segunda-feira, 24 de abril de 2017

LIBERTAÇÃO

Perder:
Não ser sonho
que outro sonhou
em sonho que é seu.

Ganha-se então;
o triunfo aparente,
da derrotada alma.

Se ganhamos por fora,
trata-se apenas desse sonho
que não sonhamos.

Em ganhando dentro,
somos derrotados fora.
Triunfa o Ser que é,
perde o homem que fazem.

Anuncio-vos o  derrotado:
perdido de fora para dentro,
ganhando primeiro, de dentro para dentro,
ganhando depois, de dentro para fora.
De espinhos sua coroa,
em cruz, seu trono.
Toma do cálice
que libertará.


Entra o vencedor:
publica ovação.
vem de mãos lavadas,
e aurífero sinete.
O vencer não tido,
na aparência desse brilho
que o ser lhe perdeu.
Bebe da água suja,
que mãos lavou


Quem não se liberta,
não liberta.
Ganhamos futuros,
perdendo presentes!


Luís Novais

domingo, 23 de abril de 2017

a PARTÍCULA, num pijama com bolinhas.

Vejo pelas ruas
um poeta que chora.
Chora para não chorar.
Pena da humanidade,
para destino seu não penar.
Chora não chorando.

Damos tanto pela pouca matéria,
nada pelo muito espírito.
A matéria que a vista alcança
pelo espírito que tudo pensa.
Nem do aprendido já, aprendido fazemos:
Que do menos que nas coisas há, nada mais se retira.
E investimos, como loucos investimos,
para chegar ao muito que há,
partido do não havido.
Impossível entender o que É, e que é,
com o que não sendo, apenas é.
Um, É.
Outro, está.
O que está não alcança o que É,
o que É, o que está é também.

Destruam a helvética e franca máquina; essa mesma!
Processem-na por inútil.
Quebrem-na com a raiva
do constatado erro; vosso.
O que está em pensamento,
só com pensamento se alcança.
Da ciência façam poesia,
da poesia, ciência.

E já lá vai o poeta,
vai de pijama pela rua,
aquele com bolinhas azuis,
esse que veste para sonhar.
E sonhando, à particula chegou.
Mas porque de pijama, ninguém o escuta.
Tampouco a ninguém se dirige.
Não tem tempo: encontrou.
Tivesse ele uma bata branca...
mas não sonharia, caramba!
E não sonhando não acharia.
É por isso que apenas segue,
sabendo sem ser ouvido.
Segue para não parar,
vestido com o que veste,
chorando para não chorar.

Luís Novais


quarta-feira, 22 de março de 2017

A CRISE DE POESIA



Falar de crise com números, é esconder a luz com a sombra, a causa com o efeito: Temos uma crise, sim, mas de poesia.

Calhou-me ler a “História do Futuro” do Padre António Vieira (1608-1697), sendo dia mundial da poesia e lendo esta passagem: “O ofício e obrigação dos poetas não é dizerem as cousas como foram, mas pintarem-nas como haviam de ser, ou como era bom que fossem”. Uma declaração que encontra mais sentido no contexto em que o “Imperador da língua portuguesa”, como lhe chamou Pessoa, escreveu esta obra: Espécie de anúncio dum futuro glorioso, que se seguiria às provações que o Portugal de então experimentava.

Isto conduz-nos diretamente para o papel da poesia e da literatura, numa sociedade que vive um positivismo em crise, que navega uma ciência que não pode dar todas as respostas humanas, que ora numa universidade que herdou os erros dos templos sagrados, sem conseguir dar o absoluto que estes ofereciam.

Vieira fala-nos da importância da profecia, o nome escatológico para mito, ou, numa linguagem mais laboratorial, para utopia. Entre vários exemplos, contempla o de Alexandre Magno, que construiu um império graças à força que lhe deu uma promessa, que o fez partir “vitorioso para a conquista que lhe restava do mundo oriental, o qual sujeitou e uniu todo ao seu império”. Porém, diz, “o que mais admira nas conquistas e vitórias de Alexandre, é a desigualdade de meios com que entrou em tão imensa empresa (…), saiu da Macedónia com menos de quarenta mil homens, bastimentos para trinta dias, e com setenta talentos para estipêndios”. Onde estava então a força? Na profecia, a mesma que dava alento aos seus para avançar e aos conquistados para recuar. “Tanta parte teve a profecia nas ações deste grande capitão e no império deste grande monarca, o qual, se deve a Filipe ser Alexandre, deve (ao profeta) Daniel o ser Magno!”

O assumir do papel psicológico do mito, é depois canalizado para a própria história de Portugal: O prenúncio que o ermitão de Ourique terá feito a Afonso Henriques nas vésperas da batalha. Estaríamos perante uma espécie de mito fundador da nacionalidade, assegurado que já estava ao príncipe ser vontade divina que este fosse rei e Portugal reino. É graças a tal graça, que Afonso “rompe os esquadrões, desbarata o exército, mata, cativa, rende, despoja, triunfa; e alcançada na mesma hora a vitória, e libertada a pátria, pisa glorioso as cinco coroas mauritanas e põe na cabeça, já rei, a portuguesa”.

Se “isto obraram as profecias daquela noite na guerra”, mais ainda “mostraram os seus poderes na conquista”, e aqui António Vieira entra diretamente nos descobrimentos e no peso que o mito teve na coragem com que os navegantes enfrentaram esse mar que Pessoa viria a dizer português: “Que trabalhos, que vigias, que fomes, que sedes, que frios, que calores, que doenças, que mortes não sofreram e suportaram, sem ceder, sem parar, sem tornar atrás, insistindo sempre e indo avante”. E porquê? Porque “sabiam que tinha Cristo prometido a seu primeiro rei que os escolhera para argonautas apostólicos de seu evangelho”.

Estas palavras escritas por volta de 1650 fazem refletir, não só sobre o nosso tempo, mas sobre o papel da utopia, transfiguração moderna do conceito de que Vieira fala. Escreveu numa época de crise nacional, estava a restauração recém-iniciada e em curso uma série de batalhas com Espanha, que só culminariam com o Tratado de Lisboa em 1668. Ante a ameaça que pendia sobre o reino, fala-nos da importância da profecia, como ponto partida para uma outra e nova que ele mesmo adiantaria algumas páginas mais adiante: A do grande futuro que estava fadado a Portugal, como cabeça dum quinto império que converteria o mundo ao cristianismo.

O objetivo de António Vieira não só é claro, como ele próprio faz questão de que seja claro aos hermeneutas: Há que sonhar, para vencer as agruras do presente, sublimando-as na promessa dum futuro grandioso, numa palavra, uma utopia.

