quarta-feira, 8 de maio de 2019

DUMA CASA DE RAMIRES ATÉ UM CERCO A LISBOA

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Curiosos, os caminhos das releituras e das nossas evoluções analíticas. Li "História do Cerco de Lisboa" quando Saramago o publicou em 1989; já então e há muito lera também "A Ilustre Casa de Ramires", de Eça. Nesse tempo não estabeleci qualquer ponte entre as duas obras, mas agora e relendo o "Cerco" parece-me impossível entendê-lo, sem leitura paralela do segundo. Até o nome dos personagens está cheio de reminiscencias: Ramires de apelido, o aristocrata que é Portugal, Raimundo de nome próprio, o plebeu revisor, Portugal não menos. Ambos escrevendo e procurando no passado, o que foram, à força da memória, ou o que poderiam ter sido, à duma simples palavra "não". São dois portugais, frente a frente, cada um do seu tempo: O primeiro levantando-se dum ultimatum e duma bancarrota, o segundo acabado de receber asfixiante abraço europeu. 

E se o texto da História seguisse o da história? E se fosse não onde foi sim?



segunda-feira, 8 de abril de 2019

"FERNANDO PESSOA Y EL MITO EN LA CULTURA PORTUGUESA"



Comparto el texto de la conferencia que di el 26 de julio del 2018 en la Feria Internacional del Libro de Lima. Organizada por la embajada de Portugal y por la Asociación de Profesores de Lengua Portuguesa en Perú.

"FERNANDO PESSOA Y EL MITO EN LA CULTURA PORTUGUESA"
(texto em castelhano)

Bajar aquí el PDF - descarregar aqui o PDF

sábado, 30 de março de 2019

REVOLUÇÕES GEMINADAS?




Tese que defendi na Universidade do Minho (Instituto de Ciências Sociais) no passado dia 7 de março de 2019.
Para quem esteja interessado no tema, abordo o impacto internacional do 25 de Abril, enfocando-me depois no caso peruano, nesse momento a viver também um período revolucionário de origem militar: o Gobierno Revolucionario de la Fuerza Armada.
Agradeço a todos os que me apoiaram neste trabalho, particularmente à minha família e à orientadora, Doutora Fátima Ferreira. Sem esse apoio, o resultado não teria sido possível.


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

DA RECENTE POLÉMICA SOBRE PESSOA

Pessoa era isso mesmo, uma pessoa, naturalmente com todos os constrangimentos inerentes à condição humana, à qual nem sequer os grandes génios escapam. Não escreveu para agradar a nenhum tipo de pós-modernos ou a correntes de pensamento mais ou menos dominantes na actualidade. Nem sequer quis ser popular e por isso não foi pelo caminho da afirmação fácil e com muito potencial replicador. Foi genial, mas foi um homem, com defeitos e muitas virtudes intelectuais e literárias. Nesta óbvia humanidade, porém, não é legítimo atribuir-lhe pensamentos que, claramente, não teve e, entre esses, seria ridículo se não fosse desconhecimento da sua obra, dizê-lo defensor da escravatura e, pior ainda, seu “acérrimo defensor”.


Depois da polémica em torno de Padre António Vieira, figura grande das nossas letras, humanista e defensor dos grupos mais desprotegidos da sociedade do seu tempo, acusado recentemente de esclavagista, surpreendemo-nos agora com idêntica controvérsia em torno de Fernando Pessoa.

Segundo um jornal cabo-verdiano, logo secundado por Luzia Moniz, presidente da Plataforma para o Desenvolvimento da Mulher Africana, Pessoa teria tido, não só afirmações racistas como, até, defensoras da escravatura.

Uma acusação destas, sobre quem deixou tantos testemunhos do seu pensamento, não pode ser feita de forma ligeira. Tenho muito respeito pelo ativismo e reconheço o marcante papel de defensores dos direitos humanos, como Mamadou Ba, com o qual estive em desacordo quando lançou a polémica sobre o padre António Vieira. Não conheço o trabalho de Luzia Moniz nem a sua plataforma, mas estou certo de que também desenvolverá um trabalho meritório na defesa dos direitos da mulher, num continente marcado pelo machismo mais primário.

Mas nestes casos, um como a outra, entraram claramente num campo que não dominam, ou dominam apenas superficialmente. Não me vou agora referir ao caso do pregador seiscentista, mas ao de Pessoa.

Segundo o Diário de Notícias, a activista africana terá dito: “Não sei se Pessoa é ou não bom poeta. Isso pouco interessa para o caso. A minha inquietação é o uso da CPLP para branquear o pensamento dum acérrimo defensor do mais hediondo crime contra a humanidade: A escravatura”. Realce-se a franqueza: Luzia Moniz reconhece não conhecer a obra, a ponto de não saber sequer se é ou não um bom poeta, mas logo a seguir afirma-o como “acérrimo defensor” da escravatura. Ora, dum acérrimo espera-se quase uma fixação, uma afirmação contínua e continuada. A mim, por exemplo, que sou um acérrimo anti-racista e defensor dos Direitos Humanos, não é difícil encontrar constantes intervenções relativas as estes dois temas, bastando para isso dar uma espreitadela à minha obra publicada e às redes sociais em que participo. Um “acérrimo” é isso mesmo.

