Quem sou?
Sou o que não sois
sois o que não sou.
O que desde mim vejo
quando vos vejo
faz do vós, vós em mim.
Como? Se mim em mim
tudo que em mim esteja.
Como?
Ninguém existe fora de si,
somos tantos quantos tantos.
Exceto que nos vemos,
ess'outro:
um nós de nós visto.
Tanto sou eu
como vós também.
Se ao mim em ti
e ao ti em mim
não tomamos,
tão-pouco nos sentimos
e então nada.
Nada! nada fica.
Sou!
Apenas porque sois.
terça-feira, 26 de maio de 2020
domingo, 26 de janeiro de 2020
SALKANTAY AO INSOLENTE ÍCARO PÉS DE MONTANHA
Quem és?
Humano insolente
erguendo-se em tempo
ante mim de tempo erguido.
Sou massa
feita de ti.
Carne da rocha
e d’água que guardas.
Sonho montado
n’alma que te dei.
Tu és pedra,
eu sou tu.
Sendo!
Ao que és dei sonho:
Corpo de tua matéria
e alma de meu corpo
tuas alturas sonhando.
Do fogo te fizeste
do confronto t’ergueste,
de ti me fiz
e deste voo tua alma.
Fizeste-te:
Fazendo-me.
Luís Novais
sábado, 31 de agosto de 2019
DA REVOLUÇÃO FRANCESA À INVOLUÇÃO CONTEMPORÂNEA
Hoje voltamos assistir a reações de medo, bem
patentes na eleição de líderes orientados a esse modelo de poder a que o
sociólogo Alain Rouquié chamou “democracias hegemónicas”, ou seja, que procuram
fundir democracia com autoritarismo, primeiro passo que poderia ser ensaio
duma férrea ditadura.
Em Les Origines Culturelles de la Révolution Française (1990) o historiador Roger
Chartier desvalorizou o papel fundamental das filosofias iluministas no
despontar do espírito revolucionário e, em seu lugar, valorizou o aparecimento ao longo do
século XVIII dum novo ente social, composto por indivíduos com
sentimento de pertença a uma mesma comunidade baseada no conhecimento e na partilha dum conjunto de valores: a "Opinião Pública".
Diz-nos Chartier que este
conceito é oposto ao de opinião popular, porquanto surgiu da expansão da
imprensa e se circunscreveu originalmente aos grupos alfabetizados com hábitos
de leitura. É, portanto, um grupo elitista e, desmistificando uma ideia
pré-concebida, uniu mais a nobreza e a burguesia, do que esta última e o povo
iletrado.
Curiosamente, estas
conclusões são muito semelhantes às de Benedict Anderson na sua obra
fundamental Imagined Communities (1983). Segundo Anderson, a ideia de nação começou a surgir no
século XVIII (teria o apogeu no XIX e a tragédia no XX), a partir da comunhão entre
pessoas que não se conhecem mas sentem pertencer a uma mesma
entidade, essa tal “comunidade imaginada”. Na origem deste espírito, o
antropólogo encontrou a mesma expansão da imprensa que Chartier considerou
fundadora da “Opinião Pública”.
É curioso que este último
desconheça a obra de Anderson e que Anderson tão pouco o cite, mesmo nas
edições posteriores. Os dois autores seguiram caminhos muito
paralelos e as suas conclusões são semelhantes, embora com objectivos diferentes:
encontrar a origem da Revolução Francesa, num, a do nacionalismo, no outro. Em
nota de rodapé diria que este desconhecimento mostra bem o longo caminho ainda
por percorrer no inter-conhecimento das diferentes ciências sociais, e isto apesar
da escola de Chartier ser a chamada História cultural, a mesma que se fecundou
bastante com a Antropologia.
De todas as maneiras,
tanto a “Opinião Pública” como a “Comunidade Imaginada” terão necessariamente
surgido no seio dum grupo social relativamente pequeno, que começou por formar
a primeira massa com consciência de si.
Nos dias de hoje
assistimos a uma nova grande transformação, apenas comparável àquela que nos
proporcionou Gutenberg. O aparecimento do carater tipográfico foi um chão que
deu uvas e vindima até aos anos noventa do século passado, mas a partir daí
assistimos a uma nova revolução tecnológica, baseada no carater digital
transportado em redes de comunicação, capazes não só de transmitir dados, mas de
permitir a interação. Numa sociedade completamente alfabetizada (diferente de
letrada), esta mudança levou a novas relações e ao aparecimento de novas
comunidades necessariamente fragmentadas e fugazes.
