sexta-feira, 17 de junho de 2016

SOBRE O “O MEL E AS VESPAS” DE FERNANDO ÉVORA

Este livro é um retrato sem dó nem piedade daquilo que nos tornamos, do como e porquê de aqui termos chegado.

Depois de nos brindar com “No País da Porcas Saras” e “Amor e Liberdade de Germana Pata Roxa”, em “O Mel e as Vespas” Fernando Évora oferece-nos a obra-prima que os outros dois livros anunciavam.

Trata-se aparente da história de duas famílias, os Valente e os Caça Lobos, mas o que está em confronto no desfilar de gerações é muito mais do que uma série de narrativas; é, mesmo, muito mais do que as aventuras e desventuras de Portugal desde o século XIX até aos nossos dias. Nestas páginas não é Portugal, mas todo um ocidente que se confronta: uma cultura de gradual perda de identidade, de descaraterização, de coisificação da pessoa.

Cheios de defeitos, capazes de matar, amantes e violentos. Padres que fazem filhos em mulheres casadas e homens que disparam quando se descobrem enganados. Arraiais de porrada e bebedeiras de meia-noite. Estes personagens vivem intensamente, são pessoas capazes de obras aparentemente inúteis, obras que constroem apenas porque sim, apenas porque são importantes para que o construtor seja. É o caso dessa aparentemente escusada torre de Cancino, contruída em tempos do Remexido por um Ovídio, o mesmo que “gastou neste projeto grande parte das suas poupanças”. E porquê? Ilusoriamente para avisar os habitantes da aldeia sempre que uma ameaça se aproximasse, mas onde se testemunha, isso sim, uma participação do indivíduo na comunidade, uma torre que, sendo materialmente inservível, perpetua o construtor como tendo sido naquele espaço e naquele tempo. E eis que, numa metáfora aparentemente tão simples, temos toda a carga conceptual do ser sobre o ter.

Nos nossos dias, Ovídio teria sido um louco, um esbanjador da acumulação familiar. Mas desde Ovídio até hoje há todo um devir de que os personagens desta obra são testemunhas e atores. Aliás, o próprio nome do “louco” construtor apela a um tempo remoto, mais remoto do que o século XIX em que terá vivido. O seu pai chamou-se Rómulo, tal como o fundador de Roma, e os seus filhos foram “Pompeu, nome do general que desafiou o poder de Júlio César", e Lucrécia a filha, "bela dama romana que pôs fim ao domínio etrusco na cidade do Tibre”. É como se Ovídio já nem do século XIX em que viveu desse fé, um século já marcado por um capitalismo sem regra e descaracterizador. Não será por acaso que os habitantes da aldeia olhavam a sua família “de soslaio, considerada gente meia louca, pelo menos desde a obra falhada” (a tal torre).

Todos estes Ovídios, Pompeus e seus descendentes, vão acompanhando a marcha do tempo. O primeiro a descrer do passado e a capitular foi seu neto Augusto, também ele de nome imperial, filho de Pompeu. Augusto deixa o ofício tradicional de dar caça aos lobos e compra umas terras sobre as quais “corriam lendas, afiançavam-se estranhas aparições e teimavam-se velhas superstições”. Mas este Augusto “era homem moderno”, “conhecedor de ciência”, “não estava para dar ouvidos a crendices”. Desafiando mentalidades e tradições decidiu dedicar-se à monocultura de papoilas opiáceas que pretendia exportar para Inglaterra.

O negócio não funcionou e nesta atitude de desafio mercantilista ao passado há uma espécie de “pecado original”, uma culpa que desencadeia todas as tragédias seguintes.

Quando leio este Mel e estas Vespas, lembro-me das palavras que Erich Fromm escreveu em 1968, em “A Revolução da Esperança”, o mesmo livro que tem um sugestivo subtítulo: “Rumo a uma tecnologia humanizada”. “A nova norma ética”, dizia Fromm, “é o progresso, entendido basicamente como progresso económico, aumento da produção, criação dum sistema de produção cada vez mais eficiente”. E adiante conclui: “O homem moderno tem tudo (…) mas nada é”.

Fromm escreveu estas palavras nos anos sessenta, tentando fazer uma prospetiva do rumo a que o capitalismo desenfreado já levava e mais levaria o Ocidente. Não se enganou, como já sabemos. Este mesmo rumo, desde comunidades que eram e agora aparentemente têm, consegue-se encontrar em “O Mel e as Vespas”. O enredo vai desfilando até que Fernando Évora chega ao nosso tempo e, neste tempo que é nosso, encontra o homem-nada, sem empatia, um ser transformado em coisa que já não consegue dialogar, sem identidade, sem força sequer para estabelecer relações. Mas há esperança, uma esperança que surge do encontro de si que o personagem narrador descobre na memória do que foi.

Esta é uma obra de cronologia variável. Começa num hoje inconsciente, viaja ao tempo do mel e regressa ao triunfo das vespas, outra vez hoje, mas com consciência. Ao escrevê-la, Fernando Évora afirma-se como um escritor que entende o drama da contemporaneidade, um escritor capaz de nos pôr o dedo na ferida, escarafunchá-la, fazer-nos sofrer pelo que temos e pelo que não somos. Este livro é um retrato sem dó nem piedade daquilo que nos tornamos, do como e porquê de aqui termos chegado.

A consciência sentida é talvez o único caminho para a reforma positiva. Ler “O Mel e as Vespas” é sentir e consciencializar. Por isso, esta obra é transformação e, sendo-o, é literatura em estado puro.


Luís Novais

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