Em seguintes períodos de crise nacional, outros lhe seguiram as pisadas. Nem é preciso fazer referência à situação em que se encontrava a Europa, o mundo e Portugal em 1934, para estabelecer uma ligação direta à “Mensagem” de Fernando Pessoa. “A Europa jaz posta nos cotovelos”, diz, mas “Fita com olhar esfíngico e fatal,/O Ocidente, futuro do passado”, e “O rosto com que fita é Portugal”. Uma Europa que 16 anos antes se digladiara no confronto mais mortal de que havia memória, que enfrentava ainda os efeitos da grande recessão, e um Portugal exausto que, nove anos antes do nascimento de Pessoa, já Oliveira Martins anunciara morto de exaustão desde 1580 e uma espécie de morto vivo depois da restauração. O Pessoa de “Mensagem” vive numa Europa sob dois ecos, os da Primeira Guerra, e os que já anunciavam a Segunda. Viveu a primeira infância num país abalado pela bancarrota de 1892-1902, espécie de bater no fundo dum século em que as finanças públicas rebentaram por seis vezes. Seguiu-se-lhe uma república que não foi capaz de sobreviver às suas próprias contradições e promessas. A obra foi escrita um ano depois da constituição de 1933, que marca uma viragem política e consolidaria essa ditadura que só encontrará fim em 1974.

E o que é “Mensagem” se não uma “História do Futuro” do século XX? Um assumir dos heróis, transfigurados em castelos, dos mártires da pátria, nas quinas. As agruras do presente são promessa de grandes futuros, “Os Deuses vendem quanto dão/ Compra-se a glória com desgraça”. Que resta aos mortais, que não aceitar e enfrentar tamanha dureza, se esta é forja de glórias? Já o mesmo pensamento na antiguidade, em Homero, quando, perto de arremeter contra as muralhas de Troia, Sárpedão diz a Glauco:
           
            “Meu amigo, se tendo fugido desta guerra pudéssemos
viver para sempre isentos de velhice e imortais,
nem eu próprio combateria entre os dianteiros
nem te mandaria a ti para a refrega glorificadora de homens.
Mas agora, dado que presidem os incontáveis destinos
da morte de que nenhum homem pode fugir ou escapar,
avancemos, quer outorguemos glória a outro, ou ele a nós.

Ideia muito clara: O sublime é motor da humanidade, quer seja uma fé, uma ideologia, uma lenda, uma profecia. Por ser grande, a utopia é coletiva, e porque coletiva sempre cumpriu a função de unificar cada homem ao Homem, à espécie, à humanidade. E essa unificação é a que permite fundir o olhar individual no global, é daqui que nascem os grupos, as nações, e com elas a caminhada e um destino que, apesar de a posteriori, tem origem numa certeza apriorística.

O dia mundial da poesia é, talvez, o momento para dizer que o mal de que padecem Ocidente, Europa e Portugal, é o desperdício da função do poeta. Tem caminho mas não destino, quem troca o cifrão pela palavra, a estrofe pelo algoritmo, a técnica pela paixão, o sonho pela prática, a ambição pelo deficite, Ulisses pelo eurocrata. Falar de crise com números, é esconder a luz com a sombra, a causa com o efeito: Temos uma crise, sim, mas de poesia.




Luís Novais

segunda-feira, 20 de março de 2017

VENCEDORA DERROTA

Perder:
Não ser sonho
que outro sonhou
em sonho que é seu.

Ganha-se então;
triunfo aparente,
alma derrota.

Perdidos,
encontramos, ganhando.
Vencedores,
ganhamos, perdendo.

Ganhar:
O vencer não sido,
pelo ser perdido.


domingo, 19 de março de 2017

RAZÃO, AMOR e NOÉ

Sou do não tempo,
antes do que é.
Voltará:
quando hoje tenha sido.

Luzes para crer,
não crendo sem luz.
Passado foi, tempo meu.

Não amo bom criador
que não vejo nem sinto,
mas criação, nem boa nem má.

Alguém levará hoje,
ao tempo que será,
esse tempo que foi.
Amanhã serei, quando não seja.



domingo, 12 de março de 2017

PARTICULA DE DEUS


Bozão,
Partícula divina.
Com ciência e com método,
alma de matéria fazer.
Máquina infernal,
espiral,
que jamais chegará,
ao que, por sonhar-se, alcançado foi.

Pobre poeta ignorado,
deslocado,
porque “louco”.
Com impalpável alma
sempre com energia matéria fez,
em energia logo refeita.
Não se moveu,
mas move o que se não move.
Não se moveu,
mas detém,
o que movendo se move.

Partícula divina,
que do nada matéria cria.
Em palavras e versos,
em versos e estrofes.
Tudo que na alma lhe vai,
em não-alma transforma,
do não ser ao Ser
do Ser ao palpável.
Partícula-por-partícula,
imaterial sonho,
substanciado.
Imortal!
Já Fausto sabia
e por isso escrevia.

Se ao fruto do saber,
do bem e do mal,
o faltante do Ser comermos,
do tempo e do eterno,
ao saber o sempre se junta.
Eis a queda de um Deus,
que já o sabia,
e por isso o impedia.

Somos fruto dum sonho,
somos sonho,
mas que sonha.
E do sonho-nada, tudo fazemos.

A ciência?
Está no poema.
Esse que tudo alcança:
O que sim, porque não,
o que não, porque sim.

Se Deus se não prova,

a Deus prova. 


Luís Novais


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

OFFSHORES, TRANSFERÊNCIAS E POLÍTICA ESPETÁCULO



A política atual é feita de casos, ora exacerbados e manipulados pela direita, ora pela esquerda. Enquanto a direita faz todos os esforços para criar uma cortina de fumo em torno da Caixa Geral de Depósitos, evitando que uma comissão de inquérito cumpra com o seu real objetivo, foi agora a vez do governo aproveitar uma notícia do Público, sobre a não publicação de estatísticas das transferências para off shores, levando-a ao parlamento pela mão do próprio primeiro-ministro, que sabe bem não haver qualquer relação entre a verdade e aquilo que insinuou.

A "Civilização do Espetáculo" ocupa a parte sombria da caverna platónica e tem pouca paciência para olhar a luz. Ainda assim, vale a pena fazer o esforço desmistificador.

E para desmistificar, primeiro há que averiguar se estes movimentos são ou não anormais. As estatísticas são conhecidas desde 2010. Nesse ano transferiram-se 2.2 mil milhões de euros, número que subiu a 4.6 em 2011, 4.3 em 2012, 4.2 em 2013, 3.8 em 2014 e é em 2015 que se atinge um pico de 8.9. 

