sábado, 31 de agosto de 2019

DA REVOLUÇÃO FRANCESA À INVOLUÇÃO CONTEMPORÂNEA



Hoje voltamos assistir a reações de medo, bem patentes na eleição de líderes orientados a esse modelo de poder a que o sociólogo Alain Rouquié chamou “democracias hegemónicas”, ou seja, que procuram fundir democracia com autoritarismo, primeiro passo que poderia ser ensaio duma férrea ditadura.

Em Les Origines Culturelles de la Révolution Française (1990) o historiador Roger Chartier desvalorizou o papel fundamental das filosofias iluministas no despontar do espírito revolucionário e, em seu lugar, valorizou o aparecimento ao longo do século XVIII dum novo ente social, composto por indivíduos com sentimento de pertença a uma mesma comunidade baseada no conhecimento e na partilha dum conjunto de valores: a "Opinião Pública".

Diz-nos Chartier que este conceito é oposto ao de opinião popular, porquanto surgiu da expansão da imprensa e se circunscreveu originalmente aos grupos alfabetizados com hábitos de leitura. É, portanto, um grupo elitista e, desmistificando uma ideia pré-concebida, uniu mais a nobreza e a burguesia, do que esta última e o povo iletrado.

Curiosamente, estas conclusões são muito semelhantes às de Benedict Anderson na sua obra fundamental Imagined Communities (1983). Segundo Anderson, a ideia de nação, que começou a surgir no século XVIII (teria o apogeu no XIX e a tragédia no XX) a partir da comunhão entre pessoas que não se conhecem mas sentem pertencer a uma mesma entidade, essa tal “comunidade imaginada”. Na origem deste espírito, o antropólogo encontrou a mesma expansão da imprensa que Chartier considerou fundadora da “Opinião Pública”.

É curioso que este último desconheça a obra de Anderson e que Anderson tão pouco o cite, mesmo nas edições posteriores. Os dois autores seguiram caminhos muito paralelos e as suas conclusões são semelhantes, embora com objectivos diferentes: encontrar a origem da Revolução Francesa, num, a do nacionalismo, no outro. Em nota de rodapé diria que este desconhecimento mostra bem o longo caminho ainda por percorrer no interconhecimento das diferentes ciências sociais, e isto apesar da escola de Chartier ser a chamada História cultural, a mesma que se fecundou bastante com a Antropologia.

De todas as maneiras, tanto a “Opinião Pública” como a “Comunidade Imaginada” terão necessariamente surgido no seio dum grupo social relativamente pequeno, que começou por formar a primeira massa com consciência de si.

Nos dias de hoje assistimos a uma nova grande transformação, apenas comparável àquela que nos proporcionou Gutenberg. O aparecimento do carater tipográfico foi um chão que deu uvas e vindima até aos anos noventa do século passado, mas a partir daí assistimos a uma nova revolução tecnológica, baseada no carater digital transportado em redes de comunicação, capazes não só de transmitir dados, mas de permitir a interação. Numa sociedade completamente alfabetizada (diferente de letrada), esta mudança levou a novas relações e ao aparecimento de novas comunidades necessariamente fragmentadas e fugazes.

A entidade “opinião-publica” de Chartier, ou a “Comunidade Imaginada” de Anderson, já não formam grupos mais ou menos restritos, mais ou menos coesos. Pelo contrário, assistimos a uma explosão da liberdade de emitir ou procurar opinião, para a qual não estávamos provavelmente preparados e que certamente terá grandes consequências, como já tem.

Se o aparecimento e expansão da máquina de imprimir provocou a Revolução Francesa e o aparecimento do Estado Nação, aonde nos levará a internet com todas as suas redes sociais?

Numa obra que marcou a segunda metade do século XX, Erich Fromm, um dos discípulos de Freud, analisou o outro lado da expansão da imprensa, ela mesma muito relacionada com o surgimento do protestantismo, fomentador da leitura pessoal dos textos sagrados. Numa obra com o significativo título de “O Medo da Liberdade”, concluiu que essa mesma liberdade individual implícita na leitura direta da palavra divina, sem a intermediação imposta pela Igreja de Roma, terá gerado uma angústia pela falta de certezas e um consequente medo em busca de superação. É esse medo que terá buscado paliativo no determinismo marxista, ou nos intolerantes fenómenos de massas que foram o fascismo, o nacional-socialismo ou o estalinismo.

Postos os indivíduos perante um vendaval de opiniões e instados eles mesmos a opinar, fugir da liberdade pode ter sido o refugio da maioria ou duma grande parte. A verdade e a tolerância deixavam de ser um valor seguro e a fusão pessoal numa massa anónima chefiada por um führer ou por um duce teria sido porto de abrigo para a temida liberdade.