Ora, se consultarmos o arquivo de Fernando Pessoa, uma base de dados dirigida por Leonor Amaral, contendo toda ou quase toda a obra de Pessoa, e fazendo aí uma pesquisa pela palavra “escravatura”, encontramo-la em onze textos, divididos pelos seguintes heterónimos: dois de António Mora, dois de Álvaro de Campos, um de Bernardo Soares, um de Raphael Baldaia e cinco do próprio Pessoa.

Comprovando a vastidão da obra pessoana, só de temas este arquivo está dividido em vinte e dois. De entre estes, apenas um deles, a poesia de Álvaro de Campos, conta com 320 títulos. Não me dei ao trabalho de contar a totalidade, mas se considerarmos para cada tema uma média de cem textos, temos um total de 2.200. Ou seja, 2.200 escritos, entre os quais a escravatura é referia em onze: 0,005% do total da sua obra. Para um “acérrimo defensor” da escravatura, convenhamos ser menos do que muito pouco.

Feita a comprovação estatística, partamos agora para a mais importante, ou seja, a qualitativa. Que nos dizem sobre a escravatura?

Em “Todo o processo civilizacional”, não datado e assinado por António Mora, analisa-se a dialética civilizacional, um pouco ao estilo do coevo Spengler, concluindo nascer toda a civilização “da decadência de uma civilização anterior”. Em seguida observa-se como o cristianismo continha, em si, as sementes da decadência do Império Romano, por ir

contra os princípios de acentuada desigualdade que eram basilares no paganismo; contra o princípio da escravatura, contra o da subordinação da mulher ao homem; contra o da subordinação de povo a povo. No que atitude mística e cosmopolita, o cristianismo vai contra o basilar conceito da cidade-estado, sobre o qual a vida antiga assentava; vai contra o conceito de patriotismo, tal qual a alma antiga o concebia; vai contra o princípio guerreiro.

Trata-se, portanto, dum texto de análise social, assinado por um personagem (que os heterónimos são isso mesmo), participando num debate muito em voga na época: o do processo civilizacional e a sua decadência. Vários filósofos desse tempo entraram de frente neste tipo de análise, o mais famoso dos quais foi Oswald Spengler (1880-1936), nascido e morto quase em simultâneo com Pessoa, cuja obra mais famosa, “O Declínio do Ocidente”, foi publicada em 1918. É impossível encontrar aqui qualquer apologia da escravatura, pelo que, dos onze textos onde esta poderia ter sido feita, já só ficamos com dez.

Seguindo a ordem dos “autores”, o segundo artigo de António Mora intitula-se “Com o assédio e a decadência da religião cristista”, considerado pelo Arquivo de Pessoa como sendo provavelmente de 1917. Trata-se dum trecho claramente sequenciado ao anterior e que se deveria destinar a fazer corpo numa obra sociológica sobre o processo civilizacional. Aqui, a referência à escravatura é feita na mera perspetiva analítica dum sociólogo, na busca de compreender o modelo de organização social e mental greco-romano:

os pagãos tinham a noção do Limite. Foram os primeiros a tê-la. Em tudo que foi deles essa noção se releva. Na sua estatuária, que é de homens compreendores da forma, na sua literatura onde, pela primeira vez no mundo aparece a noção da unidade, da construção, da organicidade da obra de arte, na sua vida social, onde de princípio se assenta a sociedade na base de uma rigorosa distinção de classes, qual a que a escravatura marca, e que representa uma noção, se alguma coisa, rigorosa de mais, exageradamente nítida, dos factos sociais.

Ou seja, uma vez mais, a referência à escravatura não é feita em termos apologéticos, tão só de análise histórica, num contexto onde Pessoa parecia nitidamente interessado em encontrar uma dialética. Note-se a data provável deste texto (1917) e repare-se que se inseria perfeitamente no contexto dos debates empreendidos pelas ciências sociais desse tempo. Ou seja, para encontrar alguma “defesa acérrima” da escravatura, já só nos restam nove textos.

Continuando por heterónimos, vejamos agora o que nos diz “Raphael Baldaia” no único parágrafo onde refere a escravatura, inserido no documento intitulado “Princípios de Metafísica Esotérica”, também sem data. Aqui, procede-se a uma reflexão sobre o movimento religioso chamado Teosofia: “Essa religião pretende ser a da Verdade; se não tivesse essa pretensão não seria uma religião. Pretende estar por detrás de todas as religiões”. 

Buscando fazer uma crítica deste movimento, a qual não nos interessa para o objetivo deste artigo, a determinado passo Raphael Baldaia afirma o seguinte: “O vagar que as classes superiores tinham nos tempos da escravatura torna possível uma extensa investigação científica”. Isto é mera análise histórica, não há compêndio de História contemporâneo que não diga isso mesmo referindo-se ao aparecimento da filosofia entre os gregos. Ou seja, uma vez mais, zero de apologia, e aí vão 8 textos.