As entidades “opinião-publica”
de Chartier e “Comunidade Imaginada” de Anderson, já não formam grupos mais
ou menos restritos, mais ou menos coesos. Pelo contrário, assistimos a uma
explosão da liberdade de emitir ou procurar opinião, para a qual não estávamos provavelmente
preparados e que certamente terá grandes consequências, como já tem.
Se o aparecimento e
expansão da máquina de imprimir provocou a Revolução Francesa e o aparecimento
do Estado Nação, aonde nos levará a internet com todas as suas redes sociais?
Numa obra que marcou a
segunda metade do século XX, Erich Fromm, um dos discípulos de Freud, analisou
o outro lado da expansão da imprensa, ela mesma muito relacionada com o
surgimento do protestantismo, fomentador da leitura pessoal dos textos sagrados.
Numa obra com o significativo título de “O Medo da Liberdade”, concluiu que
essa mesma liberdade individual implícita na leitura direta da palavra divina,
sem a intermediação imposta pela Igreja de Roma, terá gerado uma angústia pela
falta de certezas e um consequente medo em busca de superação. Esse medo terá buscado paliativo no determinismo espiritualista de Hegel, no materialista marxista, ou nos intolerantes fenómenos
de massas que foram o fascismo, o nacional-socialismo ou o estalinismo.
Postos os indivíduos
perante um vendaval de opiniões e instados eles mesmos a opinar, fugir da
liberdade pode ter sido o refugio da maioria ou duma grande parte. A verdade e
a tolerância deixavam de ser um valor seguro e a fusão pessoal numa massa
anónima chefiada por um führer ou por um duce teria sido porto de abrigo
contra a temida liberdade.
A revolução digital multiplicou
exponencialmente a informação e a divulgação das opiniões, mas também a
desinformação e a idiotice, gerando confusão nos espíritos e, digo eu, trazendo
de volta o tal medo à liberdade. A imprensa tipográfica originou a libertação
protestante, a consciência nacional ou a opinião-pública. Mas terminou numa
negação da liberdade, numa anulação do indivíduo e nas ditaduras mais
sanguinárias da história, ocorridas na primeira metade do século XX, a tal
ponto que foram antídoto e trouxeram de novo o consenso, através duma liberdade apesar de tudo parcial porque controlada por uma opinião publicada e, portanto, editorialmente controlada.
Hoje assistimos novamente
a reações de medo, bem patentes na eleição de líderes orientados a esse modelo de
poder a que o sociólogo Alain Rouquié chamou “democracias hegemónicas”, ou
seja, que procuram fundir democracia com autoritarismo, primeiro passo que
poderia ensaio duma férrea ditadura… e escuso-me às referências para
centrar o debate nas questões de fundo e não nas emocionais e secundárias.
O moderno “medo da
liberdade” teve génese no aparecimento da imprensa e cresceu em
espiral até atingir o apogeu na sanguinária primeira metade do século XX. Hoje
não são necessários 500 anos para aí chegar: a alfabetização global é uma
realidade e a velocidade da comunicação acelera todos os processos mentais. Os
fenómenos de intolerância e autoritarismo, os modelos políticos de matriz
massificadora como foi o fascismo, são realidades que despontam como cogumelos,
incluindo nas democracias mais consolidadas do mundo.
Se a tipografia de
carateres levou à Revolução Francesa, estará a digital a conduzir-nos a uma
Involução?... temo que sim.
Luís Novais
Foto: WikiImages from Pixabay
quarta-feira, 28 de agosto de 2019
O ARROGANTE SOU EU?
Se eu entrasse por um laboratório, se começasse a
discutir teoria da relatividade ou física quântica com os cientistas, se me
mandassem à merda mais às minhas ideias… os arrogantes seriam eles, ou seria eu
que nem para aprender serviria?
Os estudiosos de
humanidades ou ciências sociais somos várias vezes acusados de arrogantes
sempre que saímos do meio académico e nos lançamos a públicos debates. Ainda
hoje um bom amigo me atirou à cara, em acalorada discussão numa rede
social sobre o Brasil desta era bolsonárica.
É verdade e conhecemos
vários casos. Uma inteligência brilhante como era a de Vasco Graça Moura tocava
as raias do indecoroso quando tinha de baixar à rua, o reputado académico
Augusto Santos Silva chega ao limite do insuportável nos debates públicos, de Boaventura
Sousa Santos, um dos sociólogos mais reconhecidos internacionalmente, tão-pouco
se pode dizer que seja um querido, todos nos lembramos com saudade da irascibilidade
de um dos maiores escritores de sempre que foi (é) José Saramago… os exemplos poder-se-iam
suceder.
Quando o meu amigo me
acusou de “arrogância livresca” deixou-me a pensar no assunto. Reconheço-a,
no sentido positivo de “livresco” e no negativo de “arrogante”, quando saio do meio intelectual donde venho, exceto tendo uma audiência não especialista mas praticamente
passiva.