Primeiro devemos perceber o que aconteceu em 2011 para que as transferências tenham quase duplicado, mantendo mais ou menos os mesmos valores até 2014, mas com uma tendência de descida justificada pela progressiva acalmia económica. 

Parece claro que existe aqui uma relação direta entre a entrada da Troika, o receio de bancarrota e as desconfianças relativamente à solidez da banca nacional e à sua capacidade para cobrir os depósitos. São receios que, infelizmente, a realidade confirmou e é natural que, na passagem de 2010 para 2011, quem tivesse dinheiro em Portugal o retirasse. 

Podemos tecer uma série de considerações, inclusive de falta de patriotismos e de solidariedade, mas não de ilegalidade. Que cada um avalie o que faria em 2012 se, por exemplo, ouvisse as notícias sobre o possível colapso dos bancos nacionais e tivesse 400.000 euros resultantes das poupanças duma vida de emigração, ou da venda duma empresa, duma herança ou do que seja… Um grande e anormal fluxo acontece, porem, em 2015, não sei em que mês, mas no seu blog Helena Garrido diz que terá sido depois das eleições de Outubro. Uma vez mais, isto confirmaria a tese comummente aceite de que os mercados não gostam da incerteza e sabemos a incerteza que reinou depois das eleições, não sendo difícil adivinhar que investidores e aforradores tivessem receio dum governo do PS apoiado pelos partidos à sua esquerda. Receios que, diga-se de passagem, o futuro demonstraria serem infundados.

Note-se que todo este dinheiro foi transferido de bancos para bancos, não andou a circular nos fundos falsos de malas. Se alguém crê que aquilo que tem no banco é ignoto ao fisco, desengane-se, hoje todos os movimentos estão registados e são controlados. Não temos por isso nenhuma razão para crer que tudo não tivesse sido já tributado como rendimento.

Acresce que todas estas transferências são legais. Há uma lista de países onde não seriam, mas parece-me desnecessário enumera-los.

Posto isto, a análise destes números tem interesse para quem queira estudar a psicologia dos mercados, mas nada leva a supor que possa ter relevo na análise da fuga ao fisco.



Luís Novais


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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

"MENTE MAS FAZ OBRA"?


Defender Centeno nestas circunstâncias já não é possível. Aceitar que mentiu mas teve resultados, é uma versão quase direta do célebre “rouba mas faz obra”. A polis não pode aceitar estes “mas” relativamente aos que a governam.

Em vários debates defendi Mário Centeno durante a  prolongada polémica que ocorreu em torno da isenção aos administradores da Caixa. Cheguei a escrever a um amigo, deputado do PSD, reclamando do que me parecia um exagero quase farisaico.

Depois veio o depois. Primeiro, a diferença entre a data de aprovação e a publicação do famoso decreto. Aí comecei a duvidar, mas aquelas explicações de António Costa deixaram-me aquém da dúvida razoável. A plena deceção aconteceu neste último episódio, o das mensagens entre o Ministro e o indigitado presidente do banco público.

Nestas circunstâncias já não é possível defender Centeno. Aceitar que "mentiu mas teve resultados", é uma versão quase direta do célebre “rouba mas faz obra”. A polis não pode consentir estes “mas” relativamente àqueles que a governam.

Alguns amigos argumentam-me que os SMS são mensagens privadas. Curiosamente, nesse mesmo dia rejubilei com a demissão de Michael Flynn, o inenarrável conselheiro de segurança do inenarrável presidente Trump. Nem o mais clownesco sucessor de George Washington conseguiu segurar um colaborador que oficialmente mentiu, tampouco tentou esticar a corda ao ponto de dizer que as conversas telefónicas são privadas. Todos, até os mais altos responsáveis políticos, têm direito a uma vida pessoal, desde e quando esta não interfira com as funções públicas e, sobretudo, desde e quando não procurem transformar em privado aquilo que é político.

Mário Centeno caiu na ratoeira que a si mesmo armou: Mentiu e, pior, mentiu ao parlamento. Desconfio até que o presidente Marcelo já tinha conhecimento da existência destas mensagens; tenho dúvidas se as certeiras declarações sobre a inexistência de prova escrita não foram parte dum drama cujo climax acaba de se tornar público.  

Qualquer país é constituído por um corpo de cidadãos com várias funções. A maioria não se dedica à política orgânica, uns porque não sentem vocação, outros porque têm consciência das suas fragilidades. Todos temos o direito de exigir mínimos a um político: Que não se aproprie de bens públicos, que não minta… numa palavra: Honestidade, a honestidade tem de ser a essência da gestão pública. Quem falha aí, falha em tudo. E é perante esta falha que se torna incompreensível a posição da maioria parlamentar, que recorreu a meros argumentos regimentais para inviabilizar uma análise destas mensagens.

Mário Centeno é, hoje, um político sem credibilidade, um ministro no qual já não se pode confiar. Os resultados da política financeira deste governo podem ou poderiam até ser bons (eu creio que apenas não são maus, pois seguem uma tendência que já vinha do passado), os resultados sociais podem ser bons (aqui estou de acordo). Mas, se a base do sucesso financeiro dum país é a sua credibilidade, quanta resta ao ainda ministro das finanças?

“Mente mas faz obra”, a segunda afirmação está negada pela primeira.



Luís Novais
                

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

BRASIL, VITÓRIA DO ESPIRITO SANTO, DITADURAS E BALÕES DE ENSAIO



De entre esta classe política, uns passariam facilmente para o lado dos militares e, em ditadura, com censura e magistrados manietados, ser-lhes-ia fácil que, à lavagem de dinheiro, se siga a lavagem de imagem. Outros seriam as "vítimas", obtendo facilmente asilo político num país ocidental, com as contas recheadas e livres de qualquer fiscalização.

Cerca de 260.000 habitantes, localizada na região mais rica do Brasil, boas praias, um aprazível balneário para a classe média e apenas a uma hora de avião das megapolis Rio de Janeiro e São Paulo. Senhores passageiros, bem-vindos a Vitória do Espírito Santo… uma cidade que, pelo outro lado, tem a violência contida de qualquer cidade média com grandes diferenças sociais. Numa palavra, eis o balão de ensaio perfeito para quem queira fazer uma experiência sobre o resultado político duma explosão da violência.

A história é conhecida. No fim-de-semana passado alguns familiares de polícias colocaram-se frente às comissarias, impedindo os agentes de sair para as ruas. Exigem um aumento salarial de 100% e, com esta estratégia, contornaram a ordem constitucional que nega às forças da ordem o direito à greve.

Com os agentes fora de combate, instalou-se o caos e a violência: Tiroteios constantes, saqueio de lojas, de residências e perto de cem mortos em apenas quatro dias.

