segunda-feira, 4 de junho de 2018
YVONNE
Por que não escrevo,
a ti, de ti?
Do que te sinto,
do que te penso.
E escrevo, escrevo tanto.
Por que te não escrevo,
a ti, de ti?
Se tanto,
o que de ti sou.
Sentido-me que te sinto,
quando me dás:
tu, eu, Ser.
Porquê? Por que te não escrevo?
Escrever é (des)sofrer!
Apenas parte do que sou.
Não te escrevo,
não posso e não escrevo.
Não me dás o que escreva,
dás-me o que não escrevo:
Essa parte de mim.
Escrever é buscar,
parte do que fui.
Não precisa de letras,
essa parte que partiu
e encontrando-te chegou.
Luís Novais
sábado, 14 de abril de 2018
TRUMP, A SÍRA E AS AMÉRICAS NUM MOLHO DE BRÓCULOS
Não surpreende, trata-se da fiel representação do
país que Trump tem: O melhor do mundo a destruir e matar, mas dos piores a cuidar a saúde dos seus próprios cidadãos, esta sim uma real e também química guerra civil.
Enquanto a Síria era
bombardeada por Donald Trump, decorria em Lima a VIII Cimeira das Américas. A participação do presidente
norte-americano estava confirmada, tanto que, em fevereiro, mandou ao Peru o
secretário de estado Rex Tillerson a reunir-se com o então presidente Pedro
Pablo Kucksinsky (PPK), para transmitir ordens expressas sobre esta cimeira.
Só quem acredite em coincidências
e seja completamente surdo ao que dizem as fontes peruanas ligadas a este
processo, pode considerar ter sido uma coincidência que, apenas 11 dias depois,
PPK convocasse os ministros dos Negócios Estrangeiros de 13 países do
intitulado “Grupo de Lima” que, entre outros, inclui Argentina, o Brasil de
Temer, Canadá, Chile, Paraguay Santa Lucia e… esse modelo de Democracia que se
chama Honduras. Na agenda, um ponto único: Retirar a Nicolás Maduro o convite para
que participe na Cimeira das Américas.
Quem acompanhou o evento
sabe da polémica nos bastidores e que PPK não
conseguiu o que pretendia, ficando no final com uma mera declaração de respeito pela sua decisão (ver
aqui). Apesar disso, foi prémio de consolação suficiente para que retirasse o convite já antes enviado ao ditador venezuelano. Num entusiasmo
trumpiano, o anúncio fez-se pelo Twiter.
A cronologia mostra descaradamente
aquilo que as fontes do palácio de governo peruano afirmam: Donald Trump
colocou como condição para a sua vinda que Nicolás Maduro não estivesse
presente. Vejamos: Primeiro, o Peru fez o convite ao venezuelano, depois
recebeu o secretário de estado Rex Tillerson para falar sobre a cimeira, em seguida convoca para Lima os
ministros dos negócios estrangeiros de 13 países americanos, por fim o convite a
Maduro é dado por não dado. Só depois deste processo, no dia 9 de março, o
presidente norte-americano confirmaria a sua participação.
A ironia disto tudo, são
as voltas que a história dá. Maduro, que foi convidado, depois desconvidado e
que afirmou continuadamente que viria e viria, não veio. Pedro Pablo Kucksinsky,
que convidou, depois desconvidou e que, claro, estaria e estaria, tampouco esteve, forçado entretanto a
renunciar para não ser demitido no parlamento: Consultoras suas com sede nos
EUA prestavam serviços milionários à construtora Odebrecht, enquanto era primeiro-ministro e
adjudicava milhares de milhões à mesma empresa brasileira. Por último, também
Trump, que confirmou e confirmou, afinal falhou, empenhado que se empenhou no bombardeamento da Síria.
Ironias à parte, este
caso mostra bem de que lado da história está o presidente dos EUA. A cimeira
das Américas foi criada em 1994 para
fomentar o diálogo entre os países do grande continente. Apesar de todas as
deficiências inerentes a este tipo de reunião, trata-se dum espaço de
confronto pacífico, de diálogo e de procura de consensos. Trump, essa egocêntrica
Super Star, não quis partilhar o palco com Nicolás Maduro, um igualmente egocêntrico
mas artista de rua. Por fim, a “grande estrela” não quis vir: Ficar e matar
noutras bandas, foi um apelo irresistível frente à alternativa de vir e dialogar
no seu continente.