O penúltimo parágrafo
surgiu daí, deu-me o conforto da boa companhia e fez-me reflectir sobre o
assunto. Entro de frente num debate sobre História, sobretudo História da culturaa incluindo a literatura e a Filosofia, na Antropologia também não recuo
e estudo falando como aprendiz de neurociência, principalmente no impacto dos seus avanços
nestas referidas áreas. Direito também aceitaria debater com um advogado mas
apenas ao nível dos princípios, jamais da técnica, da legislação ou do processo… e fico-me por aí.
Então dei comigo a
pensar: “Discutirias Física com um físico? Química com um químico? Matemática com
um matemático?” Não e posso supor os seus desesperos se a tal me atrevesse. Nem
eu o faço nem ninguém que os não seja costuma fazê-lo, e então, físicos,
químicos ou matemáticos têm a felicidade de que nenhum não-físico, não-químico, não-matemático se ponha a debater e a pôr em causa as suas conclusões.
Tenho inveja e é uma
sorte que nós, os das Humanidades, os das Ciências Sociais, não temos: Não há
quem não se sinta historiador, filósofo antropólogo, sociólogo ou psicólogo e não venha
discutir História, Filosofia, Antropologia Sociologia ou Psicologia connosco, geralmente sem saber que o está a fazer.
O melhor seria resistir e
não sair a terreiro. Mas não estaríamos numa recusa da divulgação científica? Não seria
arrogância maior?
Se eu entrasse por um
laboratório, se começasse a discutir teoria da relatividade ou física quântica
com os cientistas, se me mandassem à merda mais às minhas ideias… os arrogantes
seriam eles, ou seria eu que nem para aprender serviria?
Luís Novais
Nota: Dedicado ao meu
querido amigo Joaquim Barbosa
PS: Solidário com os médicos desde que surgiu o Dr. Google.
PS: Solidário com os médicos desde que surgiu o Dr. Google.
sexta-feira, 5 de julho de 2019
A VENEZUELA E AS LIÇÕES DA “TERCEIRA VAGA” DEMOCRATIZADORA
A precipitação de Guaidó proclamando-se presidente
e a não menos precipitada aceitação de alguma comunidade internacional, não
deixa qualquer margem a um reconhecimento mútuo que abra portas à negociação.
Neste momento, nem Guaidó pode aceitar Maduro como presidente, nem Maduro
Guaidó como líder da oposição, depois de este se ter considerado tão presidente
que até embaixadores nomeou em alguns países que o reconheceram.
Procurando explicar
aquilo a que chamou "terceira vaga democratizadora", iniciada com a revolução
portuguesa de 1974 e terminada na queda do império soviético, Samuel Huntington
atribuiu-lhe diversas causas. Entre essas destacaria as seguintes, por serem as
que melhor contribuem a uma análise da atual situação venezuelana: 1) Crescimento
económico suspendido por crises conjunturais; 2) Perda de sentido dos regimes
face aos seus objectivos iniciais estarem atingidos; 3) Quebra da coesão
interna sobretudo no seio das forças armadas; 4) Efeito bola de neve
provocado pela queda de outros regimes similares e 5) pressão internacional.
O primeiro fator parece estar
claramente a verificar-se. O regime de Chavez beneficiou dum extraordinário
aumento do preço do petróleo, permitindo-lhe concretizar uma política redistribuidora
que deu esperança à grande massa da população. Os números são da ONU (CEPAL) e não
deixam margens para dúvidas: Um ano antes de ser presidente, 78% dos
venezuelanos viviam entre a pobreza (54,5%) e a pobreza extrema (23,4%). Quando
o comandante morreu, em 2013, estas percentagens tinham diminuído para 42%, com
os primeiros a baixarem a 32,1% e os segundos a 9,8%. Sem estes resultados não compreenderíamos
os sucessivos resultados na frente eleitoral: Venceu quatro eleições em sufrágios
reconhecidos pela comunidade internacional, sujeitou-se a um referendo
constitucional aprovado com 71% e, com forte apoio popular, conseguiu
esmagar um golpe de Estado claramente apoiado pela CIA e pela Espanha de Aznar.
A bonança acabaria por
terminar com a quebra conjuntural do preço do petróleo. Paradoxalmente, se a
subida foi uma das causas nos anos setenta para o colapso de muitas ditaduras, incluindo
a portuguesa, aqui é uma descida que pode levar à queda do
regime de Maduro.