Falei com alguns moradores locais que desde domingo já reclamavam a presença imediata do exército nas ruas, um pedido que foi secundado pelo governador em exercício. Segunda-feira chegaram os primeiros mil soldados, mas as autoridades locais já estão a reclamar por mais.

Os adeptos da teoria do caos dirão que tudo foi uma sequência de acontecimentos não previstos e não previsíveiss. Por seu lado, os cultores da conspiração tendem a procurar a mão por detrás do boneco.

Casualidade ou planeamento maquiavélico, as consequências poderão ser as mesmas, e o que se está a passar em Vitória pode facilmente provocar-se em São Paulo ou no Rio. Se, destas duas metrópoles, tudo se estendesse a duas ou três cidades de dimensão média-grande, como são Belo Horizonte, salvador ou Porto Alegre, criar-se-ia um caos nacional, ou seja, o ambiente para que os cidadãos peçam ao exército que tome conta da situação. Nestas condições, facilmente um general-salvador-da-pátria quebra a espinha dorsal duma democracia minada pela corrupção.

Todos os crimes precisam dum motivo, e motivos não faltam. Em primeiro lugar, uma ditadura militar poderia interessar aos donos do país, uma aristocracia empresarial assente na finança, na indústria e na construção, que sempre viveu dum protecionismo que, em aliança com políticos corruptos, lhe garante ganhos fáceis. Para eles, a Democracia é descartável e, inclusive, incomoda-os ter de discutir na rua os seus projetos de “desenvolvimento”, as suas contaminações ambientais, os seus crimes contra os direitos das populações nativas. Como se começa a ver, um regime com liberdade de expressão e independência do poder judicial, já não lhes oferece mais do que a prisão.

E o que dizer duma classe de políticos que se enquistaram no sistema? Os escândalos de corrupção corroem o edifício institucional de que vivem, e tudo lhe está a correr mal desde que não funcionou essa manobra de diversão que foi destituir Dilma Roussef, uma das poucas que tem as mãos limpas. De entre esta classe política, uns passariam facilmente para o lado dos militares e, em ditadura, com censura e magistrados manietados, ser-lhes-ia fácil que, à lavagem de dinheiro, se siga a lavagem de imagem. Outros seriam as "vítimas", obtendo facilmente asilo político num país ocidental, com as contas recheadas e livres de qualquer fiscalização.

Falo com alguns amigos brasileiros e sinto esse ambiente, essa ideia de que a Democracia que têm não se consegue reformar a si mesma. Muitos vivem a ilusão de que uma ditadura seria menos corrupta, esquecendo-se que é graças à liberdade de expressão e à independência do poder judicial que a corrupção está a ser atacada. Entre perder o coração com anestesia, ou o dedo a sangue frio, alguns parecem inclinados para a primeira opção.

É por isso que estou muito atento e preocupado com o que se passa na cidade de Vitória. A situação em que está o  Brasil não é muito diferente da de outros países, não só da América latina. E aí, em vez dum balão de ensaio, teríamos um efeito dominó…



Luís Novais



quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

OS GATOS E O SACO DE ANTÓNIO COSTA



Estas décadas de História já nos deveriam ter ensinado que sacrificar o amanhã em nome de falsas unanimidades hoje, traz maus resultados.

António Costa é perito nas quadraturas de círculo, mas agora faltou-lhe um dos ângulos. Fez um acordo com a esquerda para derrotar a direita e para isso assumiu compromissos. Para cumprir esses compromissos fez um acordo que em parte contraria os parceiros da esquerda. Para derrotar estes e ao mesmo tempo cumprir com o que lhes prometeu, queria um acordo com a direita, essa contra a qual já antes se coligara com os mesmos que precisa agora de derrotar.

Esta é a parte da questão que pertence ao jogo partidário, e só não nos surpreende porque já estamos habituamos. O pior é quando os jogos de poder nos tocam a nós e, para se sustentarem no presente imediato, os políticos põe em causa o futuro de todos.

Não é preciso explorar aqui a instabilidade do edifício da nossa segurança social, corroído por problemas demográficos e por modelos de compensação que foram pensados no tempo em que o presente era apenas o futuro, um erro que António Costa se preparava para repetir e que foi já antes cometido por muitos pretensos senadores da república, que agora rasgam as vestes contra a posição de Passos Coelho.

Estas décadas de História já nos deveriam ter ensinado que sacrificar o amanhã em nome de falsas unanimidades hoje, traz maus resultados. É por isso que sou contra este acordo, no qual duma geringonça se quer fazer um saco onde caibam cada vez mais gatos.

Tenho basicamente três motivos para isso:

1. Sacrifica-se o futuro ao presente. Esta questão é precisamente aquele que acabo de referir. Os defensores do acordo dizem que ele é neutro porque o aumento de salários vai significar um crescimento de receitas nas contribuições sociais, que compensa a quebra. Esquecem-se que qualquer aumento não é neutro no futuro, esse mesmo que não se importam de sacrificar para ficarem um pouco mais confortáveis no presente

2. Desconfio dos políticos. Claro que pode sempre surgir o argumento de que a perda de receita é diminuta, ou tendente a zero. O problema é a porta que se abre: Se aceitamos este princípio agora, não faltarão soluções idênticas para os mais díspares problemas no futuro. Agora é o salário mínimo, depois vem a economia global e a concorrência dos países sem modelo social adequado, depois é a competitividade das empresas e mais e mais e mais… A tudo isto, digo Não, mas um Não rotundo: As verbas sociais são sagradas, são justas e não devemos deixar cair esse princípio em nome de nada.

3. Agrava o problema do trabalho. Já aqui defendi noutra ocasião que o Estado não se deve meter com as empresas quando estas decidem substituir o trabalho pela tecnologia. É uma opção económica legítima e que, a prazo, liberta o ser humano para funções por ventura mais valiosas e compensadoras. Mas se o Estado não deve intervir para impedir, tampouco o deve fazer para incentivar e isso é o que está a fazer, quando taxa socialmente o trabalho em vez da produção (ver aqui: Para Acabar com a Taxa Social sobre o Trabalho). Quando um Governo faz aquilo que Costa pretende, atinge-se o grau máximo do incentivo à degradação: Impulsiona-se a opção pelo trabalho com a remuneração mínima, quando o estímulo, a existir, deveria ser o contrário.

Uma referência final para regressar à questão partidária. Muitos têm atacado Pedro Passos Coelho por uma hipotética incoerência já que, dizem, ele mesmo já defendeu a diminuição da Taxa Social Única. Entre estes, a primeira linha é formada por uma brigada do reumático do PSD, encabeçada por nomes como Silva Peneda ou Manuela Ferreira Leite que, aliás, tem uma argumentação de que nem Ricardo Araújo Pereira se lembraria para os seus Gatos Fedorentos: Acha que está mal, mas Passos Coelho não deveria fazer nada!