Não surpreende, trata-se da
fiel representação do país que Trump tem: O melhor do mundo a destruir e matar, mas dos
piores a cuidar a saúde aos seus próprios cidadãos, esta sim uma real e
também química guerra civil.
Um aparte final para
dizer que, quanto às causas diretas do bombardeamento, não me convencem. Enganaram-me
uma vez, e bem enganado, no filme Iraque-2003, quando acreditei e apoiei. Depois
disso, jurei a mim mesmo que só com muita prova… E refiro-me apenas às causas
diretas, porque aos verdadeiros motivos já os dou de barato: Ali não há nada de
humanitário, basta ver a geopolítica e os ouvidos de mercador aos crimes
cometidos pelo vizinho do lado.
Luís Novais
quinta-feira, 5 de abril de 2018
DESMISTIFICANDO O 25 DE ABRIL. PRIMEIRA PARTE: O PCP E A AMEAÇA SOVIÉTICA
O alertas dramáticos que Mário Soares começou a
lançar nos governos europeus, de que havia orientações de Moscovo e Portugal estava
para cair na esfera soviética, não serviram para mais do que cortar um dos elos
do nó górdio em que o seu projecto de poder estava metido.
Temos tendência para
analisar os acontecimentos com base num binómio intuitivo entre provável e improvável.
É isso que nos leva a refletir com base em causalidades óbvias e facilmente identificáveis.
Políticos e comunicadores sabem-no perfeitamente, e é por esse motivo que tendem a
transformar a realidade-real numa realidade-comunicada. Para isso, a mensagem
tem de ser o mais simples e óbvia possível. Geralmente conseguem, impondo mitos
que duram gerações.
Quando o senso comum
tenta explicar o Período Revolucionário português, que vai de abril de 1974 a
novembro de 1975, a explicação óbvia é que tínhamos um Partido Comunista
apoiado por Moscovo, que queria sovietizar o país e seguia fielmente instruções
vindas da URSS.
Fora dos meios académicos, raramente se refere que, em 1974, estávamos em pleno nesse período a que se chamou a détente, que poderíamos traduzir como “desanuviamento”, um processo
de aproximação entre leste e ocidente que terminou na assinatura dos acordos de
Helsínquia em 1975. Alguns historiadores falam mesmo no fim da I Guerra fria,
situando o início duma segunda em 1979, com a invasão do Afeganistão e a
chegada da era Reagen.
Este processo de
desanuviamento começa por 1968 e foi impulsionado por interesses conjuntos da
União Soviética, da Alemanha Federal e dos Estados Unidos, estes últimos movidos
pela dupla Kissinger-Nixon, para mim e fora de qualquer dúvida, o melhor presidente
dos Estados Unidos no pós-guerra… eu sei, eu sei, presos às imagens criadas, o
sensos comuns não pensam assim.
Só para dar alguns exemplos:
Nixon abriu as relações diplomáticas com a China Popular, assinou os acordos
SALT II de desarmamento, terminou a presença americana no atoleiro vietnamita,
que foi uma herança sem sentido da administração Johnson, conseguiu estabelecer
com Moscovo uma cooperação científica nos campos da medicina e da conquista do
espaço etc etc. Presos a preconceitos e a imagens que nos formularam, preferimos
achar que o herói foi um Presidente claramente impreparado, que entregou Cuba
de mão beijada à URSS por andar a brincar aos cow boys na Baía dos Porcos (1961), ou que dizia frases muito
estilosas mas que não resolveram nada, tal como essa cheia de glamour: “Ich
Been ein Berliner” (1963).
Se é verdade que em 1974 a
URSS estava interessada em Angola, não tinha interesse estratégico em Portugal,
como bem o demonstra o discurso neutral e orientado à conciliação com que Cunhal
aterrou em Lisboa no dia 30 de abril de 1974, depois de 14 anos de exílio em
Moscovo.
Quem realmente deu força
ao PCP para uma progressiva radicalização, foi a República Democrática da
Alemanha (RDA), que se sentia ameaçada pela aproximação entre Bona e Moscovo, iniciada
desde que Willy Brandt chegou ao poder. Um Portugal sovietizado acicataria
receios no eleitorado federal alemão e por certo seria politicamente
explorado pela direita, prejudicando a Ostpolitik
de Brandt, que tinha um objectivo claro: a reunificação, ou seja, o fim da RDA.
