sexta-feira, 4 de novembro de 2022

ETERNO

 


















Olho
e numa ilusão
tudo aparece.
Não acontece
o que não acontecendo
parece acontecer.

Olho, olho à volta.
Tudo vejo
e nada é.
(Aparência)
Busco,
pelo ver e pelo sentir, busco.
que nem vejo nem sinto.
Exceto nos olhos,
exceto no tato.
Não os tivesse,
não buscaria.
Se nada É
além da pele,
então nada existe,
menos o nada, Nada!
Nem o que sinto,
nem o que pressinto.
O nada não é,
nada é nada,
tudo é nada.
Não existo,
fora do que vejo e no que vejo.
E o que vejo
inexiste, menos eu:
Não é.
E se não é, não sou.

(perdido, procuro perdido)

Do nada que sou
algo fica, de humano ou químico,
que químico ou humano
mudará os que serão.
Sejam gente, seja matéria.
Sejam gente que será matéria,
sejam matéria que será gente.
Não existir é existir.
(eternamente).

É eterno o dono da tabacaria,
eterna a tabuleta,
eternos os versos,
eterna a rua,
eterna a língua,
o planeta,
os satélites,
até a metafísica
daquele que a não tem.

Mesmo quando não sejam,
são eternos.
Mesmo não havendo quem os veja,
eternos.
Eternos até quando ninguém esteja,
nem neste, nem noutros sistemas.

A pele ou foi antes ou foi depois do Ser,
Mas o Ser é antes do não ser.
Então É,
mesmo o nada É nada.

Então, sou.
Então, serei.


Luís Novais

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

“VERDADE”

O que é a verdade
se não o invisível do visível?
Aquilo que não vemos nem sentimos,
atrás do que se sente e vê?
Quando se veja,
então já não É.
Se da terra vemos céu,
estrelas, galáxias;
ver não é saber, e menos Ser.
 
Quando alcançamos
(e se alcançamos),
o firmamento é sempre mais.
E então nunca chegamos.
A verdade sempre oculta,
sempre falsa quando se mostra.
E a ciência que procura
sem nunca lá chegar,
nem é luz,
nem é noite:
É o Nada e não nada.
 
Verdade não há outra,
além da não revelada.
Que nos interroga,
sem responder.
Onde se oculta?
Não há engenho ou saber,
não há branco nem negro,
menos cinzento.
Verdade é uma só,
 
mas apenas lhe chamam arte.
 
 
Luís Novais

sábado, 21 de agosto de 2021

AFONSO HENRIQUES

No pecado,

força de Ser.
À sombra de uma azinheira,
com seu fruto pecamos.
Pecado com castigo,
culpa nos une.

Já submissos,
nós, anti-humanos,
humanos fazemos.
 
Também por pecado teu,
que à Mãe enfrentaste:
Não nos liga destino,
mas castigo comum.
As nações todas não são mistérios,
todas pecado.


Culpa!


De natureza primeiro nos destaca.
E de gente; depois também.


Luís Novais 


sábado, 12 de dezembro de 2020

POEMA VAZIO

Este é um poema vazio,

tem letras por ilusão.

Um poema do nada,

tanto que nem poema será.

Não dá,

como não tira.

Não acrescenta,

não diminui.

Não faz saber,

e menos ignorar.

Um poema vazio,

que não é poema,

numa página cheia de nada.

Será inteiro o que não vemos?

O Ser que somos.

Vazio aquilo que vemos?

Este é um poema que não se vê,

numa página que vemos cheia.


Luís Novais

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

TODO NADA

Queria saber

que todo é

o nada que existe em mim.

Se de mim soubesse

quem e ao quê,

todo mistério cairia.

O mundo

cabe em cada partícula

e de cada partícula universo.

No que vemos

está o não visto:

Víssemos!

e a porção seria íntegra.

Que todo tanto será esse nada

que quando me vejo, vejo?


Luís Novais

terça-feira, 6 de outubro de 2020

FOMOS ROMEIROS

 

Tão  ténue
viver
Hoje
como sorte
d’azar d’Ontem.
Azar é ser:
Destino
total e descontrolado.
Azar é ser
sorte da nada.
O destino d’ontem,
no passado d’hoje,
no ontem d’agora!
Somos nada, nada
crendo ser.
E somos tudo, tudo
o que cremos ter querido.
Nem querido, nem crido:
apenas azar d’ontem
em sorte d’hoje.
Nada somos, nada,
no chão que pisamos;
indo além, muito além
em sonho que sonhamos.
Nos ontens que choramos
amanhãs que cantaram.
Não há futuro futurado.
"Ecce homo":
Tudo acontece!


Fomos Romeiros!
…alem de Ninguém.

 
LN

quinta-feira, 16 de julho de 2020

SER PORTUGUÊS


Nasci no lugar
onde a terra acabava.
E então naveguei,
Sem saber,
naveguei.
Do fim com peso
ao princípio flutuante.
Fui barco.
Fui povo.
Fui mar.
Ondulante.
Na crista ascendente, sorria presentes.
No abismo, sorria futuros.
Sem pés na terra,
nem mais terra que não maresia,
deixei de ser
do lugar onde nasci.
E então olhei:
Olhei a meus pés
e um céu de baixo.
Olhei ao infinito
e um mar de cima.
Mar nas estrelas
Estrelas no mar
Estrelas do mar.
Cheguei ao céu, navegando.
E de povo, fiz-me sonho

Luís Novais