Este é um peditório de luta partidária para o qual não dou. Se Coelho pensou assim e agora pensa diferente, melhor para nós. Pior para nós quando, na antítese, Costa não pensava assim e agora pensa.


Luís Novais

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

PORTUGAL E A CADA VEZ MAIOR DESUNIÃO EUROPEIA


Já não tinha dúvidas mas, se as tivesse, tê-las-ia perdido sobre a periclitante situação europeia e, desculpem se agora penso mais em nós do que nos outros, o que me preocupa é a impreparação dos nossos políticos e esta apatia cidadã. Claramente, estamos a seguir um caminho de forma monolítica, sem pensar que, de repente, tudo se nos pode escapar debaixo dos pés.
Enquanto um quase presidente e uma ainda chanceler se desentendem em público, convém lembrar que a União Europeia e a Nato são os dois esteios em que assentam as nossas políticas económicas e de defesa. Se a Alemanha é a maior potência da Europa, os Estados Unidos são o suporte da aliança militar. Sem os alemães acaba a União Europeia, sem os americanos acaba a Nato e sem cooperação entre os dois lados do Atlântico acabam ambas, iniciando-se uma nova era, que ainda ninguém entendeu muito bem como será.
É certo que nunca sabemos quando é que Trump planifica ou não o seu discurso, mas não pode ser por acaso que tenha escolhido uma entrevista a dois jornais europeus, The Times e Bild, para lançar algumas frases que, proferidas por uma mente com critério, seriam bombas: “Acho que o Brexit foi uma grande coisa”, “Outros países vão deixar a União Europeia”, “(A União Europeia) é basicamente um instrumento para a Alemanha”.
Surpreende a reação, ou antes, a não reação deste lado do Atlântico. Além duma dureza moderada da chanceler, não ouvi qualquer outro líder rechaçar tamanhas declarações, exceto a insignificante alta representante da UE para as relações externas, Frederica Mogherini, mesmo assim de uma forma tíbia e quase duvidando daquilo afirmava. Não, não criticou Trump por se meter na vida europeia, disse apenas que “respeito a opinião do quase presidente dos Estados Unidos”. Não, não fez uma declaração forte e segura sobre a solidez do edifício europeu, limitou-se a completar aquela frase com um “…mas penso que a União Europeia ficará OK no futuro”. Isto depois de ter dito “Eu penso que a União Europeia continuará junta”… ouvi bem?  Disse “Eu penso que…”? E isto para já não referir a forma como falou, cheia de interjeições e apresentando-se com a postura de quem não está mesmo nada convicta daquilo que afirma.
A única conclusão é que a Europa já não tem líderes capazes de por ela lutarem e de por ela darem a cara. A eurocracia deixou esse caderno de encargos a uma burocrata quase insignificante e, enquanto Trump crava punhaladas na União, Marcelo Rebelo de Sousa estava contente porque teve direito a 12 minutos de conversa telefónica. Depois da eleição norte-americana, suponho que o cabo transatlântico foi sobrecarregado pelas chamadas dos chefes de estado e de governo europeus, certamente alguns com direito a um bocado mais dos que os tais 12 minutos.
Já não tinha dúvidas mas, se as tivesse, tê-las-ia perdido sobre a periclitante situação europeia e, desculpem se agora penso mais em nós do que nos outros, o que me preocupa é a impreparação dos nossos políticos e esta apatia cidadã. Claramente, estamos a seguir um caminho de forma monolítica, sem pensar que, de repente, tudo se nos pode escapar debaixo dos pés.
Que pelo menos a cidadania comece a discutir as vias alternativas, que se comecem a traçar novos caminhos, a vislumbrar outros espaços naturais em que nos possamos integrar.
Eu, que sempre me senti atlântido, acredito que temos opções. Independentemente da via, é urgente sair desta fase de negação. Há uma grande probabilidade de que o espaço geoestratégico em que nos movemos durante estes 30 anos deixe de existir. Nessa situação, se não queremos que também o nosso país caia nas mãos de demagogos ou, até, de ditadores de pacotilha, temos de definir, e claramente, para onde e como vamos?


Luís Novais

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

SENTIMENTO EM TORNO DA MORTE DE SOARES



Todo este foi o meu sentimento quando assisti na televisão a esse fim dos tempos representado por aquele réquiem, por aqueles discursos, aquelas caras, aquele caixão justamente coberto pela bandeira nacional, aquela voz declamante de Maria Barroso. Talvez estejamos exaustos, não sei, talvez nos sobrem os falsos banqueiros, os políticos corruptos, os governantes que insistem trilhar chão que já não vive. Talvez. Mas credito, quero acreditar, que temos alternativas, que ainda contamos com os Soares e com os Sás Carneiro, que ainda temos cepa para concretizar. Afinal, a energia, toda a energia, é o sonho.

Gosto de sentir antes de escrever e não escrevo enquanto não sinto. Mais a mais quando quero falar de algo e alguém sobre cuja vida e morte já tudo e de tudo se disse; do mais laudatório ao mais infamante, do bem fundamentado ao que se baseia em boatos que não resistem a uma rápida verificação. Refiro-me a Mário Soares, claro.

Tive o sentimento que me levou à escrita quando na televisão vi partes da cerimónia fúnebre, com os discursos dos filhos do ex-presidente entrecortados pelo som do réquiem, com a sua imagem entrecortada pela dos que estavam presentes e pela dum caixão de Bandeira Nacional coberto.

Nesse preciso momento, tive um sentimento de grande perda, mas não, não me refiro ao homem cuja morte naturalmente lamento e me pesa, refiro-me à História. Naquele preciso momento senti que era a nossa História, um dos seus períodos, que estava a ser enterrada, que toda a celebração era um adeus, não a alguém, mas a uma época.

Soares era um homem mais do que feito quando se deu o 25 de Abril, tinha 50 anos. O seu percurso foi o duma geração que começou por sonhar democracia e por ela lutou, essa mesma a que pertenceu também outro dos pais fundadores do nosso regime, Sá Carneiro.

Depois de dar tudo por tudo pelo modelo de regime, essa geração teve de encontrar uma alternativa ao sistema económico fechado e colonial que era anteriormente vigente. A descolonização foi e teve de ser apressada, não por culpa de Soares ou de alguém depois de 1974, mas por criminosa negação daqueles que antes nos governaram e que, por se recusaram a entender o seu tempo, agiram exclusivamente a seu modo.

