segunda-feira, 22 de agosto de 2016

“CÂNDIDO OU O OTIMISMO”. UM ENSAIO SOBRE O AUTOR E A OBRA

Foto 1:  Estátua de Voltaire, no museu do Hermitage

Publicado em 1759, “Cândido ou o otimismo” de Voltaire é uma das obras mais emblemáticas do movimento que decorreu no século XVIII e a que chamamos Iluminismo. Pelas ideias que expressa e pela crítica mordaz que faz, não podemos entendê-la sem considerarmos o contexto histórico e filosófico em que se insere.

O TEMPO
Quando a 25 de Novembro de 1555 um cansado Carlos V aceitava assinar a Paz de Augsburgo, caía por terra o sonho dum poder imperial unido pela fé católica. O império ganhara uma dimensão europeia inimaginável, incluindo Espanha, Holanda, Borgonha e grande parte da Itália. Depois duma disputa com Francisco I de França, em 1530 Carlos I passava também a ser Carlos V do Sacro Império Romano Germânico (1530). Noutras latitudes, três anos mais tarde, um dos seus súbditos, o aristocrata analfabeto e de terceira linha Francisco Pizarro, chegava ao império dos Incas, que conquistaria facilmente e de onde começa a chegar grande quantidade de ouro e prata. Além-mar a coroa imperial era agora senhora quase absoluta da América, com exceção do Brasil, que nesse tempo não tinha grande importância económica ou estratégica.

Um domínio com esta dimensão precisava de algum fator de transcendência com força para unir uma tão grande diversidade e o imperador procurou essa linha na religião católica romana. Carlos V não podia supor que esse sonho já nascera ameaçado, antes ainda da sua coroação como rei de Espanha: No dia 31 de Outubro de 1517 um ainda obscuro sacerdote alemão chamado Martin Lutero afixava 95 teses nas paredes da pequena igreja de Wittemberg, lançando a semente duma discórdia político-religiosa que tornaria impossível o futuro tal qual Carlos o imaginara.

Os príncipes alemães submetidos ao imperador viram nas teses luteranas uma oportunidade para afirmarem a sua autonomia, contra um império que pretendia unificar-se pelo fervor católico. De disputa em disputa, de guerra em guerra, em 1555 Carlos V está cercado no Sacro Império e, sem tropas fieis, é obrigado a refugiar-se em Itália, assinando de seguida o humilhante acordo de Augsburgo: Cada príncipe ficava agora livre para definir se o seu território era luterano ou católico. Derrotado no sonho, o imperador renuncia nesse mesmo ano e recolhe-se a uma vida quase monacal. Morreria três anos depois, longe da corte, da vida mundana e atacado pela gota.
Foto 2: Estátua de Martin Lutero
Com Carlos V terminava uma era e começava outra. Voltemos portanto a Lutero, um dos personagens que mais influiu no despontar dos novos tempos. O desafio à autoridade do Papa assumido na atitude do obscuro sacerdote teve um impacto viral na sociedade europeia e expandiu-se graças às novas possibilidades abertas pela imprensa. A partir desse ato de rebeldia, Lutero foi de confronto em confronto e de não-aceitação em não-aceitação das tentativas orquestradas para o trazer de volta à igreja romana. Depois de intermináveis disputas, rivalidades e uma guerra iniciada em 1618, foi no ano de 1648, dois anos depois da sua morte, que as potências europeias assinaram um novo acordo de paz, o de Westefalia, acabando com 30 anos de sangrento conflito armado e afirmando definitivamente a liberdade religiosa. Em estado de choque, a Europa vira costas à possibilidade de voltar a guerrear-se por motivos de fé e, ao mesmo tempo que nascia uma nova ordem baseada no direito dos povos a serem uma nação com o seu território, lançava-se a semente de futuros conflitos que teriam o auge no século XX.

O ABSOLUTO PERDIDO
Ao proclamaram a livre leitura e interpretação dos textos bíblicos, os protestantes acabavam com uma estabilidade milenar, baseada na aceitação do poder espiritual do Papa e no papel da Igreja como intermediaria entre o sagrado e o profano, entre Deus e o homem. A isto, acrescenta-se que, com a liberdade religiosa proclamada, abria-se uma caixa de pandora e as igrejas protestantes multiplicavam-se numa profusão de credos, de que os mais conhecidos são o luteranismo, o calvinismo e o anglicanismo, mas que tiveram muitas mais formas que surgiram ou renasceram um pouco por todo o lado: anabatistas, socinianos, entre muitos outros.

É precisamente à revolução protestante que o psicanalista e filósofo Erich Fromm (1900-1980) remontou, para nos falar no medo da liberdade, ou antes, no medo inerente que a liberdade gera. Habituados a terem pautas muito seguras, de repente foi dito aos homens que a Igreja que os tinha conduzido era má e que cada um era agora livre para ler e interpretar os textos sagrados. Não é difícil de imaginar a desorientação que isto provocou em mentes até aí habituadas a grandes e estáveis certezas, uma desorientação que foi potenciada pela profusão de ritos e fés que entretanto iam surgindo.

O “medo à liberdade” impelia à busca de novas pautas que fossem chão firme ao abalo da consciência e, se as respostas religiosas já não podiam servir, procurou-se um novo absoluto na razão e nas verdades que a razão pudesse revelar. Esse papel coube a um homem que desde a infância mostrara dotes filosóficos: René Descartes. É assente na dúvida metódica, que Descartes começará por negar tudo o que não seja racionalmente incontestável, num percurso que o levará ao célebre “cogito ergo sum” e, a partir desta constatação inicial, ao espírito (res cogita), à matéria (res extensa) e a Deus.

Quando em 1637 publica “O Discurso do Método”, estava dado o primeiro passo para construir uma renovada ordem filosófica e para dar à Europa um novo modelo de acesso à certeza e à transcendência que começara a ser abalada há precisamente 119 anos, quando Lutero afixou as referidas 95 teses na igreja de wittenberg. Graças ao pensamento cartesiano, o mundo readquiria uma ordem imutável e a contingência deixava de ser um tormento real, para ser parte dessa nova ordem racional.

Morto em 1650, os seus 53 anos de vida não foram suficientes para que conseguisse dar resposta cabal a um problema que deixou para os vindouros: Se o espírito e a matéria são duas substâncias distintas e sendo claro que interagem, onde é feita essa integração? Surpreendido pela questão, o filósofo deu uma resposta ilógica e contraditória com a sua própria filosofia. Morto e enterrado, a pergunta fica como herança à geração seguinte. Malebranche (1638-1715) responderia através duma crença na intervenção divina: A res cogita e extensa não comunicam, é Deus quem a cada ocasião produz a sensação dos atos físicos na alma e transfere os humores da alma para o físico. Espinosa (1632-1677), um judeu holandês de ascendência portuguesa iria mais longe: Não há comunicação entre uma e o outro porque não tem de haver, já que nada é individual e tudo é parte dum todo que só não conseguimos ver porque a tanto não alcança humano entendimento. A esta espécie de panteísmo unicista, responderá Leibniz (1646-1716) com um individualismo universalista: Nada é parte dum todo, tudo é único e as individualidades, as mónadas, não comunicam umas com as outras, mas têm impressa em si uma harmonia pré-estabelecida. Esta conclusão leva-o à ideia de que nada acontece por acaso, mas porque tem de acontecer segundo uma necessidade racional com origem na mente divina, uma constatação que põe em cheque a bondade de Deus: Se tudo emana de Deus e acontece porque tem de acontecer, como justificar a existência do mal? Leibniz responde com a teoria do otimismo universal: Este mudo é o melhor dos mundos possíveis e Deus escolheu criá-lo porque todos os outros seriam piores.