Os alertas dramáticos que
Mário Soares começou a lançar nos governos europeus, de que havia orientações de
Moscovo e Portugal estava para cair na esfera soviética, não serviram para mais
do que cortar um dos elos do nó górdio em que o seu projecto de poder estava
metido: Um PCP com implantação, com experiência política e interessado em
cooperar, era uma ameaça para um PS ainda imberbe. Soares sabia bem que os
apoios aos comunistas não vinham de Moscovo, mas de Berlim Oriental, e sabia
bem porquê. Sabia ele e sabia Willy Brandt, que alinhou no discurso porque a
ameaça global que poderia mover o mundo ocidental era a soviética, não a da Alemanha
de leste.
A outra frente desse nó
górdio era a direita militar, representada por Spínola, com um modelo de
democracia cesarista, que não era conciliável com o civilismo soarista. Spínola
caiu porque nenhum partido o apoiou e nenhum partido o apoiou porque o general
tinha ligações à caserna, mas faltava-lhe a confiança da sociedade civil
partidarizada, que tinha outro projecto de poder.
Foi por isso que Soares
teve de jogar em duas frentes, a primeira implicava impulsar a esquerda militar
e política, para aniquilar Spínola. A segunda, e uma vez acabada a ameaça
spinolista, aniquilar o PCP e a esquerda militar. É também por isso que os
ataques ao PCP se intensificam a partir do 11 de Março, quando o general ficou
fora de jogo, e que só então se dramatizou ao limite, usando o caso “Republica”
para acusar o PCP de querer dominar a imprensa. Num pico de confronto, Soares
abandonou o governo, fazendo-o cair e obrigando à constituição do V Provisório,
sem apoio de qualquer partido, exceto do PCP, ainda assim um apoio muito
tímido.
A União Soviética tinha
razões estruturais para que Portugal não valesse um recomeço da conflitualidade
com o ocidente: Depois dos eufóricos anos 50, a sua economia vinha
desacelerando-se progressivamente e todos os planos quinquenais tiveram um
crescimento inferior ao anterior. Além disso, segundo um relatório da CIA já
desclassificado, o atraso tecnológico soviético era de 4 anos nas máquinas
assistidas por computador, 7 a 8 nas mainframes
e 4 a 6 em microcomputadores. Acresce que, em toda a década de sessenta, o país
tinha sido exportador de grãos e carne, mas na seguinte tornou-se o maior
importador mundial. Em 1985 o PIB da URSS era apenas igual ao dos EUA 20 anos
antes (CIA, 1985).
Moscovo precisava duma
estratégia e tinha-a: Apostar tudo por tudo na exportação de petróleo, usando
para isso tecnologia adquirida no ocidente (MAZAT, 2013).
Mas esta dupla necessidade, importar
cada vez mais tecnologia ocidental e receber cada vez mais petrodólares,
dependia dum desanuviamento da relação geopolítica. E assim percebemos que a
política de détente era essencial
para o crescimento económico soviético, aliás, para a sobrevivência do próprio
país e do seu império, como ficou claro com a extinção da URSS em 1991, na
sequência do relançamento da guerra fria em 1979, com o consequente falhanço da
estratégia.
É por isso que, exercida
alguma pressão ocidental sobre Brejnev em Julho-Agosto de 1975, este não esperou muito para falar com
Honecker, o líder leste alemão, mandando-lhe que acabasse com todo o apoio que
estava a dar aos comunistas portugueses. O aviso foi tão explicito, que terá
dito não estar disposto a prejudicar a política de aproximação ao ocidente,
“por uma mão cheia de comunistas portugueses ansiosos” (WAGNER, 2006). A partir
de aí, Berlim Leste deixa de apoiar o PCP e é, precisamente, também a partir daí,
que o discurso de Cunhal, que se vinha radicalizando desde dezembro de 1974,
volta a moderar-se, até terminar no célebre comício do campo pequeno, em
dezembro de 1975, já no rescaldo do 25
de novembro, onde se alinhou claramente pelo modelo de democracia
representativa ocidental e atacou os extremismos revolucionários.