Entremos agora em Álvaro de Campos, que assina dois. O primeiro é “Ultimatum”, publicado no Nº1 de “Portugal Futurista” (1917). Num estilo apologético, quase profético, semelhante ao de “Ode Triunfal” (1914), do mesmo heterónimo, processa uma crítica feroz a diversas nações, começando por afirmar:

Falência geral de tudo por causa de todos!
Falência geral de todos por causa de tudo!
Falência dos povos e dos destinos — falência total!
Desfile das nações para o meu Desprezo!


Em seguida concretiza essa crítica (sublinhado meu): 
Tu organização britânica, com Kitchener no fundo do mar desde o princípio da guerra!
(It's a long, long way to Tipperary, and a jolly sight longer way to Berlin!)
Tu, cultura alemã, Esparta podre com azeite de cristianismo e vinagre de nietzschização, colmeia de lata, transbordeamento imperialóide de servilismo engatado!
Tu, Áustria-súbdita, mistura de sub-raças, batente de porta tipo K!
Tu, Von Bélgica, heróica à força, limpa a mão à parede que foste!
Tu, escravatura russa, Europa de malaios, libertação de mola desoprimida porque se partiu!
Tu, 'imperialismo' espanhol, salero em política, com toureiros de sambenito nas almas ao voltar da esquina e qualidades guerreiras enterradas em Marrocos !
Tu, Estados Unidos da America, síntese-bastardia da baixa-Europa, alho da açorda transatlântica, pronúncia nasal do modernismo inestético!
E tu, Portugal-centavos, resto de Monarquia a apodrecer República, extrema-unção-enxovalho da Desgraça, colaboração artificial na guerra com vergonhas naturais em África!
         
Ou seja, novamente não encontramos qualquer apologia esclavagista, com a “escravatura” usada numa perspetiva meramente metafórica mas profundamente crítica. Ficamos, então, com sete textos.

O último de Álvaro de Campos, é uma entrevista imaginária de 1919, intitulada “Álvaro de Campos, Engenheiro Naval e Poeta Futurista”, sobre “A situação da Inglaterra — A situação da Europa — A situação de Portugal”, com “Pontos de vista originalíssimos”. Num dado momento, o entrevistado faz uma afirmação e leva o entrevistador a exclamar: “Mas isso é bolchevismo”. Campos responde da seguinte forma:

Não é, e é. Não é bolchevismo porque nada vai aqui de interesse pelas plebes, pelos operários, que devem ser reduzidos a uma condição de escravatura ainda mais intensa e rígida que aquilo a que eles chamam a ‘escravatura’ capitalista. A massa humana deve ser compelida a amalgamar-se numa classe composta do actual proletariado e dos restos das classes médias.

Pela voz dum heterónimo, recorde-se um engenheiro dominado pelo pensamento matemático, apologista do progresso e tocado por uma espécie de eficiência amoral (pelo menos nesta sua fase futurista), não está aqui mínima apologia, menos ainda da escravatura clássica. Os escritores servem-se dos seus personagens para fazer crítica social, dizer o contrário seria afirmar, por exemplo, que Eça subscrevia o seu Padre Amaro, ou o seu Abranhos e, já agora eu, os meus Parricida, Alípio Traques, ou o major Fangueira Fagundes. Se algo se encontra aqui, é uma crítica à massificação do trabalho, espécie de “escravatura”, usando para isso um personagem que a defende. E vão seis.

Entremos agora em Bernardo Soares, o heterónimo de “O Livro do desassossego”, um quase Pessoa. “Estou num dia que me pesa” é, aliás, um trecho dessa mesma obra, onde Soares afirma:

Estou num dia em que me pesa, como uma entrada no cárcere, a monotonia de tudo. A monotonia de tudo não é, porém, senão a monotonia de mim. Cada rosto, ainda que seja o de quem vimos ontem, é outro hoje, pois que hoje não é ontem. Cada dia é o dia que é, e nunca houve outro igual no mundo. Só em nossa alma está a identidade - a identidade sentida, embora falsa, consigo mesma - pela qual tudo se assemelha e se simplifica. O mundo é coisas destacadas e arestas diferentes; mas, se somos míopes, é uma névoa insuficiente e contínua.

Com este sentimento termina manifestando o desejo de fugir, para logo chegar a uma conclusão:

A escravatura é a lei da vida, e não há outra lei, porque esta tem de cumprir-se, sem revolta possível nem refúgio que achar. Uns nascem escravos, outros tornam-se escravos, e a outros a escravidão é dada. O amor cobarde que todos temos à liberdade - que, se a tivéssemos, estranharíamos, por nova, repudiando-a - é o verdadeiro sinal do peso da nossa escravidão.

Apologia? Não, obviamente. É desnecessário ser um mediano hermeneuta para ver a clara utilização metafórica da ideia de “escravatura” transportada para a vida actual. E, se não me engano, sobram-nos cinco textos para encontrar essa tal “acérrima defesa”, um número que, por si só, já a nega.