Na busca incessante duma essência que nos livre da contingência, parecia encontrada uma resposta para o abalo renascentista e protestante. Mas voltava a surgir um problema que entretanto tinha sido ultrapassado e que era o da liberdade humana. Ao mesmo tempo, a visão Leibniziana é uma apologia da passividade: As coisas acontecem porque têm de acontecer e, se este já é o melhor mundo possível, é uma perda de tempo pretender melhorá-lo. Como veremos, “Cândido”, a obra dum espírito profundamente livre, é uma reação a esta visão imobilizadora.

Ao mesmo tempo, uma das fações do movimento protestante redundaria no Calvinismo, uma corrente cristã fundamentalista, intolerante e opressora. Em 1531 um inofensivo e pouco canónico teólogo nascido em Espanha, Miguel Servet, publicou a nada conforme obra “Dos Erros Acerca da trindade”, onde retomava teses que contradiziam este dogma. Tanto foi quanto bastou para que Calvino o colocasse na lista negra e aproveitasse a sua passagem por Genebra, em 1553, para o mandar prender e manobrar a sua condenação à morte na fogueira. Surgido como um movimento libertador de consciências, o protestantismo começava também ele a cair numa demência intolerante.

Um pouco por todo o lado a orgia mental e criativa que fora o renascimento, começava a aprisionar-se na camisa-de-forças do cartesianismo e na nova atitude reacionária do protestantismo calvinista, seja na sua versão original, seja na presbiteriana escocesa ou na puritana inglesa. A imobilidade e as trevas ameaçavam envolver novamente a Europa, iluminando-a apenas com o intolerante fogo duma renovada inquisição.

Certamente que às monarquias absolutas, ou às sociedades conservadoras como a Genebra controlada por Juan Calvino, lhes agradaria esta visão tendente à estabilidade das convenções. A reação já se preparava e surgiu no século XVIII, a partir dos chamados iluministas, profundamente irrequietos e apologistas da transformação, de entre os quais Voltaire foi uma das figuras mais influentes.

Mas ao mesmo tempo que na Europa continental a filosofia partia do conceito e da ideia inata, na Grã-Bretanha nascia um empirismo que negava a precedência do conceito e o fazia depender da experiência. Nascemos como um papel em branco, dizia John Locke (1634-1704), é a experiência que nos faz preencher essa folha; nada existia antes disso e o espírito não é mais do que um conjunto de sensações armazenadas e organizadas pela mente.

Ao contrário do pensamento cartesiano, apriorístico, o de Locke é libertador do indivíduo: Se nada existe fora da experiência e das sensações, então não há justificação para submeter a pessoa a uma ideia que, afinal, é subjetiva e, portanto, não universal.

Partindo dos conceitos de Locke, Berkley (1685-1757) e Hume (1711-1776) viriam a ser ainda mais radicais. Se apenas existe a experiência concreta e individual, então a abstração é irreal, a substância não existe e a própria causalidade é inatingível, porque não é mais do que uma construção mental.

Enquanto no continente se desenvolvia um racionalismo de pendor dogmático e totalitário, que fundamentava a submissão individual e apelava à inação porque este era o melhor dos mundos possíveis, na ilha nascia um racionalismo centrado no indivíduo e na sua experiência única, colocando-o no altar e negando a universalidade da ideia. O modelo continental era duma rigidez que não permitia fratura ou dissidência e só podia acabar como acabou: na revolução que o decapitou, literalmente. Por outro lado, a flexibilidade do empirismo inglês era tendente ao reformismo, ao desenvolvimento na continuidade, e foi o que aconteceu por aqueles lados.

Interessa aqui referir que, num dos seus muitos exílios, Voltaire passou o período de 1726 a 1728 em Inglaterra, onde conviveu com John Locke e teve contacto com as ideias dos outros empiristas britânicos. A filosofia inglesa deu-lhe as bases para a liberdade de espírito que sentia, soltando-lhe as amarras que representava o racionalismo continental. Aderiu a ela, referiu-a em muitos dos seus escritos e, como veremos, toda a crítica que encontramos em “Cândido” contrapõe Leibniz a Locke, Berkley e Hume.

“CÂNDIDO” NO SEU CONTEXTO LITERÁRIO
O Cândido de Voltaire é alguém que, com a cândida ingenuidade que o seu nome anuncia, navegou mundos, testemunhou injustiças e assistiu a imperfeições. A sua peregrinação foi precedida pela de outro personagem, Guliver, criado pelo irlandês Jonathan Swiftt numa obra publicada em 1726 (30 anos antes de “Cândido”), que está entranhada duma profunda crítica social e que o nosso tempo tão injustamente infantilizou.

É ao longo de quatro viagens que, tal como Cândido, Guliver vai conhecendo outros povos e outras culturas. Ao contrário de Voltaire, Swift usa estas viagens, não para que o seu personagem vá constatando o mal e a desarmonia em diferentes paragens, mas para que as vá comparando com as imperfeições da sua. Duas das viagens são bem exemplificativas: Na primeira e mais famosa, aquela que faz ao país dos liliputianos, conhece uma sociedade com a pequenez da sua própria dimensão, onde as disputas e as guerras se fazem pela divisão dos cortesãos entre o partido dos que defendem que os ovos devem ser abertos pela parte elíptica, e os adeptos da redonda. São seres capazes de todas as maldades para fazer vingar a sua opiniãozinha e, inclusive, invejosos da relação entre Guliver e o rei, conspiram a sua morte, ao que o monarca, a quem o gigante sempre foi fiel, responde “magnânimo” decidindo apenas mandar cegá-lo. É impossível não ver aqui uma denúncia da falsa harmonia leibniziana e, claro, uma critica direta às cortes europeias.

Em jeito de aparte, diga-se que o português António José da Silva navegou pelas mesmas águas na sua obra mais famosa, as “Guerras de Alecrim e Manjerona”, representada pela primeira vez no Teatro do Bairro Alto em 1737. Nesta sátira, os partidos dividem-se entre os apologistas do alecrim e os partidários da manjerona, numa clara alusão à futilidade das disputas cortesãs do século XVIII.

Voltemos a Guliver. A mais significativa das viagens é talvez a última e também uma das menos divulgadas pela iconografia contemporânea: a que o herói fez à terra dos howhnhnms. Trata-se dum país povoado por seres equestres que falam e manuseiam objetos e que têm uma sociedade sem conflitos que funciona em harmonia. Um dia, o rei deste povo pede-lhe que descreva as instituições do seu país, acabando Guliver por nos confidenciar a conclusão do monarca: “Quanto às nossas instituições políticas e judiciais, eram claramente fruto da nossa falta de razão e, por consequência, de virtude, porque para governar uma criatura racional basta apenas a razão”. O rei howhnhnmiano manifesta também surpresa pela cobiça que dominava os semelhantes de Guliver, comparando-a à que demonstravam uns seres humanoides que habitavam como selvagens no seu reino, os yahoos, espécie de metáfora da nossa espécie, contando a Guliver que “em várias zonas do país há umas pedras brilhantes e multicolores pelas quais os yahoos sentem uma brutal atração” e são capazes de “cavar dias inteiros com as garras para extraí-las, levá-las e amontoá-las às escondidas nos seus covis”.