Há vários factores que
levam a opinião pública a acreditar numa ameaça soviética durante o período revolucionário, mas nenhum corresponde à verdade. Um, é
o discurso que praticaram todos os partidos à direita e à esquerda do PCP, acusando-o de ser um "lacaio" de Moscovo. Outro, é uma certa mania das grandezas:
Objetivamente, ter a URSS como inimiga, é um muito mais apetecível do que uma
mera RDA. Trata-se dum mito, mas é um mito que fez mover a política… lá dizia Pessoa: “O mito é o
nada que é tudo”.
Num próximo artigo,
abordarei a questão das nacionalizações que se seguiram ao 11 de março de 1975,
outro tema que também está cheio de mitos.
Luís Novais
Bibliografia:
CIA
1985 “A
Comparisation of the US and Soviet Economies: Evaluating the performance of the
soviet system” (Desclassificado em 1999). (Consulta: 20.03.2018): https://www.cia.gov/library/readingroom/docs/DOC_0000497165.pdf
MAZAT, Numa
2013 “Uma Análise estrutural da Vulnerabilidade
Externa Econômica e Geopolítica da Russia” (Tese de doutoramento). Rio de
Janeiro: UFRJ.
WAGNER, Tilo
2006 “Portugal e a RDA durante a
Revolução dos Cravos. In: Relações
Internacionais, n.º 11, Setembro, pp 79-89
quinta-feira, 29 de março de 2018
A PESTE BORBÓNICA
A monarquia borbónica está transformada numa peste borbónica,
analogia a essa doença que, noutros tempos, vitimou
muitos, sem distinção de quem era plebeu, aristocrata… ou rei.
Poucos sabem que o Peru, país onde vivo e amo como segunda pátria, esteve
para ser uma monarquia. Chegado aqui desde a Argentina em 1820 e com o apoio do
Chile, o “libertador” José de San Martin encontrou um território com tanta
diversidade e tanto confronto potencial, que considerou só com um rei se poderia
unificar. Foi a contradição entre esta perspectiva e a megalomania dum Simon
Bolivar, interessado no nunca alcançado objectivo de ser o George Washington
latino-americano, a impedir uma saída que, por esse tempo, se iniciava com
êxito no Brasil.
Em 1822, o país já tinha declarado a independência há um ano e continuava
sem forma de governo. Foi nessa altura que a “Sociedade Patriótica de Lima” organizou
um debate em torno de duas opções: Monarquia ou República?
Destacaram-se as intervenções de Ignacio Moreno e Perez Tudela. O primeiro,
partindo de Montesquieu, defendeu que o novel país tinha tantas diferenças, considerou
que o povo estava tão mal preparado para o sistema republicano, que só uma
monarquia seria viável. O segundo, Perez Tudela, baseando-se em Rousseau,
defendeu que, apesar das diferenças, havia algo que unia todos os seres humanos
e esse algo era o desejo de ser livre. Concluindo que a liberdade só se realiza
planamente numa república, defendeu esta via.
Ambos partiam de ideias incorrectas para justificar um modelo. Nem a
monarquia moderna se reveste do autoritarismo que Moreno nela encontrava e
desejava, nem, por isso mesmo, é contrária à liberdade com que Moreno a via incompatível.
Mais do que governante, um rei moderno tem razão de ser quando consegue ser
a “chave”, nome que se usa também para a peça central dum arco, aquela que
sustem as pressões de ambos os lados, mantendo unidas todas as aduelas com que se
ergue. Quando o monarca assume esse papel, tem uma razão de ser nos estados
modernos, quando não o faz, torna-se na antítese da sua função e fica apenas como mais um factor de desunião.
Para isso, o rei tem muitas vezes de anular a sua liberdade de expressão e
de acção. Mas ninguém é obrigado a sê-lo e, lá dizia a epifânia de Afonso IV
pela pena de António Ferreira: “Ninguém é menos rei do que quem tem reino”.