Os que ficam são, talvez, os mais interessantes, porquanto são assinados pelo próprio Pessoa, podendo, assim, ser com mais propriedade considerados como pensamento próprio e não dos seus auto-personagens.

A guerra actual é uma guerra entre dois princípios sociológicos”, diz-nos o título de um deles. O caracter sociológico da análise está expresso no próprio título, o documento não está datado mas, pelo tema, compreende-se claramente estar algures entre 1914 e 1918, o período da I Guerra mundial. Interessa-me aqui analisar apenas como e porquê usa o conceito de escravatura e, por isso, vou direto a essa parte, onde começa por defender uma união de esforços, uma aliança, entre Portugal e Espanha, para logo denunciar os inimigos desse objectivo e concluir

Olhemos bem para estes inimigos. Mas há quem tenha a coragem de os combater? Duvido. Duvido da alma ibérica bem formada capaz de compreender que é preciso combater ao mesmo tempo o catolicismo e a maçonaria, tão vergadas ao peso de antigas escravaturas as almas ibéricas se encontram (sublinhado meu).

A clareza da inexistência de apologia esclavagista nesta passagem escusa-me a mais comentários. Vejamos então os restantes quatro escritos.

Um deles é parte de “O Templo de Jano”, redigido numa época em que Pessoa andava obcecado por encontrar paradoxos. Numa passagem do seu diário de 26 de fevereiro de 1913, sabemos ter decidido nessa manhã “escrever em português ‘O Templo de jano’”. Segundo os mesmos registos, no dia 23 lembrou-se de “alguns paradoxos menores”. A 24, “De manhã e durante o dia tive várias ideias para paradoxos”; no próprio dia 26 teve  “Várias ideias paradoxais” e no seguinte “Tive (…) várias ideias para paradoxos; mas não foram muitas nem foram extraordinárias”.

Com esta bagagem, entremos agora no texto em questão, “Caímos na teorização estéril”. É muito breve (apenas 372 palavras em quatro parágrafos), e Pessoa parece em busca de encontrar uma síntese entre a Democracia dirigida pelas elites, um pouco ao estilo platónico, em que parecia acreditar, “conservando o indispensável domínio das classes dirigentes, mas não pondo um inútil dique à ambição popular, que sobe e monta”. A dialética do “Poder e o Povo” (para usar um título de Vasco Pulido Valente), era recorrente nessa época, quando a Europa parecia ter chegado a um beco de saída estreita, mais ainda Portugal, atolado nas consecutivas instabilidades do fim da monarquia e da quase ingovernabilidade da I República. Lembremos como Pessoa julgou ter encontrado em Sidónio Pais essa síntese, entre liderança e ambição popular.

A referência à escravatura encontra-se aqui:

Caímos na teorização estéril, seguindo, como a fogos-fátuos, todas as teorias que não são mais que as exalações letais da civilização decomposta. Desde a teoria da democracia, concebida à moderna, e fora da sua coexistência com o princípio corrigente da escravatura, como na antiguidade.

Uma apologia de Democracia com escravatura em pleno século XX? Seria preciso ter mais imaginação do que Pessoa para concluir tal coisa. O que está em causa é a descrença num poder popular sem liderança das elites e o exemplo da antiguidade é claramente dado nessa perspetiva metafórica. Num período da sua vida, como vimos, em que parece obstinado com paradoxos (se é que não esteve até ao fim), Pessoa vê a Democracia instável do seu tempo como um paradoxo entre a liderança e o caos. O trecho é pequeno para revelar a sua síntese, mas sabemos bem algumas das que foi encontrado, nomeadamente em Sidónio Pais. Esta referência à escravatura como mitigadora duma democracia caótica durante a época clássica, não é mais do que uma metáfora para aquilo que ele mesmo afirma e já citei: “conservando o indispensável domínio das classes dirigentes, mas não pondo um inútil dique à ambição popular”.

O texto “Para que serve a liberdade às plebes?”, datado de 1917, é ainda mais pequeno (apenas 277 palavras) e parece enquadrado na mesma linha. Podemos discordar do pensamento expresso, e seria muito fácil se caíssemos no erro de não o enquadrar social e cronologicamente. De qualquer forma, trata-se dum excerto tão breve que se torna completamente abusivo tirar conclusões, sobretudo tratando-se de tão ínfima partícula duma obra tão vasta. Além disso, patenteia muito mais uma tentativa de pensamento sociológico, do que ideológico.

As plebes são, por sua natureza, aquela parte da sociedade sobre quem incide, quer por divisão social, como a escravatura, quer por compulsão económica, o trabalho manual ou com ele relacionado, o trabalho do artífice.

Até aqui, portanto, nenhuma apologia, apenas uma definição de “plebe” onde inclui a escravatura, no passado, e o trabalho manual, no presente. Prossegue, defendendo não a liberdade mas a ausência de opressão para essa “plebe”:

A que serve ao artífice a liberdade? O que [é] à plebe devido não é a liberdade, é a ausência de opressão, que é devida a todos, e o seu direito natural de homens. É esse o direito do homem; esse, e não a liberdade. A que se reduz esse direito? O de não haver mais ingerência na vida das plebes do que a natural; e a natural é a sua condição definida de escravos no tempo da escravatura; e a sua condição económica de compelidos ao trabalho quotidiano e manual, no tempo da chamada concorrência (da concorrência universal).