O segundo fator pode ser também
aplicado, embora inversamente. Segundo Huntigton, alguns regimes autoritários
perderam o sentido quando conseguiram atingir os objectivos pelos quais foram
criadas, refere como exemplo o caso do Uruguay com a derrota da guerrilha e, diria
eu, poderíamos considerar o Peru de Velasco Alvarado, chefe duma revolução que
pretendeu acima de tudo libertar os camponeses dum regime de exploração que conseguiria
aniquilar com a lei da reforma agrária de 1969.
No caso da Venezuela, a
perda de sentido pode estar no facto de se ter estancado a promessa
inicialmente exitosa de ascensão económica dos antigos 78% de pobres, ao mesmo
tempo que a classe média tem de suportar uma emigração em massa ou condições de
vida cada vez mais difíceis. Inicialmente o regime terá então conseguido caminhar
rumo aos seus objectivos sociais, mas a economia extremamente dependente do
fator petróleo não lhe permitiu ir mais além e começou, até, a verificar-se uma
regressão social.
Quanto ao terceiro fator,
a quebra de coesão interna, nomeadamente no seio das forças armadas, parece não
estar a verificar-se. Os líderes militares mantêm-se firmes na defesa do regime
e não estão a responder aos apelos de Guaidó, que até lhes acenou com uma
amnistia caso contribuíssem à queda de Maduro e o reconhecessem. Provavelmente sabem
que a oposição é muito diversa e temem
que, uma vez no poder, os falcões da direita lhes reservem um rolar de cabeças.
O quarto fator é o efeito
bola de neve. É certo que nos últimos anos se verificou a mudança gradual duma
América Latina orientada à esquerda, para outra à direita: Tivemos a
metamorfose direitista de Ollanta Humala no Peru; no Chile a vitória de Piñera e
a saída de Bachelet, que era um cavalo de Tróia de Maduro no Grupo de Lima; a
queda de Kirchner e a eleição de Macri na Argentina; a eleição de Ivan Duque na
Colômbia e, claro, a de Bolsonaro no
Brasil. Mas, ao mesmo tempo houve sinais no sentido contrário: Evo Morales
parece aguentar-se de pedra e cal na Bolívia; no Equador ganhou o candidato de
esquerda apesar de estar a virar claramente à direita; na Argentina o governo
de Macri enfrenta os conhecidos problemas económicos e crescente contestação;
como era expectável Bolsonaro não é um líder à altura do país que tem e,
sobretudo, Lopez Obrador foi eleito presidente do México. Parece então claro
que Guaidó não pode contar com o tal efeito bola de neve e que, se a bola se
começou a formar nos últimos quatro anos, parece estar agora em claro degelo.
Por último temos a pressão
internacional e esta tão-pouco parece somar a favor de Guaidó. Ao nível
regional já vimos que a América Latina está dividida e quanto às grandes
potências a situação é tudo menos clara: os Estados Unidos estão com
Guaidó, a Russia e a China com Maduro. Soma-se que, se estes dois últimos têm
fortes razões financeiras para suportar o seu aliado, não há motivos objectivos
para que os norte-americanos se empenhem a fundo na defesa de Guaidó, mais do
que a vazia retórica de Trump. Se na frente regional verificamoss um empate, na global ganha claramente Maduro.
Temos então que, dos
cinco fatores enunciados, apenas dois podem jogar a favor da estratégia de
Guaidó: O crescimento económico-social seguido duma crise conjuntural e, relacionado,
uma perda de sentido do regime.
Posto isto, voltemos a
Huntington, pegando na sua análise sobre as diferentes formas como caíram os
regimes autoritários das décadas de 1970 e 1980: 1) Por substituição (replacement), este foi por exemplo o
caso de Portugal e da Grécia, quando as forças opositoras conseguiram ser mais
fortes do que os governos e forçaram a queda dos regimes sem negociação; 2) Por
metamorfose (transformation), foi o
caso da União Soviética de Gorbachov, quando membros do próprio regime chegaram
ao poder procurando liberalizá-lo ou até democratizá-lo; 3) Transição (transplacement), quando tanto o regime
autoritário como a oposição perceberam não terem a força suficientes para se
manterem ou chegarem ao poder, situação que os levou a negociar, como aconteceu
na Polónia, na África do Sul ou no Chile.
Neste domínio, como está
Guaidó? Aparentemente tentou a estratégia de substituição, mas parece claro não
ter conseguido partir a espinha do regime estando agora num claro processo de
desgaste. Um desgaste aliás não menor para Maduro e é por isso que, neste
momento, tanto uns como os outros deverão estar conscientes de não restar outra
opção exceto uma saída duramente negociada.