Dependendo dos casos, um rei pode prestar grandes serviços à república,
entendendo esta como um conjunto de cidadãos e, portanto, de seres humanos
livres. Foi graças a um modelo monárquico, que o Brasil conseguiu ter a dimensão
que tem, não se desmembrando como aconteceu à restante América latina. Foi
também graças a isso, que a sociedade espanhola ultrapassou o trauma da guerra civil,
conseguindo encontrar os pontos de união que lhe permitiram mudar de regime pacificamente,
preferindo incorporar os problemas inerentes a uma transição consensual, do que
aqueles que advêm duma revolução. Não é segredo para ninguém que Juan Carlos de
Borbón foi um fiel discípulo de Franco, chegando mesmo a governar
ditatorialmente durante a doença do caudillo em 1974. Mas até a esquerda
espanhola, até as regiões mais independentistas, viram no rei uma alternativa
ao caos. Foi por isso que a constituição de 1978 foi referendada e aprovada
sem problemas de maior, método de aprovação que em Portugal já tinha sido usado
em 1933.
O problema surge quando o rei não entende o drama de ser rei e quer sê-lo.
Quando isso acontece, passa a ser parte do problema e entra no modelo de monarquia pré-contemporânea (ou ainda contemporânea em muitos países), essa que
tinha outras justificações e outras legitimidades.
O caso catalão é um grande exemplo de que isso está a acontecer em Espanha.
Em vez de ser o garante dessa liberdade de que Rousseau falava, perdendo-se
como última instância, deixando de ser a tal “chave” que consegue suster as pressões
de ambos os lados do arco, Filipe de Borbón é, hoje, um líder de facção que
atua contra a vontade, ou maioritária ou de grande parte dum povo. É preciso
não entender o processo histórico espanhol iniciado em 1975, para nos
agarrarmos à letra duma constituição, que pode ter sentido num contexto, mas que hoje já
não tem e relativamente à qual não se mostra a mínima abertura
reformista.
O historiador Valério Arcary escreveu que as revoluções são “…uma das
formas a que as sociedades contemporâneas recorreram para resolver tarefas
históricas que permaneceram pendentes”. Segundo ele, uma revolução é uma
estratégia de mudança excepcional e que raramente é usada porque, para que
ocorra, “…é preciso que todas as outras
vias tenham sido antes bloqueadas e esgotadas”[1]
A perseguição desmedida que o reino
de Espanha está a fazer aos independentistas; a incapacidade para negociar e
para encontrar alternativas que, não necessariamente, teriam de passar pela
independência, mas que teriam que aceitá-la como possível ponto de chegada; a paranóia
de Rajoy suportada em Filipe; a total inflexibilidade contra o desejo
(maioritário ou duma grande parte) dum povo… Tudo, mas absolutamente tudo, é prenúncio
de tragédia, porque anuncia que todas as vias estão “bloqueadas e esgotadas”.
A monarquia borbónica está transformada numa peste borbónica, analogia a essa doença que, noutros tempos, vitimou muitos, sem distinção de quem era plebeu, aristocrata… ou rei.
Luís Novais
[1] Arcary, Valério, As Esquinas Perigosas da História. Situações
Revolucionárias em Perspectiva Marxista, São Paulo, Xamã, 2004, p. 27.
domingo, 12 de novembro de 2017
OCIDENTE EM CRISE
Esta é a crise que enfrentamos. Uma crise que se mascara de
várias roupagens, veste-se aqui de crise económica, ali de crise de valores,
acolá de crise social. Mas, afinal, por muitas diferentes roupas que lhe
vistamos, é uma e única: Uma crise filosófica; esses mesmos fundamentos
filosóficos que nos permitiram chegar aqui, entraram num curto-circuito que não
estamos a conseguir resolver.
Com uma clara
influência das leituras ávidas que sempre fiz dos livros de António Damásio, que
tenho em Portugal com pena de não os dispor na minha biblioteca peruana,
percebi que a característica filogenética distintiva da nossa espécie é essa capacidade única
que temos: A consciência do eu, baseada naquilo a que o próprio Damásio chama “memória
autobiográfica”.
Somos a nossa
memória e somos o personagem “eu” que, graças a ela, criamos. Todo o nosso
corpo é constante mudança, a matéria que nos compõe é renovação permanente e grande
parte dela não era “nós” há uma ou duas semanas. Mas continuamos a ser “eu” e,
ao sermos “eu”, parimos o “outro”. Cria-se uma fronteira entre o "mim" e o "não
mim", a unidade cósmica perdeu-se no meio da evolução que atingimos.