Trata-se duma visão datada, não compete aqui comentá-la, exceto para concluir estarmos muito longe duma defesa da escravatura. Além disso é um pequeníssimo texto duma vasta obra, provavelmente destinado a integrar algum trabalho, ou a fazer parte de algum pensamento de algum personagem nunca chegado a nascer. Sei por experiência própria como o caderno dum escritor está cheio de ideias e pensamentos, não próprios mas destinados aos seus personagens e, geralmente, quando mais tarde integrados no contexto da obra, servem de crítica e não de apologia. De qualquer forma, como sabemos, Pessoa tendia para o elitismo intelectual, nisso seguia bem a tradição platónica patente em muitos aspectos da sua obra. Pode bem este texto corresponder a pensamento próprio, do que não se trata é duma apologia da escravatura.

Sobram-nos dois textos, ou seja, pela estimativa inicial, 0,0009% da sua obra. Deixei-os para o fim por serem também aqueles que estiveram na base das polémicas lançadas tanto por Luzia Moniz, como pelo jornal cabo-verdiano.

Um desses textos é claramente de sociologia política e, na crítica feita, confunde-se a análise com a opinião do autor. Intitulado “O imperialismo de expansão tem um sentido normal”, a busca é claramente para determinar quais são os factores legitimadores usados pelos processos imperialistas.

O imperialismo de expansão tem um sentido normal, para que cumpra os seus fins civilizacionais, em ir ocupar territórios, ou desertos, ou povoados apenas por povos fora da civilização. Esse imperialismo comporta três graus, sendo mais justificado no primeiro que no segundo, no segundo que no terceiro.

Pessoa encontra três factores correspondentes a outros tantos tipos de imperialismo, e é no segundo onde refere a escravatura:

Em segundo lugar, há a ocupação de territórios habitados por povos, não já selvagens ou incivilizáveis, mas degenerados de uma civilização antiquíssima. (…) Recordemo-nos sempre que o fim de colonizar ou ocupar territórios não é civilizar a gente que lá está, mas sim levar para esses territórios elementos de civilização. O fim não é altruísta, mas puramente egoísta e civilizacional. É o prolongamento da sua própria civilização que o imperialismo expansivo busca e deve buscar; não é, de modo algum, as vantagens que daí possam advir para os habitantes desse país. A escravatura é lógica e legítima; um zulu ou um landim não representa coisa alguma de útil neste mundo. Civilizá-lo, quer religiosamente, quer de outra forma qualquer, é querer-lhe dar aquilo que ele não pode ter. O legítimo é obrigá-lo, visto que não é gente, a servir os fins da civilização. Escravizá-lo é que é lógico, o degenerado conceito igualitário, com que o cristianismo envenenou os nossos conceitos sociais, prejudicou, porém, esta lógica atitude. Povos, como o inglês, hipocritizaram o conceito, e assim conseguiram servir a civilização.

Note-se que o texto é analítico e não apologético, Pessoa está nitidamente em busca de criar uma teoria do imperialismo, encontrando três modelos, um dos quais é o da ocupação de territórios ocupados por outros povos. Neste contexto, o pensamento é expresso não segundo o próprio, mas segundo aqueles que praticam esse tipo de imperialismo. Neste caso, o “sociólogo” sai de si mesmo, criando um distanciamento e falando pela cabeça do colonizador-imperialista. A questão semântica é, aqui, essencial: Se um sociólogo afirma legitimar-se a escravatura pelo princípio da superioridade duma civilização sobre a outra, isso é completamente diferente dum político ou ideólogo dizerem textualmente o mesmo. No primeiro caso, analisa-se o porquê, no segundo, defende-se o modelo. Então, este parágrafo descontextualizado da intenção geral do texto, infere uma conclusão completamente errada; contextualizando-o, já nem digo na obra mas apenas em si mesmo, percebemos não estarmos frente a qualquer apologia da escravatura, como foi afirmado.

Deixei para o final o texto mais polémico: “Régie, Monopólio, Liberdade”. Curiosamente trata-se da expressão dum pensamento económico sobre liberdade de mercado e intervenção do Estado e, por isso, o objeto deste artigo não tem nada que ver com a destacada questão da escravatura. Mas é aqui onde Pessoa fez a afirmação que mais brado deu na presente polémica:

Quem nos diz que a escravatura não seja uma lei natural da vida das sociedades sãs? Ninguém o pode dizer, porque ninguém sabe quais são as leis naturais da vida das sociedades e essa pode portanto ser uma delas.

Parece chocante, mas (certamente não por má fé mas pelo desconhecimento de quem apenas leu uma citação, não o próprio texto e, menos ainda, a obra) omite-se ao que veio esta afirmação e isso está precisamente na abertura do parágrafo em questão:

A lei aparentemente mais justa, a lei mais de acordo com os nossos sentimentos de equidade, pode ser contrária a qualquer lei natural, pois pode bem ser que as leis naturais nada tenham com a nossa “justiça” e em nada se ajustem às nossas ideias do que é bom e justo. Por o que conhecemos da operação de algumas dessas leis — por exemplo, a da hereditariedade —, a Natureza parece frequentemente timbrar em ser injusta e tirânica. 