Ora, esse é o grande
problema político de Guaidó. Negociar implica que cada parte reconheça a outra,
ou seja e voltando a Huntigton, a oposição deve reconhecer formal ou
implicitamente a legitimidade do governo para governar e o governo a representatividade
da oposição para falar em nome duma larga margem da sociedade. É precisamente
aqui que chegamos a um autêntico quebra-cabeças: A precipitação de Guaidó proclamando-se
presidente e a não menos precipitada aceitação de alguma comunidade internacional,
não deixa qualquer margem a um reconhecimento mútuo que abra portas à
negociação. Neste momento, nem Guaidó pode aceitar Maduro como presidente, nem
Maduro Guaidó como líder da oposição, depois de este se ter considerado tão
presidente que até embaixadores nomeou em alguns países que o reconheceram.
Qual é então a saída para
um nó tão difícil? Huntigton observou nos casos onde se aplicou o modelo de
transição que, muitas vezes, os presidentes no poder tiveram de negociar com
opositores que antes perseguiram e até prenderam: Foi assim na Polónia, foi
assim na África do Sul, foi assim na Checoslováquia. Então e subitamente ganha
algum sentido essa aparentemente incompreensível intentona militar de 30 de
abril, sem qualquer resultado prático exceto um grupo de militares ter
libertado o opositor Leopoldo Lopez da prisão domiciliária em que se encontrava,
deixando-o às portas da embaixada do Chile onde pediu “hospedagem”.
A proclamação presidencial
de Juan Guaidó destinava-se a conseguir uma mudança de regime por substituição.
As contradições internas e externas não lhe permitiram reunir os requisitos indispensáveis
para chegar ao poder de facto: Não quebrou a unidade das forças armadas, a
frente latino-americana de apoio não é suficientemente forte e as grandes potências
estão a bloquear-se mutuamente. Só resta então o modelo de transição, mas esse
implica um reconhecimento mútuo entre governo e oposição que o auto-proclamado
presidente e o presidente de facto não se podem conceder. Assim sendo, o futuro
próximo da Venezuela não deverá passar por Guaidó e, quanto mais rapidamente se
derem as condições para que Leopoldo Lopez avance, mais rapidamente começará um
processo, ainda assim longo, para desatar o nó em que o país se encontra.
Luís Novais
Referência:
HUNTINGTON,
Samuel P. (1993). THE THIRD WAVE. Democratization
in the late Twentieth Century. Oklahoma: University of Oklahoma Press.
Foto: Pedrucho
segunda-feira, 3 de junho de 2019
BREXIT PARA UNS, OPORTUNIDADE PARA PORTUGAL
Esta ausência de ideal Europeu na nossa literatura
actual e, até, a existência duma ideia, se não antieuropeísta a-europeísta, é
algo que nos deveria fazer reflectir. É que a literatura, por emocional, é o
texto por excelência da identidade.
Muito se dizia que a participação do reino Unido nas últimas eleições para o parlamento europeu seria
uma oportunidade para demonstrar a existência real dum sentimento unionista-europeu
nos seus cidadãos. Ir a votos neste sufrágio era um claro paradoxo para os que pretendem
sair, mas o resultado foi precisamente o contrário e, se havia alguma dúvida de
que os súbditos de Isabel II querem mesmo abandonar o barco, essa
dúvida acaba de dissipar-se com o resultados. Paradoxalmente, os claros
vencedores foram os geneticamente anti-união.
O partido eurocético de
Nigel Farage foi criado neste mesmo ano de 2019 e teve a proeza de sair
vencedor com 31,7% dos votos, a uma grande distância do segundo classificado, o
união-europeísta partido Liberal Democrata com apenas 19,6%. Os tradicionais
Trabalhista e Conservador sofreram a humilhação de conseguirem apenas 13,65% e
8,8% dos votos. Na própria Escócia, Farage obteve 14,8%, ou seja, mais do que os
trabalhistas a nível nacional.
Estes resultados
acontecem uns longos três anos após o célebre referendo. Foi um triénio caraterizado
por uma intensa propaganda anti-saída, durante o qual se argumentou que os
eleitores tinham sido enganados e não tiveram a informação correta. Muitos
diziam que, havendo novo referendo, o “sim” seria o claro vencedor. Se neste
período não conseguiram “esclarecer” e ter a respetiva desforra, então é melhor
começarmo-nos a convencer de estarmos realmente perante a vontade soberana dos
cidadãos. Pode não agradar, mas a Democracia não está feita ao sabor de nenhuma
corrente de pensamento e não é boa apenas quando os resultados são os
pretendidos por alguns.
O BREXIT E A DIPLOMACIA PORTUGUESA
Este é um resultado que
pode abalar Portugal no curto prazo, mas pode também ser uma oportunidade no
médio. Há séculos que o nosso país tem uma diplomacia estruturalmente
caracterizada pela procura de apoios alternativos que o desafoguem das forças centrípetas
de proximidade, essas que de tão próximas o poderiam absorver.