“Cândido”, “As Viagens de Guliver” ou “Guerras de Alecrim e Manjerona”, são assim obras de grande crítica social, onde a disputa entre partidos é confrontada com a vanglória e a mesquinhez. No caso das duas primeiras recorre-se a uma das tradições que está na génese da literatura ocidental: A viagem e a epifania alcançada pelo contacto com outros mundos, por norma distintamente iguais ao nosso. É disto que se trata quando Ulisses abandona a ilha de Ogígia para fugir à fatal Calipso e, depois do Senhor de Ítaca, muitos foram os heróis literários que lhe seguiram o exemplo, entre eles este nosso cândido “Cândido”, mas também já Cervantes seguira as passadas de Homero com o seu Quixote.

Não está aqui a originalidade genial de Voltaire, portanto, se não em ter usado a viagem para destruir todo um edifício filosófico em que assentavam as instituições do seu tempo. A prisão mental que significava o racionalismo de Descartes e, muito mais, a inevitabilidade Leibniziana, assim como a intolerância religiosa, eram algo que o irrequieto, contestatário e inconformado Voltaire jamais poderia aceitar.

Foto 3: Castelo de Voltaire em Fernay, onde "Cândido" foi escrito.
O LIVRO
“Cândido ou o otimismo” foi publicado em 1759. Depois duma vida de fugas e exílios, há três anos que Voltaire optara por um retiro na pacata aldeia de Fernay, na fronteira da Suíça com França. Decidiu publicar este livro com o pseudónimo de Mr le Docteur Ralph, talvez com a precaução dum homem que por duas vezes havia conhecido as masmorras da Bastilha, uma das quais por uma comédia escrita em 1717 onde ridicularizava o Duque de Orleães, então regente de França na menoridade de Luís XV.

A ação começa num ambiente campestre no então Sacro Império Romano Germânico. Cândido vivia no castelo do barão de Thunder-ten-tronk, “um dos mais poderosos senhores de Westfalia”, e os criados comentavam que seria filho da sua irmã com um aristocrata da região com quem ela “nunca se quis casar por não ter sido o tal capaz de provar mais de 71 costados, já que por ultrajes do tempo se tinha perdido o resto da sua árvore genealógica”. O nome do jovem personagem não é escolhido por acaso e nem sequer seria o de batismo: “Tinha muito bom comportamento e era por demais simples; seguramente por esta razão chamavam-lhe Cândido”.

A ingenuidade do personagem é um traço de carácter que vai estando presente ao longo de toda a obra e assenta na crítica que Voltaire pretende fazer, numa estratégia literária que vai ficando clara na forma como, nas piores situações, aceita e insiste nos princípios filosóficos do seu perceptor Pangloss, mesmo quando esses princípios são inverosímeis face à realidade dos factos.

Pangloss, que “era o oráculo da família”, é uma clara caricatura de Leibniz e da sua filosofia baseada na harmonia pré-estabelecida e na ideia de que este é o melhor dos mundos possíveis e tudo acontece porque tem de acontecer. “Está demonstrado, dizia Pangloss, que as coisas não podem ser de outra maneira diferente do que são, pois estando tudo feito para um fim, tudo é necessário para o melhor fim”. A tudo isto, “Cândido escutava atentamente e acreditava com inocência”.

Cândido nutria um amor impossível por Cunegunda, a filha do barão. Um dia, Cunegunda enquanto passeava pelo bosque viu “o doutor Pangloss que estava a dar uma lição de física experimental à camareira da baronesa”. Nesta observação, Voltaire volta à crítica da causalidade Leibniziana: “observou, sem respirar, os reiterados experimentos de que foi testemunha, e viu clara a razão suficiente do doutor, os efeitos e as causas”, com o que “pensou que ela podia ser a razão suficiente do jovem Cândido, quem por seu lado podia ser a dela”.

É depois dum beijo que Cunegunda recebe de Cândido atrás dum biombo que não impediu que o barão os visse e, ”ao ver aquela causa e aquele efeito (uma vez mais a caricatura do pensamento de Leibniz), expulsou Cândido do Castelo aos pontapés”.

É a partir desta espécie de pecado original que o inocente herói é expulso do seu bucólico paraíso e inicia uma aventura que o leva a passar pela guerra, pela Holanda, Portugal, Espanha, Buenos Aires, Paraguai, Brasil, El Dorado, Peru, Veneza e finalmente Constantinopla.

Em todas as paragens as ingenuidades de Cândido são outras tantas alfinetadas que Voltaire dá em Leibniz e no racionalismo continental. Desertando e fugindo da guerra, chega à Holanda onde é obrigado a pedir esmola para sobreviver. Depois de ser maltratado, para-se a ouvir um orador que falava acerca da caridade. “Interessai-vos por uma boa causa?”, pergunta a Cândido ao sentir-se tão atentamente observado. A resposta é uma automática associação de ideias lengalenguiada: “Não há efeito sem causa (…), tudo está necessariamente encadeado para o maior benefício” e, depois de listar as agruras por que passou, “tudo isto não podia passar-se de outra maneira”.

É também na Holanda que Cândido se reencontra com um Pangloss que as vicissitudes da guerra tinham conduzido à maior miséria. Ao inteirar-se de tragédias ocorridas no castelo do barão, “informou-se da causa e efeito, e da razão suficiente que tinha posto Pangloss em tão lastimoso estado”.

Depois do reencontro, os dois viajam a Lisboa com Santiago, um anabatista holandês que os protegeu. No fim da viagem Voltaire volta a dar uma bicada no imobilismo a-revolucionário que pressupõe a filosofia leibniziana: O barco sofre um a tempestade à entrada do Tejo, Santiago cai à água e Cândido quer ajudá-lo, “mas o filósofo Pangloss impediu-o, demonstrando que a baía de Lisboa tinha sido feita expressamente para que aquele anabatista se afogasse nela, e enquanto ele o provava a priori, o navio terminou de afundar-se”.

As tragédias prosseguem e com elas a crítica. Chegando à costa a nado, estão a entrar na cidade de Lisboa quando se dá o terramoto de 1755, “e sob as suas ruínas pereceram mais de trinta mil seres humanos de todas as idades e condições”. Perante a destruição, Pangloss perguntava-se: “Qual pode ser a razão suficiente deste fenómeno?” e, para consolar as pessoas que via chorar, dizia-lhes “que as coisas não podiam passar-se de outra maneira, nem ser melhores do que eram”.

Ainda em Lisboa e face à ruína, os “sábios daquela terra” decidiram fazer um auto de fé: “A Universidade de Coimbra decidiu que o espetáculo de algumas pessoas queimadas a fogo lento, com grande cerimónia, é um remédio infalível contra os terramotos”. Cândido e Pangloss são presos e condenados: a açoites, aquele, à forca, este. “Cândido assustado, amedrontado, louco, tremendo, dizia entre si: Se este é o melhor dos mundos imagináveis, como serão os outros?”

A partir daqui e ao longo de toda a obra, o herói vai balançando entre a fé e a descrença nos ensinamentos do seu mestre. Quando, ainda em Lisboa, reencontra Cunegunda e esta lhe conta as maltratos por que passou, exclama: “Ai! Pangloss enganou-me cruelmente ao dizer-me que tudo se passa no mundo da melhor maneira possível”. Noutra ocasião, depois de ter cometido um assassinato, desabafa: “Deus me valha! (…) Sou o homem melhor do mundo, e com este já tirei a vida a três homens, dois deles sacerdotes”. Ou depois de ser preso por canibais no Brasil: “Tudo é bom no mundo; aceito-o, mas creio que é demasiado cruel ter perdido a menina Cunegunda e em seguida ser assado”. Uma passagem mais à frente, depois de conhecer um escravo, conclui que tem de abdicar do otimismo de Pangloss. Cacambo, o seu criado, pergunta-lhe o que é isso do otimismo: “É insistir que tudo é bom quando é mau”.