Temos, então, uma oposição entre “a lei mais de acordo com os nossos sentimentos de equidade” (ou seja, a que é submetida à moral) e a lei natural, isto é aquela que “parece frequentemente timbrar em ser injusta e tirânica”. E neste e só neste contexto, Pessoa pergunta se essa lei natural (injusta e tirânica) não admitirá a escravatura, ao contrário, fica claro, da lei humana. Eu diria que sim, claramente a lei natural, tão brutal ela é, integraria a escravatura e até coisas ainda piores do que a escravatura, por isso sou humanista e contrário a qualquer espécie de darwinismo social.

Veja-se, então, como até o texto aparentemente mais chocante e também o mais usado pelos próceres desta polémica para provarem uma pretensa defesa da escravatura em Pessoa, não tem absolutamente o caráter que lhe quiseram dar, mas precisamente o contrário.

Em conclusão, é absolutamente falso afirmar ter Pessoa sido um “acérrimo defensor” da escravatura. Primeiro, porque a estatística dos seus milhares de textos, na qual esta questão ocupa uma ínfima parte, desmente o “acérrimo”. Segundo, porque a análise qualitativa demonstra que, além de não ser acérrimo como vimos, não era sequer defensor. Das suas poucas referências só podemos concluir pela utilização metafórica, nuns casos, e analítica ou condenatória, nos outros.

Pessoa era isso mesmo, uma pessoa, naturalmente com todos os constrangimentos inerentes à condição humana, à qual nem sequer os grandes génios escapam. Não escreveu para agradar a nenhum tipo de pós-modernos ou a correntes de pensamento mais ou menos dominantes na actualidade. Nem sequer quis ser popular e por isso não foi pelo caminho da afirmação fácil e com muito potencial replicador. Foi genial, mas foi um homem, com defeitos e com muitas virtudes intelectuais e literárias. Nesta óbvia humanidade, porém, não é legítimo atribuir-lhe pensamentos que, claramente, não teve e, entre esses, seria ridículo se não fosse desconhecimento da sua obra, dizê-lo defensor da escravatura e, pior ainda, seu “acérrimo defensor”.

E quem, se não ele, pela pena de Álvaro de Campos, para se afirmar pessoa? Apetece-me acabar com esse poema, também um paradigma de vida:

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos, s.d.





Luís Novais


terça-feira, 29 de janeiro de 2019

A BOSTA DO TEU FILHO




João já estava fodido. Maria com aquele aspirador que não se calava, sempre a ir e a vir e a ir e voltar, o jogo a dar para o torto, a televisão com interrupções, a Sagres já morna, mesmo a pedir outra, mas João não quer ir buscar que “o golo deve estar mesmo a sair”… podia mandar Maria, “e bem gelada, ouviste? Bem gelada!”, mas seria machismo e isso não, machista não era.

“Porra de aspirador!” Maria com o tubo na mão direita, e a criança na esquerda e sem uma terceira que lhe limpasse o suor da testa, já a queimar olhos adentro. “Esta gaja não percebe que estou a ver o jogo? Foda-se o caralho”. Mas tudo isto pensado, não dito, dito seria machismo e machista não, João não era.

Um homem não é de ferro mas aguenta-se que é de homem, e João aguentava-se enquanto Maria se chegava e chegava. Já ele não sabia o que era mais insuportável, se aquele ruido do motor, se o raspar do tubo no chão… e ainda por cima o miúdo, esse já começava a chorar. “Se ao menos saísse um golo!” Depois disso até podia ir à cozinha, a trazer outra Sagres, gelada, bem gelada”… enquanto a bola marchava ao centro não perderia nada.

Mas a Maria, ai o raio da Maria… agora já estava em cima dele, com aquela carga toda: miúdo, aspirador e ela mesma. “Que inferno!”. Apetece-lhe gritar à mulher, mas “aguenta-te João”, que gritar seria machismo e machista não, João não é.

A Maria, essa não se aguenta e ignorá-lo é impossível: esparramado no sofá, pernas na mesa, ocupando todos os dois daqueles dois metros quadrados ainda por limpar. “Ó João, francamente, tu não vês que aspiro? Afasta-te caramba!”. João aguenta-se, porque não aguentar-se seria machismo e o resto já sabemos. Ignora-a, apenas, isso sim é de homem, caramba!

O momento da culpa de Maria teria de chegar e tendo de chegar, chegou. Cai-lhe o tubo ao chão e baixa-se para apanhá-lo e passa-lhe o nariz na fralda do rapaz que chora no braço esquerdo, uma cara de nojo e levanta-se e o desabafo quase gritado: “Sou eu quem faz tudo nesta casa, tu para aí sentado a ver o jogo e a beber. E ainda por cima tenho de limpar a bosta do teu filho!”.