Economicamente, o modelo de “capitães de indústria” em que assentava o tecido empresarial salazarista também já estava esgotado e não resistiria a uma competição fora dos mercados protegidos com que antes contavam. Que eu saiba, ainda ninguém se dedicou a fazer um sério estudo sobre a situação económica dos grandes conglomerados industriais e financeiros que se desmoronaram em 1974. Quando isso for feito, desconfio que vamos ter surpresas ainda maiores do que aquelas que tivemos recentemente, quando nos inteiramos do estado em que estavam as nossas maiores empresas, os nossos maiores bancos… com a diferença que estes últimos não tiveram a sorte duma revolução que pudessem culpar, que lhes lavasse a imagem, que os transformá-se em vítimas de suposta espoliação.

Para aqueles que em 1974 sonhavam com uma democracia de cariz ocidental, não restava outra via política e económica que não fosse a europeia, e foi essa hipótese que agarraram com unhas e dentes. Soares formalizou o pedido de adesão em 1977, Sá Carneiro continuou-o e, finalmente, seria um Soares novamente primeiro-ministro e já candidato a presidente quem assinou o tratado de adesão em 1986. Lembro-me bem desse momento; talvez o facto de ter decorrido naquele mesmo espaço dos Jerónimos, esse onde agora nos despedíamos, tenha sido a ironia que faltava para me provocar este sentimento de estar a assistir a um fim de ciclo.

Coube depois a Cavaco Silva operacionalizar a adesão, coisa que fez de forma medíocre, usando os recursos disponíveis para pequena política, esbanjando, aliando-se a uma elite cleptómana e devolvendo os grupos empresariais às mesmas famílias que os detinham antes de 1974. O custo da desastrosa situação que hoje vivemos, não é dos que nos sonharam europeus, mas dos que, depois disso, nos conduziram até aqui. Entre eles, o primeiro posto é ocupado por Cavaco Silva, mas está igualmente acompanhado por Guterres e por essa inenarrável cereja no topo do bolo que ainda se pensa político e se chama Sócrates. Passos Coelho, com a sua frontalidade, António Costa, com a sua malabarista bonomia, são tão vítimas destas duas décadas e meia como todos nós, e a única culpa que carregam é a de não serem suficientemente visionários e estadistas para conseguirem apresentar aos portugueses o sonho duma alternativa, coisa que os pais da nossa democracia, bem ou mal, conseguiram a seu tempo fazer.

Hoje, vemos os portugueses mais capacitados abandonarem o país, recusando-se com isso a meter nos cofres públicos o que foi desviado para bolsos privados, temos um tecido empresarial que, apesar das exceções, não consegue competir globalmente, existimos numa União Europeia em desmembramento acelerado, olhamos atónitos para os Estados Unidos transformados numa Roma de imperador incendiário…  Esta é a hora, tem de ser a hora, para repensar a geoestratégia nacional, para voltar a sonhar alternativas, para apontar e trilhar novos caminhos.

Todo este foi o meu sentimento quando assisti na televisão a esse fim dos tempos representado por aquele réquiem, por aqueles discursos, aquelas caras, aquele caixão justamente coberto pela bandeira nacional, aquela voz declamante de Maria Barroso. Talvez estejamos exaustos, não sei, talvez nos sobrem os falsos banqueiros, os políticos corruptos, os governantes que insistem trilhar chão que já não vive. Talvez. Mas credito, quero acreditar, que temos alternativas, que ainda contamos com os Soares e com os Sás Carneiro, que ainda temos cepa para concretizar. Afinal, a energia, toda a energia, é o sonho.




Luís Novais

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

GRANDEZA E PODER NA CIVILIZAÇÃO LAMBAYEQUE

Num território com estas características, tinha de haver uma organização social forte para que se fizesse a gestão da água, se construíssem canais de irrigação e se regulasse a sua utilização, transformando a árida terra num solo fértil, e originando aqueles excedentes que possibilitam uma acumulação sem a qual as civilizações não despontam.

Na pequena cidade de Túcume, a meia hora de carro de Lambayeque, capital da região peruana com o mesmo nome, cada família tem o seu santo, cujo culto celebra e ao qual recorre nas horas mais difíceis, pormenor que refiro pelo que adiante explicarei. A menos de 10 minutos, visita-se o sítio arqueológico, ou huaca como dizem os peruanos, de Túcume, um importante centro urbano Lambayeque, cultura que floresceu no noroeste do atual Peru entre os séculos VIII e XV, quando foi absorvida pelo império Inca, depois dum período de relativa submissão aos Chimús, outra cultura que se surgiu mais a sul, na atual região de La Libertad.

Passei o Natal de 2016 em Chiclayo, atualmente uma importante cidade comercial da região e, com a Yvonne, aproveitamos para conhecer melhor esta cultura, visitando-lhe os vestígios materiais, indo a museus e ouvindo-lhe as lendas e tradições. O que se segue são os sentimentos que esta busca me gerou.

Existindo entre os séculos VIII e XV, a civilização lambayeque foi uma das muitas que prosperaram no Peru pré-hispânico (foto: representação no museu do sítio de Túcume)


Zona arqueológica de Túcume
Quando aqui entramos, deparamo-nos com 26 pirâmides construídas ao redor duma montanha, que claramente teria um carater sagrado e serviria de denominador comum entre as diferentes construções. Estes edifícios, que eram simultaneamente locais de culto e residência das famílias mais poderosas, estão formados por adobes de terra amassada com fibras vegetais, cuja forma se assemelhava a um pão-de-forma com a base plana e o topo redondo, característica que, suponho, dava flexibilidade ao edifício e lhe permitia resistir aos sismos que são frequentes nesta zona do planeta.

As 26 pirâmides de Túcume foram construídas em torno duma montanha sagrada (maquete no museu do sítio)

Atendendo aos recursos e à tecnologia da época, a construção destes templos residenciais representou um grande investimento, o que nos permite supor uma estrutura social baseada no poder de várias famílias que formariam uma espécie de aristocracia sacerdotal. Os Lambayeques tinham também aquilo a que, por analogia ocidental, poderíamos chamar um rei.

Adobes com a base plana e o topo arredondado deveriam dar às pirâmides a flexibilidade necessária para resistirem aos frequentes sismos.