À volta desta crítica ao racionalismo continental, Voltaire vai incluindo outras às instituições da época. Uma é à religião, começando pela história da aia de Cunegunda que era filha do papa Urbano X, pontífice que nunca existiu mas que cumpre o papel de denunciar a hipocrisia do clero. Mais adiante, Cacambo, espécie de Sancho Pança de Cândido, desabafa com ele quando vão a caminho do Paraguai para lutar ao lado dos jesuítas contra as tropas do rei de Espanha: “Não vejo nada tão admirável como os padres, que fazem aqui a guerra ao rei de Espanha e ao de Portugal, e na Europa os confessam: que aqui matam espanhóis, e em Madrid os enviam para o céu”. Ou então no El Dorado, espécie de sociedade ideal onde o ouro existia sem ter valor, quando um ancião lhe responde que ali todos são sacerdotes: “Não tendes frades que ensinam, disputam, governam, maquinam e fazem queimar os que não pensam como eles?”

Não devemos supor que a crítica contida nestas palavras seja exclusivamente à Igreja católica. A morte de Miguel Servet na fogueira em Genebra, acusado de heresia por Calvino em 1553, deixou uma memória perene. Acresce que, quando decide procurar uma pessoa que fosse a mais desgraçada para viajar consigo de regresso à Europa, Cândido opta por Martim, um “sábio, homem excelente”, que o clero de Suriname “perseguia sob a imputação de que era sociniano”, uma seita com origem nos inícios do século XVII e que, tal como Servet, contestava o dogma da trindade. Acresce que, de aí em diante, Martim será uma espécie de contraponto à filosofia de Pangloss: “Quando estendo o meu olhar para este globo, ou melhor dito, para este glóbulo, penso que Deus o abandonou a algum ser maléfico (…) Em suma, tanto vi e por tanto passei que me tornei maniqueísta”. Cândido pergunta-lhe “Com que fim foi criado este mundo?” “Com o fim de nos fazer sofrer”. “Crês que os gaviões sempre comeram pombos?”, pergunta-lhe Martim, “Sem dúvida”, “Pois bem (…), se os gaviões sempre tiveram o mesmo carácter, porque hão de ter os homens mudado o seu?”

Com uma crítica aguda e sempre presente, os costumes também são denunciados: “O jantar decorreu como é costume em Paris, no princípio todo silêncio, logo um rumor de palavras ininteligíveis, depois umas piadas quase todas insípidas, notícias falsas, diálogos absurdos, um pouco de política e muita maledicência”. Noutra ocasião, uma jovem conta-lhe que foi seduzida por um médico casado que matou a mulher, que logo foi acusada de ser a responsável e só não teve condenação porque se deixou seduzir pelo juiz. Pococorante, um rico nobre Veneziano, comprava quadros de Rafael, “a preço de ouro por vaidade; dizem que não têm par em Itália, mas não gosto deles”, confessava.

Também não estão ausentes desta obra as polémicas que Voltaire manteve com outro iluminista, Jean jacques Rousseau, o mesmo que defendia a bondade natural do homem e uma educação com a mínima intervenção social para não afetar o bom selvagem que há dentro de nós. Num momento da ação, Cândido é detido por canibais que preparam o festim, mas finalmente decidem não o comer ao descobrirem que não se trata dum jesuíta; o herói conclui que “afinal a natureza é boa, pois em definitivo esta gente não me devorou apenas soube com certeza que eu não era jesuíta”. Noutra passagem, ao ver nativas em atos amorosos com macacos, surpreende-se, ao que o fiel Cacambo logo lhe responde: “Que há de estranho que em algumas terras os macacos obtenham os favores das damas? Não são os macacos meio homens assim como eu sou um quarto espanhol?” E, numa clara alusão à pedagogia não interventiva de Rousseau, Cacambo conclui: ”Já vedes como o fazem as pessoas que não receberam certa educação”.

O livro começa a caminhar para o desenlace quando Cândido descobre que Pangloss se salvou da forca em Portugal e o reencontra em Veneza. Depois de tudo por que passaram, já nem o “grande filósofo” está muito certo do seu otimismo, mas insiste, “pois sou um filósofo e não me convém contradizer-me, tanto mais que Leibniz não podia enganar-se, a harmonia pré-estabelecida é o melhor do mundo”. Mais tarde, já com todos a viverem em Constantinopla, Pangloss desabafava “que a sua vida era um padecer contínuo, mas que tendo uma vez defendido que tudo ia às mil maravilhas, continuaria a defendê-lo ainda que acreditasse no contrário”.

O fim do livro talvez não possa ser entendido se não pensarmos no percurso de vida do homem que o escreveu e no momento da sua vida que o fez. “Cândido” foi escrito depois duma vida preenchida durante a qual Voltaire foi expulso duma carreira diplomática por motivos passionais em 1713, conheceu por duas vezes as masmorras da Bastilha (1717 e 1724), se refugiou em Châteney-Malabry (1718), sofreu açoites a mando dum aristocrata ciumento (1724), foi expulso de França e exilado na Grã-Bretanha, viu obras suas censuradas e proibidas, conheceu o reconhecimento seguido da expulsão em Berlim, não foi admitido a reentrar em França e esteve mal-amado na Suíça calvinista onde se refugiou. Depois de todas estas peripécias, Voltaire refugiava-se na aldeia de Fernay, onde levou uma vida de isolamento e reflexão, até ao seu regresso a Paris em 1778, no mesmo ano da sua morte. Foi na pacata e bucólica Fernay que as linhas que compõem “Cândido” foram escritas e talvez não seja difícil imaginar que, com tanto mundo trotado, com tantas agruras enfrentadas pelo seu inconformismo, talvez tivesse percebido que não conseguia mudar o mundo e que talvez a mudança coubesse apenas no pequeno contributo, no mais íntimo de cada um.

E é assim que também Cândido, Pangloss e Martin terminam a história numa quinta onde vivem e que cultivam, enquanto vão discutindo filosofia. Pangloss conclui que tudo aquilo por que passaram foi necessário para agora poderem estar ali. “Dizeis bem – respondeu Cândido -. Mas o que faz falta é cultivar a nossa horta”.

CONCLUSÃO
“Cândido ou o Otimismo” é uma obra que se insere numa tradição literária ocidental iniciada por Homero: o herói que percorre o mundo com um objetivo e, no contacto com a diferença, vai-se confrontando com as suas certezas.

Surge num contexto histórico-filosófico de aparente pacificação das grandes dúvidas e das angústias profundas que se sucederam ao desmoronamento da ordem mundial, depois duma época em que os desequilíbrios entre as potências europeias assumiram um teor religioso que terminou no conflito mais sangrento até aí conhecido, a guerra dos 30 anos (1618-1648).

No campo filosófico dois racionalismos coexistiam. O continental, originado por Descartes, com um modelo apriorístico que terminaria num otimismo universal, o de Leibniz, que tinha intrínseco um apelo ao imobilismo e à aceitação do status quo. Ao mesmo tempo, do outro lado do canal da Mancha, e também do outro lado da filosofia, Locke e os demais empiristas desenvolviam uma racionalidade centrada no individuo, na sua experiência subjetiva e na negação de qualquer verdade universal e transcendente.

Voltaire era um homem do iluminismo, além de que tinha uma personalidade irrequieta, quase hiperativa. Não podia, por isso, estar conforme à estabilidade conservadora inerente a essa ideia de que “este é o melhor dos mundos possíveis”. Mas o Voltaire que escreve "Cândido" já é um homem maduro e na sua última fase. Autoexilado num meio campestre, não lhe sobrariam dúvidas de que lhe era impossível mudar radicalmente o mundo. Talvez daí essa última satisfação, a mesma do seu personagem: Pelo menos tratemos da nossa horta, ou seja e no seu caso, escrevamos livros, criemos personagens que denunciem as contradições em que vivemos.