Para João, que nunca foi gramático, já era de mais, chegara o momento do “chega”. Não há homem que aguente! “Se fosse a mim tudo bem, mas ao meu filho é que não! A gaja está mesmo a pedi-las”.

“O que disseste? O meu filho não é nenhuma bosta, ouviste cabra do caralho?” Levanta-se e enfia-lhe um par de lambadas que, aceitemos, foram merecidas, nem sequer muito fortes e é de saber bem sabido que quem “semeia ventos…” Não os semeasse Maria, pois então!

Já João se sentou. Chora Maria, baixinho para não indispor. O gargalo da Sagres morna à boca e um arroto, saboroso, um aliviar feliz, do mais profundo, da própria alma. Pena só mesmo aquela azia seguinte: foi golo, mas na baliza errada. “Ora merda!”

Algum arrependimento, não muito, apenas um pouquinho e só por chegar a pensar se o golo não terá sido divino castigo às humanas chapadas. “Não! Dei-lhe pouco, muito menos do que merecia”. João sabe bem o porquê de só duas lamparinas, singelas, muito singelas: mais seria machismo, “e machista não sou”.

Maria já está lá dentro, muda fraldas. Limpa a bosta do filho, ela; sabe de futebol, ele... de gramática é que nada.


Luís Novais

Foto: Pixabay

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

NÓS PORTUGUESES, ENTRE UM PAR DE ESTALOS E A SAUDADE



Tantas palavras para bofetada e uma só para saudade?! Para quem é adepto de perguntar, mesmo sabendo que é mais fácil fazê-lo do que responder (ainda que a boa resposta dependa também da boa pergunta), impõe-se: “Porquê?” Porquê sintetizar tudo o que a saudade exprime numa só palavra saudade? Porquê, se até para uma simples bofetada recorremos ao processo analítico e criamos mais de uma dezena de expressões? Quando falamos de saudade, não nos referimos a um acto ou objecto, mas a um sentimento; que revelará dos portugueses a particularidade de tal unificação?

Numa rede social, o meu amigo José Miguel Braga colocou um daqueles comentários aparentemente inocentes, mas provocadores:        “De entre o imenso rol de variações da chapada, temos a muito musical lambada, a insuspeita lostra, a melíflua rabanada e, é claro, a insinuosa ‘puta’. Levas uma puta!

Esta observação originou uma série de respostas com outros tantos nomes alternativos para o mesmo ato de esbofetear alguém. Entre vários, surgiram os seguintes: “Banano”, “tabefe”,”estalo”, “estalada”, “açoite”, “cachaço”, “calduço”, “solha”, “lostra”, “lapada”, “bofardo”, “sapatada”, “lamparina”, “laura”, “galheta”, “bolachada”, "palmada". Falou-se de alguns que desconhecia, como “calduço” ou “muquenco” e até um outro que desconfio pertencer ao domínio do idioleto, neste caso “catracasla”.

Mudando aparentemente de assunto, acabo de ler um interessante ensaio de Onésimo Teotónio de Almeida sobre a “saudade” e a pretensa tendência dos portugueses para padecermos deste sentimento. Com um espírito marcadamente empirista, a que não será alheia a forte influência anglo-saxónica, contesta a visão dos “saudosistas” da “Renascença Portuguesa”, que criaram a chamada “Filosofia portuguesa”: Leonardo Coimbra, Teixeira de Pascoaes e António Quadros.

Na sua argumentação, começa por contrariar ser a língua a fazer um povo, defendendo, ao contrário, ser um povo a fazer a língua. Chegado aqui, nega a visão saudosista de que os portugueses se possam formar a partir da sua língua, desferindo assim um golpe no arreigo de Pascoaes e Quadros pela palavra “saudade”, na qual viram uma (ou a) nascente da identidade nacional.

Uma primeira observação seria que, se a língua não é causa mas consequência, é então um meio para chegar à causa, tal qual um sonho não é o inconsciente, mas nos permite chegar até ele.

Afirma também Onésimo Teotónio de Almeida:  
O conteúdo salvável da intraduzibilidade de palavras, como saudade (…), jaz no facto de ser uma das características do comportamento cultural de cada um desses povos a incidência com relativa frequência desse tipo de sentimento, o que levou à criação dum vocábulo que o denotasse” (167).
Parece então poder inferir-se terem os portugueses uma maior tendência para o saudosismo do que outros povos. Tanto mais, prossegue, “É dado assente da sociolinguística e da psicolinguística que uma realidade frequentemente enfrentada, vivida ou sentida exige um nome por facilidade de referência”. Poderíamos então concluir que este sentimento foi/é particularmente forte no caso dos portugueses.

A resposta de Onésimo é, porém, uma aporia: “Deparei, por acaso, no American English Dictionary com pelo menos duas palavras identificadas como de origem portuguesa e aceites como intraduzíveis pelo inglês: auto-de-fé e cuspidor”. Segue-se a óbvia conclusão: “Estou convencido de que qualquer um de nós rejeitaria a afirmação de que essas realidades fazem parte da e muito menos constituem a alma nacional portuguesa” (168).