Esta estratégia foi
claramente seguida durante muitos séculos, tanto que ficou como uma marca das
nossas relações exteriores. Foi possível graças à posição geográfica
periférica, que permitiu uma aproximação aos centros políticos mais poderosos,
mas numa distância física que não anulava a autonomia porque estes representavam para nós a mesma oportunidade que nós para eles: a possibilidade de
diminuir a força aglutinadora dos que estavam no meio. O célebre universalismo
português tem essa raiz: Curiosamente tornamo-nos universais para nos mantermos
regionais, procuramos os grandes mas longínquos para evitar os medianos mas próximos
(e que em alguns períodos foram até bastante poderosos).
A possibilidade desta
estratégia está intrinsecamente relacionada com a posição periférica que sempre
tivemos frente às potências centrípetas da história e esta constatação comprova-se
pelo facto de ser, até, muito anterior à nacionalidade e, portanto, ter já um
profundo cariz provincial antes de nacional. Temos pelo menos três testemunhos documentados
desde o distante século IV que nos mostram a existência deste modelo.
O primeiro é o roteiro
epistolar de Egéria, uma aristocrata cristã-romanizada da Galécia, província
que tinha sede em Bracara Augusta de onde provavelmente provinha, e uma pessoa claramente
influente no seio da Igreja local do século IV. Nesse tempo florescia em Ávila a heresia
cristã de Prisciliano, fortalecendo-se e ameaçando tornar-se num polo
aglutinador de poder dentro da Península Ibérica, a ponto de poder vir a
originar uma Igreja local e, com ela, a concentração dum novo poder político asfixiantemente
próximo. Egéria viajou à Terra Santa e enviou não só pitorescos relatos dos
locais que visitava, mas também uma pormenorizada descrição do rito cristão
local, o que só pode interpretar-se como a busca dum cristianismo universal
capaz de fazer frente às locais tentativas priscilianistas.
Já no século V, Paulo
Orósio, sentindo-se ameaçado pela invasão dos bárbaros suevos, foge da cidade de Brácara Augusta onde vivia como presbítero,
dirigindo-se à distante Hipona e tornando-se discípulo de ninguém menos do que
Santo Agostinho, a quem representará em várias ocasiões e em diversos debates
que o fizeram viajar por todo o Mediterrâneo. Orósio deixou-nos uma vasta obra,
uma das quais redigidas após a morte de Agostinho e afirmando ser escrita a seu
pedido[i].
Uma vez mais encontramos um universalismo que procura nos grandes centros a
libertação relativamente às forças mais próximas.
De igual maneira Idácio,
bispo de Chaves, nos deixou no século V a sua famosa Crónica[ii],
uma apologia anti suevos, os mesmo que então se instalavam com um reino próprio
no espaço antes definido como Galécia e que incluía o seu bispado. Frente à
força dos novos invasores, Idácio usará todos os instrumentos ao seu alcance
para manter a autonomia do seu território, a tal ponto que o historiador César
Colodrón chegou a vê-lo como líder duma pequena república independente[iii].
Será perseguido pelos novos senhores, chegando a ser preso, e desenvolveu uma intensa actividade diplomática
junto das forças distantes do decadente Império romano, procurando apoios para
a sua causa. Nesta luta contra os poderes próximos, também Idácio será um perseverante
combatente da heresia priscilianista.
Esta mesma estratégia de
procurar os centros universais de poder para se libertar dos regionais, não seria
outra se não a do próprio D Afonso Henriques, no seu casamento com D Mafalda,
vinda da poderosa casa de Sabóia, e nas
suas aproximações diplomáticas a Roma, que acabaria por reconhecê-lo e servia de contraponto ao poder
próximo do primo Afonso VII de Leão. Já o pai fizera o mesmo, aproveitando-se
da sua origem borgonhesa e da ligação ao tio, abade da imponente ordem de
Cluny. Morto o conde, D Teresa inverte esta estratégia, aliando-se à aristocracia
galega. Claro que a força centrípeta duma força tão próxima era insuportavelmente
avassaladora, sendo por isso que os infanções locais não a suportaram e
deixaram a condessa sem condado o mais depressa que puderam, pondo o próprio
filho frente-a-frente com a mãe em 1128.
Em cada crise de
sobrevivência da nossa história podemos assistir a esta tendência. Foi assim em
1383-1385 quando fomos em busca do apoio inglês contra Castela e o país conseguiu
manter-se soberano, mas assim não foi em 1580, com a consequência do reino ter na
prática deixado de existir como entidade política autónoma. A restauração
renovará o modelo anterior, buscando a apoio de Londres contra Madrid, e foi como recuperamos a soberania. Assim se manteve
a estratégia diplomática nos séculos seguintes, não sendo por acaso que D Carlos[iv]
tinha muito claro existirem dois países com os quais devíamos ter relações privilegiadas:
O Reino Unido e o Brasil.