Luís Novais

Fotos:
Feelgoodpics

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quarta-feira, 29 de junho de 2016

DEMOCRACIA EM REGRESSÃO?


Por ser universal e implicar um processo decisório de temas concretos, não há, numa democracia de massas, mecanismo mais democrático do que o referendo para traduzir a vontade dum povo.

Na segunda conferência que publicou em “A Teoria do Todo”, Stephen Hawking conta que foi preciso esperar até 1922 para que o físico russo Alexander Friedman enunciasse pela primeira vez a possibilidade do universo estar em expansão. Trata-se duma ideia que sete anos depois viria a ser confirmada pelas observações de Hubble e que até Einstein torneou em 1915, quando enunciou a teoria da relatividade.

Partindo desta constatação, hoje em dia dada como certa, Hawking questiona se haverá um limite à expansão, se o movimento não chegará a um ponto zero, a partir do qual começará a inverter-se numa atração mútua resultante da força gravitacional.

Esta possibilidade de a uma expansão se seguir uma regressão, é um modelo interessante e conduz-nos a uma dialética que pode ser aplicada em vários sentidos. Lembrei-me disto a propósito da evolução que teve a ideia de democracia, desde que começou a ser teorizada na modernidade e se foi universalizando ao longo da contemporaneidade.

A partir do século XVIII, as ideias iluministas foram levando a que, pelo menos em teoria, na Europa se começasse a abandonar o absolutismo puro e a governar “pelo povo mas sem o povo”. Este movimento político ficou conhecido como “despotismo iluminado” e em Portugal teve o seu expoente no Marquês de Pombal. É a partir desta ideia que começa uma lenta caminhada, com avanços e retrocessos, tendente a colocar a soberania nas mãos do cidadão.  

Quando participamos dum processo eleitoral, esquecemos muitas vezes de que para aqui chegar foram precisas algumas revoluções e que o direito ao voto se libertou gradualmente de diversas restrições: Nível de riqueza, instrução, género e até raça. Foi preciso esperar até 1906 para que a Finlândia (na altura um grã-ducado) fosse o primeiro país a instituir o voto universal e o direito das mulheres a serem eleitas.

O movimento pela universalização do sufrágio expandiu-se durante o século XX. Nos Estados Unidos, só depois de 1966 acaba plenamente a restrição racial e, hoje em dia, alguns grupos sociais ainda sofrem limitações. Duma maneira geral, já ninguém se atreve a considerar que um país sem voto universal seja uma democracia.

 Ao mesmo tempo, foi crescendo o direito de participação, através de mecanismos que servem de contraponto às limitações que o sistema representativo impõe ao pleno exercício da cidadania. No âmbito dessas restrições, por exemplo em Portugal, fiz algumas contas (ver: “Não foi eleito coisíssima nenhuma”) e concluí que os deputados do arco governativo são escolhidos por apenas 14.000 pessoas (o alargamento atual deste arco alterou o número, ainda que não significativamente).

Alguns dos contrapontos a esta limitação são elitistas: Conselhos de concertação social, audição de associações corporativas, de sindicatos etc. Outras são populares e, entre estas, o referendo é talvez o único instrumento efetivo. Por ser universal e implicar um processo decisório de temas concretos, não há, numa democracia de massas, mecanismo mais democrático do que o referendo para traduzir a vontade dum povo.

Isto leva-me de volta a Stephen Hawking e ao início deste artigo. Recentemente tivemos um referendo no Reino Unido de onde resultou a decisão de saída da União Europeia. Este resultado contrariou a visão e o interesse duma elite alargada que teme abalos potencialmente conducentes a um vazio que, para uns poucos, lhes ameaça a hegemonia política e social e, para a maioria, apenas o equilíbrio precário em que já se encontram. Depois disso, levantaram-se inúmeras vozes contra a real representatividade do voto expresso, sobraram as citações duma frase contra a democracia atribuída a Churchill e, na imprensa considerada séria e de regime, abundam artigos sobre como dar a volta a este resultado (ver por exemplo How to Stop Brexit no The Guardian), ao mesmo tempo que saem caricaturas sobre uma putativa ignorância e mudança de opinião dos eleitores.

Vendo estas reações, pergunto-me se, no percurso de expansão que vem do século XVIII, a Democracia não terá atingido o seu ponto máximo e se não estaremos a entrar num mecanismo de regressão. Se bem me lembro, o despotismo iluminado era, por definição, a ideia de que uma elite ilustrada saberia interpretar melhor do que o povo aquilo que ao povo convinha.

E no que respeita às conferências de Hawking, fico-me por esta. A seguinte é sobre buracos negros: Aqueles que têm uma atração tão grande que destroem tudo aquilo que se lhes aproxima.



Luís Novais


Foto: Geralt

sexta-feira, 24 de junho de 2016

BREXIT, PORTUGAL E EUROPA EM OITO MITOS


No que me toca, como português que sou, espero que o meu país encontre o seu rumo e o seu espaço. Longe das imposições, longe dos medos, longe daqueles que querem que tudo se mantenha porque estão no grupo dos que ganham com isso.

O resultado do referendo no reino Unido criou uma onda de choque e pavor que é natural. Somos humanos, temos medo do desconhecido e, segundo algumas correntes da psicanálise que subscrevo filosoficamente, temos até medo da responsabilidade inerente à liberdade. Por muito que critiquemos a imposição, no momento crucial em que nos poderíamos libertar, convertemo-nos em defensores da imposição, por medo da necessidade de optar, por horror à alternativa de diluvianos vazios que nos são transmitidos por campanhas de comunicação bem orquestradas.

Desde há anos que tenho uma posição crítica da União Europeia e da nossa permanência, o primeiro artigo que sobre isso escrevi data de 2009. Não vai ser agora, que os pilares foram abalados, que vou mudar uma posição que é filosófica, antropológica e económica.

Aqueles que se horrorizaram com o Brexit usam vários argumentos, que tenho procurado elencar. Este texto é o meu contributo para sossegar os mais agitados e para responder a esses considerandos. Faço-o abordando oito mitos: três sobre a situação do Reino Unido, quatro sobre Portugal e um sobre a institucionalidade da UE

Primeiro mito: “Foram extremistas de ultradireita que votaram pela saída”
Este argumento é bem típico da postura sobranceira que as cabeças da UE têm adotado. Equivale àqueles fantasmas de que os comunistas comem criancinhas ao pequeno-almoço, ou que os apoiantes dos partidos da direita democrática são um bando de fascistas. Trata-se de rótulos fáceis de propagar, mas que não resistem a uma análise minimamente séria.

Foram 52% os britânicos que decidiram que é melhor estarem fora da UE. Pode ter havido uma convergência com bolsas de radicalismo, mas não posso aceitar que um número tão elevado da população britânica seja radical de ultra-direita. Ainda assim, mesmo que fosse, paciência, é a Democracia.

Segundo mito: Os ingleses estão convencidos de que ainda são um império
É curioso que os mesmos que tal afirmam, acham que o povo não tem o direito de decidir e pretenderiam, talvez, impor-lhe uma permanência que ele mesmo não quer. Atitude mais imperialista e colonial não poderia haver.

