conquista duma posição ereta foi a resposta que encontraram, com todas as consequências estruturais que isso teve na morfologia, nomeadamente na craniana. O cérebro foi tendo mais espaço e ganhou novas capacidades.

Ler as obras de António Damásio, é perceber que somos uma excentricidade da natureza: o nosso cérebro é o único que permite a consciência de ser, o único que origina a criação daquilo a que Damásio chama memória autobiográfica, ou personagem “eu”. Eduardo Lourenço aborda esta questão, é pena que en pasat e não como centro do tema “cultura”: “Se a humanidade tem uma essência qualquer, é justamente ter memória de si mesma”.

O drama é que ganhar consciência do “eu”, implica também reconhecer o “outro”; a unidade cósmica estava perdida.

Creio ser em totem e Tabu que Freud afirmou que para um recém-nascido não há uma separação entre ele, entre o seu corpo, e ela, a mãe, a teta por onde mama. É verdade que a neurologia desse tempo ainda não permitia analisar a raiz desta questão nem à luz da filo, nem à da ontogenia cerebral; mas já então o pai da psicanálise nos fala duma nostalgia desse absoluto.

É interessante verificar como, cada uma à sua maneira, as mitologias procuram enquadrar este drama. Foi quando comeram da árvore do conhecimento do bem e do mal, que Adão e Eva ganharam consciência de si, que outra coisa não explica a vergonha que sentiram e que os levou a tapar os corpos. Foi essa mesmíssima consciência que determinou a expulsão de um paraíso onde anteriormente estava unido aquilo que o proibido fruto lhes separou.

Viajando até à Grécia antiga, também Prometeu foi agrilhoado por ter oferecido a luz, quer dizer, o conhecimento, à humanidade.

Tudo isto dá uma dimensão antropológica à célebre frase de Sartre: “O inferno são os outros”.

Temos uma característica única: sabemos que somos. Essa é a fonte da nossa grandeza e também do nosso drama. A natureza é centrada na sua sobrevivência genérica, pobres das espécies que tenham características excêntricas, e nós somos a mais excêntrica de entre as que já pisaram este mundo. Tudo aquilo que com as outras espécies partilhamos, resolve-se facilmente de uma forma natural, inconsciente: O cérebro sabe criar a sensação de fome quando essa alquimia do corpo lhe transmite uma falha energética, as plaquetas coagulam instintivamente em contacto com o ar para impedir uma hemorragia, o coração bate mais ou menos forte em função da homeostasia… E a consciência de nós? E a fragmentação cósmica que implica? E o drama de Adão e Eva? O de Prometeu? Esses são problemas exclusivos da espécie; por isso temos a capacidade mas não sabemos lidar naturalmente com ela. É talvez isso, a cultura: mais do que o diálogo da humanidade consigo mesma, é um diálogo da humanidade com o outro, com o cosmo. Cultura será, então, a forma artificial a que recorremos para resolver um problema que a natureza nos deu, mas de que a natureza não cuidou.

Cada vez que entrei numa casa ocidental, que viajei com beduínos no Sinai, que estive com nativos na amazónia, com seguidores de crenças diversas, com professores numa universidade; de cada vez que leio Platão, Santo Agostinho ou George Steiner; cada vez que estudo civilizações que foram e já não são, que vou a um concerto de roque ou de música clássica, que oiço proclamações políticas e filosóficas, que assisto a celebrações religiosas… Cada vez que entro e observo, esta é a ideia a que recorro quando busco perceber o código cultural: Que estratégias seguem ou seguiram para resolver o drama desse dualismo; o eu e o outro?

Nessa caso, cultura é cosmovisão.

Luís Novais

Foto: iamanilozturk (domínio público)