A mitologia sempre procurou
resolver este drama, umas vezes encontrando nele um castigo que temos de
padecer, para um dia, redimidos, voltarmos ao eterno absoluto. Que é o jardim
do paraíso? O que é, se não essa unidade perdida? Essa consciência de quem se
atreveu a morder o fruto do conhecimento e, mordendo-o, tomou consciência de
si. Adão cobriu-se de Eva e Eva cobriu-se de Adão, porque Adão percebeu que Adão não
é Eva e Eva percebeu que Eva não é Adão.
Noutros mitos, Prometeu
expia a culpa universal porque foi ele quem deu a luz à humanidade, a luz, eterna metáfora do conhecimento e da consciência. Essa mesma culpa que será, depois, expiada também por esse outro grande personagem histórico que é Cristo.
Noutras latitudes,
os nativos shipibas, da Amazónia, são conhecidos pelas linhas que traçam em
todos os seus utensílios, em todos os seus tecidos. Eles creem que o mundo já
foi um só todo, unido, sem separação, e essas linhas são a sua eterna procura da união perdida.
Quando entramos na
filosofia, pensemos como, na nossa civilização ocidental, o problema foi criteriosamente
resolvido por Platão. Somos unos e divididos, divididos na matéria, que é fonte de
falsidade, unos e universais nesse mundo das ideias, onde reside a verdade. E é
por isso que, para Sócrates, o conhecimento é um lento despertar, um
exercício da recordação que trazemos desse mundo que nos transcende e donde viemos. Em Fédon,
Sócrates está feliz porque vai morrer, já que, morrendo, acredita que irá regressar à eterna Verdade.
A transcendência e a Verdade universal que aí se encontra, são os dois pilares da sociedade
ocidental. Buscamos a verdade porque acreditamos na transcendência. Nenhum
sistema ocidental deixou de crer nisso, ainda que tenham variado os modelos e
as liturgias para alcançar esse eterno absoluto.
A aventura dos
sentidos que foi o renascimento e, posteriormente, o positivismo que se vai
paulatinamente afirmando no século XIX, apenas momentaneamente refreado pela
reação romântica, vão criando um problema de difícil solução. Já Descartes (1596-1650) o
escancarou, quando foi incapaz de encontrar coerente resposta para o contacto
entre res cogita e a res extensa. Esse ponto de união seria a busca
obsessiva duma geração de pós-cartesianos, que incluiu o faustoso Leibnitz (1646-1716) e o
humilde Espinoza (1632-1677). Mas eram respostas insuficientes e a quase infantil
teoria Leibnitizana seria, e bem, até ridicularizada no “Cândido” de Voltaire (1694-1778).
Não compreendemos a
importância de encontrar uma resposta, se não nos consciencializamos de que qualquer
civilização nasce a partir da solução que encontra para o problema filogenético humano, e é por isso que nenhuma se mantém
se deixa de poder suportar-se nesse pilar fundador que, no nosso caso, é precisamente aquele que Platão
cimentou: A transcendência, que reúne o que se separou, e a Verdade que daí
resulta.
Nietzche (1844-1900) diria que
o cristianismo é platonismo com Deus, e o crescimento cristão no ocidente, numa
altura em que o próprio império que o expandiu estava em risco de desagregar-se,
como viria a suceder, explica-se pelo caldo cultural em que se tornou num modelo
religioso, num modelo de vida e até num modelo de racionalidade. Porque isso é
certo: Desde os áticos que o racionalismo se impôs no ocidente e o primeiro desafio da novel
religião foi unir pontas que pudessem ligar racionalidade com religiosidade,
tarefa que se empreendeu desde São Justino (100-165), com picos sublimes, como aqueles
que atingiram Santo Agostinho (354-430) ou São Tomás de Aquino (1225-1274). Desde esses primórdios
que estão presentes os modelos platónicos, desde eses primórdios que se procura resolver os
respetivos problemas que ficaram em aberto e que se empreende uma síntese entre o mundo racional e o
religioso. Sem que os primeiros filósofos cristãos tivessem feito esse
esforço, a nova religião jamais atingiria aquele patamar que as elites exigiam
para aderirem a algo que, de contrário, seria visto como meramente plebeu e
fruto da ignorância.