Ascenção e queda duma quase monarquia
A primeira referênca escrita a este “rei” ou senhor provem do cronista espanhol Miguel Cabello Valboa (“Miscelánia Antártica”, 1586), que passando pela região no século XVI recolheu a lenda de Naymlap (Homem Pássaro), um herói navegador que aqui teria desembarcado no século IX com um séquito de funcionários e concubinas. Segundo a lenda, internou-se um par de quilómetros costa adentro e aí mandou construir um templo piramidal, onde instalou um ícone de jade verde que representava o deus Yampallec, que não só se transformou na maior divindade desta cultura, como lhe originou o nome. O templo em questão chamar-se-ia Chot e deverá corresponder ao conjunto cerimonial hoje conhecido como Chotuna, formado por pirâmides e outras edificações, que está no distrito chiclayano de San José, perto da costa e a uns 50 Km desta cidadela de Túcume.

Do alto da montanha sagrada de Túcume temos uma visão panorâmica das 26 pirâmides que formavam a cidadela.

A mesma lenda seria igualmente recolhida em finais do século XVIII pelo pároco Modesto Ruviños y Andrade, que foi cura duma paróquia local. A sua descrição advém de registos orais da região e é muito semelhante à que, dois séculos antes, tinha sido escutada por Cabello Valboa.

A lenda da chegada no navegador Naymlap (Homem Pássaro), o mítico fundador da dinastia Lambayeque, parece estar representada neste alto relevo num templo de Túcume.

Segundo reza esta tradição oral, Naymlap teria instaurado uma dinastia da qual saíram 11 sucessivos “reis”, que governaram entre os séculos IX e XIV. O último deles foi Fempallec, responsável por transferir o ídolo de Yampallec do local sagrado de Chot (Chotuna), onde quinhentos anos antes tinha sido colocado pelo seu antepassado Naymlap. Conta a lenda que a mudança domiciliar enfureceu o deus, tendo manifestado a sua ira com o envio de chuvas diluvianas seguidas de grandes secas.

Maqueta do complexo cerimonial de Chotuna (em Chiclayo), que tará sido construído por Naymlap e onde terá colocado o ídolo de jade verde com a representação do deus Yampallec.


A pirâmide principal do complexo cerimonial de Chotuna (em Chiclayo) nos dias de hoje. Aqui residia a imagem de Yampallec, o mais importante deus do Olimpo Lambayecano. 

De acordo com a mesma lenda, este rei teve uma vida bastante atribulada e terminou os seus dias da pior forma. Não satisfeito com ter desalojado a divindade, atreveu-se a copular com um demónio que lhe apareceu disfarçado de uma bela mulher. Não sabemos se o fez pela frente se por detrás, que há vários registos cerâmicos testemunhadores de os Lambayequinos terem sido bons apreciadores da forma de procriação que mais nos aproxima de outras espécies, nomeadamente daquela que costumamos dizer ser a nossa melhor amiga.

Independentemente da posição escolhida, que terá ficado segredo bem guardado entre o rei e o demónio, este atrevimento somou-se fatalmente à mudança de condomínio do deus Yampallec e às consequentes chuvas e secas com as suas fomes. Tudo junto já era de mais para que os lambayecanos continuassem a suportar o atrevido rei, razão para que os aristocráticos sacerdotes se tenham reunido em concílio, de onde saiu desastrosa sentença para o pobre “rei”: Considerado culpado de todas as tragédias, foi condenado a ser amarrado de pés e mãos e, não sabemos se com ou sem peso ao pescoço, foi lançado ao mar alto. A lenda termina aqui e consta que, pelo menos até aos dias de hoje, Fempallec não voltou a ser visto por estas paragens. Fossem outras e talvez estivesse para eternos regresso numa manhã de nevoeiro.

Os Lambayeque tinham gostos sexuais diversificados. Não sabemos qual terá sido a posição escolhida pelo último rei para copular com o demónio que lhe apareceu na forma duma bela mulher.

Em seguida, os Lambayeques submeteram-se ao governo Chimú, outra civilização que floresceu um pouco mais a sul, na região hoje conhecida como La Libertad, e de que também falarei noutra ocasião.

A origem
A cultura Lambayeque seguiu-se à Moche, que se desenvolveu na costa norte do Peru a partir do século II. Os Moches tinham grandes contradições internas de que poderemos falar noutra ocasião, entraram em decadência pelo século V e a sua cultura extingue-se no VII. São sucedidos precisamente pelos lambayeques, na zona norte do seu território, e pelos chimús, mais a sul.

O despontar da civilização Lambayeque no século VIII, faz-nos adivinhar um período conturbado durante os duzentos anos que mediaram entre a queda da cultura moche e o aparecimento desta última. Refira-se que a região é uma costa desértica, entre-cortada por vales-oásis formados à custa dos rios que, nascidos nos Andes, correm para o Pacífico.

A sumptuosidade da arte fúnebre mostra que esta civilização tinha uma aristocracia forte, frente à qual o rei teria dificuldade para afirmar o seu poder. Na foto: máscara fúnebre da sacerdotisa de Chornancap, cuja sepultura foi descoberta em 2011


Num território com estas características, tinha de haver uma organização social forte para que se fizesse a gestão da água, se construíssem canais de irrigação, se regulasse a sua utilização e assim conseguir transformar esta árida terra num solo fértil, originando aqueles excedentes que possibilitam uma acumulação sem a qual as civilizações não despontam. A essa mesma necessidade assistimos, por exemplo, no Egito, com a diferença de que aí se viveu à sombra dum grande rio que deu azo a um grande império centralizado. Na costa peruana não há nada de parecido a um Nilo, mas sim diversos cursos de pequena e média dimensão, que nunca permitiram uma concentração de riqueza suficiente para que pudesse despontar uma igualmente grande concentração de poder e, portanto, uma civilização que capaz de atingir uma significativa dimensão demográfica e territorial.

A monumentalidade dos palácios-templo onde vivia a aristocracia sacerdotal, comprova a existência dum importante grupo social, que deveria fazer contrapeso ao poder do "rei". Na foto: maqueta do complexo residencial da sacerdotisa de Chornancap (museu do sítio)

A tudo isto, acresce que o litoral peruano foi desde sempre afetado por fenómenos naturais, como é o caso de El Niño, que, periodicamente, destruíram tudo o que estava e obrigaram a sucessivas necessidades de reconstrução e a uma recomposição por vezes secular dos processos civilizacionais.

Necessidades e contradições
Temos então que estas culturas viviam uma contradição: Por um lado, as características naturais dum deserto com vales irrigados obrigavam a uma centralização capaz de planificar o uso da água; por outro lado, a relativa pequena dimensão das zonas férteis não permitia que o poder central se afirmasse com aquela grandeza necessária à cabal subjugação da sociedade. A isto acrescem os desastres naturais que, periodicamente, destruíam a riqueza e, a-fortiori, o poder acumulados.

Os Lambayeque decoravam os seus edifícios com altos relevos que depois pintavam. Na foto, zona cerimonial do templo de Chotuna, o local mais sagrado desta cultura.