A excessiva
continentalização a que a União Europeia nos levou e o seguimento quase
monopolar de Bruxelas é um recente interregno neste modelo, mas a verdade é
que, discursos à parte, como bem o mostrou um interessante trabalho da
socióloga Rita Ribeiro[v]
os portugueses querem estar na União mas
numa relação meramente instrumental de benefícios e perdas, portanto, com uma
identificação utilitária que se opõe à emocional, ou seja, sem o sentimento de
pertença a essa “comunidade imaginada”
como a define Benedict Anderson[vi].
A EUROPA E A LITERATURA NACIONAL
Aliás, basta olhar a
literatura. Em cada momento da nossa história se conectaram identidade e literatura.
As cantigas populares e cortesãs de D Dinis, com a respectiva oficialização da
língua portuguesa, inseriram-se na luta de poder entre a coroa e a aristocracia, assim
como as crónicas e os livros de linhagens do século XIV são a afirmação
identitária com que esta responde. A cronística de base popular de Fernão Lopes
é indissociável da necessidade de legitimar um rei ilegítimo, legitimado apenas
pela vontade popular e de aristocratas de segunda linha. A invenção do milagre
de Ourique numa crónica de 1419 não teve outra função que não a de criar um
super-mito capaz de incentivar os portugueses a partirem para o desconhecido
mar, porque o faziam em nome duma profecia divina ao seu primeiro rei, servindo
também para legitimar transnacionalmente essa mesma expansão. Podíamos seguir
adiante com Camões, António Vieira, Verney, Herculano, a geração de setenta, os
modernistas com Pessoa à cabeça… Todos, mesmo todos, os períodos de diferentes
buscas identitárias transpiraram para a literatura. No entanto, o recente “grande”
desígnio união-europeísta não foi capaz de gerar uma literatura, não criou o mínimo
entusiasmo dos escritores porque tão-pouco dos leitores e dos leitores porque
tão-pouco dos escritores.
O máximo que a literatura
contemporânea portuguesa criou foi o contrário, um rechaço, que está patente em
nostálgicas páginas de Lobo Antunes que, na angústia pós-colonial que tanto o
inspira, nunca encontrou paliativo na Europa. Em Saramago, onde, numa leitura
muito pessoal, encontro uma negação da Europa em História do Cerco de Lisboa e, claramente, em Jangada de Pedra.
E nem se pode dizer que a
Europa não é em si mesma estruturalmente inspiradora, porque ela chegou a sê-lo
para a Geração de 70, pelo menos até que Eça entrou em crise e escreveu A Cidade e as Serras e, sobretudo, A Ilustre Casa de Ramires.
Esta ausência de ideal
Europeu na nossa literatura actual e, até, a existência duma ideia, se não antieuropeísta
a-europeísta, é algo que nos deveria fazer reflectir. É que a literatura, por emocional,
é o texto por excelência da identidade.
PORTUGAL E O BREXIT
De qualquer forma, a
questão era essencialmente outra: o Brexit. Depois das últimas eleições
trata-se duma inevitabilidade e, em vez de nos lamentarmos, deveríamos ver a
oportunidade. Graças ao Brexit ganhamos novos polos além da absorvente Bruxelas e, se
houve país que tenha sabido manter-se e renovar-se graças à multipolaridade,
esse país foi Portugal. Já o sabemos fazer desde a viagem de Egéria à Terra
Santa nesse distante século IV, e foi com essa habilidade que nos demos reino e
viabilidade.
Luís Novais
[i] ORÓSIO, Paulo (1986 – 417). História
Contra os Pagãos (tradução José Cardoso). Braga: Universidade do Minho.
[ii] IDÁCIO (1995 – 469). Crónica de Idácio (tradução José Cardoso), (segunda
edição). Braga: Livraria Minho, 1995
[iii] COLODRÓN, César (s.d.).Análisis
de la Figura de Idácio de Chaves a Través de los Condicionantes
Socioeconómicos, Políticos y Culturales de la Gallaecia del Silglo V. El
Cronicón. (tese de doutoramento). Coruña: Universidad de Coruña.
[vi] ANDERSON, Benedict (2017). Comunidades
Imaginadas: Reflexões sobre a origem e a expansão do nacinalismo. Lisboa:
Edições 70.