Terceiro mito: O Reino Unido vai desintegrar-se
Para começar, tenho dúvidas de que isso suceda. Quando passe a paixão inicial, escoceses e irlandeses irão pensar duas vezes antes de se meterem numa União que é cada vez mais frágil. De qualquer forma, se assim decidirem, será a decisão soberana dum povo. Mais uma vez, é a Democracia. Não percebo por que motivo há em Portugal tanta gente preocupada com a coesão do reino de Sua Majestade. Não há que sofrer dores de parto alheias, para dores bastam as nossas.

Entrando agora nos mitos que se referem a Portugal, também há várias posições, que tenho vindo a colecionar e que em seguida tratarei de comentar.

Quarto mito: Se não estivéssemos na UE seriamos um país atrasado.
Este argumento é um valor quase seguro para quem o apresenta: como essa foi a via, não podemos comparar com o contrário. De qualquer forma não acredito que assim seja. Primeiro porque estamos na UE e longe de ser um país sustentável. O mundo está cheio de exemplos de pequenas nações, sem recursos naturais e que são casos de sucesso económico. Para não falar do estafado exemplo da Suiça, temos a Islândia, a Suécia, a Dinamarca, Áustria, Mónaco,  Finlandia, Nova Zelândia, Irlanda…

Portugal é um país com potencialidades culturais, económicas e geográficas que estão por explorar. Fizemo-nos atlânticos e das três vezes que a nossa soberania esteve em causa, foi porque nos voltamos para o continente e não para o mar. Teremos que esquecer a muleta europeia, que tem um custo elevadíssimo, e avançar num caminho, que pode ser duro, mas é nosso.

Quinto mito: É graças à Europa que temos infraestruturas.
Este argumento tem a mesma falácia do anterior: é difícil comparar uma via que se seguiu, com outra que é hipotética. Primeiro, as infraestruturas são resultado do desenvolvimento económico, e isso conduz-nos ao ponto anterior. Segundo, estamos hoje muito infraestruturados, eu diria que excessivamente infraestruturados, e para quê? O excesso de recursos é inimigo da sua boa aplicação e isso foi o que nos aconteceu. E é bom lembrar que grande parte da excessiva dívida pública se deve à necessidade de colocar uma contrapartida nacional em todos os projetos financiados. Sabemos bem quem se beneficiou realmente com isso.

Sabemos também da corrupção que andou em torno de todo este dinheiro. Sabemos casos de empresas que receberam apoios que foram aparentemente para um fim, mas que na realidade foram parar a outros bolsos. Sabemos de equipamentos que, da indústria à agricultura, foram adquiridos sem que fossem realmente necessário. Quem anda pelos campos, conhece dezenas de histórias de tratores comprados com projetos feitos pelos próprios vendedores e que nunca tiveram sequer 10% de utilização.

E toda esta parafernália de máquinas foi comprado onde? Elace… procure-se o rastro ao dinheiro e descobre-se facilmente que ele é como o bom filho: à casa retornou.

Sexto mito: Graças à Europa temos o euro e uma economia desenvolvida
Esta é outra mentira, primeiro porque a nossa economia não está desenvolvida, segundo porque aquilo que conseguimos avançar não foi graças à Europa, mas apesar da Europa. A Europa antes tratou de destruir o nosso setor produtivo para vender tecnologia à China.

O acesso ao mercado Europeu estaria garantido de qualquer forma e sem as consequências nefastas das imposições feitas sobre uma economia que não estava preparada para um embate tão brusco. Hoje em dia qualquer país em vias de desenvolvimento tem um tratado comercial com a União Europeia que lhe garante um acesso praticamente livre a este mercado. Por maioria de razão, há muito tempo que nós estaríamos nesta situação, com a vantagem de que poderíamos ter uma evolução gradual, em vez da terapia de choque que destruiu empresas, criou desemprego e obrigou a um endividamento tão grande que se tornou insustentável.

No setor privado, a necessidade de competir subitamente num mercado que estava mais adiantado, implicou um esforço de endividamento brutal num setor empresarial que tinha pouca capitalização. Numa edição de 2014 The Economist denunciou isto mesmo: “Em Portugal um quatro das empresas cotadas tem dívidas superiores a cinco vezes os seus resultados antes de juros, impostos, amortizações e depreciações (EBITDA)” (ver artigo). Esta situação está bem documentada nos dados referentes a Abril recentemente divulgados pelo Banco de Portugal: O endividamento do setor não financeiro (Estado, famílias e empresas não financeiras) é de 709 mil milhões de euros, ou seja, quase quatro vezes o PIB. Se calcularmos uma taxa de juro média de 5%, isso significa que a nossa economia tem de pagar por este financiamento 35.5 mil milhões de euros, ou seja, 20% do PIB só para juros! Há economia capaz de acrescentar esse valor? A nossa de certeza que não.

Quem beneficiou com tudo isto? Vale a pena ler um artigo de Pedro Tadeus no Diário de Notícias de 14 de Junho: Entre 2008 e 2010 a banca nacional acumulava imparidades de 30 a 40 mil milhões de euros, ao mesmo tempo que distribuiu 2 mi milhões de dividendos aos acionistas… e assim se encontra o rasto aos 70.000 milhões que saíram do país diretamente para paraísos fiscais (ver artigo).

Foi a este endividamento que a terapia de choque da União Europeia, primeiro, e o euro, depois, nos conduziram: fomos obrigados a competir mais e mais rapidamente do que a nossa capacidade.

Se hoje estamos nesta situação, à União Europeia o devemos. Euro, tu és euro e sobre ti destruiremos a tua economia, mais bem deveria ter dito António Guterres naquele Conselho da Europa de 1995.

Sétimo mito: Não poderemos emigrar
Mais do que podemos, a situação a que nos trouxeram obrigou-nos. É absolutamente falso que, estando fora da União Europeia, os portugueses fossem impedidos de emigrar para países comunitários. Primeiro porque sempre o fizeram, mesmo quando o Estado português combatia esse fenómeno com todos os aparelhos repressivos que possuía. Depois, porque a emigração não é uma dádiva mas uma necessidade de quem recebe. Seja pela via política, seja pela incapacidade do mercado de trabalho, nenhum país aceita emigrantes se não lhe fazem falta,.

Por último, há argumentos que tratam de defender a própria União Europeia, respondendo às críticas que são feitas ao modelo institucional europeu. Isso leva-no ao último mito.

Oitavo mito: A União Europeia é democrática
Os que assim o dizem, refugiam-se no argumento da democracia indireta: nós elegemos parlamentos, que elegem governos, que elegem ou constituem os órgãos comunitários. No meio disto tudo, temos um Parlamento Europeu, esse sim diretamente eleito e com legitimidade democrática, mas que pouco mais é do que uma figura de retórica sem poder real.

Pelo caminho estes órgãos, distantes do soberano, definem diretivas que têm mais força do que as leis nacionais. Ou seja: o menos (ou nada) democrático obriga ao mais democrático.

Para cúmulo, as verdadeiras decisões não são tomadas nos órgãos institucionais, mas em organizações informais que não têm cabimento nos tratados. Todos estamos lembrados das recentes declarações de Junkers, que afirmou ser o Eurogrupo um órgão informal e que pode incluir e excluir quem entenda. Apenas para dar um exemplo, este é o mesmo Junkers que em Setembro de 2012 afirmava que “O Eurogrupo imporá exigências realmente duras a Espanha em matéria de ajustes orçamentais e reformas” (ver aqui). Conclusão: É num organismo que nem existe que se tomam decisões de primeira importância e se pretende impor medidas aos povos da Europa.