A proliferação de grandes centros residenciais que eram também locais de culto faz-nos adivinhar uma sociedade senhorial, com uma organização complexa, unida em torno dum mesmo deus e dum governante que teria dificuldades em afirmar-se junto dos seus muitos e poderosos pares. Nos períodos com vazios de organização, como terão sido os duzentos anos que decorreram entre a queda da cultura moche e o aparecimento da lambayeque, a necessidade de uma total reorganização criava as condições imprescindíveis ao aparecimento e aceitação duma espécie de rei, a quem se reconhecia uma unificadora legitimidade, sustentada talvez por um ato heróico, por um mito e, provavelmente, pela sua relação privilegiada com um deus comum.

A pirâmide de Chornancap, onde viveu uma representante da aristocracia sacerdotal cujo túmulo foi descoberto em 2011, é visível desde Chotuna, o local mais sagrado desta civilização, 

Esse terá sido o caso de Naymlap, o mesmo que, segundo a lenda, terá desembarcado nesta costa pelo século IX, trazendo consigo um ídolo de jade verde, tipo pedra que não existe na região andina exceto numa zona muito específica da atual Colômbia. Não sabemos se Naymlap terá sido um estrangeiro aportado ao território, se um aventureiro autóctone que saiu à descoberta de novos mundos, usando os típicos barcos de fibra de totora cuja utilização já se conhecia na costa peruana pelo menos desde a civilização de Caral, surgida há 5.000 anos na região de Lima. Chegado ou regressado vivo, com um séquito, tendo contactado com outras culturas centro-americanas e trazendo consigo um novo deus, Naymlap tinha tudo para ser possuído duma força mítica, o que lhe dava aquela mesma legitimidade que, nesses anos conturbados, a reorganização social e territorial demandava.

Uma civilização e as suas saudações (cerâmica da cultura lambayeque no museu Bruning).


Diz também a lenda que, quando morreu, Naymlap se transformou num pássaro e voou para a sua terra, ficando imortal. Nesta parte da lenda é impossível não vislumbrar uma dupla necessidade: Social, para que o sobrenatural mantenha a unidade, e política, por parte dos seus descendentes, para afirmarem o poder dinástico.

Diz a lenda que Naymlap se transformou num pássaro e partiu para uma terra distante (pássaro no templo de Chotuna)


A queda dum "rei"
Atendendo à clara fragmentação duma sociedade com senhores que eram tão poderosos como para construírem as 26 grandes residências piramidais de Túcume, é de supor que, passada a fase inicial de necessária submissão reorganizadora, tenhamos assistido a uma lenta guerra de poder entre esta aristocracia e os descendentes de Naymlap, muito humanamente interessados na centralização do poder e na concentração da sua fonte, que era a terra arável e irrigada.

O episódio da retirada do ídolo do deus Yampallec do seu santuário ancestral corresponderia talvez a essa tentativa do monarca, que assim transferia o símbolo sagrado dum espaço possivelmente dominado pela velha aristocracia sacerdotal, instalando-o num outro que representava apenas a grandeza do governante.

O poder desta aristocracia foi recentemente reafirmado pela descoberta em 2011 do sumptuoso túmulo duma sacerdotisa em Chornancap, uma pirâmide que fica cerca de três quilómetros a ocidente do santuário de Chotuna, o mesmo onde originalmente foi colocado o ídolo de Yampallec. A múmia desta sacerdotisa ainda está em tratamento laboratorial, mas parte do seu rico espólio, com diversas joias e peças de ouro, já pode ser apreciado no museu Bruning, na cidade de Lambayeque.

Neste contexto, a lenda da heresia do último rei será talvez a mítica legitimação duma clara conspiração. O modelo económico e social já estava estabilizado, o poder bem repartido entre as casas senhoriais e a ideia dum monarca era, possivelmente, um estorvo a esse status-quo, mais a mais quando este procurava concentrar a autoridade em si mesmo.

Uma aristocracia poderosa deveria contrariar o poder da dinastia de Naymlap.
Na foto: reconstituição da sacerdotisa de Chornancap no museu do sítio

Provavelmente a ocorrência dum fenómeno El Niño foi o pretexto esperado para acusar Faymllap de blasfémia. Podemos até imaginar que, na sua luta, o governante se tenha aliado a uma das casas senhoriais, unindo-se à sua representante, o que estaria na origem do mito da sua profana cópula com um demónio disfarçado de bela mulher.

Fábrica de fazer deuses (museu Bruning em lambayeque).


Ao mesmo tempo, mais a sul, outra cultura, a chimú, atingia o apogeu e mostrava uma clara apetência expansionista. Não é difícil supor que os membros da aristocracia lambayeque se relacionassem com os senhores de Chimú e que estes estivessem ao corrente do conflito de poder lambayecano. Sendo assim, estavam abertas todas as condições para uma negociação, mediante a qual os primeiros se submeteriam aos segundos, sob condição duma grande descentralização de poder que, na prática, consolidaria a aristocracia de Lambayeque, a mesma que terá concluído mais lhe valer um “rei” distante que lhe entregava as rédeas, do que um próximo que as queria para si. O único obstáculo a esse desiderato chamava-se Faymllap e o problema foi, como vimos, fácil de resolver: O mar lhes trouxe a dinastia quando foi necessária, o mar a levou quando já estorvava.

A mensagem da montanha sagrada de Túcume: "Façam as vossas pirâmides, mortais, façam. Vivam e orem nelas, mas nenhum de entre vós é tão poderoso que tão alta residência possa construir". 


Ontem e hoje
Voltando ao início deste texto, hoje em dia na pequena cidade de Túcume cada uma das famílias que aí vive presta um culto especial ao santo que lhe corresponde pelo apelido; uma separação unificada pela fé na Virgen de la Purisima Concepción, com o seu manto triangular que nos recorda uma montanha. Vendo-os, estamos talvez a testemunhar uma sobrevivência dessas 26 pirâmides que repousam perto dali, onde outras tantas famílias senhoriais viveram e praticaram culto, cada uma guardiã da sua divindade familiar, todas unificadas pelo celebração ao deus Yampallec e dispondo-se ao redor duma montanha sagrada, que estava imbuída duma mensagem clara: "Façam as vossas pirâmides, mortais, façam. Vivam, orem e sepultem-se nelas, mas nenhum de entre vós é tão poderoso que tão alta residência possa construir".

Desatento e qual ícaro lambayecano, a tragédia de Faymllap, o último da sua dinastia, terá sido esquecer-se desta autêntica mensagem à humildade dos homens. Vieram depois outros, mas esses já são diferentes capítulos de um mesmo conto.



Luís Novais