PARTIU AGUSTINA
No fundo somos todos como aquele Poema em Linha Reta: tantas vezes reles,
tantas porcos, tantas vis, irresponsavelmente parasitas, indesculpavelmente
sujos. Mas esperando que um qualquer autor crie personagens capazes de dar
transcendente heroísmo à porcaria, vileza, parasitismo e sujidade… e não, os de
Agustina não nos fazem esse favor, são gente, apenas gente como a gente que os
lê, são tudo isso, mas sem sublime e, sem sublime, já não justificam o crime, o
nosso: Não nos servem, servem-se de nós.
Viajou Agustina 96 anos de vida muito vivida. Tenho de memória pelo menos três dos seus livros: Os Meninos de Ouro, A Ronda da Noite e A Sibila.
Os dois primeiros há muito tempo, o último recentemente lido, chegado comigo na
mala de livros trazida para o Peru na última viagem de regresso a Portugal,
afirmação necessariamente polissémica.
Tenho uma relação
angustiada com os seus livros, perturbam-me pela dificuldade de não conseguir marcar
de onde vêm e aonde vão. Cronos é o grande aliado de qualquer leitor:
integra-nos as letras transformadas em palavras, as palavras em frases, as
frases em textos, livros. Navegar a obra é preciso, seja “preciso” necessária
necessidade ou precisa precisão, e esta última faz-se com mapeio, integrando-a num
espaço e num tempo, percebendo onde está, vinda de onde e o que anuncia. A
estes portulanos chamamos correntes literárias, também elas uma essência talvez
procedente da existência, mas que nos dá segurança, permite-nos um sentimento percebido
daquilo que lemos, racionalizada emoção, não fôramos filhos de Atenas.
Dizemos que este é
romântico, aquele realista, outro naturalista, aqueloutro modernista ou até mesmo pós-moderno. Normalmente nenhum é
puro, todos são algo antecipando ou chegando de outro algo. Não os deixamos
ser, transformamo-los no que deles fazemos, no conforto de não aceitar a espontaneidade
da história, do mundo, do drama de ser humano. E assim nos sentimos refugiados
do caos, artificialmente seguros.
Sei ser essa é a raiz da
minha angústia de Agustina. Agustina aparece-me de geração espontânea, é difícil,
se não impossível, dizer com quem foi e quem com ela seguirá, exceto que chega consigo
e consigo se vai. Qual a sua corrente literária? A que círculo pertenceria? Que
influências lhe encontramos? Que fenómenos socio-literários?... não sei de
angustiado não saber, logo a mim que tenho a cronologia, o tempo, como matriz
de pensamento.
Depois há aqueles
não-personagens… não, não falo de um qualquer anti-personagem que esse precisamente
por “anti” é exagerado e por exagerado personagem. No caso de Agustina são ser
e não ser, são vida doce e brutal, saem de tugúrios sem qualquer das convenções
que permitem ser vivido nas páginas duma obra. Contraditórios, mas de contraditórios
estão os livros cheios; normais, mas gente normal é precisamente aquela de quem
por anti-personagem se diz ser personagem. Os de Agustina são sem heroísmo, não
se deixam à nossa paixão porque numa página nobres, noutra vilãos, mas sem
exageros, tal qual a gente que somos. Exagero é loucura e a loucura é o que
dela fazemos, mas sempre e sempre para-humana. E afinal não é isso a vida? Não somos
isso cada um? Não tentamos eternamente superar essa inerente mediocridade? Não
estamos umas vezes além do bem e outras aquém do mal?
Talvez por isso Agustina
inquieta. Nos seus livros existem pessoas, sem artifícios literários, sem
exageros estilísticos, pessoas, apenas pessoas, nem heróis nem anti-heróis.
Acostumados que estamos desde Homero a seres simultaneamente bons e maus, amantes e cruéis,
de braços a Penélope e de espada aos pretendentes, de beijos e sangue, esperamos
desses ficcionados seres que sejam capazes de superar-se e superando-se nos
superaram. Podem ser imperfeitos, mas superando, bons e maus, superando, cruéis,
superando, amantes, superando. E superando superam essa vida nossa tão
rasteiramente vivida.
No fundo somos todos como
aquele Poema em Linha Reta: tantas
vezes reles, tantas porcos, tantas vis, irresponsavelmente parasitas,
indesculpavelmente sujos. Mas esperando que um qualquer autor crie personagens que possam dar transcendente heroísmo à porcaria, vileza, parasitismo e sujidade… e
não, os de Agustina não nos fazem esse favor, são gente, apenas gente como a
gente que os lê, são tudo isso, mas sem sublime e, sem sublime, já não
justificam o crime, o nosso: Não nos servem, servem-se de nós.
Morreu Agustina,
inquietude à sua alma, a que não nos serviu mas de nós foi servida.
Luís Novais
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