E temos, assim, oito mitos com que nos pretendem convencer a aceitar o status quo burocratico-europeu. São argumentos frágeis e nada honestos. No que me toca, como português que sou, espero que o meu país encontre o seu rumo e o seu espaço. Longe das imposições, longe dos medos, longe daqueles que querem que tudo se mantenha porque estão no grupo dos que ganham com isso. Portugal tem quase 900 anos de história e esse é o nosso principal ativo. Há anos que defendo um país Atlântico, integrado num espaço linguístico, que possa ser ponte entre essa zona e a Europa continental. Nada me move contra uma União Europeia que seja democrática e que respeite os povos. O que não posso aceitar é um modelo imposto e que tem uma agenda ultra-liberal que não é sufragada e que se rege por interesses nacionais distintos dos nossos. Uma União Europeia livre até nos convém e é um fator de estabilização da câmara de horrores que foi a história da Europa central. Defendo que Portugal deveria estar fora dela, mas com ela estabelecendo pontes.


Luís Novais

Foto: Moritz320



BREXIT: UM ABALO NA OLIGARQUIA EUROPEIA


O que está em causa é a Democracia e, por falar em Democracia, espero que os portugueses não sejam menos do que os britânicos. Fico à espera dum referendo onde possa ter o direito de também dizer Não.

Hoje, um povo livre votou sem medo pela saída duma organização que não é democrática. Esta vitória da Democracia sobre a oligarquia que tem nas mãos uma equipa de burocratas seria, por si, motivo suficiente para festejarmos.

Um dos exemplos que os britânicos acabam de dar, foi o de que se pode votar em liberdade e que o medo é o principal inimigo da Democracia. Durante esta campanha foi usada toda a força de falsos argumentos destinados a amedrontar os eleitores: Que seria o descalabro económico, que haveria desemprego, que as empresas teriam de sair do país… houve até multinacionais que publicaram anúncios nos jornais apelando ao remain. A tudo isto, o povo respondeu claramente e sem se deixar condicionar. Trata-se da Democracia em vigor mais antiga do mundo, e hoje ficou bem demonstrado porquê.

As razões deste resultado podem ser vistas por duas vias: Institucional, uma, social, a outra.

Institucionalmente, os britânicos disseram claramente que não mais permitirão que a sua soberania seja transferida para as mãos de burocratas não eleitos que impõe medidas subtraídas ao sufrágio popular. Façam-se as campanhas que se façam, a União Europeia tal qual está é um entrave à democracia na Europa. A inevitabilidade de passarmos para a legislação nacional as diretivas comunitárias é um dos argumentos mais usados para nos condicionar a opções que não votamos.

Socialmente, não há como não considerar que a globalização ultra-liberal levou à maior concentração de riqueza da contemporaneidade, destruiu a viabilidade da pequena e média iniciativa e está a aniquilar duzentos anos de conquistas sociais que transformaram os proletários da Revolução Industrial na classe média com formação, direitos e garantias que ainda vamos tendo.

Por falta de democraticidade a União Europeia foi presa fácil dessa visão económica e social que quer impor ao mundo uma globalização desregulada e sem direitos sociais. Hoje, 40% das vendas mundiais são controladas por apenas 147 oligopólios (Pode ler: “Setor Público e Oligopólio na Economia Global”). Em 2015 o 1% de mais ricos do mundo tinha tanto como os restantes 99% e, até entre estes, assistimos a uma concentração crescente: Um reduzido número de 65 pessoas tem tanto como a metade mais pobre do mundo; em 2010 eram 388 (mais informação aqui).

Acredito que a votação britânica foi também uma resposta desta classe média em erosão contra uma organização superestrutural que tem imposto uma série de medidas que vão ao encontro desta visão financista e desregulada da economia, a mesma que levou a tamanha concentração de recursos e que nos conduziu à crise mundial que já  vivemos e levará à que se avizinha.

Em Portugal temos um bom exemplo de como o desaparecimento da classe média e o empobrecimento generalizado da população arrasta consigo a agonia dum país e, num prazo que já foi maior, pode levar ao seu desaparecimento efetivo.

Por motivos que se prendem com as raízes de Portugal e que já aqui expliquei, não defendo a nossa permanência. Contudo, no caso da Europa central, parece-me que a União Europeia, uma verdadeira União, é útil e pode resolver uma série de problemas que a História conhece. Independentemente de continuar a defender a saída de Portugal, espero que a decisão corajosa que tomaram os eleitores do Reino Unido ensine aos burocratas que têm de ceder o poder ao povo.

O que está em causa é a Democracia e, por falar em Democracia, espero que os portugueses não sejam menos do que os britânicos. Fico à espera dum referendo onde possa ter o direito de também dizer Não.


Luís Novais


Foto: Moritz320

sexta-feira, 17 de junho de 2016

SOBRE O “O MEL E AS VESPAS” DE FERNANDO ÉVORA

Este livro é um retrato sem dó nem piedade daquilo que nos tornamos, do como e porquê de aqui termos chegado.

Depois de nos brindar com “No País da Porcas Saras” e “Amor e Liberdade de Germana Pata Roxa”, em “O Mel e as Vespas” Fernando Évora oferece-nos a obra-prima que os outros dois livros anunciavam.

Trata-se aparente da história de duas famílias, os Valente e os Caça Lobos, mas o que está em confronto no desfilar de gerações é muito mais do que uma série de narrativas; é, mesmo, muito mais do que as aventuras e desventuras de Portugal desde o século XIX até aos nossos dias. Nestas páginas não é Portugal, mas todo um ocidente que se confronta: uma cultura de gradual perda de identidade, de descaraterização, de coisificação da pessoa.

Cheios de defeitos, capazes de matar, amantes e violentos. Padres que fazem filhos em mulheres casadas e homens que disparam quando se descobrem enganados. Arraiais de porrada e bebedeiras de meia-noite. Estes personagens vivem intensamente, são pessoas capazes de obras aparentemente inúteis, obras que constroem apenas porque sim, apenas porque são importantes para que o construtor seja. É o caso dessa aparentemente escusada torre de Cancino, contruída em tempos do Remexido por um Ovídio, o mesmo que “gastou neste projeto grande parte das suas poupanças”. E porquê? Ilusoriamente para avisar os habitantes da aldeia sempre que uma ameaça se aproximasse, mas onde se testemunha, isso sim, uma participação do indivíduo na comunidade, uma torre que, sendo materialmente inservível, perpetua o construtor como tendo sido naquele espaço e naquele tempo. E eis que, numa metáfora aparentemente tão simples, temos toda a carga conceptual do ser sobre o ter.

Nos nossos dias, Ovídio teria sido um louco, um esbanjador da acumulação familiar. Mas desde Ovídio até hoje há todo um devir de que os personagens desta obra são testemunhas e atores. Aliás, o próprio nome do “louco” construtor apela a um tempo remoto, mais remoto do que o século XIX em que terá vivido. O seu pai chamou-se Rómulo, tal como o fundador de Roma, e os seus filhos foram “Pompeu, nome do general que desafiou o poder de Júlio César", e Lucrécia a filha, "bela dama romana que pôs fim ao domínio etrusco na cidade do Tibre”. É como se Ovídio já nem do século XIX em que viveu desse fé, um século já marcado por um capitalismo sem regra e descaracterizador. Não será por acaso que os habitantes da aldeia olhavam a sua família “de soslaio, considerada gente meia louca, pelo menos desde a obra falhada” (a tal torre).

Todos estes Ovídios, Pompeus e seus descendentes, vão acompanhando a marcha do tempo. O primeiro a descrer do passado e a capitular foi seu neto Augusto, também ele de nome imperial, filho de Pompeu. Augusto deixa o ofício tradicional de dar caça aos lobos e compra umas terras sobre as quais “corriam lendas, afiançavam-se estranhas aparições e teimavam-se velhas superstições”. Mas este Augusto “era homem moderno”, “conhecedor de ciência”, “não estava para dar ouvidos a crendices”. Desafiando mentalidades e tradições decidiu dedicar-se à monocultura de papoilas opiáceas que pretendia exportar para Inglaterra.