A revolução digital multiplicou exponencialmente a informação e a divulgação das opiniões, mas também a desinformação e a idiotice, gerando confusão nos espíritos e, digo eu, trazendo de volta o tal medo à liberdade. A imprensa tipográfica originou a libertação protestante, a consciência nacional ou a opinião-pública. Mas terminou numa negação da liberdade, numa anulação do indivíduo e nas ditaduras mais sanguinárias da história, ocorridas na primeira metade do século XX, a tal ponto que foram antídoto e trouxeram de novo o consenso numa liberdade controlada pela opinião que, por publicada, era controlada apesar de tudo.

Hoje assistimos novamente a reações de medo, bem patentes na eleição de líderes orientados a esse modelo de poder a que o sociólogo Alain Rouquié chamou “democracias hegemónicas”, ou seja, que procuram fundir democracia com autoritarismo, primeiro passo que poderia ensaio duma férrea ditadura… e escuso-me às referências para centrar o debate nas questões de fundo e não nas emocionais e secundárias.

O moderno “medo da liberdade” tem a sua génese no aparecimento da imprensa e vai crescendo em espiral até atingir o apogeu na sanguinária primeira metade do século XX. Hoje não são necessários 500 anos para aí chegar: a alfabetização global é uma realidade e a velocidade da comunicação acelera todos os processos mentais. Os fenómenos de intolerância e autoritarismo, os modelos políticos de matriz massificadora como foi o fascismo, são realidades que despontam como cogumelos, incluindo nas democracias mais consolidadas do mundo.

Se a tipografia de carateres levou à Revolução Francesa, estará a digital a conduzir-nos a uma Involução?... temo que sim.



Luís Novais

Foto: WikiImages from Pixabay 

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

O ARROGANTE SOU EU?



Se eu entrasse por um laboratório, se começasse a discutir teoria da relatividade ou física quântica com os cientistas, se me mandassem à merda mais às minhas ideias… os arrogantes seriam eles, ou seria eu que nem para aprender serviria?

Os estudiosos de humanidades ou ciências sociais somos várias vezes acusados de arrogantes sempre que saímos do meio académico e nos lançamos a públicos debates. Ainda hoje um bom amigo me atirou à cara, em acalorada discussão numa rede social sobre o Brasil desta era bolsonárica.

É verdade e conhecemos vários casos. Sem obviamente me comparar, uma inteligência brilhante como era a de Vasco Graça Moura tocava as raias do indecoroso quando tinha de baixar à rua, o reputado académico Augusto Santos Silva chega ao limite do insuportável nos debates públicos, de Boaventura Sousa Santos, um dos sociólogos mais reconhecidos internacionalmente, tão-pouco se pode dizer que seja um querido, todos nos lembramos com saudade da irascibilidade dum dos maiores escritores de sempre que foi (é) José Saramago… os exemplos poder-se-iam suceder.

Quando o meu amigo me acusou de “arrogância livresca” deixou-me a pensar no assunto. Reconheço-a, no sentido positivo de “livresco” e no negativo de “arrogante”, quando saio do meio intelectual donde venho, exceto tendo uma audiência não especialista mas praticamente passiva.

O penúltimo parágrafo surgiu daí, deu-me o conforto da boa companhia e fez-me reflectir sobre o assunto. Entro de frente num debate sobre História, sobretudo História cultural incluindo a literatura e a Filosofia, na Antropologia também não recuo e estudo falando como aprendiz de neurociência, principalmente no impacto dos seus avanços nestas referidas áreas. Direito também aceitaria debater com um advogado mas apenas ao nível dos princípios, jamais da técnica, da legislação ou do processo… e fico-me por aí.

Então dei comigo a pensar: “Discutirias Física com um físico? Química com um químico? Matemática com um matemático?” Não e posso supor os seus desesperos se a tal me atrevesse. Nem eu o faço nem ninguém que os não seja costuma fazê-lo, e então, físicos, químicos ou matemáticos têm a felicidade de que nenhum não-físico, não-químico, não-matemático se ponha a debater e a pôr em causa as suas conclusões.

Tenho inveja e é uma sorte que nós, os das Humanidades, os das Ciências Sociais, não temos: Não há quem não se sinta historiador, filósofo antropólogo, sociólogo ou psicólogo e não venha discutir História, Filosofia, Antropologia Sociologia ou Psicologia connosco, geralmente sem saber que o está a fazer.

O melhor seria resistir e não sair a terreiro. Mas não estaríamos numa recusa da divulgação científica? Não seria arrogância maior?

Se eu entrasse por um laboratório, se começasse a discutir teoria da relatividade ou física quântica com os cientistas, se me mandassem à merda mais às minhas ideias… os arrogantes seriam eles, ou seria eu que nem para aprender serviria?


Luís Novais

Nota: Dedicado ao meu querido amigo Joaquim Barbosa
PS: Solidário com os médicos desde que surgiu o Dr. Google.