Se fizermos uma
ponte entre a medieval questão dos universais, e a capacidade de Kant (1724-1804) para
resolver o paradoxo do absoluto e do contingente, percebemos que foi o professor
de Koningsberg quem deu ao século XIX as bases filosóficas essenciais para que
pudesse seguir o método científico como nova liturgia de chegada, ou de aproximação,
a uma verdade transcendente, condição sine
qua non para que o ocidente prosseguisse, sem perder o contexto dos seus
pilares fundadores.
Entretanto, muitas
coisas foram mudando e, nessa incessante busca pela transcendência, fomos
chegando a outras conclusões. A primeira, que de uma mesma realidade se podem
fazer diversas “verdades”. A perspectivação modernista, que inclui os ângulos
múltiplos de Picasso (1881-1973), ou o desdobrar de personalidades de Pessoa (1888-1935), têm esse
significado, tendo-se chegado a extremos de negação dum sentido para tudo, na
orgia dadaista, ou no refugio dentro dum mundo interior, subjetivo, na loucura
de Dali (1904-1989).
Mas a voragem não
ficava por aí. Chomsky (1928 - ) mostrou bem como as técnicas de comunicação começaram a
criar um abismo entre o real e o percepcionado, e como a manipulação da mensagem
podia criar um real manipulado. E eis que começamos a entrar de frente na
angústia pós-moderna, uma crise mental de grandes proporções, se tivermos em
conta que esta perda de convicção numa verdade que seja em si mesma, não surge
numa civilização qualquer, se não naquela que desenvolveu 2.500 anos de
pensamento tendo-a como base para a resolução do mais humano dos problemas, a
consciência de nós, com a consequente desfragmentação da unidade cósmica.
Mudo de parágrafo,
para dar às frases que se seguem o destaque que lhes quero dar, uma espécie
de perspectiva do problema da actualidade: Foi a crença na transcendência que nos
obcecou pela procura de uma verdade absoluta, e foi essa procura que nos levou
a concluir que a verdade é que a transcendência não existe e, consequentemente,
nem sequer a verdade ela mesma.
Esta é a crise que
enfrentamos. Uma crise que se mascara de várias roupagens: Veste-se aqui de
crise económica, ali de crise de valores, acolá de crise social. Mas, afinal,
por muitas diferentes roupas que lhe vistamos, é uma e única: Uma crise
filosófica; esses mesmos fundamentos filosóficos que nos permitiram chegar onde chegamos como civilização,
entraram num curto-circuito que não estamos a conseguir resolver. E é por isso que
andamos perdidos, em busca de novos absolutos, de novas morais que cada grupo
ou micro-grupo procura impor absolutamente. O politicamente correto e as vestes
que se rasgam contra aqueles que não o seguem, feminismo, nacionalismo, novas
religiões, vegetarianos, ascetas, radicais dos direitos animais, neo-espiritualidades, micro-causas, bem intencionadas, mas agigantadas como se fossem o absoluto fundamento... Tudo isto são procuras
desesperadas de novos universais, tudo são substituições de um algo que sentimos
ter perdido sem que tenhamos bem consciência de quê. Por fim, tudo nada
resolve, porque somos uma civilização de absoluto absoluto, e quem assim nasce
não se reencontra em parcelas absolutamente emparceladas.
Precisamos
urgentemente de voltar aos fundamentos. Precisamos urgentemente de sair da orgia
tecnológica em que nos afundamos, para debater o que é ser-se humano e o que é
ser-se parte duma civilização.
Terminemos com uma metáfora. Enquanto em Lisboa se organizava um evento
superficial chamado Web Summit, com todo o impacto que significativamente possa
ter, em Abrantes fazia-se um Festival de Filosofia. Quantos não souberam do
primeiro, e quantos souberam do segundo?
Luís Novais
Foto: A Expulsão do paraíso, Capela Sistina.
quinta-feira, 9 de novembro de 2017
ENSAIANDO VISÃO
O Peru é assim,. Vamos por uma serra de nós perdida, mas que sabe de si. Na esquina dum monte, encontramos uma comunidad campesina encalavrada nos maciços, onde os lençois da terra arável que é de todos, são entreges em usufruto a cada família para que dela retire sustento, mantendo-se o tê-la de todos: dos que viveram, dos que vivem e dos que viverão. Da vontade coletiva, nascem também empresas comunitárias, com decisões tomadas em assembleias de todos os comuneros. Estamos na comunidad de Pincahuacho, em Apurimac, e foi dessa vontade coletiva que nasceu este hotelzinho, com banhos termais, mantidos das águas quentes e ferrosas que brotam do coração andino.