O negócio não funcionou e nesta atitude de desafio mercantilista ao passado há uma espécie de “pecado original”, uma culpa que desencadeia todas as tragédias seguintes.

Quando leio este Mel e estas Vespas, lembro-me das palavras que Erich Fromm escreveu em 1968, em “A Revolução da Esperança”, o mesmo livro que tem um sugestivo subtítulo: “Rumo a uma tecnologia humanizada”. “A nova norma ética”, dizia Fromm, “é o progresso, entendido basicamente como progresso económico, aumento da produção, criação dum sistema de produção cada vez mais eficiente”. E adiante conclui: “O homem moderno tem tudo (…) mas nada é”.

Fromm escreveu estas palavras nos anos sessenta, tentando fazer uma prospetiva do rumo a que o capitalismo desenfreado já levava e mais levaria o Ocidente. Não se enganou, como já sabemos. Este mesmo rumo, desde comunidades que eram e agora aparentemente têm, consegue-se encontrar em “O Mel e as Vespas”. O enredo vai desfilando até que Fernando Évora chega ao nosso tempo e, neste tempo que é nosso, encontra o homem-nada, sem empatia, um ser transformado em coisa que já não consegue dialogar, sem identidade, sem força sequer para estabelecer relações. Mas há esperança, uma esperança que surge do encontro de si que o personagem narrador descobre na memória do que foi.

Esta é uma obra de cronologia variável. Começa num hoje inconsciente, viaja ao tempo do mel e regressa ao triunfo das vespas, outra vez hoje, mas com consciência. Ao escrevê-la, Fernando Évora afirma-se como um escritor que entende o drama da contemporaneidade, um escritor capaz de nos pôr o dedo na ferida, escarafunchá-la, fazer-nos sofrer pelo que temos e pelo que não somos. Este livro é um retrato sem dó nem piedade daquilo que nos tornamos, do como e porquê de aqui termos chegado.

A consciência sentida é talvez o único caminho para a reforma positiva. Ler “O Mel e as Vespas” é sentir e consciencializar. Por isso, esta obra é transformação e, sendo-o, é literatura em estado puro.


Luís Novais

segunda-feira, 13 de junho de 2016

APROPÓSITO DO CRIME DE ORLANDO. Combate à violência e regresso à comunidade


As forças centrípetas da globalização estarão, talvez, a intensificar a quebra de laços sociais que já conhecíamos das grandes metrópoles. Os primeiros de entre esses laços destruídos terão sido os mais indefesos: Aqueles que têm origem em comunidades de sentimentos positivos.

O crime de Orlando foi trágico, macabro e teve causas que chocam com as mais profundas convicções daqueles que defendemos uma sociedade aberta e tolerante. Não é isolado e não acontece por acaso.

O Gun Violence Archive é uma ONG criada em 2013 e dedica-se a construir uma base de dados pública sobre a violência com armas de fogo nos Estados Unidos. De acordo com os dados recolhidos, só no que vai deste ano, o país já somou 23.317 incidentes, 5.967 mortos, 12.252 feridos. Entre mortos e feridos, 257 das vítimas foram crianças com menos de 11 anos e 1.276 adolescentes até aos 17. Os assassínios em série foram 136, com um total de 72 mortos e 140 feridos, incluindo os 51 e 49 de Orlando, respetivamente.

Entretanto, em Paris decorre o campeonato europeu de futebol. O que deveria ser uma festa transformou-se numa batalha campal, com enfrentamentos entre adeptos e o país em estado de sítio. Por outro lado, na Europa têm-se sucedido os atentados dum terrorismo quase self-service que responde às mais diversas inquietudes.

Crueldade gratuita, intolerância, ódio. O certo é que a violência cidadã está a aumentar para níveis tão óbvios que dispensam comprovação estatística. Que se passa com o nosso tempo?

Nos últimos anos de vida, Freud dedicou-se a contradizer grande parte daquilo que anteriormente tinha defendido. Tudo começou com a publicação de “Para além do princípio do prazer” (1920), onde já falava num hipotético “instinto de morte” que os seus seguidores imediatos não conseguiram absorver. Em todos os seres vivos, em todas as células, haveria um instinto mortal que combatia o da vida. Serviria para assegurar a sobrevivência e estava orientado ao meio externo, exceto quando as condições se tornavam tão difíceis de ultrapassar que se voltava contra o próprio. Tivesse o pai da psicanálise vivido mais duas décadas e talvez revolucionasse a sua própria teoria. Como isso não era possível, tivemos de esperar por Erich Fromm para que se deslindassem duas tendências do eu face ao meio: Ou era que o mundo é tão difícil e imprevisível que a única via percecionada para sobreviver é a da submissão absoluta, um comportamento que no extremo levava ao masoquismo; ou era que, pelas mesmas razões, há que controlá-lo e moldá-lo a nós, o que na sua radicalidade conduz ao sadismo.

Os sociólogos também pegaram no tema. Durkheim viu na origem do suicido quatro causas, duas das quais relacionadas com a falta de vínculos e conexões sociais.

Quando o indivíduo tem uma total incapacidade de integrar-se no meio externo, talvez se confronte com duas opções. A primeira, uma sensação de isolamento e impotência tão grande, que leva a atos que são simultaneamente de agressão e de suicido. A segunda, conduz à necessidade de encontrar um grupo, uma ideia nuclear, onde possa integrar-se e ter a solidariedade que, de outra forma, sente impossível. Esta integração revoluciona os conceitos de bem e mal e não será por acaso que grande parte dos perpetradores de crimes de intolerância foram eles próprios pessoas com um passado de excessos e de autodestruição, que encontraram no fundamentalismo um sublime que lhes deu uma justificação e lhes reorientou a vida. São os casos de Hasna Ait, que se imolou em Paris, ou de Muhammad Youssef, que em 2015 matou 5 marines em instalações militares norte-americanas no Tennessee.

Qual é a solução? Já Freud a procurou na célebre carta “O Porquê da Guerra” (1933) com que respondeu a outra de Einstein: “Tudo o que favoreça a formação de vínculos emocionais entre os homens deverá operar contra a guerra”. E, mais adiante, defende que aquilo que faça “os homens compartirem interesses importantes, produz esta comunidade de sentimento, estas identificações. E é nelas que a estrutura da sociedade humana em grande parte se baseia”.

As forças centrípetas da globalização estarão, talvez, a intensificar a quebra de laços sociais que já conhecíamos das grandes metrópoles. Os primeiros de entre esses laços destruídos terão sido os mais indefesos: Aqueles que têm origem em comunidades de sentimentos positivos. Abriu-se o caminho a outras, que se entrincheiram na repulsa e que recorrem à violência para sobreviverem.

Num mundo perdido em si mesmo, onde o ódio fortuito desponta, este será o momento para voltarmos a pensar e agir comunitariamente, incentivando laços e solidariedades onde o ser e a subjetividade se possam enquadrar de forma positiva e natural.


Luís Novais

Foto: Saed






terça-feira, 3 de maio de 2016

Eu, VENTO E TEMPO





A tudo que cheguei
não chegado arribei.
Mal chegador me vi,
já partido fui.

Sou tempo,
ou sem tempo,
eu.
Eterno viajante, ele;
em eterna debanda, eu

Sou o vento
ou com o vento, eu.
Nunca chegado, ele.

Sempre partido, eu.


Luís Novais