quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

SENTIMENTO EM TORNO DA MORTE DE SOARES



Todo este foi o meu sentimento quando assisti na televisão a esse fim dos tempos representado por aquele réquiem, por aqueles discursos, aquelas caras, aquele caixão justamente coberto pela bandeira nacional, aquela voz declamante de Maria Barroso. Talvez estejamos exaustos, não sei, talvez nos sobrem os falsos banqueiros, os políticos corruptos, os governantes que insistem trilhar chão que já não vive. Talvez. Mas credito, quero acreditar, que temos alternativas, que ainda contamos com os Soares e com os Sás Carneiro, que ainda temos cepa para concretizar. Afinal, a energia, toda a energia, é o sonho.

Gosto de sentir antes de escrever e não escrevo enquanto não sinto. Mais a mais quando quero falar de algo e alguém sobre cuja vida e morte já tudo e de tudo se disse; do mais laudatório ao mais infamante, do bem fundamentado ao que se baseia em boatos que não resistem a uma rápida verificação. Refiro-me a Mário Soares, claro.

Tive o sentimento que me levou à escrita quando na televisão vi partes da cerimónia fúnebre, com os discursos dos filhos do ex-presidente entrecortados pelo som do réquiem, com a sua imagem entrecortada pela dos que estavam presentes e pela dum caixão de Bandeira Nacional coberto.

Nesse preciso momento, tive um sentimento de grande perda, mas não, não me refiro ao homem cuja morte naturalmente lamento e me pesa, refiro-me à História. Naquele preciso momento senti que era a nossa História, um dos seus períodos, que estava a ser enterrada, que toda a celebração era um adeus, não a alguém, mas a uma época.

Soares era um homem mais do que feito quando se deu o 25 de Abril, tinha 50 anos. O seu percurso foi o duma geração que começou por sonhar democracia e por ela lutou, essa mesma a que pertenceu também outro dos pais fundadores do nosso regime, Sá Carneiro.

Depois de dar tudo por tudo pelo modelo de regime, essa geração teve de encontrar uma alternativa ao sistema económico fechado e colonial que era anteriormente vigente. A descolonização foi e teve de ser apressada, não por culpa de Soares ou de alguém depois de 1974, mas por criminosa negação daqueles que antes nos governaram e que, por se recusaram a entender o seu tempo, agiram exclusivamente a seu modo.

Economicamente, o modelo de “capitães de indústria” em que assentava o tecido empresarial salazarista também já estava esgotado e não resistiria a uma competição fora dos mercados protegidos com que antes contavam. Que eu saiba, ainda ninguém se dedicou a fazer um sério estudo sobre a situação económica dos grandes conglomerados industriais e financeiros que se desmoronaram em 1974. Quando isso for feito, desconfio que vamos ter surpresas ainda maiores do que aquelas que tivemos recentemente, quando nos inteiramos do estado em que estavam as nossas maiores empresas, os nossos maiores bancos… com a diferença que estes últimos não tiveram a sorte duma revolução que pudessem culpar, que lhes lavasse a imagem, que os transformá-se em vítimas de suposta espoliação.

Para aqueles que em 1974 sonhavam com uma democracia de cariz ocidental, não restava outra via política e económica que não fosse a europeia, e foi essa hipótese que agarraram com unhas e dentes. Soares formalizou o pedido de adesão em 1977, Sá Carneiro continuou-o e, finalmente, seria um Soares novamente primeiro-ministro e já candidato a presidente quem assinou o tratado de adesão em 1986. Lembro-me bem desse momento; talvez o facto de ter decorrido naquele mesmo espaço dos Jerónimos, esse onde agora nos despedíamos, tenha sido a ironia que faltava para me provocar este sentimento de estar a assistir a um fim de ciclo.

Coube depois a Cavaco Silva operacionalizar a adesão, coisa que fez de forma medíocre, usando os recursos disponíveis para pequena política, esbanjando, aliando-se a uma elite cleptómana e devolvendo os grupos empresariais às mesmas famílias que os detinham antes de 1974. O custo da desastrosa situação que hoje vivemos, não é dos que nos sonharam europeus, mas dos que, depois disso, nos conduziram até aqui. Entre eles, o primeiro posto é ocupado por Cavaco Silva, mas está igualmente acompanhado por Guterres e por essa inenarrável cereja no topo do bolo que ainda se pensa político e se chama Sócrates. Passos Coelho, com a sua frontalidade, António Costa, com a sua malabarista bonomia, são tão vítimas destas duas décadas e meia como todos nós, e a única culpa que carregam é a de não serem suficientemente visionários e estadistas para conseguirem apresentar aos portugueses o sonho duma alternativa, coisa que os pais da nossa democracia, bem ou mal, conseguiram a seu tempo fazer.

Hoje, vemos os portugueses mais capacitados abandonarem o país, recusando-se com isso a meter nos cofres públicos o que foi desviado para bolsos privados, temos um tecido empresarial que, apesar das exceções, não consegue competir globalmente, existimos numa União Europeia em desmembramento acelerado, olhamos atónitos para os Estados Unidos transformados numa Roma de imperador incendiário…  Esta é a hora, tem de ser a hora, para repensar a geoestratégia nacional, para voltar a sonhar alternativas, para apontar e trilhar novos caminhos.

Todo este foi o meu sentimento quando assisti na televisão a esse fim dos tempos representado por aquele réquiem, por aqueles discursos, aquelas caras, aquele caixão justamente coberto pela bandeira nacional, aquela voz declamante de Maria Barroso. Talvez estejamos exaustos, não sei, talvez nos sobrem os falsos banqueiros, os políticos corruptos, os governantes que insistem trilhar chão que já não vive. Talvez. Mas credito, quero acreditar, que temos alternativas, que ainda contamos com os Soares e com os Sás Carneiro, que ainda temos cepa para concretizar. Afinal, a energia, toda a energia, é o sonho.




Luís Novais

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