Só quem nunca assistiu às assembleias de comuneros, amplamente participadas, onde se partilham sabedorias que ancestralmente se renovam, pode afirmar sem tremer que apenas temos essa via económica e social que, por nossa ignorância de mundo, nos acreditam ser a única... Se uns ensaiam cegueira, outros fazem visão.
“Há mais coisas no céu e na terra do que imagina a tua vã filosofia, Horácio”... viaja de sentidos abertos, Horácio, e enche-te de sentir.
domingo, 5 de novembro de 2017
CANTAM HOSANAS CELESTES PARA SI, ACENDEM FOGUEIRAS E MASTURBAM-SE NOS OUTROS
Não se entende aqueles que, por um lado, querem a emoção cristã e a razão kantiana para si, ao mesmo tempo que o ódio de Torquemada com a razão de Maquiavel, para os outros.
Tenho assistido a tantos debates contraditórios sobre a questão catalã, que sinto necessidade de fazer algumas precisões. Não há maior falta do que aquela que cometetemos contra nós mesmos, contra o nosso pensamento, contra as nossas convicções. A nossa moral é o princípio máximo da soberania do “eu” enquanto ser consciente, livre e autónomo. E é por isso que o maior dos crimes é o que cometemos contras as nossas convicções, crenças, razão e moral. Dostoievski, sempre ele, ilustrou esta ideia de forma sublime em “Crime e Castigo”.
Hoje mesmo debatia com alguém que, candidamente, defendia ter Espanha feito muito bem em impor o "Estado de Direito" aos independentistas catalães, já que tudo mais não seria do que o funcionamento da justiça. Expliquei-lhe as tristes pontuações que o reino dos Bourbons tem no que respeita à independência dos tribunais, o que aliás está bem visível na forma como o poder executivo se atreveu a antecipar a decisão dos juizes. Falei-he também no criminoso caso GAL e que, no Peru onde vivo, há um ex-presidente que está preso por uma situação semelhante, enquanto Filipe Gonzalez se passeia alegremante e tem a desfaçatez de tomar posições públicas sobre a Catalunha e outros casos.
A resposta que recebi gelou-me o sangue: “GAL – A operação Luso-Espanhola que pôs a ETA de joelhos” (não comento a referência a Portugal, que deve ser uma forma de incluir-se na gesta). A resposta foi óbvia: Quem assim pensa não pode usar argumentos de Estado de Direito contra catalãoes que têm as mão brancas, ao mesmo temp que defende ações ilegais e criminosas, que estão a milhas da margem do Estado de Direito, praticadas por governantes que ficaram com as suas tintas de sangue.
A questão é muito simples, todos precisamos de valores fundamentais e, quando não os seguimos, o primeiro crime que praticamos é contra nós própios. Não somos de ferro e falhamos, mas sei bem quais são os meus: sou emocionalmente cristão e racionalmente kantiano. Emocionalmente, jamais me renderei ao “anti-cristo” e, na razão, Maquiavel nunca conduzirá a minha moral.
São estas firmes convicções que me fazem nortear as causas que abraço. Sou pelos Direitos Humanos, sou pela “Democracia” (que é muito diferente das democracias, pelo menos de algumas) e sou pela dignidade humana, incluindo a justiça social.
Direitos Humanos, Democracia, Justiça Social, eis as sagradas constituições. Todas as que daqui não partam, são inconstitucionais. Como humanidade temos de nos pôr de acordo no essencial, e é a partir daí que podemos e devemos disfrutar das saudáveis diferenças.
No mínimo, pede-se coerência. Não se entende aqueles que, por um lado, querem a emoção cristã e a razão kantiana para si, ao mesmo tempo que pedem o ódio de Torquemada com a razão de Maquiavel, para os outros.
Estes são os piores que temos: Cantam hosanas aos céus onde sonham chegar, ao mesmo tempo que acendem fogueiras assassinas e se masturbam no outro!
Luís Novais
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