Pelo menos uma destas palavras, auto-de-fé, parece confirmar os dois postulados que formulou: Primeiro, é a prática dum povo a formar a sua língua e não o contrário; segundo, ser a incidência particular dum acto (ou sentimento) a levar também esse povo a criar palavras dificilmente revertíveis a outros idiomas.

Partido daqui, observemos que auto-de-fé e cuspidor são sujeitos muito concretos, não correspondendo a sentimentos, enquanto saudade, sim, é um sentimento. Dentro desta lógica, concluiríamos terem os portugueses procurado a palavra para definir um sentimento por eles sentido com particular incidência.

Concluiríamos e fecharíamos se os argumentos se ficassem por aqui, mas não. Pergunta-se o autor se, pelo facto dos árabes terem cinco mil palavras referentes a “camelo”, isso quererá dizer que a camelidade “constitui essência ôntica da língua árabe”. Ou se, tendo os esquimós 10 para neve não seria então de considerar“’a nebelidade’ como constitutivo espiritual dos esquimós”. Num outro exemplo, mais próximo de nós, lembra  as mais de cem palavras para cachaça no Brasil, mas “não lembrará a ninguém apontar a ‘cachacidade’ como a alma nacional brasileira” (169).

Curiosamente, depois inverte o argumento:
O que parece ocorrer na cultura portuguesa relativamente ao uso da palavra saudade é um abuso da sua aplicação, que acaba por levar a um alargamento excessivo da sua extensão ou significado. Quando uma realidade complexa é analisada, descobrem-se nela elementos constitutivos que recebem um nome (…). Foi assim que os esquimós descobriram vários tipos de neve ao lidarem com tanta dela (…). O contacto com um real que se vai diferenciando leva à sua subdivisão e consequente multiplicação de palavras para nomear todos os seus componentes ou variações identificadas (169-170). 
Portanto, ter-se-ia passado o inverso com a palavra saudade: em vez dum processo analítico desmultiplicador desse sentimento geral em diversos estados, chegaríamos a um processo sintético, unificador de diversos estados numa só palavra: 
Mesmo quando essas experiências foram analisadas em pormenor e os autores falaram de sentimentos que a cultura universal de há muito baptizou com nomes próprios, esses autores persistiram em denominar saudade todo esse leque de experiências e emoções humanas (170).
Obviamente, o facto de não terem uma só palavra unificadora dos diversos estados de espírito identificados como saudade, não quer dizer que os outros povos não tenham esse(s) sentimento(s). Por outro lado, se Pascoaes e Quadros consideraram que é a partir da “mónada” língua que se forma o caracter daquele que a usa e não o contrário, será porque a Antropologia e a Linguística não tinham então os avanços de hoje. Contudo, daqui, ou apenas daqui, não podemos partir para a negação da saudade como formadora do carater português: Primeiro, porque, como aponta Onésimo, a língua nasce a partir dum povo; segundo porque, não revelando que apenas os portugueses a sintam, saudade significa que só os portugueses unificaram esses sentimentos num só.

Voltamos ao início: tantas palavras para bofetada e uma só para saudade?! Para quem é adepto de perguntar, mesmo sabendo ser mais fácil fazê-lo do que responder (mesmo dependendo da boa pergunta a boa resposta), impõe-se: “Porquê?” Porquê sintetizar tudo o que a saudade exprime numa só palavra saudade? Porquê, se até para uma simples bofetada recorremos ao processo analítico e criamos mais de uma dezena de expressões? Quando falamos de saudade, não nos referimos a um acto ou objeto, mas a um sentimento; que revelará dos portugueses a particularidade de tal unificação? Não sei, mas algo foi e algo somos.



Luís Novais


ALMEIDA, Onésimo Teotónio. Filosofia da Saudade, filosofia portuguesa: alguns equívocos. In: Id. A Obsessão da Portugalidade (1ª Edição, 2ª reimpressão). Lisboa: Quetzal, 2018, pp 154-193.


sexta-feira, 2 de novembro de 2018

EU QUERIA

(em limpezas de disco descobri este que aqui veio parar. é de 23 de novembro de 2009)

Eu queria ter talento.
Quereria ser Pessoa.
D'una pessoa,
meus muitos sacar

Que magia tamanha,
num iludido eu.
Três mais um bastariam,
à real ilusão.

Um dedicado filósofo sisudo,
sempr'a pensar no qu'é grande.
Em pedra Ser vislumbrar,
ou d'existir seu preceder.

Outr'aventureiro viajante,
escritor, poet'amante.
Deste mundo deslumbrado,
em letras vida sonhando.

Terceiro, marido pai zelador.
Tud'em toda vida dedicado,
sempr'a regar, arar e podar
procedido em si precedente.

O quarto inda restaria,
destes todos seu lar.
Anfiteatro montado,
em triplo contracenar.

Como eu queria ser Pessoa!
palco de filósofo, poeta e pai.
Em minha desunião,
unidade vislumbrar.

Eu queria ser Pessoa.
Queria!
D'una pessoa,
meus múltiplos sacar.


Luís Novais